Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Page 2 of 59

Viajar no tempo em Lisboa

No sábado passado, fui com o meu filho, os meus sobrinhos e as suas mães até à Cordoaria Nacional. Para quê? Para ver dinossauros, que é vício tradicional das crianças depois dum filme de Spielberg cujo nome não me apetece recordar.

Ora, terminada a visita à exposição, saímos para a rua nessa quente tarde de Outono em que os gelados se misturavam com as castanhas. Demos a volta à Cordoaria, em direcção ao carro, a deliciar-nos com a paisagem lisboeta.

Nesses poucos minutos de passeio a pé pela Rua da Junqueira, acabei a viajar no tempo e, pouco depois, já no carro, ali para os lados dos Jerónimos, dei um salto imaginário até Barcelona — para logo voltar até Lisboa e pensar na grande surpresa que se esconde nos Jerónimos.

Eu conto tudo…

Cavaleiros medievais numa rua de Lisboa

Enquanto caminhávamos pela Rua da Junqueira, notei uma bandeira vermelha enrolada no mastro e uma indicação de embaixada por baixo.

Não consegui reconhecer o país assim à primeira (a bandeira estava enrolada) e atravessei a rua para ver que embaixada seria aquela.

Era a Embaixada da Ordem Soberana e Militar de Malta.

Não, não era a Embaixada de Malta. Esse país lá terá algum casebre escondido num recanto de Lisboa a servir de legação. A Ordem Soberana e Militar de Malta é uma organização católica cujo nome completo é Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta — e que também pode ser chamada de Ordem dos Cavaleiros Hospitalários. Por incrível que possa parecer (e parece!), esta organização é um resquício das Cruzadas.

É a única organização sem território cuja soberania é reconhecida por vários países — o que significa que emite passaportes e tem embaixadas. A Igreja Católica em si também tem embaixadas (as embaixadas da Santa Sé), mas o caso não será tão estranho como o desta Ordem Militar, pois a Santa Sé é soberana no pequeno território do Vaticano.

Aqui temos uma espécie de relíquia dum passado de cavaleiros andantes e de cruzadas… Em conjunto com os países minúsculos da Europa (San Marino, Mónaco, etc.), são recordações dum tempo em que a Europa era um mosaico de condados, ducados, principados, reinos e impérios cujas fronteiras se sobrepunham e se misturavam sem grande respeito pelos criadores de mapas. Estávamos longe do mosaico aparentemente sólido de Estados-Nação a fingirem-se muito estáveis e antigos.

Um palácio em ruínas

Bem, uns metros depois, aparece-me uma nova visão do passado: um palácio em ruínas. É o Palácio das Águias, cuja história pode ser encontrada nesta página da Câmara. Mas, vá, antes de sair daqui em direcção a essa página, continue a ler, que isto ainda mal começou…

Só trouxe à baila este palácio porque nos lembra deste facto: a cidade vai-se transformando, renovando — e pelo caminho ficam alguns espaços, como relíquias, que nos põem a imaginação a dar piruetas: uma embaixada de cavaleiros medievais mesmo ao lado dum velho palácio em ruínas. E nem sequer vou falar do Chafariz da Junqueira (que não tenho tempo). Diga-se ainda (como veremos) que estas ruínas são bem menos enganadoras que os monumentos renovados e bonitinhos. Não que prefira tê-los em ruínas… Não é isso. O problema é outro: o passado… O passado é demasiado sedutor para o nosso próprio bem!

A glória nos Jerónimos

Foi neste estado de espírito que peguei no carro e avancei pela Rua da Junqueira até chegar perto dos Jerónimos.

Ah, os Jerónimos… Um exemplo perfeito da glória do passado ali preservada sem mácula! O exemplo acabado do estilo manuelino! O passado ali presente com a sua solidez de séculos!

O problema é que os Jerónimos que vemos ali já não são o monumento do século XVI. Entre acrescentos, reconstruções, obras variadas, acabámos com um monumento muito diferente do original.

Embora este aspecto enganador dos monumentos já não fosse uma novidade, foi um livro recomendado por Fernando Venâncio no Facebook (ainda dizem que a dita rede não serve para nada) que me mostrou até que ponto a História, mais do que reinventada, foi inventada há muito pouco tempo: La invención del passado, de Miguel Anxo Murado.

O livro vai muito para lá dos monumentos — mostra como muitas batalhas, acontecimentos e outras narrativas em que se baseiam as Histórias nacionais que temos na cabeça são dúbias ou, mesmo, improváveis. Isto, diga-se, vale para todos os países e para todos os nacionalismos.

Bem, já voltamos aos Jerónimos. Antes, para mostrar onde quero chegar, uso um dos muitos exemplos de Murado: os monumentos de Barcelona.

Barcelona antiga e moderna?

Em Barcelona, temos dois grandes monumentos religiosos: a Catedral de Barcelona, um monumento gótico e medieval, e a moderníssima (e modernista) Basílica da Sagrada Família.

Aqui está a catedral:

Esta catedral começou a ser construída em 1298. Se olharmos com atenção, começamos a imaginar os artífices medievais a criar o fino rendilhado gótico da fachada…

Já no meio do Eixample, temos aquela louca basílica que algumas pessoas o exemplo acabado duma modernice amalucada. É, certamente, um edifício de espantar, igual a nenhum outro. Falo da famosíssima basílica de Gaudí, que parece feita com os dedos ou então nascida do solo como uma planta de pedra e onde o difícil é encontrar uma linha recta:

A catedral representa, na nossa cabeça, a Idade Média — a outra é já uma invenção dos séculos mais recentes…

Só que (sente-se, por favor) a fachada da Catedral de Barcelona tem mais ou menos a mesma idade que as primeiras obras da Sagrada Família e o zimbório (a torre central) é de 1913. Aqui está a fachada da Catedral em 1880:

Por volta do ano em que o zimbório foi inaugurado, a Sagrada Família já existia:

Já o zimbório da Sagrada Família está à distância de décadas — mas no futuro. Será este, dizem, o aspecto final. No entanto, se o passado é difícil de conhecer, o que diríamos do futuro?

Fonte: sagradafamilia.cat

Voltemos à catedral gótica. A fachada foi construída por ocasião da Exposição Universal de 1888 por iniciativa duma família rica de Barcelona — um pouco como se os Champalimaud tivessem pago a reconstrução da Sé de Lisboa com uma fachada gótica por ocasião da Expo ’98 e, a partir daí, todos acreditássemos que aquilo era um bom exemplo do gótico medieval. (Em abono da verdade, devo avisar que a fachada da Catedral de Barcelona inspirou-se nos planos iniciais. Uma fachada gótica na Sé de Lisboa seria só um disparate.)

Sim, em grande medida, os nossos monumentos antigos são invenções mais recentes do que pensamos. Atenção: nada disto é segredo! Está em qualquer descrição histórica dos próprios monumentos — mas a história simplificada que temos na cabeça não regista essas notas de rodapé e convencemo-nos sem pensar duas vezes que, ao olhar para a Catedral de Barcelona, estamos a olhar para a Idade Média…

E o Castelo de São Jorge?

Sim, o Castelo de São Jorge tal como o conhecemos não é tão antigo como pensamos. Aqui está o aspecto da colina em 1877:

Olhem com atenção… Onde está o castelo? Está ali uma muralha, é verdade, mas nada parecido com isto:

A perspectiva também não será a mesma, mas dá para perceber que o Castelo monumental que temos agora não existia em 1877. De facto, como podemos ler em qualquer história do Castelo (basta ir à página do próprio monumento), aquilo que existe hoje é uma reconstrução feita durante as obras de 1938-40.

A página do Castelo diz-nos que há uma recuperação da antiga imponência: «Com as grandes obras de restauro de 1938-40, redescobre-se o castelo e os vestígios do antigo paço real. No meio das demolições então levadas a cabo, as antigas construções são resgatadas. O castelo readquire a sua imponência de outrora e é devolvido ao usufruto dos cidadãos.»

O problema é que era muito difícil saber o aspecto original — e, quando não sabemos, temos de inventar. É natural e acontece com quase todos os monumentos recuperados por essa Europa fora.

Podíamos estar horas neste exercício… As ameias, por exemplo, tão certinhas, que encimam tantos castelos nacionais são, muitas vezes, acrescentos modernos.

E os Jerónimos?

Voltemos aos Jerónimos. Aqui está uma foto do século XIX:

E hoje? Reparem no aparecimento da torre, que está bem longe de ser do século XVI…

Há ainda esta fotografia oitocentista que assusta qualquer pessoa…

A praça que rodeia o mosteiro (a Praça do Império) foi criada para a Exposição do Mundo Português, nos anos 40:

Quando o Centro Cultural de Belém apareceu ali como um lego cor-de-rosa, na verdade, era apenas mais um passo na contínua reformulação do espaço, que nunca terminou — e, certamente, daqui a 50 anos o aspecto já será outro.


Reparem bem: o Castelo de São Jorge que nós vemos é mais recente do que certas partes da Sagrada Família de Barcelona. É, aliás, mais recente do que a Avenida da Liberdade…

Isto não é novidade: no entanto, na nossa cabeça, temos um passado idealizado, onde estes monumentos já existiam tal e qual os vemos hoje. Isto é apenas um aspecto desta idealização do passado. A História foi recriada nos últimos dois séculos — tanto nas pedras das cidades, como na nossa cabeça. Em grande medida, as várias histórias nacionais são simplificações criadas durante os últimos 200 anos e espalhadas pelas populações através das escolas, da televisão, dos livros de divulgação.

Não se pense que antes era melhor: a grandíssima maioria da população não ligava nada à História e pouco sabia dos relatos nacionais. Se encontrássemos um qualquer português do século XVII, por exemplo, ficaríamos admirados com tudo o que ele não saberia sobre a nossa História — primeiro, porque a aprendizagem da História não era vista como importante para a população em geral; segundo, porque a forma como contamos a História é bem mais recente do que pensamos.

A História é muito importante — e, mais do que importante, é muito interessante. Mas se julgarmos que vemos o Passado e a Verdade — assim, em maiúscula —quando repetimos as histórias que nos contaram e vemos os monumentos das nossas cidades, estamos a enganar-nos a nós próprios. Aconselho, mais uma vez, a leitura do livro La invención del pasado. É um livro que cura certas obsessões nacionalistas que existem em todos os países — Portugal está longe de ser excepção.

E tudo para quê? Para termos uma relação mais realista da nossa capacidade de conhecer o passado…

Não fiquemos tristes: os historiadores descobrem muita coisa interessante e há tanto por saber escondido em artigos e livros de História — dá algum trabalho, mas vale a pena. Depois, para viajar até ao passado, há a imaginação: temos cavaleiros em ruas de Lisboa, palácios em ruínas, livros para ler e muita coisa para aprender e imaginar. Dificilmente não cairemos em anacronismos, mas temos de viver com essa nossa incapacidade de conhecer o passado como se fosse o presente. O passado é mesmo um país estrangeiro — e as fronteiras estão fechadas…

No fundo, a única forma de olhar para o passado sem errar é virar os olhos para as estrelas: a luz demora a cá chegar e, por isso, quando à noite olhamos para o céu, estamos a ver estrelas tal como existiam quando, aqui na Terra, ainda existiam os dinossauros que o meu filho e os meus sobrinhos viram em forma de bonecos lá para os lados da Cordoaria — dinossauros esses que, pelo que se tem descoberto nos últimos anos, afinal tinham penas (nem esse passado nos deixam sossegado).

Três armadilhas do Facebook

Sim, o Facebook é perigoso. E não há dia em que não tropecemos numa das suas armadilhas.

1. O Facebook atira-nos açúcar para os olhos

O que quero dizer com esta frase? Isto: no Facebook, estamos expostos a notícias (verdadeiras, falsas, assim-assim) — e algumas notícias falsas são irresistíveis… Ainda esta semana ouvi, ao meu lado — sim, às vezes oiço conversas de quem se senta ao meu lado ao almoço — um casal muito sério, muito ponderado, a discutir afincadamente a notícia de que Trump quer ficar com a Ilha Terceira por usucapião. Onde tinham lido a notícia? No Facebook, claro.

Não me interpretem mal: já devo ter acreditado em notícias tão ou mais parvas. Mas a minha boca abriu-se, o garfo caiu e olhei arregalado para o casal, que me ignorou por estar embrenhado em bizantinas discussões sobre essa agressão de Trump ao nosso país.

Como era possível acreditarem em tal disparate?

Parece que engolimos tudo o que tenha a ver com a nossa tribo e meta figuras que, por uma razão ou outra, desprezamos. Quando alguém encontra uma notícia sobre Portugal e que meta algum suposto inimigo, é ver o espírito crítico a ir pelo ralo.

E acontece o mesmo com os clubes, com os partidos… As notícias são lidas pelo lado da tribo e da necessidade de atacar os inimigos — e é difícil escapar disto. As redes sociais não criam estas tribos, mas atiram-nos açúcar em forma de notícias apetitosas, que alimentam esse mesmo tribalismo. Há por lá açúcar com as cores de todas as tribos e notícias à medida de todas as obsessões.

2. Levamos tudo a mal (e não gostamos das ideias dos outros)

As notícias absurdas do tipo «Trump vem aí conquistar-nos as ilhas» também se espalham porque é difícil dizer «olha, isto é falso» sem parecer que nos estamos a armar em espertos. No dia-a-dia, em privado, gozamos uns com os outros, brincamos com os nossos erros, rapidamente percebemos quando pisamos o risco. No Facebook, estamos a apontar o erro em público e não podemos sorrir, encolher os ombros, dizer «deixa para lá»…

Mais: nessa rede social cujo nome não vou repetir, não temos maneira de acabar a discussão com um aperto de mão, um sorriso ou uma outra conversa sobre assuntos menos complicados. Enredamo-nos em comentários atrás de comentários, como se fosse um jogo. E, claro, ninguém quer perder.

Parece que vivemos e discutimos com holofotes apontados à cabeça. Sentimo-nos num palco, com todos os amigos a ouvir, na plateia, enquanto gritamos com o nosso oponente de ocasião (embora, na maior parte das vezes, não esteja ninguém a ver).

Tudo isto é a receita para discussões intermináveis, em que ninguém dá o dedo mindinho a torcer.

Depois, claro, todos nós carregamos as nossas ideias e inclinações particulares enquanto andamos na rua — e poucas vezes as atiramos à cara dos outros. Já no Facebook (lá tive de repetir o nome), as ideias dos outros estão ali e temos de viver com este facto: às vezes, não concordamos com aquilo que os nossos bons amigos dizem. Mais: há pessoas com ideias muito diferentes das nossas. E ainda mais: há quem acredite em ideias absurdas. (Há dias em que somos nós.)

E temos o problema das certezas indignadas: quando acontece qualquer coisa que nos deixa com o coração aos saltos, como os incêndios da semana passada, apanhamos com todas as certezas do mundo e com aquela indignação tão comum «mas porque é que ninguém faz o que eu digo»?

Cansa. A sério que cansa. E todos nos cansamos uns aos outros.

3. Desistimos ainda de chegarmos ao que é bom

É precisamente por ser cansativo que muitos acabam por cair numa outra armadilha: desistir. Quantos não andam por aí que julgam ser o Facebook e tudo o que o rodeia um mundo infecto, que não vale a pena visitar?

Mas, na verdade, com um pouco de esforço, a tal rede (tal como muitas outras destas invenções que alguns desprezam e quase todos usam) dá-nos muita coisa boa.

Quando os excitados já passaram ao próximo assunto, quando os memes e as imagens e as frases compungidas já desapareceram sob o peso do novo caso do dia, é então que aparecem discussões interessantes, comentários um pouco mais bem pensados, gente que até explica as coisas, ensina, aprende, discute. Esperar por esses momentos é mais cansativo do que andar sempre na crista da onda. Essas conversas estão menos visíveis, são menos tribais, dão origem — em certos dias — a esse crime imperdoável que é haver gente que muda de opinião (mesmo que ligeiramente) perante bons argumentos e novos factos. Sim, isto existe. Só temos de estar atentos.

Nessas conversas escondidas, li e aprendi alguma coisa sobre a floresta portuguesa nesta semana terrível. Não chega para ter uma opinião que valha a pena divulgar, mas deu para ler artigos e ouvir falar de livros sobre o assunto. Chegou para desbravar algum caminho — e para ter menos certezas e menos ideias simplistas.

Então se daí partirmos para boas conversas, para leituras mais profundas e, depois, para a acção — talvez esse mundo difícil e armadilhado das redes sociais até valha a pena. E, depois, já há quem tenha aprendido as regras de etiqueta para dizer «não, o Trump não quer a Terceira». Já não é tão difícil resistir à tentação de comentar tudo. Já não é tão surpreendente ver as ideias diferentes dos outros… Devagar, aprendemos a viver com mais esta maneira de conversar, de viver, de estarmos com os outros, mesmo à distância. Embora, claro, nada substitua uma boa conversa mesmo ali em frente ao nosso amigo — e no fim um abraço.

(Publicado no Sapo 24 no dia 25 de Junho de 2017.)

Três truques da língua portuguesa

Já escrevi sobre a maneira como as imagens nos enganam. E as palavras? As palavras, às vezes, enganam muito mais. Aqui ficam três truques para chamar a atenção dos outros usando a nossa língua — para o bem e para o mal.

1. Fazer listas de mão no ar

Vamos começar pelo mais simples: há pequenos truques de escrita e certas inclinações quase invisíveis que nos ajudam a chamar a atenção quando discursamos ou escrevemos.

Por exemplo, fazer uma lista (como este texto) ajuda a chegar aos leitores. Por essa razão, é tão habitual vermos listas nas partilhas do Facebook…

O truque não é recente. Basta pensar num político qualquer, de voz retumbante, que põe os dedos no ar e começa a enumerar todas as razões por que temos de ter mão nisto! Os olhos ficam suspensos nos dedos do orador e os ouvidos querem saber qual é a próxima razão — ou, no caso deste texto, em que temos apenas um cronista a falar da língua, o que queremos saber é qual será o próximo truque…

2. Usar palavras sedutoras

Em certas situações, usar palavras pouco claras ou vagas pode ser a melhor forma de conseguir a simpatia de quem nos ouve, para lá de qualquer razão.

Por exemplo, há discursos que se baseiam no regresso ao natural para vender charlatanices.

Outros assumem como valor a pureza — escondendo intuitos um pouco mais cruéis do que essa pequena palavra faz crer.

Há ainda aqueles que apostam no «isto é assim e mais nada!» — palavras cheias de certeza e, por dentro, cheias de nada ou, quase sempre, de muita preguiça de pensar.

O vocabulário sedutor é variado: temos desde as palavras simples e directas que escondem mais do que mostram (há políticos que dizem «somos fortes!» para esconder fraquezas) até às palavras obscuras que são atiradas à nossa cara como areia, sem que, muitas vezes, nós, que estamos a ouvir, tenhamos a coragem de dizer «não estou a perceber».

Na verdade, muito deste vocabulário manipulador engana até quem o usa — e é tão difícil resistir à sedução de certas palavras, é tão difícil resistir à bebedeira de certos discursos…

Então se as palavras foram assumidas com bom ritmo, com confiança, com um sorriso e um corpo seguro — pouco podemos fazer para lhes resistir. (Mas podemos tentar.)

3. Falar da nossa tribo

O mais potente truque do discurso humano é mesmo o tribalismo.

Quando discursamos ou escrevemos um texto (que, no fundo, é uma forma de discursar), a melhor maneira de prender os corações de quem temos à frente é apelar ao clube, à tribo, à nação…

Pois imaginem um presidente dum clube, numa assembleia geral, a apontar, emocionado, para os valores do clube, para a história daquelas cores — e, claro, a lembrar também as malfeitorias dos outros clubes no domingo passado. E estamos a falar de desporto, de gente unida por um emblema pouco mais que aleatório. Imagine-se a força do mesmo tipo de discurso quando falamos da nação, da religião ou de outro dos muitos grupos em que nos dividimos sem sossego.

O ser humano é tribal por natureza. Ficamos com o coração aos saltos quando alguém apela à nossa tribo e divide claramente quem são os nossos e quem são os outros.

E, reparem, isto não acontece apenas nos discursos mais nacionalistas ou clubistas. Até eu, neste pequeno texto, fui subtilmente tribalista: enfiei no título a língua portuguesa. Ora, estes truques são próprios do discurso humano de todas as línguas, não só da nossa. No entanto, sei que todos nós, quando ouvimos falar da nossa língua e quando vemos o nome da nossa tribo no título — ah, ligamos muito mais. Foi um pequeno truque para chamar a atenção para estes truques…

Como se revela este tribalismo? De muitas maneiras. Desculpamos qualquer erro dos nossos; empolamos até ao enjoo qualquer erro ou frase mais ambígua do outro lado; não dialogamos — entramos em batalha cerrada em que tudo vale, até as distracções de português do outro lado…

E queremos ser os mais puros dos puros, não toleramos desvios, descaímos para os extremos e recusamos qualquer análise ou moderação. Quando entramos na lógica tribal, o que conta é a guerra e a língua é apenas um instrumento nessa guerra — ou forma de detectar traidores, de perceber quem não está aqui para ser o mais puro dos puros.

Diga-se que é mais fácil escrever bem — de forma interessante e entusiasmante — se estivermos imersos nessa lógica tribal. É mais fácil escrever ou falar para os nossos do que dizer «se calhar, temos razão, mas há aqui um pormenor em que podemos, talvez, estar enganados». Imaginem um discurso desse tipo durante uma campanha eleitoral: seria o fim do artista, que é como quem diz do candidato…

A língua portuguesa, nas mãos de quem sabe dividir o mundo sem tempo para dúvidas, é perigosíssima. E, sim, é verdade: este tribalismo aparece em todas as culturas e em todas as línguas. Mas convém perceber que não estamos imunes a este vírus, a estas seduções, a estes perigos que se escondem no rufar de tambores dum discurso empolado.

(Este artigo foi publicado no Sapo 24 a 13 de Agosto de 2017.)

Portugal ou Espanha: qual é a nação mais antiga?

Nos recentes debates sobre o referendo catalão, tem aparecido nas bocas de alguns defensores da unidade espanhola esta espantosa frase: «Espanha é a nação mais antiga da Europa!»

Normalmente, a frase é dita como ataque ao independentismo catalão, que — na óptica espanhola — está a tentar destruir o país mais antigo da Europa.

1. A história simplificada da nossa tribo

Ora, na verdade, dos três países independentes da nossa península (Andorra, Espanha e Portugal), o mais recente é, precisamente, Espanha… Andorra é um principado desde o século XIII, antes da união dinástica entre Castela e Aragão. E Portugal… Bem, todos sabemos que Portugal já existia por essa altura. Espanha, por mais voltas que se dê, não é a nação mais antiga da Europa. Nem sequer consegue ser a nação mais antiga da península… Bolas, nem a Andorra consegue ganhar.

Se assim é, donde vem aquela estranha frase? E como é que o próprio Mariano Rajoy consegue dizer isto sem que os seus ouvintes reclamem pelo erro crasso? Na verdade, poucos espanhóis parecem importar-se com tal dislate. Mas porquê?

Bem, primeiro, quando alguém diz qualquer coisa a favor da nossa tribo em particular (clube, partido, nação), o sentido crítico fica um pouco embotado. É muito humano.

Depois, enfim, a História que temos na cabeça é um pouco mais maleável do que pensamos e depende do nosso sentido de identidade. O passado — ou aquilo que lembramos e esquecemos desse mesmo passado — é um campo de batalha. E a forma espanhola de olhar para o passado encontra por lá uma nação anterior ao Estado.

2. A Catalunha já foi independente?

Quando falo em campo de batalha, não falo da história feita pelos historiadores (embora também aí haja muita batalha), mas das narrativas simplificadas com que contamos o percurso das nossas nações. Nós, por cá, gostamos de contar esta narrativa muito simplificada: tornámo-nos independentes em 1143 e, a partir daí, andámos a defendermo-nos das invasões espanholas e a descobrir o mundo — e lá conseguimos chegar até aos dias de hoje com a nossa independência intacta.

Pois, por estes dias, é interessante olhar para as histórias simplificadas que estão na cabeça de espanhóis e catalães. Já vimos que, para muitos espanhóis, a sua nação é mais antiga do que todas as outras — apesar de não ser. E os catalães, como contam o seu passado?

Contam desta maneira: a Catalunha foi o centro duma antiga coroa, com sede em Barcelona, que chegou a ter um império no Mediterrâneo e foi independente até 1714 — quando o pérfido rei de Castela invadiu aquele que era também um dos seus reinos e impôs as leis de Castela. Reparem que esta data (1714) é mais recente que a data da união de Inglaterra à Escócia. Para o sentimento nacional catalão, a perda da independência foi ontem! O que estão a fazer agora é a recuperar o que foi deles de direito, como antiga nação europeia.

Já os espanhóis mais centralistas contam outra história: a Catalunha é uma mera região duma antiga coroa medieval (a Coroa de Aragão) que, sem dramas e voluntariamente, se juntou a Castela no final do século XV, fazendo renascer a nação espanhola que, lá no fundo, tem origem na antiga Hispânia romana e no reino dos Visigodos. Virá daí — digo eu — essa estranha afirmação, desmentida por tantos factos, de que Espanha é a mais antiga nação da Europa.

Os dramas, na cabeça dos espanhóis, foram criados pelos separatistas — que terão aparecido, por magia, nas últimas décadas.

3. Confronto de Histórias

Portanto, na cabeça dum nacionalista catalão, a Catalunha é uma nação antiga, com uma História, uma língua e um território — e só em 1714 perdeu a independência.

Na cabeça dum nacionalista espanhol, a Catalunha nunca foi independente e é uma região duma nação antiquíssima, reconstituída no século XV e que, no fundo, já vinha da antiga nação visigoda.

Todas estas formas de contar a História são maneiras de olhar para os mesmos acontecimentos. Mas, atenção: não caio na tentação de achar que todas estas leituras são igualmente válidas. Há narrativas históricas mais simplistas do que outras. Dizer que Espanha é a nação mais antiga da Europa parece-me ser uma forma especialmente errada de olhar para a História.

Depois, se virmos bem, todas estas histórias são um pouco anacrónicas. As guerras e as dinastias eram assuntos de gente nobre e os povos tinham pouca noção de pertencerem a esta ou àquela nação ou a este ou àquele Estado — ao contrário do que acontece hoje em dia, em que todos nós sabemos de que país somos. Antes do século XIX, cada pessoa era da sua terra, tinha a sua maneira de falar própria da região, orava a um deus — e nessas roupagens encontrava a sua tribo…

No século XIX, os vários nacionalismos reinventaram a história, cada um à sua maneira. Essas histórias reinventadas foram transmitidas às populações através da escolarização, da literatura e por todos os mecanismos que hoje são naturais. A tribo de cada um começou a ser a tal nação, que ora é defendida pelo Estado, ora por elites sempre à espreita de criar o seu próprio Estado. Este processo pode parecer especialmente simples num país como Portugal — mas é complicadíssimo noutras paragens — basta olhar para as notícias que vêm de Barcelona.

Não há volta a dar: vivemos com essas histórias nacionais na cabeça. São mitos que fazem parte do que somos. O grande problema é quando essas histórias entram em confronto, como acontece aqui mesmo ao lado. A solução? Não a tenho. Mas talvez o pior que possamos fazer seja acreditar piamente nestas histórias e não hesitar um pouco antes de atirar as nossas declarações superlativas à cara dos outros. Por isso, faça o que fizer com a vontade catalã de votar, talvez fosse aconselhável a Mariano Rajoy não andar a espalhar por aí uma Espanha que, de tão antiga, mais parece um fantasma.

(Este artigo foi publicado no dia 17 de Setembro no Sapo 24. Os comentários estão abertos na página do blogue no Facebook.)

Ensinar Português na República Popular da China (por Cristina Bluemel)

A certa altura, comecei a ver surgir nas estatísticas do blogue algumas visitas de locais tão distantes como a China. Qual seria o interesse desses leitores por este blogue sobre a nossa língua? Vim a saber através dum comentário que algumas dessas visitas chinesas eram duma professora de Português na China: Cristina Bluemel. Atrevi-me a pedir-lhe um pequeno texto sobre como é ensinar Português por aquelas paragens. Aqui está o resultado.


Na República Popular da China as crianças normalmente ficam aos cuidados da mãe ou dos avós até aos três anos de idade. A partir dessa idade terá início o longo ciclo nas escolas, onde passam o dia inteiro. Todas as atividades, programas, funcionamento, normas, regulamentos académicos são estritamente ditados pelo governo e o seu cumprimento é controlado, em cada instituição de ensino, por representantes do Partido único, entre presidentes, diretores, professores, funcionários e também alunos. As avaliações fazem parte de um processo de seleção que se estende até à entrada no ensino superior, fazendo também parte do ensino a formação militar quer nas escolas quer nos quartéis.

No que concerne ao método de ensino, ele é essencialmente baseado na memorização de conteúdos e estruturas: o aluno deve ouvir e depois memorizar, através da leitura e repetição, todos os conteúdos que posteriormente deverão ser reproduzidos na respetiva avaliação; e existem métodos e técnicas para tal, tal como encontrar palavras e expressões-chave nas questões das provas que levam a descobrir qual a resposta certa.

Quanto ao ensino superior, está estruturado em três níveis, havendo instituições de ensino superior públicas e privadas, todas elas pagas: as universidades de primeiro nível, de referência nacional, as universidades de segundo nível, em número bastante mais elevado, e as faculdades vocacionais, ou de ensino profissionalizante; estas faculdades oferecem bacharelatos de três anos, enquanto as licenciaturas são de quatro anos.

Existem limites máximos de idade, para os alunos nacionais, de acesso ao ensino superior, mestrado e mesmo doutoramento, e os professores estrangeiros não são considerados professores, mas monitores (instrutores). Embora as duas denominações sejam traduzidas uniformemente para «teacher» e seja afirmado que significam a mesma coisa, para evitar constrangimentos, na verdade na língua chinesa é estabelecida essa distinção.

Comecei a lecionar Português aqui, numa faculdade de línguas estrangeiras, exatamente há dois anos — e logo à chegada a minha grande surpresa foi encontrar um curso de Português com cerca de 500 alunos distribuídos pelos 3 anos do curso: porque é que tantos jovens chineses escolheriam estudar português? A resposta chegou rapidamente: nesta região estão localizadas grandes empresas e indústrias que mantêm relações comerciais e operam nos países lusófonos de África e também Brasil.

No entanto (ainda não averiguei o porquê), o número de alunos que opta por português tem diminuído progressivamente, ao contrário do número de alunos que escolhe francês, que tem aumentado bastante e faz essa opção por motivos idênticos: o comércio e negócios com países francófonos, especialmente aqueles também localizados em África.

As unidades curriculares de gramática, leitura, escrita e fonética (pronúncia) são lecionadas por professores chineses, em chinês, sendo entregues aos professores estrangeiros as UC de compreensão oral (audição) e conversação (lecionadas separadamente) — e também aulas de vocabulário e diálogos relativos a negócios, comércio, turismo e redação de documentos.

Os métodos utilizados para o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras são essencialmente baseados em meios e materiais de repetição e memorização de palavras e estruturas de frases que depois são adaptadas a cada circunstância e, no caso do português, é também transmitida a ideia de que a língua portuguesa é muito semelhante à língua inglesa, razão pela qual o inglês é usado frequentemente como língua terceira («de passagem») entre o chinês e o português. É muito comum, por exemplo, mesmo que fazendo isto apenas mentalmente, primeiro ser efetuada a tradução do chinês para o inglês, e depois do inglês para o português, com todos os inconvenientes que isso acarreta, tal como nos casos em que é usada a palavra “festival” ao invés de “festa”, e em vez de “feriado” a palavra “férias”, entre várias outras situações erróneas.

Geralmente as aulas são compostas por dois períodos de quarenta e cinco minutos cada, separados por um intervalo de dez minutos, e as turmas são constituídas por mais de quarenta alunos, exceto quando não há alunos suficientes para tal. Quanto aos materiais e recursos a serem utilizados em sala, existem vários tipos de restrições, não se podendo recorrer a livros ou filmes estrangeiros, porque teriam de passar previamente pelos órgãos de censura, e sendo apenas permitida a exibição de vídeos com uma duração máxima de cinco minutos, ficando todo o material exibido gravado nos computadores das salas de aula.

Mas, do meu ponto de vista, o maior desafio para que os alunos consigam atingir um bom nível no estudo e recurso ao português é conseguir levá-los a processar a informação e conhecimentos transmitidos, ao invés de apenas registar de memória — e fazê-los perceber que o chinês não é a língua mais difícil do Mundo e que todas as outras são fáceis, bastando por isso recorrer aos tradutores automáticos para fazer uma boa tradução.

A boa loucura linguística da Suíça

Fui à Suíça uma vez só, de passagem, num autocarro cheio de algarvios. Agora não tenho tempo para explicar como me meti em tais sarilhos. Digo apenas que foi há 20 anos e ainda hoje me lembro dessa viagem com saudade.

Chegámos a Genebra depois de jantar. Passeámos pela cidade durante toda a noite. Fomos a uma discoteca. Saímos muito tarde. O sol nasceu. Havia um repuxo gigante. Aprendi palavras algarvias. Depois, adormeci no autocarro durante o resto da manhã e abri os olhos vagamente, depois de bater com a cabeça no banco numa curva mais apertada — foi então que vi uma gloriosa paisagem alpina onde havia vacas a pastar. Ou então estou a misturar tudo com um anúncio da Milka.

Pois bem, passei a correr por essa Suíça rodeada de França. Por baixo dos meus pés (não sabia na altura) estava o CERN e o seu acelerador de partículas — e, à minha volta, estava a língua francesa na boca dos suíços.

Ora, a Suíça é um país linguisticamente curioso: tem várias línguas — e não tem grandes problemas com isso, pelo que me é dado a saber.

O país — que é uma confederação de cantões com uma autonomia que fica a dever pouco à independência — tem quatro línguas nacionais: o alemão, o francês, o italiano e o romanche.

As quatro línguas convivem no mesmo Estado. O Governo central usa as quatro (embora o romanche não seja tão comum a esse nível). Não há obrigação de todos os cidadãos conhecerem uma das línguas, apesar de o alemão ser claramente maioritário. Cada cantão tem a sua política linguística e um deles chega a ser trilingue.

Tantas línguas prejudicam a Suíça? Não me parece. O país funciona mal? Não consta. Funcionaria melhor se usasse uma só língua? Ninguém sabe, mas sabemos isto: a Suíça, se tem algum problema, é funcionar bem demais. Atrevo-me a fazer esta previsão: quisesse a Suíça começar a dar uma dignidade oficial muito superior a uma destas línguas e a paz começava logo a estalar.

A outra língua da Suíça

Por outro lado, no que toca ao alemão, há uma forma particular suíça — o suíço-alemão. Este nome abrange vários falares germânicos que podiam, facilmente, ser usados para criar uma nova língua suíça. O Luxemburgo fez isso mesmo há poucos anos.

Os suíços de língua alemã vivem numa situação que os linguistas chamam diglóssica: no fundo, sabem duas línguas, pois os dois sistemas são suficientemente autónomos para serem aprendidos como línguas separadas — e usam as duas línguas em situações sociais diferentes, como se fossem registos. Ou seja, tal como nós usamos um português formal numa aula e um português informal no café, os suíços de língua alemã usam uma língua durante a aula e outra no café.

Isto pode levar a que um professor universitário responda em alemão durante a aula e em suíço-alemão no corredor da faculdade — e nem precisa de mudar de aluno.

Imagino eu, que não sei alemão, que esta situação implica toda uma série de gradações, usos misturados e algumas confusões. Também me parece pouco crível que tudo se faça sem tensões e alguns preconceitos — mas, enfim, estamos a falar dos suíços. Se calhar, são mesmo os únicos que conseguem navegar estas águas sem desatar às traulitadas.

Mais a sério: naquele país, há uma história de compromissos que desembocou na actual situação complexa, mas pacífica. As situações complicadas resolvem-se assim.

O português que não gosta da maneira como os suíços falam

A nós, país onde se fala uma língua que é oficial em todo o território, tudo isto pode fazer confusão. Ainda há uns dias encontrei um texto rabugento no Facebook, em que um emigrante português na Suíça ralhava com os outros portugueses emigrados na Suíça. O pecado deles? Andavam a aprender palavras em suíço-alemão. O texto era bem irado: usava palavrões e tudo. Dizia ele que português que é português, na Suíça, devia aprender alemão e nunca um dialecto de m*rda.

Pareceu-me que aquele homem também estava um pouco irritado com os próprios suíços. Por que carga de água não hão-de falar sempre em alemão a sério? Que mania!

Bem, já sei: no Facebook, há indignações para todos os gostos. Mas esta atitude mostra bem uma certa maneira de olhar para as línguas que faz estrago em muitos países. Essa atitude compõe-se de uma crença absoluta no valor intrínseco e óbvio da língua-padrão e um desprezo em relação a todos os falares que não sejam a língua oficial. Não é preciso pensar muito para vermos o que acontece quando muitas pessoas acreditam que o valor da sua língua é bem superior à língua de outros cidadãos do seu próprio país — quer por causa do número de falantes quer por causa das fantasmagóricas qualidades dessa língua.

O problema da linguagem humana não é a sua imensa variedade — é, isso sim, a nossa falta de paciência para aceitar as línguas dos outros.

E que tal uma Espanha mais parecida com a Suíça?

Os suíços dão valor oficial a uma língua (o romanche) falada por pouco mais do que a população duma freguesia lisboeta. As crianças dessa zona, na escola, aprendem a escrever nessa língua falada por muito poucos. Depois, aprendem mais línguas do seu país e ninguém se importa com isso…

Mas nem é preciso chegarmos ao romanche: temos o francês, o italiano e o alemão. É verdade que são língua protegidas pelos países vizinhos. Mas, no total, são quatro línguas e a Suíça teve de aprender a viver com esta variedade toda. A solução foi dar uma dignidade oficial a todas elas.

Tem custos? Sim, claro. No Parlamento federal, por exemplo, é preciso haver intérpretes — é um pequeno preço a pagar pela paz linguística e pelo respeito igual devido a todos os idiomas do país. Sim, acredito que esta atitude é um bom exemplo para outros países com várias línguas. E, sim, estou a pensar em Espanha.

Qual é a língua de Andorra?

Se os jogadores da Selecção tiverem tempo para passear um pouco pelas ruas de Andorra la Vella, ouvirão certamente muito espanhol, algum francês e muito português também. No entanto, nenhuma dessas línguas é a língua oficial do país. A língua de Andorra é o catalão.

É assim há séculos e, por essa razão, o catalão nunca foi apenas uma língua regional. É, para todos os efeitos, a língua dum país soberano.

Já agora, a história daquele pequeno território tem muito que contar: Andorra é independente desde o século XIII e foi criada por desavenças entre condes e bispos. Chegou a ter um russo a arvorar-se como rei ali por volta dos anos 30 do século passado (Boris I de Andorra) e desde 1993 que é uma democracia parlamentar. Tem como príncipe duas pessoas: o Bispo de Urgell e o Presidente da França. Os dois co-príncipes fazem tanto como a rainha Isabel II no Canadá: praticamente nada. Mas são os monarcas de Andorra.

Voltando à língua do país, nos últimos dias, por causa da questão catalã, ouvi aquilo que pensava já não ser possível: pelos vistos, ainda há muitos portugueses que, noutras matérias, estão bem informados, mas no que toca às línguas ibéricas ainda imaginam que o catalão é um dialecto — é o que ouvi chamar ainda há pouco à língua falada por milhões de pessoas do outro lado da península (e, pasme-se, numa pequena cidade italiana).

Ora, a diferença entre língua e dialecto não é simples. Podemos dizer — é uma maneira de ver a coisa — que, num espaço onde convivem dialectos próximos, serão línguas aqueles dialectos que ganharam prestígio para serem usado na escrita, ensinados nas escolas, imaginados enquanto idiomas duma comunidade — isto, claro, quando estamos a tentar discernir as divisões entre formas de falar próximas, como são todas as línguas latinas (o basco, por exemplo, não está sujeito a estas questões: é claramente uma língua, tão diferente do espanhol como o japonês).

Não é simples, pois. Mas neste caso, não há grande lugar para dúvidas. O catalão está separado do castelhano por divisões semânticas e morfológicas bem marcadas no universo das línguas latinas. Há semelhanças, claro, quer devido à comum origem latina quer devido a trocas de palavras e estruturas gramaticais, mas são línguas claramente distintas. O catalão é, no fundo, a evolução do latim popular na zona da Marca Hispânica. A sua origem é distinta da do castelhano.

Não é fácil mostrar uma língua em pouco espaço, mas aqui fica o artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos nas duas línguas:

  • Castelhano: «Todos los seres humanos nacen libres e iguales en dignidad y derechos y, dotados como están de razón y conciencia, deben comportarse fraternalmente los unos con los otros.»
  • Catalão: «Tots els éssers humans neixen lliures i iguals en dignitat i en drets. Són dotats de raó i de consciència, i han de comportar-se fraternalment els uns amb els altres.»

E uma frase que mostra algumas diferenças óbvias:

  • Castelhano: «Quiero hablar con mi primo.»
  • Catalão: «Vull parlar amb el meu cosí.»

Já que falamos da língua, aqui ficam algumas indicações sobre como pronunciar as palavras:

  1. O «e» em sílabas átonas lê-se de forma muito parecida ao nosso «a» fechado. Assim, o «els» catalão soa-nos «âls». Já «clássiques» lê-se precisamente como «clássicas» à portuguesa. O próprio nome de Barcelona lê-se «Barçalona»…
  2. Em geral, o catalão tem vogais mais parecidas com as portuguesas do que com as espanholas. Assim, «Catalunya» lê-se como «Câtâlunha» em português e não como a «Cátáluña», com «aa» abertos, do espanhol.
  3. A combinação de letras «ig» lê-se como «tch» ou «dj». Já o «t» no final duma palavra não se lê. Assim, o nome do agora famoso presidente (Puigdemont) lê-se «Pudjdamon». A terra Puigcerdà lê-se «Putchsardá»
  4. O «j» lê-se à portuguesa.
  5. Já o «ny» é como o «nh» português.
  6. O «ll» é como o «lh» português.
  7. Já o «l·l» (um símbolo muito catalão) lê-se como dois «l» separados, como em «síl·labes».
  8. Note-se ainda o «ç», que não existe em espanhol, mas está em tantas palavras catalãs (a começar por «Barça»). Lê-se à portuguesa, pois então.

Enfim, não é preciso ser a favor da independência da Catalunha para reconhecer algo que é bastante claro: o catalão é uma língua — e uma língua com milhões de falantes (mais do que o dinamarquês, por exemplo) e uma grande tradição cultural e literária.

Para terminar, aqui fica o hino de Andorra, que os jogadores portugueses vão ouvir amanhã. No fim, claro, ganha Portugal.

El Gran Carlemany

El gran Carlemany, mon pare,
dels alarbs em deslliurà,
i del cel vida em donà,
de Meritxell la gran Mare.
Princesa nasquí i pubilla
entre dues nacions, neutral;
sols resto l’única filla,
de l’imperi Carlemany.
Creient i lliure onze segles,
creient i lliure vull ser
siguin els furs mos tutors
i mos Prínceps defensors,
i mos Prínceps defensors!

A terra espanhola que a França engoliu

Há muitos anos, fui com os meus pais e uns amigos até Andorra. É história com peripécias curiosas — mas o relato fica para outro dia. Hoje quero apenas chamar a atenção do leitor para um segredo escondido no mapa.

Quando terminaram os dias de férias em Andorra, convenci os meus pais a passar por França antes de voltar a Espanha. Não foi muito difícil: quem se mete numa carrinha para atravessar a Península não se importa de fazer mais uns quilómetros só para dizer que foi a França.

Era um desvio pequeno… Subimos até Pas de la Casa — e passámos a fronteira. Fiquei feliz. Aqueles pouquíssimos quilómetros a atravessar um canto esquecido de França eram o suficiente para dizer que já tinha ido a cinco países.

Dizer a quem? Ao mundo! Aos meus botões! Tinha 13 anos, diga-se. Há entusiasmos muito adolescentes — embora a excitação de passar uma fronteira nunca tenha desaparecido.

Bem, não interessa: estávamos em França. Desse percurso francês, lembro-me de duas coisas.

Primeira recordação: olho pela janela da L300 e vejo um castelo com a bandeira francesa no topo. Se fosse hoje, teria tirado uma fotografia. Como estávamos em 1994, não tirei, porque já tinha gasto a minha dose de 24 fotos.

Segunda recordação: eu ia com o mapa na mão, nesses tempos sem telemóveis. E comecei a ficar entusiasmado quando percebi que, mais à frente, entraríamos numa espécie de vórtice geográfico. Iríamos passar perto duma terra engolida por França.

E, de facto, quando chegámos a Bourg-Madame (há lá terra com nome mais francês?), vimos duas placas: para a esquerda, «ESPAGNE». Para a direita, «ESPAGNE».

Mas, então? Como era possível?

Basta olhar para o mapa:

Este foi o percurso que fizemos em França, entre a fronteira de Andorra e a fronteira de Espanha — se o leitor olhar com atenção, vê ali no canto inferior direito um pequeno território em forma de croissant. Trata-se do município catalão de Llívia. É território espanhol completamente rodeado por França!

Como é que isto aconteceu?

A história conta-se assim — espero não simplificar demasiado. Em 1640, os catalães revoltaram-se contra a coroa espanhola, que andava a tornar-se demasiado castelhana para o gosto daquelas paragens (dizem por aí que não foram os únicos a aborrecerem-se nesse preciso ano).

A revolta é apoiada por França (nós, por cá, gostávamos mais de pedir ajuda aos ingleses). A Catalunha e a França entram então em guerra com Espanha, guerra essa que só termina em 1659, quando as duas coroas assinam o Tratado dos Pirenéus.

Ora, como em todos os tratados de paz, há concessões a fazer. Uma das concessões de Espanha à França foi a passagem para mãos francesas do Norte da Catalunha:

Divisão da Catalunha. Fonte: Wikipédia

O tratado estipulava que todas as aldeias da comarca catalã da Cerdanha que estivessem na vertente norte dos Pirenéus passariam para a coroa francesa. Ora, Llívia tinha o estatuto de vila e não de simples aldeia — logo, ficou fora do tratado e manteve-se em mãos espanholas, apesar de estar rodeada por território que era agora francês.

Quadro de Laumosnier que representa a assinatura do Tratado dos Pirenéus entre Luís XIV e Filipe IV.

Diga-se que os catalães não gostaram muito dessa divisão e os franceses demoraram ainda várias décadas a conseguir controlar, de facto, a zona.

Hoje em dia, a Catalunha Norte está no departamento francês dos Pirenéus Orientais. Por lá, ainda nem todos esqueceram o catalão e há algumas organizações apostadas em renovar as relações com a Catalunha a sul da fronteira. No entanto, o francês é a língua dominante e o catalão sobrevive mais por causa da força que tem hoje a sul da fronteira. (E em Llívia? O catalão é a língua da terra, claro. É oficial, em conjunto com o castelhano.)

Voltando à minha viagem: a tal terra de nome muito francês por onde passámos (Bourg-Madame) foi, portanto, catalã durante séculos e séculos. E tinha um nome bem catalão: la Guingueta d’Ix.

O nome ainda sobrevive — para lá dos livros de História — na designação francesa para os seus habitantes: são chamados de Guinguettois.

Bem, nesse dia de Agosto de 1994, não pude visitar Llívia. Lá entrámos na Espanha da direita, em direcção a Barcelona. Mal sabia eu o que nos iria acontecer por lá — mas essa outra história terá mesmo de ficar para outro dia.

Os catalães não aprendem espanhol?

Isto não tem a ver com a agora famosa independência da Catalunha. Ou melhor, lido de certa maneira, aquilo que vou dizer a seguir pode servir de argumento contra a independência.

Ora bem, roda por alguns mentideros de Madrid esta ideia: os catalães não querem ensinar espanhol aos filhos. Contam-se histórias horrorosas de crianças a aprender a ler e a escrever em catalão (que horror!).

Essas ideias servem depois para acusar os ditos catalães de serem especialmente fechados e terem uma atitude retrógrada em relação às línguas. (Muitas vezes isto é dito por quem sabe apenas uma língua…)

Bem, agora olhemos para a realidade: sim, o sistema de ensino catalão (a autonomia catalã abrange o ensino) usa a língua catalã como língua de ensino de muitas disciplinas: os catalães aprendem matemática e física em catalão (olhem lá o desplante!).

Não me parece nada de extraordinário: há línguas faladas por menos pessoas que também são línguas de ensino: o dinamarquês, o norueguês… Na Suíça, onde a maioria dos habitantes falam alemão, as zonas de língua francesa ou italiana também usam o francês ou o italiano como línguas de ensino.

Quando este sistema foi criado, a ideia era que todas as crianças aprendessem as duas línguas: afinal, o castelhano era falado por todos (como primeira ou segunda língua) e o catalão só por metade da população, apesar de ser uma língua com longa tradição e considerada materna por milhões de catalães.

E o espanhol (ou castelhano)? Ao contrário do que dizem as tais más línguas, é de aprendizagem obrigatória em todo o sistema de ensino. Os alunos da primária aprendem a ler e a escrever em catalão — e em espanhol. Durante os anos seguintes, têm sempre espanhol como disciplina obrigatória.

Resultado: os alunos catalães sabem todos falar espanhol como falantes nativos — e também catalão. Acabam bilingues, o que parece fazer muita confusão a espanhóis de outras zonas. Os resultados dos alunos catalães nos exames de espanhol não são piores que os de outras zonas. São mesmo jovens bilingues (o que não me parece mau).

Ou seja, qual a diferença entre um jovem catalão e um jovem madrileno no que toca às línguas? O catalão fala catalão e espanhol — e aprende inglês. O madrileno aprende espanhol — e inglês. O catalão leva uma língua de vantagem. Sabe ler Cervantes, mas também Mercè Rodoreda, Joan Maragall e todos os outros escritores de língua catalã.

Agora, talvez não fosse má ideia — se de facto querem uma Espanha unida — que todos os espanhóis assumissem as várias línguas espanholas como suas. Assim, as outras línguas não castelhanas deviam ser consideradas línguas de Espanha mesmo a sério, deviam adornar os edifícios do governo central e deviam ser aprendidas, como opção (não queiramos exigir aos espanhóis de outras zonas o que se exige aos catalães…).

Assim, uma criança madrilena podia aprender um pouco de catalão. Porquê? Para conhecer outra das línguas, das literaturas e das culturas do seu país. Não é preciso ser obrigatório: apenas uma opção. Também podia ter como opção o galego e o basco. A Espanha podia começar a ver-se como país de muitas línguas, em que todos os espanhóis, qualquer que seja a língua materna, se sentem em casa. Ninguém deixaria de aprender castelhano na escola. Ninguém ficaria prejudicado. Haveria um custo, claro: professores, manuais, horários… Mas será um custo assim tão grande? Será assim tão caro ou inconcebível querer aprender a língua daqueles que consideramos nossos concidadãos?

Se disserem isto a um madrileno, provavelmente irão ouvir um riso de surpresa, como se fosse a ideia mais absurda do mundo. E é pena! Porque se o madrileno for — legitimamente — contra a ideia de partir Espanha e deixar sair a Catalunha, então deveria considerar o catalão e a cultura catalãs como um pouco suas. Ou não?

Há 800 anos, a Catalunha era parte de Espanha?

Tenho ouvido dizer por aí que a Catalunha já é espanhola há 800 anos. Ora, temos um problema: nessa época, não havia Espanha…

Depois deste mapa, os reinos começaram a unir-se uns aos outros — muitos dos reis ibéricos queriam ser chefes disto tudo e usaram as técnicas habituais: guerras e casamentos.

Que nós, no fim, tenhamos sido os únicos a conseguir escapar a essa lógica centralista foi fruto do sangue e suor de muitos — e de alguma sorte, como em tudo.

Pelo caminho, houve tentativas de união de vários lados — e até nós chegámos a invadir os vizinhos para ver se uníamos Portugal a Castela, vejam lá bem.

Por fim, à força da Guerra da Restauração, conseguimos deixar de lado a ideia de juntar Portugal ao projecto — e mais tarde convencemo-nos a nós próprios que nunca tínhamos participado nestas andanças.

Hoje, quando nos distraímos, acabamos por acreditar que esta península dividida em dois estados sempre existiu…

Os outros povos da península, na verdade, só se uniram num Estado realmente unificado (e muito castelhano) lá para o século XVIII — e muitos nunca se sentiram confortáveis nesse projecto duma Espanha castelhana. Não é de agora — e também não vale a pena fingir que nunca tivemos nada a ver com isto.

Enfim. É certo que podemos contar esta História de muitas maneiras. Mas uma coisa parece clara: há 800 anos, os catalães não eram espanhóis (pelo menos no sentido que damos hoje à palavra).

[Os comentários estão abertos no Facebook.]

Page 2 of 59

Powered by WordPress & Theme by Anders Norén

Ao continuar a usar este website, autoriza a utilização de "cookies". mais informação

As definições de "cookies" neste website permitem a utilização de "cookies" para oferecer ao leitor a melhor experiência possível. Se continuar a usar este website sem alterar as definições de "cookies" ou se clicar em "Aceitar" está a autorizar o uso de "cookies".

Fechar