Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

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Donald Trump, os portugueses e a ironia desaparecida 

Ora bem, esta semana, para a crónica que escrevo no Sapo 24, escolhi estas sete palavras:

  • Javali
  • Facebook
  • Trump
  • Portugal
  • Vacinas
  • Amigos
  • Ironia

Será que consegui uma crónica com sentido? Diga-me o leitor.

Agora vou fazer algo que não deixa de ser estranho: vou citar não a crónica, mas um parágrafo que cortei ao rever o texto.

«E o que dizer àqueles escritores que nos asseguram que os leitores, há umas décadas, percebiam sempre a ironia — hoje é que não? Ora, deixem-me lá propor uma teoria que talvez seja um tanto ou quanto arriscada: os leitores liam os livros, mas deixavam os comentários para si (ou escrevinhavam qualquer coisa nas margens). Ou seja, o escritor podia passar a vida inteira sem se dar conta de como a ironia daquela passagem em particular, tão óbvia para os dois amigos que leram o livro antes da publicação, passava completamente ao lado da maioria dos leitores. Hoje, o mesmo escritor escreve um pequeno texto no Facebook e vê então, nos comentários, como a ironia é mais difícil de ler do que parecia.»

Quem quiser ler os parágrafos que sobraram da minha fúria cortadora, pode encontrá-los nesta página.

Aventuras de portugueses na Galiza

Começo pela multa que apanhei? Ou pelo homem que acha que o desenrascanço é espanhol? Talvez pelas conversas à mesa? Ou pelo velho galego que tinha Lisboa na cabeça?

A semana passada, andei uns dias a falar d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa em várias cidades da Galiza: Pontevedra, Lugo, Ferrol e Santiago.

Bem, não será bem «andei»: será mais propriamente «andámos»! Sim, porque fui com a minha mulher e o meu filho (que no final da semana já não estranhava nada conversas entre portugueses e galegos) — e estivemos sempre rodeados de boa gente. (Ah, não me posso esquecer que, no primeiro dia, os meus pais deram um saltinho a Pontevedra — que a Galiza é já ali.)

Foram dias muito intensos, com muita conversa e muitos quilómetros. Aprendi muito, claro está. Aprendi, por exemplo, o que são as Escolas Oficiais de Idiomas, escolas públicas onde adultos aprendem línguas estrangeiras — algo que não existe em Portugal. Foi em três dessas escolas que falei — e terminei a tour na livraria Ciranda, em Santiago de Compostela (estas as palavras com que o José Ramom Pichel apresentou o livro). As conversas duraram todas por volta de duas horas, mas passaram num instante — e continuaram à mesa. Foi um prazer.

Pergunto agora: quantos portugueses saberão que há milhares de galegos a aprender português à noite? E quantos adivinhariam que tantos galegos iriam querer falar da língua portuguesa pela noite fora?

Foi muito bom.

Que língua é esta?

Um dos temas de que falámos nas sessões foi a dificuldade que muitos portugueses sentem em distinguir o espanhol do galego. Muitos alunos, que estão a aprender português durante anos, queixam-se disto: chegam a Portugal e, falando galego ou mesmo o português aprendido nas tais Escolas Oficiais de Idiomas, recebem respostas em espanhol.

Em Ferrol, por exemplo, ouvi a incrível história do galego que foi a Portugal e esteve 10 minutos à conversa com um português — com o português a falar espanhol e o galego a falar português.

Mas, enfim, é verdade que um galego a falar galego sem tentar imitar o nosso sotaque vai encontrar uma imensa maioria de portugueses que ouve a língua e a enfia no saco do espanhol. Nós conhecemos bem os vários sotaques da nossa língua, conhecemos o português do Brasil, sabemos até ao que soa um estrangeiro a falar português — mas o galego, por mais próximo que esteja (e está!), não o conhecemos desde crianças. Não estamos habituados. A distância que sentimos tem mais a ver com essa barreira do desconhecimento do que com a distância real entre galego e português.

O sotaque é o suficiente para nos marcar a língua como espanhol, apesar de, se ouvirmos com atenção, repararmos nos artigos tão nossos («o», «a», «os», «as»), nas palavras que nos soam tão próximas, as frases que, na escrita, são percebidas como português ou, pelo menos, português escrito à espanhola.

Sim, eu que tenho esta pancada das línguas, acho que consigo distinguir bem as línguas latinas próximas. Cada um tem as suas manias, não é verdade? Mas também eu me confundo. Não sei se hei-de contar o que se passou… Afinal, portei-me mal.

Será que conto? Será que não conto?

Conto, sim.

Um guarda civil a falar galego

Ora, a certa altura, andava eu contente a conduzir e a conversar pelos verdes campos que vão de Compostela a Lugo, quando vejo um carro a atravessar-se à frente do meu e a pedir-me para fazer o favor de parar à força de sinais de luzes e um imponente «PARE!» no vidro de trás.

Fiquei imediatamente de boca aberta e mãos suadas. O guarda apareceu, simpático, e informou-me que tinha passado por uma zona de 70 km/h à louca velocidade de 90 km/h. Assenti com a cabeça, balbuciei qualquer coisa, fiquei a saber que, «por ser português», teria de pagar ali mesmo 50 euros.

O guarda afastou-se para preencher os documentos e, ao meu lado, o José Ramom Pichel vociferava contra a sorte que nos calhara, secundado pela Zélia.

Eu encolhi os ombros, mas perguntei ao José que história era aquela do «por ser português». Ele também não sabia.

Percebi depois — enquanto os dois guardas, simpáticos, me mostravam a foto do crime — que, por ser estrangeiro, tinha de pagar 50 euros de imediato. A diferença não era o valor, mas o facto de não poder sair dali sem pagar. Respirei fundo: por momentos pensei que Espanha tivesse multas só para portugueses.

Mas porque conto isto aqui? Só por isto: o José Ramom Pichel disse-me, depois, que tinha sido a primeira vez que tinha visto um guarda civil, em serviço, a falar galego. Aliás, o carro que foi multado à nossa frente era de galegos e tudo se passou em espanhol. Pois eu fui multado em galego, «por ser português».

A confissão: eu, nervoso e atrapalhado, não percebi em que língua fui multado. Até eu, louco por estas questões, troco-me todo nisto das línguas próximas se estiver ao lado dum guarda civil.

(O Simão dormia mas, quando soube que tinha sido multado, ralhou comigo.)

A aluna que não sabia o que estava a ouvir

Em Ferrol, tive uma surpresa: apareceram-me lá dois antigos professores de galego da minha faculdade, o Emilio Cambeiro e o Isaac Lourido. O Emilio, no fim, contou-me como uma aluna da FCSH, há uns anos, bateu à porta do gabinete e pediu a medo para falar com ele, mas avisando que não percebia espanhol.

Ele lá lhe explicou que podia falar em galego… E ela assustada, dizia que não, que não percebia nada disso. Ele lá lhe disse que também podia falar em português. Ela sorriu e disse que sim. E lá conversaram durante meia-hora, sem problema nenhum, até ele lhe dizer que tinha estado a falar galego. Ela, peremptória, disse que não, que aquilo era português. Ele insistiu: não! Era mesmo galego…

Também me lembrei do pai da Zélia que, há uns anos, nos disse que, na Televisão da Galiza (que ele vê com gosto), apareciam uns velhotes a falar português. Já aqui contei essa história — mas trago-a de novo para este texto só para vos dizer que, por mais diferenças que se tenham acumulado por várias razões, ainda há gente a falar galego que os portugueses reconhecem como estando a falar a sua língua. E isto é tanto mais espantoso quanto é verdade que desde sempre aprendemos que os espanhóis falam espanhol e ponto final. Nós, portugueses, povo monolingue (dizem), não vemos essas complicações. E mesmo assim o som dum velhote galego a falar ou dum professor que nos tenha dito antes que ia falar português e depois desata a falar galego confunde-nos. Sim, o galego deixa-nos zonzos, porque é tão próximo e, mesmo assim, estranho. Mas depois, claro, entranha-se, como dizia o outro.

(Esta ideia do estranhamento e do entranhamento fui buscar ao texto que Maurício Castro escreveu sobre a sessão em Ferrol.)

A fronteira e o conforto

Bem, indo para lá da língua. Todos sabemos que a fronteira tem a sua importância. A raia divide-nos e já divide há muito tempo. A nossa identidade é portuguesa e não se dilui nem se confunde com as múltiplas identidades galegas. Temos etiquetas diferentes. E há também isto: quando passamos uma fronteira, começamos de imediato a ter atenção às diferenças. A fronteira muda-nos o chip e o que vemos passa a ser espanhol no nosso cérebro. Logo, passa a ser diferente. Reparem: um português que fosse teletransportado num segundo de Santiago para Toledo (por exemplo) veria as diferenças óbvias entre a Galiza e o centro de Espanha e reconheceria que muitas dessas diferenças não existem entre a Galiza e o Minho. Mas um português que vá de carro de Santiago a Toledo nunca passa uma fronteira que saiba reconhecer — logo, não nota as diferenças. Quando passa de Valença para Tui, tem ali as placas a gritar: agora, isto é Espanha. E o nosso cérebro está bem treinado nisto das fronteiras.

Mas a verdade é que uma coisa é a identidade política ou nacional, outra é o conforto cultural que sentimos em certos locais. Como vários galegos me disseram, os galegos podem assumir a sua identidade espanhola (há excepções, claro), mas quase todos se sentem muito confortáveis em Portugal, esse país estrangeiro que está tão próximo — sentem-se bem mais confortáveis do que em certas regiões de Espanha. Esta sensação de conforto não põe em causa a identidade nacional que aprenderam desde crianças: é apenas a realidade das coisas e a realidade dos hábitos e da paisagem que sentimos à nossa volta.

Dizem-me também, claro, que esse conforto é especialmente forte quando estão no Norte. O Sul, com as suas planícies e as suas vogais desaparecidas, é um pouco mais agreste para um galego viajante.

Isto dizem-me os galegos. Já nós, portugueses, reconheçamos ou não as línguas que por lá se falam (e a mistura é tanta que é de facto difícil), também nos sentimos confortáveis na Galiza. Pronto, sei que é exagerado falar nos portugueses em geral. Atrevo-me então a dizer apenas isto: estes três portugueses que por lá andaram sentiram-se confortáveis e muito bem recebidos.

A Galiza tem isto: é tão próxima, mas não deixa de ter as suas diferenças, as suas surpresas. Os telhados negros de Ferrol, por exemplo, ou os nomes dos pratos… Estas diferenças misturadas com uma proximidade estranha provocam-nos e fazem-nos sair do que nos é habitual para depois reencontrar, a cada esquina, qualquer coisa que sentimos como nossa. Ora, sair do nosso país para saber mais sobre nós — haverá melhor definição de «viagem»? Conto dois episódios: o velho que sabia Lisboa de cor — e o famoso desenrascanço… espanhol!

O galego que sabia Lisboa de cor

Numa das manhãs desses dias, fomos os três visitar a Catedral de Santiago. Não há muito a dizer, basta encontrar fotos, não é? Bem, a certa altura um velho galego chega-se ao pé de nós e oferece um pequeno santinho ao Simão — ouvira-nos a falar português e ficou contente. Começou então a dizer, em português, que conhecia bem Lisboa. Começou então a desfiar os vários nomes dos bairros e zonas de Lisboa: «Saldanha», «Cais do Sodré», «Alfama», «Benfica»… Aí, parou e perguntou o clube ao Simão — depois continuou pelo mapa fora… Estávamos já a afastar-nos dele, para não incomodar mais a fila de turistas atrás de nós, e ainda ouvíamos da boca sorridente do velho os nomes (agora já fora de Lisboa): «Carnaxide», «Oeiras», «Cascais»…

Ele ficou felicíssimo por falar de Lisboa — e por falar com portugueses. E nós felizes ficámos, depois de passar pela surreal experiência de caminhar pela Catedral de Santiago, por baixo de imponentes órgãos e turíbulos fumegantes, a ouvir alguém a gritar: «Cruz Quebrada!», «Bobadela!», «Picheleira!».

O desenrascanço é espanhol? Ou será galego?

Nisto das diferenças e semelhanças… Durante aqueles dias, tinha o carro num estacionamento ao pé do sítio onde ficámos. Numa das noites, não consegui entrar com o bilhete de vários dias que tinha comprado. Tive de tirar o ticket habitual e fui à cabine pedir para resolver o problema (não queria ter de pagar duas vezes, já bastavam as multas).

O homem riu-se porque, pelos vistos, é habitual — testou o meu bilhete, viu que afinal estava bom. Agora, só era preciso convencer o sistema que eu tinha entrado com o bilhete certo. Ele pega num pedaço de metal, vai à cancela de entrada no estacionamento, põe o meu bilhete, vê a cancela a levantar-se, passa com o pedaço de metal no sensor — e a cancela lá baixa, convencida que eu tinha acabado de passar com o meu carro.

O homem riu-se, contente, e disse-me: «Isto é resolver problemas à espanhola!»

Eu ri-me também e lá lhe fui dizendo que também era assim que resolvíamos os problemas em Portugal. Até temos uma palavra, não é verdade? O famoso desenrascanço… Imagino que alguns leitores estão já a correr para ir buscar o mosquete que têm debaixo da cama, a pensar que até o desenrascanço os espanhóis nos querem conquistar! Bem, descansem: este é um desenrascanço muito galego

Neve em Santiago

Já aqui contei como nunca vi nevar em Portugal (e não foi por falta de tentar). Neve já vi na Serra da Estrela. Mas nevar, o verbo, só vi na Galiza e em Inglaterra.

Pois, mais uma vez o feitiço se confirmou: vi nevar em Santiago e vi nevar na auto-estrada entre Ferrol e Santiago. Foi também ali, na Galiza, que o Simão viu nevar pela primeira vez.

Mas, nesse percurso nocturno de auto-estrada debaixo duma espécie de nevão, lembrei-me daquele velho mito de que os esquimós têm não sei quantas palavras para descrever a neve — e que, supostamente, isso tem um impacto profundo na sua visão do mundo. Não é bem assim… Como McWhorter explica bem em The Language Hoax, a verdade é um pouco mais banal e ao contrário: é a visão do mundo que tem um impacto profundo na língua de cada um… Pois não é curioso que sejam os esquimós a ter tantos nomes para a neve?

Enfim, a verdade é que essa ideia de que a língua nos limita o olhar é um pouco exagerada. Nós, que certamente não temos muitos nomes para neve, conseguimos ver claramente as diferenças entre os flocos que nos caem no carro. Ou seja, não precisamos de palavras diferentes para perceber as diferentes neves. E, de facto, nessa viagem, vi neve grossa, quase granizo, outra neve mais leve, a cair levemente, como quem chamava por mim, uma neve misturada com chuva que se tornava mais branca ou mais transparente conforme o quilómetro… A natureza parecia querer brindar-me com uma demonstração em cinco minutos de todos os tipos de precipitação. Eu agradeci, mas, a certa altura, a coisa começou a aquecer, que é como quem diz, a arrefecer. Teria de parar o carro? A Zélia, o Simão e eu lá seguíamos calados, cansados e felizes, mas um pouco preocupados. Por fim, chegámos bem, a neve foi meiguinha. (Ah, sim: os esquimós, foi-se a ver, e não tinham assim tantos nomes para a neve.)

Tudo isto para vos dizer que continuo convencido que as línguas não representam «a alma dum povo»: sim, conseguimos descrever muitos conceitos que são importantes para nós usando uma só palavra, mas para lá desse facto banal, não somos assim ou assado por causa das regras da nossa língua, que devem muito mais ao acaso dos milhões de conversas ao longo dos séculos do que a qualquer alma nacional depurada em livros de gramática.

Mas — e isto é importante — a nossa língua é uma casa onde nos sentimos bem, onde conversamos, onde lemos e escrevemos, onde vivemos com todos os que falam essa mesma língua. E não há dúvida que, na Galiza, nos sentimos em casa quando falamos da nossa língua.

Imensos amigos

Íamos a chegar a Santiago numa destas noites, quando encontro alguém que conheço: o Suso. Cumprimentamo-nos pela janela do carro, alegres pelo encontro imprevisto. Quando fecho o vidro, o Simão está baralhado, pois não está habituado a que encontremos pessoas conhecidas tão longe de casa.

— É nosso amigo?

— Sim, é.

Fez um grande sorriso e disse:

— Nós temos imensos amigos!

E, sim, ali na Galiza senti-me entre amigos — e isso foi o maior prazer deste cirandar pela Galiza a falar de livros e línguas. Obrigado a todos os professores e alunos que me receberam e a todos os leitores que foram à Ciranda. E ao José Ramom e à Sabela, que nos receberam tão bem, e ao Valentim, que organizou a loucura que foi esta semana: muito, muito obrigado!

Sete palavras entre a Holanda e espermatozóides

Na minha crónica desta semana no Sapo 24 («Sete palavras entre a Holanda e espermatozóides») falo de como não estamos livres de entrar em guerra com a Letónia — nem de encontrar um bom livro ao ler um texto qualquer na Internet.

E ainda tento adivinhar quem será o próximo primeiro-ministro…

As crónicas anteriores estão nesta página.

Volta à Galiza com a Língua Portuguesa

Durante a próxima semana, irei andar pela Galiza a falar sobre a língua e a apresentar os meus dois livros: Doze Segredos da Língua Portuguesa e A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. Quem leu os livros, sabe que têm muito a ver com a Galiza — que é um dos segredos da língua portuguesa e cenário de alguns episódios da Incrível História.

A Galiza é também a terra de muitos amigos e óptimos leitores e é sempre um prazer passar a fronteira e continuar a falar na nossa língua.

As datas são:

  • EOI de Pontevedra, dia 20, 19:00
  • EOI de Lugo, dia 21, 20:00
  • EOI de Ferrol, dia 22, 19:00
  • Livraria Ciranda, Santiago de Compostela, dia 23, 20:00

Será uma semana de muitas palavras (e muitos quilómetros). Mal posso esperar para conversar com todos os interessados na nossa língua — e claro que também vou aproveitar para passear um pouco por essas terras galegas de que gosto tanto.

Já agora, os «culpados» por estas visitas são o Valentim Fagim, que teve a ideia e pôs tudo em marcha, a Loaira, da Livraria Ciranda (aproveitem para visitar a página desta livraria dedicada aos livros portugueses no coração de Santiago de Compostela), e ainda os professores de Português Maria J. Sola Bravo (EOI de Pontevedra), Maurício Castro (EOI de Ferrol) e Uxio Outeiro (EOI de Lugo). Muito, muito obrigado!

O dia em que descobri o British Museum no meio de Berlim

Já fui ao British Museum umas duas vezes — pois a verdade é que nunca gostei tanto de o visitar como quando o descobri, a semana passada, em Berlim.

Sim, exacto: descobri o Museu Britânico numa livraria no meio da capital alemã.

Explico-me. Comprei este livro, que comecei de imediato a devorar: A History of the World in 100 Objects. 

Foi escrito por Neil MacGregor, director do museu, e começou como programa de rádio na BBC.

O livro é bem melhor do que a capa discreta parece anunciar. Vemos a história do mundo à nossa frente e passamos páginas ansiosos por saber que delícias se escondem nos capítulos seguintes.

Confesso: aprendi muito mais a ler o livro do que a ver as peças no museu, no meio de multidões impacientes e o cansaço dos passeios londrinos.

Quer isso dizer que não vale a pena visitar o museu? Pelo contrário. O livro tem este defeito: ficamos desejosos de voltar a Londres e olhar para estes 100 objectos com outros olhos. Por outras palavras, é livro para ficar bem mais caro do que parece…

(Agora só falta descobrir um bom livro para ficar a conhecer Berlim em Lisboa. Alguma sugestão?)

Porta para o exterior: um documentário galego sobre a nossa língua

Para todos aqueles que, como eu, gostam de falar sobre a língua portuguesa: vale muito a pena ver este documentário de José Ramom Pichel e Sabela Fernández — é extraordinário ver como a nossa língua pode ser uma porta para o exterior ao dispor dos galegos.

Já agora, nós, aqui a sul, também podemos responder abrindo um pouco as janelas e reparando no que dizem os nossos amigos a norte.

Porta para o exterior from axouxerestream on Vimeo.

Uma nota pessoal: sempre que me encontro com o José, já sei que vou ter uma conversa inesquecível, cada um na sua forma peculiar de falar a língua que chamamos nossa. Para lá das saborosas diferenças de sotaque e sintaxe, é muito bom encontrar alguém tão curioso e entusiasmado com algumas das minhas pancadas pessoais: as línguas, os países, Portugal, a Galiza, a sociolinguística (!) — mas também livros, informática, cidades e tantas outras coisas. Obrigado, José!

O soldado romano, a rapariga celta e outros escândalos

nature-184391_1920Vamos então viajar no tempo, à procura da origem da nossa língua. A nossa primeira paragem será nesses tempos em que ainda não havia romanos na nossa península. Já por cá tinham passado fenícios, gregos e todos os outros povos de que ouvimos falar na escola – mas romanos? Ainda não.

Nesse tempo, ali na zona noroeste da Península Ibérica, onde hoje encontramos a Galiza e o Norte de Portugal, viviam povos celtas, que falavam línguas que hoje não conseguimos reconstruir. Talvez a melhor forma de ter uma vaga ideia de como seriam esses falares seja olhar para as línguas celtas que ainda hoje existem, por exemplo na Irlanda, no País de Gales e na Escócia.

Talvez. Porque, para dizer a verdade, a única certeza que temos é que essas línguas desapareceram – não sem deixar alguns vestígios…

(Este é o primeiro capítulo do livro A Incrível História Secreta da Língua PortuguesaA primeira versão do texto foi publicada neste blogue no dia 14 de Dezembro de 2015. O livro foi publicado em Janeiro de 2017 pela Guerra e Paz, com revisão de Inês Figueiras.)

O Império Romano chega ao fim do mundo

Queria agora que imaginassem uma família celta em particular: os Kontebria – ou Contreiras.

Muitos séculos depois, alguns deles ainda vivem na mesma zona, em redor de Braga, entre Guimarães e Tui. No século antes do ano 1, esses Kontebria eram celtas, da tribo dos Galécios, em território onde o Império Romano ainda não chegara.

Ana e Rui Contreiras – perdoem-me o anacronismo dos nomes, mas é mais fácil contar a história assim – são um jovem casal, que se conheceu num mercado ao pé de Braga. Vivem em Citânia de Briteiros e são muito celtas, muito jovens e muito ruivos – como era comum entre os Galécios. Têm uma religião antiga, que os cristãos viriam a chamar pagã. Aquele casal, luminoso e um pouco malandro, prefere adorar o deus Lug, o deus do Sol, que lhes ilumina a pele enquanto se beijam, entre juras de amor na sua língua, ao pé dum riacho qualquer ali para os lados de Guimarães.

Um dia, chegam à aldeia os primeiros rumores das legiões romanas a rondar a zona. Ana está grávida do primeiro filho e, como todas as mães, fica um pouco preocupada. Ouvem-se rumores, é certo – mas será só quando, três anos depois, já têm dois filhos em casa que o brilho das armaduras imperiais surge nas ruas daquela terra. Estamos a falar do fim do mundo, dos cantos mais recônditos da Europa. O Império demorou a chegar a estes recantos – mas chegou.

A população passa por tempos duros de saques e violações: guerra é guerra, mesmo para os civilizados Romanos. Ana, Rui e os filhos escapam ao pior. Ficam escondidos uns tempos na casa duns primos, perto do que viria a ser Braga.

Quando voltam, já o Império se instalou, para não mais dali sair durante muitos séculos.

Os Romanos trazem com eles documentos escritos numa língua que os Celtas não compreendem: o latim da escrita. Ora, este é um latim que nem os soldados falam. Como sabem, o latim clássico tinha palavras como equus, enquanto o latim popular tinha palavras como caballum. Eram duas línguas próximas, mas não exactamente iguais. A verdade é que não foi o refinado latim dos escritores romanos que deu origem à nossa língua. Foi, pelo contrário, a língua dos soldados e do povo, uma língua que ninguém escrevia e muitos desprezavam.

Foi desse falar pouco sofisticado que surgiu o português – mas tenhamos calma que o caminho ainda será longo.

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A língua de casa e a língua da rua

Dois anos depois da chegada das primeiras tropas, com Ana a amamentar um terceiro filho, a população da terra já se desenrasca a comunicar com os invasores.

Os Romanos dizem umas palavras em celta só para se fazerem entender e os Galécios aprendem a falar esse latim de rua – primeiro só umas palavras, depois frases inteiras e, em breve, já conversam sem muita dificuldade.

Tudo é natural: se pensarem bem, os seres humanos comunicam com mais facilidade do que julgamos – para aprender a falar uma língua, não é preciso aulas formais e muitos anos: a melhor maneira é mesmo ter necessidade ou muita vontade. E gente com quem conversar, claro está. Vejamos, agora, o que acontecia na casa de Ana e Rui. Falam todos, entre eles, na língua de sempre, que hoje já não conhecemos: a tal língua celta sem nome.

Na rua, todos falam cada vez mais latim. Não só os soldados e os colonos, mas os próprios celtas, quando, por exemplo, compram e vendem alguma coisa. Afinal, os soldados e colonos ricos são bons clientes.

A população torna-se bilingue sem dificuldade.

*

Uma má notícia: o terceiro filho de Ana e Rui acabou por morrer, como era tão normal nesses tempos. A família junta-se toda ao pé da porta do casal. Chegam-se dois soldados romanos.

– O que é que estes querem? – pergunta o pai de Rui ao filho, que chora abraçado a Ana.

– Tem calma, pai! – O que se passa aqui? – grita Cláudio, um oficial romano que vem a liderar a ronda de três homens.

Marta, uma tia de Ana, diz-lhe: – Meu senhor, morreu um bebé, o mais lindo que já vi. O oficial romano resmunga qualquer coisa, mas sente um aperto no coração, a pensar no seu filho, que ficara na sua terra, uma aldeia perto de Roma. Como estaria ele?

– Os meus sentimentos, minha senhora. Peço apenas que não perturbem tanto a rua.

– Assim faremos. Esta conversa foi em duas línguas: os celtas falaram na sua língua entre todos, a bichanar contra esses invasores, com a hostilidade espicaçada pela tristeza do que acontecera, e Marta falou num latim esforçado ao oficial romano. Choravam em celta, explicavam-se em latim.

A tudo isto assistiam Artur e Inês, os irmãos do bebé que morreu.

Como conquistar uma celta

Estas duas crianças já aprendem as duas línguas, como acontece em qualquer família de emigrantes de hoje em dia – e, tal e qual como nas famílias de emigrantes, a língua dos pais é a menos importante socialmente: é a língua que falam em casa e não usam para mais nada.

Sim, é verdade: nesses primeiros anos depois da invasão, os celtas do Noroeste da Península são como emigrantes na sua própria terra.

Artur e Inês, a viver agora no seio maternal do Império, sabem que o latim é a língua do futuro. Ainda compreendem a língua dos pais e usam-na para falar com eles. No entanto, com os filhos que hão de nascer, já só falarão no latim popular que usam no dia-a-dia.

Ou seja, os netos de Ana e Rui serão já latinos sem tirar nem pôr.

Agora, reparem: tal como acontece quando aprendemos uma língua estrangeira, falamo-la com o sotaque da nossa língua materna. Também Ana e Rui começaram a falar latim com o sotaque próprio da sua língua celta. Foi com esse sotaque que os filhos, Artur e Inês, aprenderam latim. Ou seja, o latim foi aprendido pelas populações ibéricas, mas não sem que as línguas anteriores influenciassem a forma de falar e de aprender esse mesmo latim. Afinal, não havia escolas para todos nem professores de bom latim: havia o dia-a-dia e a língua aprendida na rua.

Artur e Inês falam, então, um latim com sotaque, mas este latim com sotaque é a língua nativa deles. Em breve, o que era uma língua estrangeira, trazida pelos soldados, passou a ser a língua nativa da população da região.

O latim popular com sotaque celta falado na Galécia, há quase 2000 anos, é a semente da nossa língua.

galizaverde

*

Deixem-me agora contar uma história curiosa, que se passou com Inês Contreiras, a filha de Ana e Rui.

Durante a adolescência, sem a memória das invasões, Inês e o irmão tornaram-se muito amigos de alguns soldados e colonos romanos.

Esta proximidade não era bem-vista pelas gentes da terra – mas os jovens já não queriam saber: tinham vivido desde sempre com os Romanos e estes não lhes metiam medo.

Também os romanos já tinham perdido algum do desprezo pela população nativa, que não parece assim tão primitiva a estes colonos que mal se lembram de Roma – afinal, agora, os celtas até já falam latim.

Com mais ou menos preconceitos, viviam naturalmente uns com os outros.

Um dos amigos romanos de Inês chamava-se Pedro. Era um soldado que tinha sido destacado para a zona ainda com os seus quinze anos. Agora, já achava que aquela região era a sua terra. Uma região de cavalos selvagens a correr por entre as árvores das florestas, à beira dum mar revolto que entrava pela terra adentro nas belas rias galegas. Sim, esta era a sua terra sem tirar nem pôr – até porque estava apaixonado por Inês.

Pedro não sabia como se aproximar daquela mulher linda, de olhos azuis, e sempre um pouco distante, como todas as celtas. Sabia que não se podia precipitar. Nem os seus amigos romanos gostavam daquela situação, nem a família dela iria aceitar tudo aquilo sem pestanejar. Qualquer passo em falso e perderia todas as hipóteses.

Nas suas longas conversas ao fim do dia, o soldado brincava com o sotaque de Inês. Inês fingia-se irritada, mas não se importava. Era muito bom ter aquela atenção do romano. Falavam sempre em latim, claro, embora Inês ainda falasse em celta com os seus pais – o celta era a língua da casa, da família, dos mais próximos.

Pois, um dia, Pedro chega-se ao pé de Inês e diz-lhe:

Bore da! [1]

Ou seja, «bom dia» na língua celta. Tinha uma pronúncia um pouco difícil, mas bem perceptível.

Inês fica parada, de boca aberta. Pedro sorri e começa a conversar nessa língua desprezada pelos Romanos. Diz-lhe que esteve a aprender durante muito tempo, com uns amigos da terra, para poder saber como falar na língua em que ela sonhava.

Ela continua de boca aberta e ele fala cada vez mais depressa. Está nervoso. Não sabe se fez bem.

No fim, ela manda-o calar-se, dá-lhe um beijo e quando terminam diz-lhe:

Rwy’n dy garu di!

Casaram-se algum tempo depois, segundo a religião celta, mas respeitando também os ritos romanos.

O sotaque da Galécia nas ruas de Roma

Anos depois, Pedro levou Inês, numa viagem de meses, a visitar Roma. Depois de abraçar a mãe, que não o via há muito tempo, ouviu a senhora, ainda a olhar de lado para a estranha mulher que vinha com o filho, a dizer:

– Mas que sotaque é esse, meu filho? Ficou admiradíssimo por saber que, orgulhoso soldado do Império, já falava com sotaque galécio.

Inês riu-se muito, nesse dia – e aproveitou para dizer que estava grávida.

O primeiro filho nasceu em casa dos pais dele e a viagem de regresso foi adiada alguns meses, para que o bebé crescesse um pouco.

Voltaram, então, à Galécia. Os filhos de ambos já só aprenderam latim, embora ainda ouvissem os pais a falar celta em certas noites – para dizer a verdade, ainda aprenderam umas quantas palavras da boca dos avós – e, entre os amigos, ainda circulavam velhos palavrões, que os pais não sabiam que os filhos também conheciam.

Os primos, filhos de Artur, que se casara com uma celta como ele, também já só falavam latim. Houve famílias em que tudo isto demorou mais tempo, mas poucas gerações depois já a língua celta estava quase esquecida.

Muitos anciãos criticavam os jovens por desistirem tão facilmente da velha língua dos deuses celtas – os jovens encolhiam os ombros e brincavam em latim.

Houve ali, se virem bem, uma espécie de traição linguística. Mas todos os povos, mais tarde ou mais cedo, passam por isso. As línguas são vítimas de traição, mas não nos esqueçamos que as línguas não existem por si, fora das pessoas que as falam – e a essas pessoas, às vezes, interessa mudar de língua. Foi assim com os Celtas – e foi assim com muitos outros povos ao longo dos milénios.

Apesar dessa «traição», a língua celta do povo da Galécia não ficou totalmente esquecida. Há quem diga que foi essa língua que levou a que, em galego e em português, as palavras que, em latim, começavam por «pl», «cl» e «fl» se tenham transformado em palavras começadas por «ch». Exemplos? A «pluvia» latina deu a nossa «chuva». O verbo «clamare» deu o nosso «chamar». A «flama» latina veio a desembocar na nossa «chama».

É difícil saber quais, mas a verdade é que esses falares celtas já perdidos deixaram alguns traços e, ainda hoje, quando falamos o nosso português, bem latino e bem moderno, ouvimos ecos já muito sumidos do que diziam os celtas nesse dealbar do primeiro milénio.

Quem diria a esses jovens, a falar latim com o estranho sotaque da Galécia, sob o olhar reprovador dos velhos celtas, que a sua nova língua ainda viria a ecoar noutros continentes, mas com uns travos da língua dos seus avós?

O nascimento da nossa língua

GallaeciaSerá então que foi assim que nasceu a nossa língua? Tudo depende da forma como queremos dividir a história das línguas. Estes celtas falavam línguas anteriores, os romanos falavam latim – ninguém se lembrou um dia de inventar uma língua de raiz.

Mas julgo ser natural olhar para este encontro do latim com as florestas da Galécia como a origem distante da língua que falamos. Foi aí que o latim popular – a matéria-prima de que é feito, em grande parte, o português – deu de caras com o primeiro molde que lhe veio a esculpir as feições: as línguas dos povos que já por cá andavam.

Essa matéria-prima ainda há-de passar por muitos outros moldes e será ainda salpicada de muitas outras matérias até chegar à forma que tem hoje – forma essa que continua a mudar, pois nunca chegamos ao ponto onde podemos dizer que uma língua está acabada. Continua sempre a mudar, sempre a surpreender-nos.

Ora, mas a verdade é que, nesses primeiros séculos, por entre as rias e as florestas do Noroeste da Península, já falávamos um latim diferente, ao jeito da Galécia.

A nossa língua dava os primeiros passos.

[1] Sei que não é o ideal, mas usei o galês como substituto da língua celta desta gente ibérica de há muitos séculos. Digamos que foi o celta que tinha mais à mão.

Cenas dos próximos capítulos

A história secreta da língua mal começou: nos capítulos seguintes, veremos como um dos descendentes dos Contreiras vai levar uma mensagem de D. Afonso Henriques até um amigo perdido em Al-Uxbuna; um dos netos conhecerá D. Dinis, outro será inimigo de Gil Vicente — e ainda veremos Camões à bulha por Lisboa, um brasileiro a viver o Grande Terramoto, Eça à conversa na Póvoa… E, por fim, chegaremos a estes tempos de blogues e mensagens electrónicas, em que ainda falamos essa língua que deu os primeiros passos nessas conversas entre soldados e celtas, no início do primeiro milénio.

Tudo isto está no livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa, à venda nas livrarias (ou aqui).

Ensinar português castiço em Itália (por Anabela Ferreira)

Este blogue — já aqui o disse — leva-me a encontros muito interessantes. Há poucas semanas, recebi uma mensagem de uma leitora que anda há vários anos a ensinar a nossa língua: Anabela Ferreira, professora na Universidade de Bolonha. Perguntei-lhe se não gostaria de escrever um pequeno texto para sabermos todos como é ensinar português a italianos. O resultado está já a seguir.


Ensinar português castiço em Itália

Anabela Ferreira (Forlì, 2017)

Quando desembarquei em Itália com armas e bagagens, entre as quais a minha almofada preferida e a máquina de escrever elétrica que o meu pai me tinha oferecido (duas coisas absolutamente fundamentais para quem vai viver para o estrangeiro!) no dia 25 de julho de 1990, um dia depois da data histórica, nunca teria imaginado que me iria divertir assim tanto. Nunca teria pensado que além de vir a ensinar a nossa magna língua aos italianos, iria acabar por ser tradutora, lexicógrafa, escritora, divulgadora da cultura portuguesa, cozinheira, atriz, etc. e tal. Bom, mas estou a começar pelo fim — e isso não está certo.

Ensinar em Itália para um estrangeiro não é fácil nem agora nem o foi antes, ou durante a reforma universitária seguida daquela da escola, e que me apanhou em cheio. Eu aliás pensava que fosse mais fácil mas não era.

Fresca de licenciatura com os resultados publicados no dia 24 de julho (aqui está a referência à data história e não àquela da avenida), no dia seguinte já cá estava. Cheguei cheia de conceitos didáticos e conceções do ensino ideal, e acabei por começar a ensinar inglês e francês comercial numa escola particular, dando aulas ao final da tarde e à noite. Não foi fácil, compreende-se, ensinar coisas que nunca tinha estudado, numa língua que não era a minha, apesar dos extraordinários cinco anos de estudo afincado no Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, onde aliás só voltei a entrar no passado mês de novembro de 2016, e com muitíssima emoção, para falar de um gastrónomo italiano de quem traduzi para português a sua obra-prima.

Passei os meus primeiros dez anos italianos a ensinar em escolas particulares, dando aulas em casa, traduzindo documentos para o tribunal e manuais técnicos, enquanto esperava que chegasse a minha hora de poder entrar na universidade italiana. E assim foi. Só que estávamos mesmo no meio da reforma universitária (ainda não se tratava do Processo de Bolonha, não, essa apanhei-a depois) — e assim passei mais dez anos da minha vida como precária, como professora contratada, até que me apercebi que não iria aguentar a situação por muito mais tempo, ou seja, levantar-me às cinco e meia da manhã, apanhar o comboio para poder estar na aula da Universidade de Bolonha às oito e meia, fresca como uma rosa para ensinar (todos os anos o programa e a cadeira eram diferentes) coisas interessantes a mais de 200 alunos e em duas faculdades diferentes. Foram anos fantásticos, os quais irão ficar para sempre no meu coração, por entre colegas maravilhosos com os quais aprendi muito, e alunos que ainda hoje me honram com a sua amizade. Alunos que hoje são meus amigos inclusive no Facebook, onde continuo a seguir a vida deles, por entre casamentos, alguns divórcios, e os filhos que já vão tendo.

Até que finalmente me decidi a escolher apenas uma das universidades, e hoje ensino apenas naquela que forma tradutores e intérpretes, com ainda mais estudantes do que tinha antes mas todos extraordinários. Acho que me divirto muito, pois até temos um grupo de teatro há oito anos e fazemos espetáculos musicais apenas em português. Ah, sim, continuo precária, ainda não sou efetiva, mas acho que um dia irei chegar lá.

Agora já falo melhor italiano, talvez demais até, e de certeza já não me irá acontecer uma peripécia igual àquela que me tinha acontecido logo no primeiro ano letivo da escola particular onde ensinava inglês e francês comercial. Tinha acabado de entrar, ao final da tarde, para dar a minha aula. Ainda não tinha chegado mais ninguém, e notei logo que a escola tinha sido assaltada pois no chão tinha encontrado aquilo a que nós chamamos, muito simplesmente, um pé-de-cabra. Telefonei logo para os carabinieri tentando explicar o ocorrido mas não me compreendiam, pois eu afirmava de pés juntos, que os ladrões tinham entrado com um pé-de-cabra! Só que em italiano não tem sentido pois diz-se piede di porco, ou seja, pé-de-porco!

Ecco, as línguas muito próximas têm destas coisas, e os trocadilhos também provocados pelos falsos amigos — pus-me a estudar este fenómeno com dedicação e divertimento. Eis alguns deles: tasca que em italiano significa bolso, cantina que é a adega, caldo que significa quente, depressa que não é rápido mas deprimida, dispensa que é a sebenta, squisito que não é o nosso esquisito mas, pelo contrário, significa delicioso, viola que é uma cor, o roxo, vila que é uma moradia, sem esquecer testa que significa cabeça, ou provincia que é uma divisão administrativa, isto é, corresponde ao nosso distrito. Mas há muitos mais. E assim se pode ver que andam para aí muitas línguas traiçoeiras.

Acabei por ter de publicar, por este e outros motivos, o livrinho 366 bons motivos para conhecer Portugal e aprender português para ver se esclarecia algumas coisas, como por exemplo que o português não é igual ao espanhol (!!) e que falar português castiço não é mais difícil do que o brasileiro, só porque o dialeto genovês tem uma cantilena igual ao português do Brasil!

Mas a coisa que mais me entristece é o hábito de se dizer um famoso dito italiano: fare il portoghese. É o nome que se dá a quem entra sem pagar num lugar, como por exemplo no cinema ou no estádio, ou anda de autocarro sem pagar o bilhete. Desde que vivo em Itália, inúmeras foram as vezes que já expliquei o motivo deste dito, escrevendo até para os jornais, dizendo que não são os portugueses que não pagam mas os romanos que se fizeram passar por lusitanos, aquando em 1514, o rei D. Manuel tinha enviado a Roma uma comitiva de cerca de 140 pessoas para trazerem uns presentes ao Papa Leão X, entre os quais um elefante, recordado até numa das obras de José Saramago. Mas não há maneira…

Bom, concluindo, ensinar português em Itália dá trabalho mas é fantástico. Os alunos universitários estudam muito e através das teses que elaboram, descubro sempre coisas que não sabia sobre o meu próprio país. Um país que pouco estima, aprecia e apoia os professores espalhados por este mundo fora, que com abnegação e teimosia tentam divulgar a própria língua e cultura como embaixadores voluntários de um país do qual nunca se esquecem. E para não me esquecer, criei um site — Lisboa-Forlì — para festejar, juntamente com todos os italianos interessados (e são muitos), os primeiros dez anos do ensino da língua portuguesa na universidade de Forlì.

Cinco prazeres da cidade do Porto

Uma amiga minha pediu-me algumas sugestões sobre o Porto. Porquê eu, que não sou de lá? Porque por vezes tenho de lá passar uns dias. Chega para me armar em guia? Claro que não. Mas também não gosto de dizer que não aos amigos e, assim, tentei escrevinhar cinco prazeres da cidade, assim de repente — mesmo sabendo que, em viagem, o melhor plano é ir sem grandes planos.

Confesso: já há uns tempos que lá não vou. Serve assim este exercício também para matar um pouco das saudades que já tenho da cidade.

Ora bem, dito isto, aqui ficam cinco prazeres da cidade do Porto. Há muitos outros, claro está…

  1. Andar pela cidade. Ir à Rua de Santa Catarina, passar pelos Aliados, perdermo-nos pela cidade. Uma cidade como o Porto é para se descobrir à sorte, que é quase sempre a melhor maneira de viajar.
  2. A livraria Lello. Já começa a soar muito a cliché, eu sei, mas não é por muitos dizerem o mesmo que se torna mentira: é uma livraria linda. E até tem livros, vejam lá!
  3. Passear na Foz. O mar mais escuro e intenso do que outras cidades mais a sul. Muito, muito bom. A pé ou de bicicleta — ou até, não havendo alternativa, de carro. E então estar parado uns bons minutos a ver os navios, lá ao fundo.
  4. Fazer um cruzeiro no Douro. Turista que é turista tem de fazer este cruzeiro, não? Não faz mal, faz parte e ninguém se arrepende, que eu saiba.
  5. Passear na Ribeira. É preciso ter cuidado com as armadilhas de turistas. Mas tem de ser — e, depois, claro também isto tem de ser: ir até Gaia e olhar para o Porto ao anoitecer.

Tudo isto é giro, mas uma cidade descobre-se a sério doutra maneira: ter coisas para fazer, ir às compras, trabalhar — estar na cidade não para ver a cidade para viver na cidade. É assim que se descobrem os verdadeiros prazeres do Porto e de qualquer cidade. Sei disso tudo: mas esta foi só uma tentativa desesperada de encontrar sugestões para um fim-de-semana — dois dias que servem para pouco, é verdade, mas é o que temos.

Ajudem-me, leitores do Porto, por favor! O que sugerem para quem vai à cidade durante dois míseros dias?

A língua portuguesa e eu (por Serge Lunin)

Este blogue já me trouxe algumas surpresas muito agradáveis. Uma delas foi esta: descobri Serge Lunin, tradutor e historiador ucraniano que se interessa muito pela língua portuguesa — e, no seu país, tem de viver algumas das questões que abordo por aqui de forma muito próxima e intensa. Desafiei-o a escrever um texto sobre o seu interesse pelo português e sobre como é viver num país com duas línguas. Aqui está o resultado, traduzido, a pedido de Serge Lunin, por Ivan Mestre. É um texto que fala dos sons do português aos ouvidos dum falante de russo, do bilinguismo por que Portugal já passou, da forma como as línguas podem estar ligadas a profundos conflitos nacionais… O texto original está no final, bem como uma pequena autobiografia do autor. [MN]


A língua portuguesa e eu

Serge Lunin
Traduzido por Ivan Mestre.

O português entrou na minha vida por um mero acaso, após comprar um manual de português de 1963 para autodidatas a um alfarrabista. Na altura, o português europeu não era ensinado na União Soviética, e ainda faltava um ano para o golpe de Estado no Brasil. Por isso, ao referir a palavra “escada”, o autor ensinava a pronúncia “izcada”, e só numa nota mencionava que em Portugal se pronunciava como “escada”.

Após a Revolução dos Cravos a situação passou a ser a oposta. Obtive outro manual com a versão europeia, mas comprei ambos os livros já na Ucrânia independente, quando estudava na universidade e recebia uma bolsa de 5 dólares por mês. Na altura não podia permitir-me o luxo de ter Internet ou de viajar para a Europa. Na televisão passavam telenovelas brasileiras traduzidas, já sobre Portugal não sabia quase nada.

Sabia que precisava de fazer alguns esforços. Em Kharkov há uma grande biblioteca científica e lá encontrei um curso audiovisual de português de Antonio Fornazaro, composto por quatro cassetes e um manual. Pela primeira vez ouvi como falavam os portugueses: a sua forma de falar era surpreendentemente agradável. O português do Brasil agrada-me menos.

Em geral, as nossas línguas soam de forma muito semelhante, tal como muitas vezes afirmam as pessoas que não sabem nem russo nem português.

Desde então passaram muitos anos. Há muito que vejo as notícias da RTP ou TVI pela Internet. No ano passado ganhei o concurso de tradução amador “Por Outras Palavras” da Universidade de Lisboa, e finalmente falei com portugueses pessoalmente. Visitei Portugal, aluguei um apartamento em Lisboa e passeei nos seus arredores. Em Portugal está-se muito bem, e se pudesse, ficava muito mais que 9 dias.

O português também me foi útil quando decidi aprender francês, visto que ambas as línguas têm muito em comum. Agora estou a pensar no espanhol, embora já há muito tempo que consigo entender frases simples sem as traduzir (obviamente que nem todas).

Há um ano e meio chegou-me informação sobre uma página da história portuguesa, que por aqui ninguém conhece. Acontece que, em tempos, Portugal foi governado por reis espanhóis e nessa altura as pessoas instruídas falavam nas duas línguas (para além do latim). Comecei a pesquisar a questão ao ler a história da língua portuguesa em russo e ao consultar materiais na Internet em inglês. Mas só em português, espanhol e francês é que existem trabalhos detalhados sobre este tópico. Ainda bem que não me limitei ao inglês!

Na Internet encontrei artigos de Ana Isabel Buescu [http://www.fcsh.unl.pt/faculdade/docentes/aib] e outros especialistas (tive a sorte de poder falar com ela e com mais outros dois pessoalmente em Lisboa). De seguida li a tradução portuguesa do trabalho de Pilar Vázquez Cuesta, que é o único que explora esse tema. O livro foi-me enviado de Portugal por um amigo meu.

Eis o que descobri:  o rei João IV publicou um livro em espanhol depois de ter subido ao trono e quando liderava a guerra de restauração da independência. O poeta Jerónimo Baía elogiava o seu filho, Afonso VI, pelas vitórias sobre os espanhóis… em espanhol. Nas peças de Gil Vicente e Pedro Salgado, uma das personagens falava em português, enquanto a outra respondia em espanhol…

Porque me interessei tanto por isto? Estas situações de bilinguismo são normais na Ucrânia. Falo em russo, mas posso mudar para o ucraniano quando é mais apropriado, visto que as duas línguas são tão semelhantes entre si como o português e o espanhol. Frequentemente na televisão ou em apresentações de livros as pessoas conversam nas duas línguas simultaneamente. Alguns dos escritores de expressão ucraniana mostram as personagens que falam russo de forma negativa, tal como o dramaturgo Simão Machado fazia.

Não duvido que alguns portugueses se possam rir de mim, dizendo que só noto tal semelhança porque vivo na Ucrânia. Para Portugal tudo isto são águas passadas, mas aqui está em jogo o bem-estar de muitos milhões. A guerra no Leste da Ucrânia já se prolonga há três anos. A minha cidade não foi muito afectada. Apenas uma vez ouvi disparos, e de outra vez houve a explosão de uma granada, mas as cidades mais a sul não têm tido tal sorte.

Em ambos os exércitos fala-se o russo frequentemente. A diferença reside no facto de que, no exército ucraniano, todos entendem ucraniano e muitos falam nesta língua. Entre os que vieram da Rússia para combater na nossa terra ninguém entende o ucraniano e alguns odeiam-no.

O conflito entre as duas línguas dura há 25 anos, desde a independência da Ucrânia. Agora tornou-se mais exacerbado, porque os que justificam a invasão por parte da Rússia com a defesa das pessoas de expressão russa (eu, por exemplo, sou uma delas) dão uma boa desculpa para os que odeiam a língua russa proporem leis que tornam a minha vida ainda mais difícil.

Todos os dias no Facebook e noutros sítios centenas de pessoas discutem acesamente o conflito linguístico. Infelizmente, na Ucrânia desconhecem a experiência dos outros países, em que existem problemas semelhantes. As emoções acabam por afastar qualquer desejo de estudar a história de outros países e procurar analogias.

É daí que surge a minha vontade de fazer alguma coisa para abrir os olhos das pessoas. Decidi fazer uma coletânea de autores da Península Ibérica sobre a situação linguística em Portugal nos séculos XV – XVIII, e já escrevi um artigo sobre o tema para o site Historians, onde publico artigos sobre a história da Ucrânia.

Eu próprio consigo traduzir do português para o russo e para o ucraniano. Do espanhol e do francês terei que procurar tradutores. As editoras ucranianas já demonstraram interesse no tema, mas se ninguém lhes der um subsídio, infelizmente, nada feito. Publicar livros não é nada fácil na Ucrânia.


Serge Lunin

«Vivo na cidade ucraniana de Kharkov (Carcóvia), onde nasci. Sou historiador e tradutor. Entre outros livros traduzi de inglês para russo The Gates of Europe: A History of Ukraine de Serhii Plokhy, professor de Harvard, que gostaria de recomendar a todos. Traduzi do ucraniano Vale Frio, memórias de um rebelde camponês (nacionalista) que guerreara contra os comunistas no ano 1920. Para tal, tive de restaurar o texto original que fora adulterado por várias pessoas. Compus também um comentário abrangente. No ano passado, publiquei um artigo sobre a primeira tradução ucraniana de Clarice Lispector. Comparando trechos do texto original da Hora da Estrela, de uma das traduções inglesas e da tradução russa (não muito boa), mostrei que o livro fora na verdade traduzido de russo. Como podem ver, gosto da história, das línguas estrangeiras e de chatear os outros.»


Португальский язык и я

Сергей Лунин

Португальский вошёл в мою жизнь случайно — я купил за полдоллара у букиниста самоучитель 1963 года. Европейский португальский в Советском Союзе тогда не преподавали, а до переворота в Бразилии оставался ещё год. Поэтому автор учил произношению «искада» и только в примечании упоминал, что в Португалии говорят «ишкада».

После Революции гвоздик всё стало ровно наоборот — у меня есть и другой советский учебник, рассчитанный на европейский вариант. Но купил эти книги я уже в независимой Украине, когда учился в университете и получал стипендию 5 долларов в месяц. Тогда я не мог позволить себе ни Интернет, ни поездки в Европу. По телевидению показывали бразильские сериалы в переводе, о Португалии же я не знал почти ничего.

Надо было приложить лишь немного усилий. В Харькове есть крупная научная библиотека и там нашёлся курс Антонию Форназару: четыре кассеты и учебник. Я впервые услышал, как говорят португальцы — их речь оказалась на удивление приятной на слух. Бразильский португальский мне нравится меньше.

Вообще, наши языки звучат очень похоже, как время от времени проговариваются люди, что не знают ни русского, ни португальского.

С тех пор прошло много лет. Я давно уже смотрю по Интернету новости RTP или TVI. В прошлом году победил в любительском конкурсе переводов Лиссабонского университета «Иными словами / Por outras palavras» и впервые поговорил с португальцами лично. В этом году впервые побывал в Португалии, снял квартиру в Лиссабоне, повидал и окрестности столицы. В Португалии очень хорошо, и если бы я мог, то оставался бы там не 9 дней, а намного дольше.

Пригодился мне португальский и когда я решил учить французский — нашлось много похожего. Теперь подумываю об испанском, хотя простые фразы по-испански давно уже могу понять и без перевода (конечно же, не все).

Полтора года назад мне попались сведения о странице португальской истории, которая здесь никому не известна. Оказалось, когда-то королями Португалии были испанские короли, а образованные люди писали на обоих языках (и ещё латыни). Я стал изучать этот вопрос: прочёл историю португальского языка на русском, посмотрел кое-что в сети по-английски. Но по-настоящему серьёзные труды есть только по-португальски, по-испански и по-французски. Как хорошо, что я не ограничился только английским языком!

В Интернете нашлись статьи Аны Изабел Буэшку и других учёных (с ней и ещё двумя мне повезло поговорить лично в Лиссабоне). Затем я прочёл в португальском переводе труд Пилар Васкес Куэсты — единственную книгу на эту тему. Мне прислал её друг из Португалии.

И вот что я узнал: Жуан IV издал фолиант по-испански, уже когда был королём и вёл войну за восстановление независимости. Поэт Жерониму Баия восхвалял его сына, Альфонса VI, за победы над испанцами — тоже по-испански. В пьесах Жила Висенте и Педру Салгаду один персонаж произносил реплику по-португальски, другой отвечал по-испански…

Почему это так меня увлекло? Такие ситуации — обычное дело в Украине. Я говорю по-русски, но могу перейти на украинский, когда это уместнее, ведь языки отличаются друг от друга так же, как испанский от португальского. Часто на телевидении или на презентации книги люди ведут беседу на обоих языках одновременно. Кое-кто из украиноязычных писателей делает отрицательных персонажей русскоязычными — подобно тому, как поступал драматург Симан Машаду.

Не сомневаюсь, что некоторые португальцы посмеются надо мной и скажут, что такое сходство я замечаю только потому, что живу в Украине. Для Португалии всё это — древняя история, но здесь на кону стоит благополучие многих миллионов. Уже три года на Востоке Украины идёт война. Мой город она затронула чуть-чуть — один раз я слышал выстрелы, один раз — взрыв гранаты. Городам южнее так не повезло.

В обеих армиях часто говорят по-русски. Отличие в том, что в рядах украинской армии все понимают украинский и многие говорят на нём. Среди тех, кто явился на нашу землю из России, украинский никто не понимает и кое-кто его ненавидит.

Конфликт между двумя языками длится все 25 лет независимости Украины. Теперь он обострился — ведь те, кто оправдывает вторжение из России защитой русскоязычных, вроде меня, дают хороший предлог ненавистникам русского языка предложить законы, которые сделают мою жизнь труднее.

Каждый день на Фейсбуке и в других местах сотни людей горячо спорят о языковом конфликте. К сожалению, опыт других стран, где есть подобные проблемы, в Украине почти не знают. Впрочем, эмоции отбивают желание разбираться в истории других стран и отыскивать аналогии.

Вот откуда желание сделать хоть что-нибудь, чтоб у людей открылись глаза. Я решил сделать сборник статей авторов с Пиренейского полуострова о языковой ситуации в Португалии в XV–XVIII веках. И написал уже блог на эту тему для сайта Historians, где публикую статьи по истории Украины.

С португальского и на русский, и на украинский я могу перевести сам, для испанского и французского найду переводчиков. Украинские издательства проявили интерес к моей идее, но если никто не даст им гранта, сборника, увы, не будет. Издавать книги в Украине — дело нелегкое.

Fontes das imagens: http://allcastle.info/ e http://mykharkov.info/.

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