Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

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A tradução não é impossível (ou como António Lobo Antunes também se engana)

Na última crónica da Visão, António Lobo Antunes elogia o livro de poemas Sombras e Falésias, do poeta romeno Dinu Flamand. Logo a seguir, elogia também a tradução. Mas acrescenta: a tradução é como um retrato — é aquilo e não é aquilo. Daí que — conclui — «qualquer tradução de uma obra seja impossível, qualquer retrato imperfeito».

Esta última frase é um pouco exagerada. Da imperfeição à impossibilidade vai um universo de distância. Sim, os retratos não substituem as pessoas — mas não são impossíveis: são retratos! As traduções também são muitas vezes imperfeitas, mas serão mesmo impossíveis? Estará um leitor a enganar-se quando lê uma tradução?

Ah, respondem-me: Lobo Antunes quer apenas dizer que a tradução implica perdas. Talvez implique — mas também implica um ganho para muitos leitores. Reparem: será que António Lobo Antunes lerá melhor aquele livro no original romeno do que se o ler em tradução? Já o ouvi dizer em entrevistas que gostava de saber russo para ler no original os grandes escritores da Rússia — compreendo-o perfeitamente. Mas se os lesse em russo, a não ser que passasse anos e anos a estudar, iria talvez perceber menos do que quando lês as traduções.

Outra maneira de dizer o mesmo: não será verdade que um leitor português que leia Shakespeare em tradução percebe mais do que um inglês comum que leia os textos no inglês original? Então se compararmos a leitura da tradução com a leitura do original por parte do mesmo português… O trabalho do tradutor está ali a aproximar-nos da obra, uma obra de que estamos distantes por razões linguísticas, culturais, temporais…


Como António Lobo Antunes diz na mesma crónica: «Um poema, por exemplo, é mais do que um poema, uma mulher ou um homem é mais do que uma mulher ou um homem. Falta sempre algo vital que é inapreensível e esse inapreensível, e só esse inapreensível, é verdadeiro.»

Ora, isto é assim mesmo: há muito que não conseguimos dizer, há muito que não conseguimos ler. Mas o problema não é a tradução: é a vida, é a linguagem. Não é por lermos uma tradução que não chegamos ao âmago do livro, ao espírito do autor, à essência da obra — esse âmago, esse espírito, essa essência também dificilmente estão acessíveis aos leitores do original.

Sim, os tradutores, com o seu trabalho de leitura e reescritura, enganam-se algumas vezes. Mas não se esqueçam que são os únicos leitores que mostram ao mundo a leitura que fazem. Quantos leitores do original não se enganam sem que ninguém saiba, nem eles próprios? Por outro lado, quando lemos uma tradução estamos a ler o que não leríamos doutra maneira. E isso vale muito.

O curioso é que Lobo Antunes dá muito valor aos tradutores: afinal, já dedicou um dos seus livros a uma das suas tradutoras. Enfim, o escritor enganou-se numa frase. Mas quem nos dera a nós enganarmo-nos tão bem como ele, que é um cronista como não há nenhum.

Que cidade espanhola usa o brasão português?

Há muitos anos, fui com os meus pais e irmãos visitar uma cidade espanhola de cujo nome não me quero lembrar — por agora.

Chegámos à porta duma igreja e pusemo-nos a ler uma inscrição a explicar a história do templo. A inscrição estava, por incrível que possa parecer, em português.

Diego Delso, delso.photo, License CC-BY-SA

Um velhote que por ali andava chegou-se ao pé de nós e disse-nos, solícito, que aquele texto não se percebia — o correcto estava um pouco mais à direita. Seguimo-lo e vimos como apontava, a sorrir, para a versão castelhana do texto que começáramos a ler em português. Agradecemos e, sem que o espanhol percebesse porquê, voltámos ao texto na tal língua que não se percebe. (Pergunto-me se ele alguma vez pensou em tentar saber que língua era aquela.)

Mas as surpresas não acabaram por ali: reparei pouco depois na bandeira daquela cidade, a ondear ao lado da bandeira de Espanha e da União Europeia:

Sim, a bandeira daquela cidade espanhola é igual à bandeira de Lisboa, excepto no que toca ao brasão — ao contrário de Lisboa, a cidade espanhola usa o brasão português. As únicas diferenças parecem ser a coroa e a disposição dos castelos.

Alguns leitores já terão percebido que cidade é esta. Para os mais distraídos, aqui ficam mais duas pistas: olhando para lá do mar, talvez víssemos a ondear do outro lado a Union Jack… E, por fim, falta explicar que esta cidade de símbolos tão portugueses fica em África.

Sim, falo de Ceuta, uma das duas cidades espanholas no norte de África (a outra é Melilla).

As parecenças da bandeira e do brasão de Ceuta com os símbolos portugueses são fáceis de explicar — Ceuta foi portuguesa durante algum tempo: entre a Conquista de 1415, que todos conhecemos como tiro de partida dos Descobrimentos, e a Restauração da Independência, quando Ceuta optou por ficar espanhola, opção que Portugal não quis contrariar.

Lembrei-me desta estranha bandeira ao ler, durante as aventuras britânicas que relatei a semana passada, um pequeno livro chamado Worth Dying For: The Power and Politics of Flags, de Tim Marshall.

Sim, parece assunto árido, mas o título é muito verdadeiro: as bandeiras representam ideais ou ilusões pelos quais tanta gente mata e tanta gente morre. Vale a pena saber um pouco mais sobre estes símbolos e o livro diz-nos muito para lá da história desses pedaços de pano: conta-nos algumas das tensões e das narrativas por trás dos problemas que vemos, todos os dias, no telejornal.

A verdade é que o livro nada diz sobre Ceuta. Mas foi desculpa para me recordar dessa viagem que fiz há tantos anos e para falar da mais portuguesa das bandeiras espanholas.

Línguas e portugueses à solta em Inglaterra

Hoje falo de comboios, livros galegos, conversas saborosas, números em romeno e beijos à francesa. Tudo por causa duma viagem a Inglaterra e do que por lá ouvimos.


Estávamos nós numa velha estação de comboios, ao final sereno duma tarde inglesa, cansados de tantas aventuras…

Alto e pára o baile! Esta frase engana o leitor e não é pouco. A estação era inglesa, sim senhora, a tarde era serena… Mas este texto não é um conto. É antes uma pequena conversa sobre línguas latinas.

Pois é: a estação era um apeadeiro pequenino e a tarde não tivera mais aventuras do que aquelas que nos esperam quando levamos os filhos a um pequeno jardim zoológico numa terreola inglesa. (O meu filho fez a mais feliz das caras ao ver um tigre a sério. Ele já tinha visto, mas aos quatro anos conseguimos ver tudo pela primeira vez — várias vezes.)

Já o comboio, o mais romântico dos meios de transporte, longe de ter uma chaminé a fumegar românticos vapores, era eléctrico e a dar para o suburbano, propriedade duma empresa de nome aparvalhado: «Great Northern». Quem terá tido a ideia de chamar a uma empresa de comboios O Grande Nortenho?

(Confesso: torci um pouco a tradução em nome dum vago efeito humorístico. Peço desculpa. Na verdade, aquilo será mais uma abreviatura de A Grande Linha do Norte. Não percebo a mania inglesa de pôr Great em tantos nomes, mas avancemos.)

Pois foi à espera do comboio das 6 da tarde da Grande Linha do Norte,  no apeadeiro de Shepreth, que a minha cunhada me fez uma estranha pergunta.

O que se passava era isto: eu estava a ler um livro. A Zélia e o Simão brincavam na plataforma, a ver se viam o comboio lá ao fundo. O meu irmão lia qualquer coisa no telemóvel. E a minha cunhada embalava a Lilah ao meu lado. Quando passou os olhos pelo livro que eu estava a ler, exclamou: «Mas estás a ler um livro em português?»

Bem, antes de continuar, convém explicar por que razão a minha cunhada achou espantoso eu estar a ler um livro na minha própria língua. A explicação é fácil: ela sabe que, quando vou a Inglaterra, aproveito para ir de malas vazias de livros para ter espaço para o carregamento anual de livros ingleses, que nas livrarias portuguesas os livros ingleses não saem baratos e mandar vir livros também tem o seu quê de caro. Assim, ela está habituada a ver-me por lá a ler os livros que encontro e estranhou ver-me, em Inglaterra, a ler na minha própria língua.

E agora vem a outra surpresa: ela ficou admirada de ler, assim de repente, português — mas, na verdade, eu estava a ler um livro em galego: Papaventos, de Xavier Queipo.

Quando lhe disse que aquilo era galego, a minha cunhada quis olhar com mais atenção. Afinal, nunca tinha visto um livro em galego. Passámos alguns minutos a olhar para a língua.

A ortografia é a oficial, ou seja, não está tão próxima do português como a ortografia reintegracionista. Mas, enquanto na fala, por falta de treino ou desatenção, os portugueses enfiam rapidamente o galego no campo do espanhol (excepto o meu sogro), na escrita, a coisa é diferente: vemos rapidamente como os textos galegos são muito nossos. São tremendamente fáceis de ler. Não há que enganar: mesmo aos olhos de alguém que não se interessa por questões de linguística ibérica, há qualquer coisa de surpreendentemente próxima no galego.

Texto de contracapa do livro.

Comecei a ler o livro porque ando com vontade de conhecer mais literatura galega — o título foi-me sugerido por Fernando Venâncio. E que grande sugestão! Depressa estava a ler não por ser literatura galega, mas por ser um bom livro.


Deixo-vos três razões para ler este livro — há outras, claro:

  1. O livro conta a história dum tradutor que vai ficando cego enquanto escreve a tradução inglesa dum livro português.
  2. O livro que o tradutor tem de traduzir é o Ensaio sobre a Cegueira.
  3. Num livro sobre a cegueira, todos os nossos sentidos ficam bem acordados: cheiramos as refeições que o protagonista cozinha, sentimos nos pés a areia das praias da Califórnia, sentimos nos dedos a beleza de Rose, a mulher luminosa que ele encontra numa escura sala de cinema, com os ouvidos aterrados dos sons do Apocalypse Now — vemos a luz a desaparecer ao longo dos meses em que a tradução e a cegueira avançam.

Existe uma tradução portuguesa deste livro galego sobre a tradução para inglês dum livro português: Bebendo o Mar. Como é mais do que óbvio, nada tenho contra a leitura de traduções. Mas aconselho a leitura da versão original deste livro. Afinal, com um pequeno esforço, sentimos as cócegas das diferenças e surpreendemo-nos com a nossa extraordinária capacidade de ler aquilo que alguns dizem ser outra língua. No fundo, quando lemos em galego sentimos a nossa própria língua a galgar fronteiras. Nas próximas semanas, hei-de deixar aqui mais sugestões de livros galegos, nas várias ortografias que por lá se usam.

Catalães na paragem do autocarro (e «16» em basco)

Embalado por estas conversas sobre línguas ibéricas, no dia seguinte, numa paragem de autocarro, chamei a atenção da Zélia, do Diogo e da Sofia para a conversa de três pessoas que ali estavam ao nosso lado. Não porque tivesse tido um assomo de bisbilhotice, mas porque estavam a falar numa língua de que gosto muito. Disse-lhes, baixinho:

— Estão a falar em catalão!

A minha mulher sorriu, como quem desculpa ao marido um vício privado. A minha cunhada disse-me que nunca tinha ouvido tal língua. Lá lhes fui apontando algumas expressões que estávamos a ouvir: «aquesta nit» («esta noite»), «sisplau» («por favor»), etc.

As línguas são como as cerejas e depressa estávamos a falar do basco, a mais distante das línguas. Contei-lhes como uma vez tinha ido a Donostia-San Sebastián (uso o nome oficial da terra) e, numa estação de serviço, reparei numa frase que dizia em espanhol qualquer coisa como «Nesta estação de serviço é proibido por lei vender bebidas alcoólicas a menores de 16 anos.» Pois, na versão basca, em baixo, a frase começava pelo número: «16». Já agora (fui ver agora), o número 16, em basco, diz-se «hamasei».

Sim, a nossa península é assim: temos o galego e o português que se confundem e depois temos o basco que soa vagamente a japonês (com a diferença de que o japonês parece mais fácil).


Não fique o leitor preocupado: não ando a visitar família em Inglaterra para passar os dias a falar de línguas. Conversámos sobre tudo e nada e é assim que é bom. As conversas são como os livros: ficamos embriagados, fora do mundo, mas ao mesmo tempo lembramo-nos muito bem dos sítios onde estávamos quando tivemos aquela conversa ou quando lemos aquele livro. E há ruas de Cambridge que, para mim, guardam recordações de boas conversas em português.

Primos entre línguas

No meio desta viagem, entre algumas leituras, algum trabalho, muitas conversas, fui reparando na maneira como o meu filho e a prima conversavam. O Simão ia aprendendo umas palavras em inglês, ela insistia em falar em português com ele.

O Simão aproveitou também para ensinar à prima palavras engraçadas como «chichi» e «cocó». São crianças, pois então. E ainda lhe disse que já sabia contar em espanhol, desatando a dizer os números com a voz muito alta e as vogais abertas. Se há coisa que um português aprende depressa é o portunhol.

Percebi ainda, desta vez, que agora eles já os nomes das línguas: os dois acabaram os dias em que estiveram juntos a saber dizer «inglês» e «português» para identificar as duas línguas. Sim, é verdade: em crianças, nós aprendemos a falar uma língua antes de lhe saber o nome.

Uma laranja romena e um beijo francês

Nem só de línguas ibéricas se faz o mundo das línguas latinas, pois claro. Não podemos esquecer o inglês, por exemplo.

Calma, calma: eu sei que é uma língua germânica. Mas é uma língua germânica arraçada de latina. Mas, pronto, deixemo-nos de declarações bombásticas.

Depois de falar do galego, pensemos agora na língua latina mais distante do português.

Numa das noites em que lá estivemos, apareceu para jantar uma amiga deles que é romena.

A certa altura, conversámos sobre algumas palavras que são parecidas entre o romeno e o português. Apesar de serem as duas línguas latinas que estão mais distantes uma da outra, ainda vemos muita coisa de comum se olharmos com atenção.

Basta olhar para os números: «unu, doi, trei, patru, cinci, șase, șapte, opt, nouă, zece». Sim, isto está bem distante do português, principalmente se compararmos com o galego (vou usar a ortografia oficial: «un, dous, tres, catro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez»), mas há ainda muita coisa que nos aproxima, mesmo à distância dum continente.

Há ainda outra coincidência curiosa entre o português e o romeno, não tanto no som ou aspecto das palavras, mas no significado de uma certa palavra muito especial. Dizem-me muitos romenos que a palavra «dor» é uma tradução quase perfeita (ou tão perfeita como pode ser qualquer tradução) da palavra «saudade». Sim, essa mesmo, tão nossa — e tão romena. [Já aqui tinha falado disso.]

Foi então que me lembrei de qualquer coisa que aprendi há uns tempos e pedi à amiga romena do meu irmão e da minha cunhada que dissesse «laranja» em romeno.

E ela disse, um pouco admirada pela pergunta:

— Portucale!

Não é a única língua daquelas paragens onde o nome da fruta lembra aos falantes o nome do nosso país. Assim, a um romeno ou um grego, quando alguém refere Portugal, é bem possível que lhes apareçam laranjas na cabeça. (Lá está: a tradução é sempre possível, mas nunca sabemos aquilo que uma palavra faz a cada leitor.)

Sem suspeitarmos, somos o país das laranjas para muitos europeus mais a leste. Mas esta associação entre um país e alguma coisa à revelia dos próprios habitantes desse país não é caso único: sem terem pedido autorização aos castos franceses, os ingleses associam a França aos beijos mais profundos, chamando-lhes «French kissing». E pronto: haverá melhor maneira de acabar este texto do que a falar de línguas entrelaçadas?

Qual é a mais estranha fronteira da Europa?

Esta semana, na minha crónica no Sapo 24, falo da mais estranha fronteira da Europa — que tem este aspecto:

Leia no Sapo 24.

Aventuras nas escolas portuguesas

Ora, tenho tido uns meses bem agitados por causa dum certo livro. Espero que não se importem que vá contando por aqui algumas dessas aventuras. A semana passada, falei-vos da volta à Galiza. Pois hoje decidi contar-vos o que aconteceu nalgumas escolas portuguesas onde fui falar d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

Nunca pensei gostar tanto, digo-vos. Cada escola é diferente e nunca parece que me estou a repetir porque os olhos que tenho à frente e as perguntas que me fazem raramente são as mesmas. Vou dizer o nome de todas as escolas para agradecer a quem me recebeu tão bem.

Na Escola Secundária Eça de Queirós, assustei-me ao entrar no auditório e ao perceber que teria à minha frente mais de cem alunos — e não uma turma. (Antes de acabar este texto, ainda volto a falar desta escola.)

Na Escola Amália Vaz de Carvalho, fiquei à espera da sessão sozinho numa biblioteca de sonho — quando aparece um aluno e me pergunta se pode tocar piano. Foi assim que, durante uns minutos, me vi transportado para um filme de época ao som dum piano improvável.

Fui ainda à Escola Secundária de Camões, onde um aluno confirmou que o romeno também tem uma palavra que significa «saudade», enquanto outro me perguntou sobre «a origem etimológica dos palavrões», deixando-me atrapalhado.

Também estive na Escola Secundária Marquês de Pombal, onde conversámos muito sobre uma língua falada por 200 000 portugueses e da qual poucos falam.

E na Escola Básica Matias Aires, em Mira-Sintra, onde acabámos a sessão com dois alunos a ler, por sua iniciativa, frases em tupi-guarani.

Fui ainda à Escola Básica Alfredo da Silva, em Albarraque, onde pela primeira vez enfrentei alunos de 9.º ano, que andam às voltas a tentar perceber que futuro devem escolher.

E voltei à minha Escola Secundária de Peniche, onde fiquei de boca aberta e coração apertado com os corredores donde saí no final do século passado — e onde me assustei ao reparar que nenhum daqueles alunos tinha nascido quando eu saí da escola.

Rumo à Trafaria numa manhã de Primavera

Mas hoje queria falar, em representação de todas as outras, da última escola a que fui até agora: a Escola EB 2, 3 da Trafaria, convidado pelas professoras Rosa Guimarães e Carla Valente.

Saí de manhã e lá fiz o percurso contra o trânsito, num dos primeiros dias de verdadeira Primavera deste ano.

Atravesso a ponte e enfio-me na auto-estrada da Costa, mas não vou para a praia. Tento ouvir o melhor possível o GPS do telemóvel, que está ao meu lado, no banco do pendura. Consigo dar com a escola, estaciono e reconheci logo o cheiro a mar, que me deixou com um sorriso no nariz.

Entrei na escola e reparei numa chaminé plantada no meio dos pavilhões…

Confesso: estava num daqueles dias de dor de cabeça e cansaço. Tento ir à casa de banho e a coisa não corre bem, porque não consigo abrir a porta (sou um pouco trapalhão, não sei se já vos tinha dito). Tremo: será que é hoje que uma destas sessões vai correr mal? Vou até à biblioteca com as professoras, muito simpáticas — os alunos vão chegando, a conversar e a olhar para mim como que a tentar avaliar-me.

A professora apresenta-me, os alunos batem as palmas habituais — e quando digo «bom dia» respondem-me todos com um «bom dia» tão sonoro que me deixou estupefacto. Estavam contentes — e a partir daí foi sempre a subir. Durante duas horas, esqueci-me da dor de cabeça.

O estranho caso dos alunos que lêem

Aquilo que ali conversámos fica entre nós, que lá estivemos. Bem, talvez possa contar uma coisita ou outra. Posso contar como, depois de eu dizer que por vezes é mais fácil falar com alguém que não fala a nossa língua do que com um adepto de outro clube, houve um aluno que me obrigou a dizer o meu clube, deixando metade dos alunos aos gritos de excitação e a outra metade a encolher os ombros…

Os alunos ouviram com atenção e fizeram muitas perguntas. Discutimos palavras diferentes e sotaques doutros sítios, as outras maneiras de falar a nossa língua, as histórias de Camões e outros escritores, bem como uma ou outra cena do filme da família Contreiras, que acompanha, no livro, a língua durante 20 séculos. Falámos ainda de outros livros, futebol, tradução, telemóveis (que ficaram lá fora) — e de tantas outras coisas. Imaginámos Camões a aparecer ali tele-transportado do passado e do susto que o poeta iria apanhar por se ver ali na Trafaria sem aviso. E falámos de palavrões (sem dizer um palavrão), para chegarmos à conclusão que há gente que sabe faltar ao respeito sem dizer uma asneira e, por outro lado, há conversas cheias de palavras feias que, no entanto, são mostra de grande amizade. Como já sabemos: é complicado — mas por mais complicado que seja, é importante falar da nossa língua, que nos une a todos e às vezes nos separa, mas nunca deixa de ser uma parte essencial das nossas vidas. Afinal, é difícil haver dia que passe sem que as palavras de alguém nos façam rir. E é só um exemplo…

Não devia, mas quero muito contar uma coisa que derreteu o meu coração de autor recente: as turmas que ali estavam tinham andado a ler A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa, em conjunto, em aulas extraordinárias. Sim, não havia tempo nas aulas de Português, pois têm provas daqui a umas semanas. Mas as professoras tiveram a ideia e os alunos foram aparecendo nessas horas extraordinárias de leitura. Claro que fiquei feliz, mas espero que os leitores do blogue me perdoem o pecado — não é por mim, mas pelo livro e, acima de tudo, por saber que estes alunos do 9.º ano não se importam de passar horas a ler livros sem obrigação. Temos de agradecer às professoras: é delas o trabalho.

Quando terminámos, fomos comer um bolo que a escola preparou para comemorar a semana da leitura. Nesse momento, tive a certeza que ia recordar aquelas horas por muito tempo.

Se escrever não servisse para mais nada, servia pelo menos para isto: conhecer estes miúdos. Apetecia-me saber os nomes deles e agradecer um a um. E apetecia-me conversar ainda mais um pouco. No final, ofereceram-me três excelentes prendas feitas na escola:

Ofereceram-me também o jornal da escola (A Chaminé), onde descobri o que conto já a seguir…

Eça de Queirós na Taberna do Zé da Lídia

Quem já leu sabe que, n’A Incrível História, conto, lá para o final, a história de como, um certo dia, Eça de Queirós comeu um belo prato de amêijoas na Póvoa de Varzim.

É ficção, presumo, embora não possa ter a certeza que a cena não tenha acontecido mesmo. Sim: há coisas que eu pensava ter inventado e, afinal, são bem verdade. Na Escola Eça de Queirós, descobri alunos que tinham vivido uma das cenas ficcionais do livro: encenaram peças de Gil Vicente usando o português de hoje em dia, imitando o nosso grande dramaturgo, que mais não fez que usar o português dos dias dele. E, tal como no livro, nem todas as reacções foram as melhores. Também dessas tensões e conflitos se faz a história da língua.

Mas voltando à mesa do jantar: Eça pode não ter estado à frente dum prato de amêijoas na Póvoa, mas na Trafaria há um restaurante — a Taberna do Zé da Lídia — que, uma vez por mês, em colaboração com a escola, faz uma refeição temática com pratos das obras de Eça. Aqui fica um recorte do jornal da escola:

Podia agora aproveitar para discorrer largamente sobre o estado do ensino, etc. e tal — mas não vou cair nesse erro. Afinal, tive só uma meia-dúzia de sessões com alunos e, por isso, não me parece que saiba mais sobre o estado das escolas do que qualquer outra pessoa. O que sei, simplesmente, é que há alunos e professores que sabem receber muito bem e que gostam muito de ler e conversar — e até gostam de comer bem com Eça à mesa. Chega para ficar com um sorriso de felicidade na boca.

Donald Trump, os portugueses e a ironia desaparecida 

Ora bem, esta semana, para a crónica que escrevo no Sapo 24, escolhi estas sete palavras:

  • Javali
  • Facebook
  • Trump
  • Portugal
  • Vacinas
  • Amigos
  • Ironia

Será que consegui uma crónica com sentido? Diga-me o leitor.

Agora vou fazer algo que não deixa de ser estranho: vou citar não a crónica, mas um parágrafo que cortei ao rever o texto.

«E o que dizer àqueles escritores que nos asseguram que os leitores, há umas décadas, percebiam sempre a ironia — hoje é que não? Ora, deixem-me lá propor uma teoria que talvez seja um tanto ou quanto arriscada: os leitores liam os livros, mas deixavam os comentários para si (ou escrevinhavam qualquer coisa nas margens). Ou seja, o escritor podia passar a vida inteira sem se dar conta de como a ironia daquela passagem em particular, tão óbvia para os dois amigos que leram o livro antes da publicação, passava completamente ao lado da maioria dos leitores. Hoje, o mesmo escritor escreve um pequeno texto no Facebook e vê então, nos comentários, como a ironia é mais difícil de ler do que parecia.»

Quem quiser ler os parágrafos que sobraram da minha fúria cortadora, pode encontrá-los nesta página.

Aventuras de portugueses na Galiza

Começo pela multa que apanhei? Ou pelo homem que acha que o desenrascanço é espanhol? Talvez pelas conversas à mesa? Ou pelo velho galego que tinha Lisboa na cabeça?

A semana passada, andei uns dias a falar d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa em várias cidades da Galiza: Pontevedra, Lugo, Ferrol e Santiago.

Bem, não será bem «andei»: será mais propriamente «andámos»! Sim, porque fui com a minha mulher e o meu filho (que no final da semana já não estranhava nada conversas entre portugueses e galegos) — e estivemos sempre rodeados de boa gente. (Ah, não me posso esquecer que, no primeiro dia, os meus pais deram um saltinho a Pontevedra — que a Galiza é já ali.)

Foram dias muito intensos, com muita conversa e muitos quilómetros. Aprendi muito, claro está. Aprendi, por exemplo, o que são as Escolas Oficiais de Idiomas, escolas públicas onde adultos aprendem línguas estrangeiras — algo que não existe em Portugal. Foi em três dessas escolas que falei — e terminei a tour na livraria Ciranda, em Santiago de Compostela (estas as palavras com que o José Ramom Pichel apresentou o livro). As conversas duraram todas por volta de duas horas, mas passaram num instante — e continuaram à mesa. Foi um prazer.

Pergunto agora: quantos portugueses saberão que há milhares de galegos a aprender português à noite? E quantos adivinhariam que tantos galegos iriam querer falar da língua portuguesa pela noite fora?

Foi muito bom.

Que língua é esta?

Um dos temas de que falámos nas sessões foi a dificuldade que muitos portugueses sentem em distinguir o espanhol do galego. Muitos alunos, que estão a aprender português durante anos, queixam-se disto: chegam a Portugal e, falando galego ou mesmo o português aprendido nas tais Escolas Oficiais de Idiomas, recebem respostas em espanhol.

Em Ferrol, por exemplo, ouvi a incrível história do galego que foi a Portugal e esteve 10 minutos à conversa com um português — com o português a falar espanhol e o galego a falar português.

Mas, enfim, é verdade que um galego a falar galego sem tentar imitar o nosso sotaque vai encontrar uma imensa maioria de portugueses que ouve a língua e a enfia no saco do espanhol. Nós conhecemos bem os vários sotaques da nossa língua, conhecemos o português do Brasil, sabemos até ao que soa um estrangeiro a falar português — mas o galego, por mais próximo que esteja (e está!), não o conhecemos desde crianças. Não estamos habituados. A distância que sentimos tem mais a ver com essa barreira do desconhecimento do que com a distância real entre galego e português.

O sotaque é o suficiente para nos marcar a língua como espanhol, apesar de, se ouvirmos com atenção, repararmos nos artigos tão nossos («o», «a», «os», «as»), nas palavras que nos soam tão próximas, as frases que, na escrita, são percebidas como português ou, pelo menos, português escrito à espanhola.

Sim, eu que tenho esta pancada das línguas, acho que consigo distinguir bem as línguas latinas próximas. Cada um tem as suas manias, não é verdade? Mas também eu me confundo. Não sei se hei-de contar o que se passou… Afinal, portei-me mal.

Será que conto? Será que não conto?

Conto, sim.

Um guarda civil a falar galego

Ora, a certa altura, andava eu contente a conduzir e a conversar pelos verdes campos que vão de Compostela a Lugo, quando vejo um carro a atravessar-se à frente do meu e a pedir-me para fazer o favor de parar à força de sinais de luzes e um imponente «PARE!» no vidro de trás.

Fiquei imediatamente de boca aberta e mãos suadas. O guarda apareceu, simpático, e informou-me que tinha passado por uma zona de 70 km/h à louca velocidade de 90 km/h. Assenti com a cabeça, balbuciei qualquer coisa, fiquei a saber que, «por ser português», teria de pagar ali mesmo 50 euros.

O guarda afastou-se para preencher os documentos e, ao meu lado, o José Ramom Pichel vociferava contra a sorte que nos calhara, secundado pela Zélia.

Eu encolhi os ombros, mas perguntei ao José que história era aquela do «por ser português». Ele também não sabia.

Percebi depois — enquanto os dois guardas, simpáticos, me mostravam a foto do crime — que, por ser estrangeiro, tinha de pagar 50 euros de imediato. A diferença não era o valor, mas o facto de não poder sair dali sem pagar. Respirei fundo: por momentos pensei que Espanha tivesse multas só para portugueses.

Mas porque conto isto aqui? Só por isto: o José Ramom Pichel disse-me, depois, que tinha sido a primeira vez que tinha visto um guarda civil, em serviço, a falar galego. Aliás, o carro que foi multado à nossa frente era de galegos e tudo se passou em espanhol. Pois eu fui multado em galego, «por ser português».

A confissão: eu, nervoso e atrapalhado, não percebi em que língua fui multado. Até eu, louco por estas questões, troco-me todo nisto das línguas próximas se estiver ao lado dum guarda civil.

(O Simão dormia mas, quando soube que tinha sido multado, ralhou comigo.)

A aluna que não sabia o que estava a ouvir

Em Ferrol, tive uma surpresa: apareceram-me lá dois antigos professores de galego da minha faculdade, o Emilio Cambeiro e o Isaac Lourido. O Emilio, no fim, contou-me como uma aluna da FCSH, há uns anos, bateu à porta do gabinete e pediu a medo para falar com ele, mas avisando que não percebia espanhol.

Ele lá lhe explicou que podia falar em galego… E ela assustada, dizia que não, que não percebia nada disso. Ele lá lhe disse que também podia falar em português. Ela sorriu e disse que sim. E lá conversaram durante meia-hora, sem problema nenhum, até ele lhe dizer que tinha estado a falar galego. Ela, peremptória, disse que não, que aquilo era português. Ele insistiu: não! Era mesmo galego…

Também me lembrei do pai da Zélia que, há uns anos, nos disse que, na Televisão da Galiza (que ele vê com gosto), apareciam uns velhotes a falar português. Já aqui contei essa história — mas trago-a de novo para este texto só para vos dizer que, por mais diferenças que se tenham acumulado por várias razões, ainda há gente a falar galego que os portugueses reconhecem como estando a falar a sua língua. E isto é tanto mais espantoso quanto é verdade que desde sempre aprendemos que os espanhóis falam espanhol e ponto final. Nós, portugueses, povo monolingue (dizem), não vemos essas complicações. E mesmo assim o som dum velhote galego a falar ou dum professor que nos tenha dito antes que ia falar português e depois desata a falar galego confunde-nos. Sim, o galego deixa-nos zonzos, porque é tão próximo e, mesmo assim, estranho. Mas depois, claro, entranha-se, como dizia o outro.

(Esta ideia do estranhamento e do entranhamento fui buscar ao texto que Maurício Castro escreveu sobre a sessão em Ferrol.)

A fronteira e o conforto

Bem, indo para lá da língua. Todos sabemos que a fronteira tem a sua importância. A raia divide-nos e já divide há muito tempo. A nossa identidade é portuguesa e não se dilui nem se confunde com as múltiplas identidades galegas. Temos etiquetas diferentes. E há também isto: quando passamos uma fronteira, começamos de imediato a ter atenção às diferenças. A fronteira muda-nos o chip e o que vemos passa a ser espanhol no nosso cérebro. Logo, passa a ser diferente. Reparem: um português que fosse teletransportado num segundo de Santiago para Toledo (por exemplo) veria as diferenças óbvias entre a Galiza e o centro de Espanha e reconheceria que muitas dessas diferenças não existem entre a Galiza e o Minho. Mas um português que vá de carro de Santiago a Toledo nunca passa uma fronteira que saiba reconhecer — logo, não nota as diferenças. Quando passa de Valença para Tui, tem ali as placas a gritar: agora, isto é Espanha. E o nosso cérebro está bem treinado nisto das fronteiras.

Mas a verdade é que uma coisa é a identidade política ou nacional, outra é o conforto cultural que sentimos em certos locais. Como vários galegos me disseram, os galegos podem assumir a sua identidade espanhola (há excepções, claro), mas quase todos se sentem muito confortáveis em Portugal, esse país estrangeiro que está tão próximo — sentem-se bem mais confortáveis do que em certas regiões de Espanha. Esta sensação de conforto não põe em causa a identidade nacional que aprenderam desde crianças: é apenas a realidade das coisas e a realidade dos hábitos e da paisagem que sentimos à nossa volta.

Dizem-me também, claro, que esse conforto é especialmente forte quando estão no Norte. O Sul, com as suas planícies e as suas vogais desaparecidas, é um pouco mais agreste para um galego viajante.

Isto dizem-me os galegos. Já nós, portugueses, reconheçamos ou não as línguas que por lá se falam (e a mistura é tanta que é de facto difícil), também nos sentimos confortáveis na Galiza. Pronto, sei que é exagerado falar nos portugueses em geral. Atrevo-me então a dizer apenas isto: estes três portugueses que por lá andaram sentiram-se confortáveis e muito bem recebidos.

A Galiza tem isto: é tão próxima, mas não deixa de ter as suas diferenças, as suas surpresas. Os telhados negros de Ferrol, por exemplo, ou os nomes dos pratos… Estas diferenças misturadas com uma proximidade estranha provocam-nos e fazem-nos sair do que nos é habitual para depois reencontrar, a cada esquina, qualquer coisa que sentimos como nossa. Ora, sair do nosso país para saber mais sobre nós — haverá melhor definição de «viagem»? Conto dois episódios: o velho que sabia Lisboa de cor — e o famoso desenrascanço… espanhol!

O galego que sabia Lisboa de cor

Numa das manhãs desses dias, fomos os três visitar a Catedral de Santiago. Não há muito a dizer, basta encontrar fotos, não é? Bem, a certa altura um velho galego chega-se ao pé de nós e oferece um pequeno santinho ao Simão — ouvira-nos a falar português e ficou contente. Começou então a dizer, em português, que conhecia bem Lisboa. Começou então a desfiar os vários nomes dos bairros e zonas de Lisboa: «Saldanha», «Cais do Sodré», «Alfama», «Benfica»… Aí, parou e perguntou o clube ao Simão — depois continuou pelo mapa fora… Estávamos já a afastar-nos dele, para não incomodar mais a fila de turistas atrás de nós, e ainda ouvíamos da boca sorridente do velho os nomes (agora já fora de Lisboa): «Carnaxide», «Oeiras», «Cascais»…

Ele ficou felicíssimo por falar de Lisboa — e por falar com portugueses. E nós felizes ficámos, depois de passar pela surreal experiência de caminhar pela Catedral de Santiago, por baixo de imponentes órgãos e turíbulos fumegantes, a ouvir alguém a gritar: «Cruz Quebrada!», «Bobadela!», «Picheleira!».

O desenrascanço é espanhol? Ou será galego?

Nisto das diferenças e semelhanças… Durante aqueles dias, tinha o carro num estacionamento ao pé do sítio onde ficámos. Numa das noites, não consegui entrar com o bilhete de vários dias que tinha comprado. Tive de tirar o ticket habitual e fui à cabine pedir para resolver o problema (não queria ter de pagar duas vezes, já bastavam as multas).

O homem riu-se porque, pelos vistos, é habitual — testou o meu bilhete, viu que afinal estava bom. Agora, só era preciso convencer o sistema que eu tinha entrado com o bilhete certo. Ele pega num pedaço de metal, vai à cancela de entrada no estacionamento, põe o meu bilhete, vê a cancela a levantar-se, passa com o pedaço de metal no sensor — e a cancela lá baixa, convencida que eu tinha acabado de passar com o meu carro.

O homem riu-se, contente, e disse-me: «Isto é resolver problemas à espanhola!»

Eu ri-me também e lá lhe fui dizendo que também era assim que resolvíamos os problemas em Portugal. Até temos uma palavra, não é verdade? O famoso desenrascanço… Imagino que alguns leitores estão já a correr para ir buscar o mosquete que têm debaixo da cama, a pensar que até o desenrascanço os espanhóis nos querem conquistar! Bem, descansem: este é um desenrascanço muito galego

Neve em Santiago

Já aqui contei como nunca vi nevar em Portugal (e não foi por falta de tentar). Neve já vi na Serra da Estrela. Mas nevar, o verbo, só vi na Galiza e em Inglaterra.

Pois, mais uma vez o feitiço se confirmou: vi nevar em Santiago e vi nevar na auto-estrada entre Ferrol e Santiago. Foi também ali, na Galiza, que o Simão viu nevar pela primeira vez.

Mas, nesse percurso nocturno de auto-estrada debaixo duma espécie de nevão, lembrei-me daquele velho mito de que os esquimós têm não sei quantas palavras para descrever a neve — e que, supostamente, isso tem um impacto profundo na sua visão do mundo. Não é bem assim… Como McWhorter explica bem em The Language Hoax, a verdade é um pouco mais banal e ao contrário: é a visão do mundo que tem um impacto profundo na língua de cada um… Pois não é curioso que sejam os esquimós a ter tantos nomes para a neve?

Enfim, a verdade é que essa ideia de que a língua nos limita o olhar é um pouco exagerada. Nós, que certamente não temos muitos nomes para neve, conseguimos ver claramente as diferenças entre os flocos que nos caem no carro. Ou seja, não precisamos de palavras diferentes para perceber as diferentes neves. E, de facto, nessa viagem, vi neve grossa, quase granizo, outra neve mais leve, a cair levemente, como quem chamava por mim, uma neve misturada com chuva que se tornava mais branca ou mais transparente conforme o quilómetro… A natureza parecia querer brindar-me com uma demonstração em cinco minutos de todos os tipos de precipitação. Eu agradeci, mas, a certa altura, a coisa começou a aquecer, que é como quem diz, a arrefecer. Teria de parar o carro? A Zélia, o Simão e eu lá seguíamos calados, cansados e felizes, mas um pouco preocupados. Por fim, chegámos bem, a neve foi meiguinha. (Ah, sim: os esquimós, foi-se a ver, e não tinham assim tantos nomes para a neve.)

Tudo isto para vos dizer que continuo convencido que as línguas não representam «a alma dum povo»: sim, conseguimos descrever muitos conceitos que são importantes para nós usando uma só palavra, mas para lá desse facto banal, não somos assim ou assado por causa das regras da nossa língua, que devem muito mais ao acaso dos milhões de conversas ao longo dos séculos do que a qualquer alma nacional depurada em livros de gramática.

Mas — e isto é importante — a nossa língua é uma casa onde nos sentimos bem, onde conversamos, onde lemos e escrevemos, onde vivemos com todos os que falam essa mesma língua. E não há dúvida que, na Galiza, nos sentimos em casa quando falamos da nossa língua.

Imensos amigos

Íamos a chegar a Santiago numa destas noites, quando encontro alguém que conheço: o Suso. Cumprimentamo-nos pela janela do carro, alegres pelo encontro imprevisto. Quando fecho o vidro, o Simão está baralhado, pois não está habituado a que encontremos pessoas conhecidas tão longe de casa.

— É nosso amigo?

— Sim, é.

Fez um grande sorriso e disse:

— Nós temos imensos amigos!

E, sim, ali na Galiza senti-me entre amigos — e isso foi o maior prazer deste cirandar pela Galiza a falar de livros e línguas. Obrigado a todos os professores e alunos que me receberam e a todos os leitores que foram à Ciranda. E ao José Ramom e à Sabela, que nos receberam tão bem, e ao Valentim, que organizou a loucura que foi esta semana: muito, muito obrigado!

Sete palavras entre a Holanda e espermatozóides

Na minha crónica desta semana no Sapo 24 («Sete palavras entre a Holanda e espermatozóides») falo de como não estamos livres de entrar em guerra com a Letónia — nem de encontrar um bom livro ao ler um texto qualquer na Internet.

E ainda tento adivinhar quem será o próximo primeiro-ministro…

As crónicas anteriores estão nesta página.

Volta à Galiza com a Língua Portuguesa

Durante a próxima semana, irei andar pela Galiza a falar sobre a língua e a apresentar os meus dois livros: Doze Segredos da Língua Portuguesa e A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. Quem leu os livros, sabe que têm muito a ver com a Galiza — que é um dos segredos da língua portuguesa e cenário de alguns episódios da Incrível História.

A Galiza é também a terra de muitos amigos e óptimos leitores e é sempre um prazer passar a fronteira e continuar a falar na nossa língua.

As datas são:

  • EOI de Pontevedra, dia 20, 19:00
  • EOI de Lugo, dia 21, 20:00
  • EOI de Ferrol, dia 22, 19:00
  • Livraria Ciranda, Santiago de Compostela, dia 23, 20:00

Será uma semana de muitas palavras (e muitos quilómetros). Mal posso esperar para conversar com todos os interessados na nossa língua — e claro que também vou aproveitar para passear um pouco por essas terras galegas de que gosto tanto.

Já agora, os «culpados» por estas visitas são o Valentim Fagim, que teve a ideia e pôs tudo em marcha, a Loaira, da Livraria Ciranda (aproveitem para visitar a página desta livraria dedicada aos livros portugueses no coração de Santiago de Compostela), e ainda os professores de Português Maria J. Sola Bravo (EOI de Pontevedra), Maurício Castro (EOI de Ferrol) e Uxio Outeiro (EOI de Lugo). Muito, muito obrigado!

O dia em que descobri o British Museum no meio de Berlim

Já fui ao British Museum umas duas vezes — pois a verdade é que nunca gostei tanto de o visitar como quando o descobri, a semana passada, em Berlim.

Sim, exacto: descobri o Museu Britânico numa livraria no meio da capital alemã.

Explico-me. Comprei este livro, que comecei de imediato a devorar: A History of the World in 100 Objects. 

Foi escrito por Neil MacGregor, director do museu, e começou como programa de rádio na BBC.

O livro é bem melhor do que a capa discreta parece anunciar. Vemos a história do mundo à nossa frente e passamos páginas ansiosos por saber que delícias se escondem nos capítulos seguintes.

Confesso: aprendi muito mais a ler o livro do que a ver as peças no museu, no meio de multidões impacientes e o cansaço dos passeios londrinos.

Quer isso dizer que não vale a pena visitar o museu? Pelo contrário. O livro tem este defeito: ficamos desejosos de voltar a Londres e olhar para estes 100 objectos com outros olhos. Por outras palavras, é livro para ficar bem mais caro do que parece…

(Agora só falta descobrir um bom livro para ficar a conhecer Berlim em Lisboa. Alguma sugestão?)

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