Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

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«Tirar as impressões digitais» é erro de português?

1. «Fazer piscinas» sabe bem

Há uns dias, estive numa piscina com a minha mulher. Estava mais quieto do que o habitual, a tentar adaptar-me às lentes de contacto (depois do episódio que já contei por aqui).

A Zélia vira-se então para mim e diz: «Costumas gostar de fazer umas piscinas…»

Sorri e pus-me a nadar. Sim, é verdade: é bom fazer piscinas. Fico bem-disposto.

Enquanto nadava, comecei a pensar. A expressão «fazer piscinas» é curiosa. Naquele contexto, é uma forma familiar de dizer «nadar todo o comprimento duma piscina». Noutro contexto, quererá dizer «construir uma piscina». A nossa cabeça dificilmente se atrapalha: pega numa palavra e estica-a para apanhar uma série de significados e de nuances, usando para isso tudo o que encontra à volta.

O verbo «fazer» quer dizer tantas coisas! Desde «cortar» (em «fazer a barba») até ao tal «nadar» (em «fazer piscinas»). É um belo monstro semântico — e uso «monstro» no bom sentido. Isto é mau? Claro que não! Só alguns obcecados por uma língua simplificada e quadrada não gostam da maleabilidade do português — e de todas as outras línguas.

2. É favor não arrancar as pontas dos dedos!

Chegamos então ao verbo «tirar» é às impressões digitais… Já me aconteceu ouvir pessoas muito preocupadas com a expressão «tirar as impressões digitais». Na cabeça dessas pessoas, um funcionário que diga ao incauto cidadão «agora tenho de lhe tirar as impressões digitais» está a incorrer num gravíssimo erro de português. O certo seria sempre «colher (ou recolher) impressões digitais».

Porquê este medo arbitrário do verbo «tirar» com sentido de «recolher»? Não sei bem. Talvez porque a estas pessoas lhes faça impressão o facto de haver verbos que mudam de sentido conforme o contexto. Talvez porque inventem uma ambiguidade fantasma, imaginando um cenário em que tirar «impressões digitais» quisesse dizer «retirar as pontas dos dedos a alguém». Estará o tal funcionário do registo civil, quando diz ao cidadão «vou-lhe tirar as impressões digitais», a informar que o passo seguinte é cortar-lhe a pele das pontas dos dedos? Um filme de terror, não haja dúvida!

3. Tirar fotografias e outros medos

Um terror, na verdade, é esta visão da língua, que lá vai fazendo o seu caminho, estragando a relação dos portugueses com o português.

Enquanto os engenheiros informáticos andam, com esforço, a tentar elevar os computadores ao nível de inteligência dos nossos cérebros (e ainda estão tão longe…), estes «defensores da língua» (aspas bem sublinhadas!) parecem querer baixar a inteligência humana ao nível dum robot, que só percebe as palavras se estas tiverem um significado fixo, imutável e único.

Estes simplificadores compulsivos parecem ainda estar sempre a tremer de medo das ambiguidades absurdas. Como se eu, ao dizer a um amigo «vou-te tirar uma fotografia», arriscasse ver o meu amigo a fugir, pensando certamente que lhe quero roubar a fotografia que ele tem na carteira…

As palavras mudam de significado conforme a pessoa, a hora do dia, a época, o contexto… Sempre assim foi e sempre assim será — porque somos seres muito pouco mecânicos e usamos as palavras de forma orgânica, mudando-lhes o significado a cada uso e cosendo esse mesmo significado às outras palavras, aos nossos gestos, ao piscar dos nossos olhos. E fazemos isto a várias vozes, o que só não espanta quem estiver muito distraído…

Três prazeres da língua portuguesa

Há uns meses, escrevi este texto para o jornal da Escola Eça de Queirós, nos Olivais, a pedido do professor Fernando Pinto. Hoje, lembrei-me de vir aqui deixá-lo para que os leitores deste blogue também o possam ler.


Nunca fui aluno da Escola Eça de Queirós. Mas não deixa de ser uma das minhas escolas. Porquê? Explico já.

Primeiro, anda por lá o meu sobrinho mais velho, o Dinis. Depois, é bem provável que o meu filho Simão lá vá parar um dia. E, por fim, nunca me vou esquecer do dia em que conversei com os alunos da escola, interessadíssimos e bem atentos, ali à minha frente. Sim, nunca vou esquecer, porque, se é verdade que já tinha falado sobre os dois livros que escrevi em livrarias e bibliotecas, esta foi a primeira escola a que fui. E se há palavra que descreve o que senti, só pode ser esta: prazer!

Pois que melhor tema para escrever para o jornal desta escola do que os prazeres da língua? São muitos, eu sei. Por isso, tive de escolher três:

1. Conversar

Com as palavras, todos os dias fazemos alguém rir. Ou, pelo menos, serão raros os dias em que cada um de nós não se ri ou não faz rir nas conversas que temos. É um dos grandes prazeres: entre amigos, amores, família, a língua serve para viver. Conversamos, sussurramos, contamos histórias, interrompemo-nos, discutimos, fazemos as pazes, apimentamos tudo com os gestos das nossas mãos, a acompanhar a torrente de sons que sai da boca. E não é um prazer? Sim, é: embora seja um prazer que sentimos tantas vezes e em tantos sítios, que nem reparamos nele, tal como não reparamos no triste que seria uma vida sem conversas, sem riso, sem palavras.

2. Ler

Há poucos dias, encontrei um homem de ar curioso, sério e compenetrado, a ler no metro. Mal reparei no senhor, até ao momento em que percebo que está a ler um livro minúsculo. Tão pequeno que eu não conseguia, a dois metros de distância, perceber o título. Pois o certo é que tão diminuto objecto, com as palavras que lá estavam escritas, conseguiu fazer o homem franzir as sobrancelhas, suspirar fundo, chorar e rir às gargalhadas — tudo bem visível na sua cara e tudo no espaço de três estações. Nunca me vou esquecer dessa curta viagem em que vi, ao vivo, a força da literatura na cara dum homem no meio de gente distraída. Naquela carruagem, era ele quem vivia mais intensamente. É essa a força das palavras e um dos prazeres das línguas humanas.

3. Regressar à língua-mãe

Falar outras línguas é mais do que importante: é imprescindível nos dias que correm. Poucos são aqueles que vivem uma vida inteira sem balbuciar palavras em línguas estrangeiras — e ainda bem que é assim, digo-vos. No entanto, sinto um prazer especial quando ando umas horas ou uns dias a falar em inglês ou em espanhol e, depois, volto ao nosso querido português. É como chegar a casa depois duma viagem: a viagem sabe bem, mas o regresso… Ah, o regresso… Os sons, a entoações, as exactas palavras que vêm da nossa infância. A nossa língua materna é isso mesmo: materna — e nossa. É a nossa boa língua portuguesa.

O dia em que perdi os óculos no mar

Pois bem, há dois dias os meus óculos foram ter com os peixinhos.

O que se passou foi o seguinte. Fui passar um fim-de-semana no Algarve com a minha mulher para comemorar os 10 anos de casamento. Chegámos ao hotel e zarpámos de imediato para a praia.

Ora, a praia não fica perto do hotel. Tivemos de zarpar de carro. Chegámos à praia e percebemos que o único estacionamento era pago. Enfim, pensámos nós, vamos só ficar uma ou duas horas, não é caro.

Andámos, andámos, andámos. A praia ainda era longe — mas valia a pena. Cansados, chegámos e decidi logo ir ver como estava a água, como qualquer veraneante que se preze. As ondas pareciam simpáticas. Avancei um pouco mais. Fui sentindo a areia nos pés, o calor do ar, a água à minha volta e o cheiro bom do Verão. Na cara, os meus óculos — é raro não os deixar na toalha, mas só tinha vindo molhar os pés. Não estava a pensar mergulhar.

Não estava a pensar, mas mergulhei. A culpa não foi minha: apareceu uma onda bem maior do que eu estava à espera que rebentou mesmo em cima de mim. Virei-me um pouco para não levar com a água de chapa na cara, tropecei — e quando dei por mim estava sem óculos.

Procurei-os com os braços atarantados dentro da água turva da areia — o que é especialmente difícil quando, enfim, não se tem óculos na cara. A água estava agitada, muita areia, muitas ondas. Tentei encontrá-los com os pés, mas só encontrei pedras — e bem afiadas.

Comecei a ver a vida a andar para trás. Estava a 300 quilómetros de casa, com o carro num estacionamento pago — e sem óculos.

Não podia conduzir, não podia fazer nada.

Comecei a agitar os braços, a ver se a minha mulher me via. Não fazia ideia onde ela estava. A praia, para mim, era uma mancha amarela. Onde estavam pessoas, agora via umas quantas borradelas deitadas em pinceladas de várias cores. Estava preso num quadro abstracto. Um horror.

A Zélia apareceu então — e pediu ajuda a uns rapazes que ali estavam. Procurámos todos juntos, eu atarantado sem saber o que fazer nem para onde me virar.

Bem, quem safou o dia do nosso 10.º aniversário foi um casal de Fafe — Paulo e Dolores —, os pais dos tais rapazes, que abandonaram um dia de praia como há poucos e se ofereceram para tirar o carro do estacionamento para nos levar até à óptica mais próxima.

Pouco depois, percebemos que a óptica mais próxima não tinha maneira de me ajudar. Andámos mais uns quilómetros e lá consegui arranjar umas lentes de contacto de emergência, para me permitir andar sem bater nas paredes.

Tive de passar de novo pelo martírio de pôr as lentes. A certa altura tinha os funcionários da loja, a minha mulher e o casal que nos salvou a olhar para mim, numa roda atenta. Quando finalmente pus a lente direita, todos se alegraram como quem via a sua equipa a marcar golo. Pronto: só faltava a esquerda! Mais quinze minutos e podíamos ir embora.

Por fim, a chorar (experimentem passar quinze minutos a espetar o dedo no olho para ver se não choram), levantei-me, de novo a ver, e cumprimentei a sorrir os nossos salvadores — é que ainda não os tinha visto! Ainda conversámos muito nesse dia — que se perder os óculos é aborrecido, pelo menos serve para fazer novos amigos.

Estávamos aliviados. Não fosse o preço dos óculos a morder-me a consciência e quase que podia dizer que estava feliz com as minhas novas lentes de contacto.

(A crónica completa está no Sapo 24: http://24.sapo.pt/opiniao/artigos/perigos-dum-dia-de-verao)

As línguas gestuais têm sotaques?

Uma ideia errada sobre a linguagem humana que se ouve por aí é esta: as línguas gestuais não são mesmo línguas, mas antes uma linguagem incompleta, uma espécie de «português dito com as mãos» ou algo assim.

Na verdade, são línguas como as outras, tirando o facto óbvio de que usam os gestos das mãos em vez dos gestos da boca. Já falámos disto neste blogue — por exemplo neste artigo: «A língua gestual portuguesa é uma língua a sério?»

Sim, são línguas com gramática, sotaques, poesia, palavrões, tradutores, regras inconscientes que não vêm nos livros, mas estão nas mãos dos falantes… Tudo!

Neste pequeno vídeo, uma professora de linguística explica como a ASL (a língua gestual dos EUA) tem sotaques. E, claro, o mesmo se passa com a língua gestual portuguesa, a outra língua que a nossa constituição manda o Estado proteger.

Um filho numa palavra

Não é que não o tivesse visto antes. Já estive em pelo menos duas ecografias e vi aquela imagem vagamente perturbadora dum extraterrestre a navegar em águas escuras.

Ah, mas foi uma palavra, uma palavrinha apenas que me fez sentir com a força dum estalo que está ali um novo filho.

A Zélia ontem teve de fazer uns exames e quando entrou no gabinete deixou-me cá fora — algo a ver com as regras daquele piso do hospital ou outra coisa qualquer que não percebi.

Pois, minutos depois, sai de lá, sorridente. Estava tudo bem e tinha acabado de ver outra vez o bebé cujo nome não podemos dizer (porque não sabemos).

— E então, que disse a médica?

— Nada de especial. Disse que estava tudo bem e que ele hoje está muito irrequieto.

Ah, a culpa foi dessa palavrinha simples, que estou habituado a usar para descrever crianças já crescidas aos saltos num parque infantil — ou no meio da minha sala…

Foi essa palavrinha que me fez sentir, pela primeira vez, aquela criança ali bem real, a crescer, já diferente do irmão (que, na barriga, estava sempre quietinho).

E senti muitas outras coisas, mas isso agora não cabe num simples post do Facebook, não é verdade?

Porque é tão difícil comunicar à distância?

Hoje apetece-me começar uma nova secção neste blogue. O título será apenas e só «Comunicação». No fundo, é um dos grandes temas aqui da casa. Mesmo quando falo da língua — que é o grande tema destas paragens — há muitos casos em que estou a falar da nossa capacidade de comunicar (ou da falta dela, claro).

Ora, já todos sentimos como é difícil comunicar: no Facebook, por correio electrónico… Quantas vezes não sentimos dificuldade em nos fazermos entender, em evitar mal-entendidos, em fugir dos conflitos? Andamos sempre aos tropeções.

Na verdade, nós somos muito bons a comunicar uns com os outros: basta pensar nas vezes que conversamos entre gente amiga, em tudo o que dizemos só com as mãos, na forma como um simples sorriso ou entoação transmite emoções e informação que frases inteiras num livro não conseguem expressar nem à força de muito talento.

A grande dificuldade está na comunicação à distância, quando não estamos presentes, com o nosso corpo, a nossa cara, as nossas mãos, até mesmo o nosso cheiro humano.

Temos, para começar, a escrita. A escrita é um acrescento muito recente à nossa capacidade de comunicação. Ainda não passaram assim tantos milhares de anos desde que alguém inventou essa forma de registar o que dizemos na pedra, na madeira, em argila…

Antes disso tínhamos vivido milhares e milhares de anos a conversar em pequenos grupos tribais — e é nisso que somos bons: nas conversas de almofada, na conversa entre amigos, nos risos e piscadelas de olho, nas conversas entre caçadores atrás duma presa (ou seja, a tentar resolver problemas no momento).

Ora, na escrita não temos o corpo das outras pessoas; não temos a possibilidade de avaliar se quem nos ouve está a perceber ou não; falta-nos a nossa própria cara a pintar as palavras com a emoção certa. Torna-se tudo mais difícil.

Depois, mesmo quando usamos a nossa própria voz podemos ter dificuldades se o fizermos à distância. É mais difícil falar ao telefone do que ao vivo (na minha humilde opinião, é ainda mais difícil do que por escrito, pois continuamos a não estar presentes e ainda temos o problema de nos faltar a possibilidade de pensar e rever).

E comunicar nas redes sociais? Um sarilho, se virmos bem. E na rádio e televisão? Também não é fácil.

A vantagem de comunicar por escrito, por telefone ou por outro destes meios mais difíceis é esta: reduzimos a distância, aumentamos as nossas oportunidades de chegar aos outros, falamos mais vezes com amigos (e menos amigos), tornamo-nos parte de grupos maiores do que as tribos ancestrais.

As vantagens são muitas, mas os perigos também não são poucos. É disso que falarei nesta secção — o que não deixa de ser uma continuação do que tenho feito neste blogue nos últimos anos. (Ah, sim, há ainda aquele pormenor da identidade, o outro grande tema do blogue. Mas, talvez, esse tema não esteja assim tão distante destes assuntos.)

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Viagem ao Aquário: peixes camuflados e bactérias assassinas

Como é que os peixes aprendem a camuflar-se?

Sei que já temos o Oceanário, mas por vezes é bom voltar ao velhinho Aquário Vasco da Gama. Aqueles corredores de madeira e toscos ecrãs a tresandar a anos 70 lembram-me a infância e as viagens de estudo. E lá estivemos, com o meu filho e os meus sobrinhos, a olhar para peixes de todos os tipos e feitios.

A certa altura, maravilhámo-nos com a maneira como alguns peixes se camuflavam.

Aqui está um peixe armado em rocha (procurem bem, está ali no centro da imagem, no meio das duas pedras, na sombra, virado para o canto inferior direito):

E, depois, abrimos a boca perante uma raia armada em fundo do mar (diga-se que as fotos foram tiradas sem flash, para não incomodar ninguém):

É um espanto, não é? E perante isto, podemos perguntar: mas como é que estes peixes conseguem? Como é que se armam em espertos e se disfarçam? Será de propósito? Pensaram nisso? Alguém andou a afiná-los?

O mecanismo da evolução

Ora, pensar na camuflagem ajuda-nos a perceber o mecanismo da evolução por selecção natural. Não há nada consciente no mecanismo, mas o resultado parece planeado. É um truque magnífico da Natureza, embora a Natureza, diga-se, não pense nisto como um truque. Aliás, a Natureza pensa pouco: age muito mais.

A evolução por selecção natural ocorre em dois passos: todos os seres são ligeiramente diferentes uns dos outros, mesmo dentro de cada espécie. Estas diferenças vêm, por exemplo, das pequenas mutações genéticas, inevitáveis e muito úteis, que ocorrem no momento da reprodução.

Ora, alguns seres acabam — devido a estas mutações — por ficar mais bem preparados para enfrentar o mundo em redor e, assim, reproduzem-se mais e espalham a tal mutação por cada vez mais descendentes.

É um processo natural e lógico. Se, por via duma mutação, uma raia começar a parecer-se mais com o fundo do mar onde vive, vai conseguir fugir um pouco melhor aos predadores — e, assim, sobrevive mais tempo, reproduz-se mais, passa esse gene melhorado aos descendentes, que também conseguem reproduzir-se melhor, num efeito multiplicador que é a grande razão por que a vida tende a invadir todos os recantos da terra.

Mais tarde, se nova mutação levar a que uma das descendentes da tal raia ainda se pareça mais com o fundo do mar — melhor! Por outro lado, se a mutação for em sentido contrário, será mais provável que a pobre raia com o seu gene alterado acabe no estômago do predador em vez de passar a mutação à próxima geração.

Isto tem mais a ver connosco do que muitos gostam de admitir: todo o nosso corpo foi criado assim, devagar, ao longo de milhões e milhões de anos. Aliás, muitas das nossas tendências psicológicas saíram deste processo de escultura genética. Sim, eu sei, temos a cultura, o acaso, as opções individuais — mas tudo isto acontece em cima desse material humano criado ao longo de milhões e milhões de anos de evolução.

Algumas pessoas ficam incomodadas com esta descoberta. Por algum motivo, gostavam que o ser humano tivesse sido criado de uma só vez. Noutros casos, o incómodo está nessa ideia de que existe uma natureza humana, de que temos tendências inscritas em nós — ora, isso é o que acontece com todos os animais, por que razão havíamos de ser diferentes nesse facto tão básico de todos os seres vivos do nosso planeta?

Aliás, estou em crer que aquilo que nos une na nossa humanidade comum é precisamente aquilo que também nos une aos outros seres deste planeta. Todos nascemos, temos necessidades e emoções — e depois nós, seres sociais e muito inteligentes, também temos ideias, amores, desejos formulados em língua de gente. E, sim, conseguimos juntar a isto a consciência de aqui estarmos, a necessidade de criar qualquer coisa para lá do dia-a-dia, a curiosidade de saber um pouco mais sobre o que nos rodeia, o que nos empurra para a arte, a filosofia, a ciência…

Muitos de nós também temos esta mania de tentar melhorar, o que nem sempre dá bons resultados, mas é um bom instinto. Há ainda quem fique impaciente: perante a nossa terrível imperfeição, desespera, como se tivéssemos caído do paraíso imaginado. E, no entanto, nunca fomos anjos, mas antes animais conscientes e que desejam, em certos momentos, ser mais do que isso. O problema é que somos também inteligentes, muito inteligentes — o que é óptimo, mas aliado ao nosso tribalismo ancestral, tem resultados terríveis.

Desse processo que deu origem à nossa querida espécie, há muito que não sabemos. Mas sabemos pelo menos isto: somos herdeiros dessa carga antiga, modelada durante tanto tempo por esse mecanismo que explica a camuflagem dos peixes.

O perigo das bactérias mutantes

Gosto de saber estas coisas porque sou curioso (não somos todos?). Mas também vale a pena saber isto por outras razões. Afinal, esconder a natureza humana pode dar mau resultado — e não perceber a evolução até faz mal à saúde.

As bactérias, por exemplo — o nosso uso dos antibióticos por tudo e por nada é muito perigoso. Porquê? Porque as bactérias mudam de geração como nós mudamos de cuecas. Aliás, a coisa até é mais rápida: se tomarmos em consideração um humano que mude de cuecas com menos frequência do que o razoável, antes que tal senhor experimente boxers novos, já as bactérias conheceram as suas trisnetas.

Ora, neste cenário, ao usarmos os antibióticos de forma descuidada, estamos a dar oportunidades aos bichos para, através das tais mutações que ocorrem sempre (e de forma aleatória), acertarem numa qualquer alteração genética que torne a bactéria imune àquele antibiótico. Ora, a partir dessa avozinha rija, temos filhas, netas, trisnetas, milhões de descendentes aos saltinhos… Todas imunes! Lá ficamos com uma estirpe que não morre com aquele medicamento em particular. Pum: quem morre somos nós quando a netinha da senhora bactéria entra no corpo de um ser humano.

Reparem que isto acontece por causa de mutações aleatórias: mas quantos mais antibióticos desnecessários tomarmos, mais probabilidade temos de levar com a tal neta maluca da senhora bactéria. E, de facto, infelizmente, as bactérias super-resistentes têm aparecido por esse mundo fora. A sorte que tivemos com a invenção dos antibióticos (os milhões de vidas que foram salvas!) pode estar a ser desperdiçada, agora, por não nos sabermos controlar.

O que fazer? Bem: não tomar antibióticos a não ser quando for necessário. Os médicos sabem disto. Nós também. Mas, mesmo assim, é tão comum tomá-los por dá cá aquela palha. Enfim, a culpa é da natureza humana, que saiu do forno implacável da evolução por selecção natural, que não sabia o que eram antibióticos nem quais as características certas para viver em sociedades complexas no início do século XXI. Mas podíamos ser um pouco mais espertos e contrariar a nossa preguiça tão humana…

Bem, estamos muito longe do Aquário Vasco da Gama. Esta viagem foi mais longa do que o previsto. Mas não faz mal. Gosto de viajar sem plano.

Como é que o Uri Geller põe os relógios a funcionar?

Não vi o programa, mas parece que o Uri Geller andou a arranjar relógios na RTP, no programa do Luís de Matos, para espanto de muitos espectadores — algumas pessoas contam nas redes sociais como viram com os seus próprios olhos um relógio avariado (que tinham lá para casa) a começar a dar horas.

Como é possível? Não vou ser eu a revelar o segredo. Mas não sonhe o leitor com explicações sobrenaturais. É tudo uma questão de… matemática!

Uma pista: não é impossível, mas é muito improvável que eu morra de acidente de carro durante o dia de hoje. Por outro lado, é muito, mas mesmo muito provável que algum português morra hoje de acidente de carro durante o dia de hoje. É uma infelicidade, claro: mas é provável.

Da mesma forma, é muitíssimo improvável que o meu caro leitor ganhe o Euromilhões. Mas já será bem provável que alguém ganhe o prémio.

Ainda não percebeu a ligação entre estes factos banais e os relógios de Uri Geller? Pois poderá encontrar a explicação escarrapachada neste livro, que li há uns meses: How Not To Be Wrong, de Jordan Ellenberg. A tradução portuguesa é da Marcador: Como Não Errar. É um livro sobre matemática, mas pensado para ser lido com prazer e proveito por todos nós, por menos matemáticos que sejam os nossos espíritos. É um livro útil e a leitura é um prazer.

No livro, o autor fala mesmo de Uri Geller e dos relógios. O mistério desvanece-se, mas o encanto nem por isso. Ficamos espantados com o mundo e com os números que nos rodeiam.

(Ah, e fica o aviso: o livro também mostra como o mesmo mecanismo por trás da ilusão de Uri Geller também pode servir de base para fraudes muito bem pensadas. É uma leitura aconselhada a todos os curiosos — e a todos aqueles que não gostam de ser enganados.)

Somos todos descendentes de Afonso Henriques?

Já tinha recomendado o livro de Ellenberg num artigo do Sapo 24: «Somos todos descendentes de Afonso Henriques» — até isso a matemática nos ensina (se o leitor ler até ao fim, encontrará mais uma recomendação de leitura matemática, desta vez dum livro português):

«Em Inglaterra, está agora na moda encontrar ascendentes históricos de gente famosa — e as pessoas assim premiadas com um avoengo espampanante ficam muito orgulhosas. Ah, afinal são gente não só famosa, mas também de pergaminhos antigos.

Ainda em 2015, alguém descobriu que Benedict Cumberbatch era descendente de Ricardo III, o rei que o actor iria representar numa série de televisão. Não sei o que Cumberbatch pensou do caso, mas muita gente ficou pasmada com a coincidência.

Só que não era coincidência: na verdade, o mais provável é eu próprio, aqui neste canto da Europa, ser também descendente de Ricardo III. Eu — e o meu caro leitor. Somos todos!

E também somos todos descendentes de Afonso Henriques (sim!). E de Maomé (ah, pois é!). E só não seremos descendentes de Jesus porque dizem que não teve descendentes.

Como é isto possível? Bem, pensemos ao contrário: tenho dois pais, quatro avós, oito bisavós… Se continuarmos por mais umas quantas gerações em direcção ao passado, chegaremos rapidamente a números impossíveis — o que significa que somos todos primos uns dos outros, de forma bem mais imbricada do que imaginam os defensores de certas ideias de pureza dinástica.

As contas são um pouco mais difíceis do que possa parecer, ao lermos o parágrafo anterior. O leitor pode ver a explicação mais desenvolvida neste pequeno artigo — mas se quer que lhe diga, bem mais interessante será ler o pequeno livro chamado O Mistério do Bilhete de Identidade, de Jorge Buescu. Perceberá que é descendente até dos faraós — e aproveita para ficar a conhecer um livro muito simpático.»

O dia em que roubei um livro na minha própria livraria

Uma livraria arejada e moderna é uma coisa linda de se ver — e então uma livraria assim, luminosa, naquela rua a cheirar a café e a gente bonita, era o meu sonho de há tantos anos que não resisti a comprar aquela promessa de felicidade com uns dinheiros que recebera duma tia sem nome.

E foi uma promessa cumprida. Durante uns dias, remodelei aquilo tudo com a ajuda da Sónia, que no dia em que ali entrei como dono me deu o primeiro beijo da nossa vida. Foi ela que escolheu o sofá onde os clientes se recostavam por baixo da estante dos livros ingleses, a ler contentes no cheiro bom da melhor livraria de Lisboa — sem desconfiar do que ali se passava, naquele mesmo sofá, quando as portas se fechavam e nos atirávamos para outra felicidade difícil de encontrar nas páginas dum livro.

Ela gostava dessa sensação de estar a namorar com o dono duma livraria, de poder ficar lá dentro depois da hora de fecho, as luzes ligadas à nossa maneira, sentados no sofá a ler, saciados entre livros caídos. À noite, aquele paraíso era só nosso.

Depois de jantar, ela ia para casa e eu ficava por lá, a tratar das encomendas e das facturas, com as preocupações habituais de quem compra e vende e tem contas para pagar, mas com o sorriso nos olhos de quem tinha o sofá e, na pele, o sabor da boca duma mulher bonita.

Um dia, chegou a primeira carta do banco. Escondi tudo da Sónia, que por mais umas semanas continuou a peregrinar ao nosso santuário, onde nos beijávamos por baixo dos livros ingleses. E depois veio a segunda carta, os telefonemas, o cartão Multibanco rejeitado nas lojas, as estantes que começaram a ficar vazias, os clientes a rarear, o gerente do banco a tratar-me por você depois de meses de tu-cá-tu-lá.

Procurei nos livros que lá tinha, mas não encontrei em nenhuma página essa sensação ácida e pesada, como o sabor da boca ao acordar de ressaca, essa sensação de fraqueza, de desistência, de estar sentado no sofá entre facturas vencidas e extractos negativos — não há livro que descreva como é ter medo do correio, como é estremecer à vista do símbolo das finanças, não há livro que contenha o peso das cartas que trazem lá dentro vozes de funcionários carrancudos com ameaças de processos, multas e pregos nas costas. E, sim, não há livro que mostre como é passar noites a sonhar com números azedos no ecrã do Multibanco e como, de manhã, acordamos de novo para ir trabalhar e, no fim do mês, recebemos como ordenado mais uns quantos euros negativos estampados nos papéis do banco.

A Sónia descobriu, claro, e prometeu ficar e ajudar-me, mas nunca mais nos sentámos no sofá — e, semanas depois, entrava descontraída pela porta, sem se lembrar de mim nem de tudo o que ali fizera. A livraria já pertencia a outro.

Esperei, à esquina. Deixei-a sair, pouco depois. Sem vergonha, entrei eu mesmo na livraria, que estava igual, mas com outro nome e, por trás da registadora, outro homem ainda entusiasmado. Olhei-o como se o tivesse encontrado na cama com a Sónia e ele sorriu apenas e perguntou-me se estava à procura de algum livro em particular. Eu parto-te os dentes, pensei eu, e respondi que não, estava só a ver.

Sentei-me no sofá, passando a mão nos vincos que só eu sabia como eram indecentes.

Olhei para o rapaz, distraído a olhar para a registadora. Peguei num livro de mansinho — e levei-o comigo.

Sim: roubei um livro à minha própria livraria. Eu, que sempre odiei os gajos de óculos que não dizem palavrões, mas roubam livros, como se rebentar com as contas dum honesto dono de livraria fosse obrigação moral do bom intelectual; eu, que sempre fui atrás deles e lhes tirei o livro da mão e enfrentei o desprezo dos olhos daqueles que achavam indecente e próprio de brutos a minha vontade de não ser roubado — pois eu roubei um livro e senti uma felicidade absurda, como se aquilo resolvesse tudo, como se a livraria fosse minha outra vez, como se mais logo, ao fim da tarde, lá estivesse eu atrás do balcão, à espera da hora de fechar, a olhar para a Sónia e a sorrir, enquanto ela mordia o lábio e fingia folhear um livro, a desejar que o último cliente nos desamparasse a loja e por fim pudéssemos saltar para cima do sofá, sob o olhar discreto das estantes.

Um carro apitou, olhei em volta e percebi que estava sozinho com um livro na mão.

Se temos dois olhos, porque não vemos tudo a dobrar?

Estava eu sossegado à beira da piscina, quando oiço um miúdo a fazer uma pergunta aos pais. Os pais encolheram os ombros, riram-se, apontaram para a piscina, como que a dizer «não queres ir dar um mergulho?» O miúdo não desarmou. Queria saber por que razão, se temos dois olhos, não vemos tudo a dobrar. E ali ficou a insistir, a insistir, até que o pai se riu, deu-lhe uma festa no cabelo e disse «vá, pára lá com as perguntas inconvenientes». O miúdo riu-se, orgulhoso e feliz. Tinha conseguido encontrar uma pergunta a que os pais não sabiam responder. Lá deixou o assunto de parte e deu um mergulho, para alívio dos progenitores.

Ali a olhar para a água a fingir-me desatento, apetecia-me pôr o dedo no ar e dizer «eu sei, eu sei!». Mas, não, não me armei em Hermione. Deixei o miúdo feliz por ter conseguido atrapalhar os pais.

É que, na verdade, nós vemos a dobrar! Basta entortar um pouco os olhos para perceber isso mesmo. O que se passa é que o nosso cérebro pega nas duas imagens separadas que recebe dos dois olhos e cria uma só imagem a três dimensões. Basta pensarmos que, no cinema a 3D, o truque daqueles óculos é levar a que cada olho receba uma imagem ligeiramente diferente, para que depois o cérebro reconstitua a imagem a 3D.

Se fecharmos um dos olhos, a imagem passa a duas dimensões… Não vale a pena fazer isso agora, porque o cérebro consegue reconstruir as três dimensões em cenários que já conhece. Mas se alguém puser uma venda na cabeça do meu caro leitor e o largar numa cidade desconhecida e se, quando por fim alguém lhe tirar a venda, abrir só um dos olhos — aí sim, terá à sua frente o mundo a duas dimensões.

Mas, vá por mim, não faça isso.

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