Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

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Ensinar português castiço em Itália (por Anabela Ferreira)

Este blogue — já aqui o disse — leva-me a encontros muito interessantes. Há poucas semanas, recebi uma mensagem de uma leitora que anda há vários anos a ensinar a nossa língua: Anabela Ferreira, professora na Universidade de Bolonha. Perguntei-lhe se não gostaria de escrever um pequeno texto para sabermos todos como é ensinar português a italianos. O resultado está já a seguir.


Ensinar português castiço em Itália

Anabela Ferreira (Forlì, 2017)

Quando desembarquei em Itália com armas e bagagens, entre as quais a minha almofada preferida e a máquina de escrever elétrica que o meu pai me tinha oferecido (duas coisas absolutamente fundamentais para quem vai viver para o estrangeiro!) no dia 25 de julho de 1990, um dia depois da data histórica, nunca teria imaginado que me iria divertir assim tanto. Nunca teria pensado que além de vir a ensinar a nossa magna língua aos italianos, iria acabar por ser tradutora, lexicógrafa, escritora, divulgadora da cultura portuguesa, cozinheira, atriz, etc. e tal. Bom, mas estou a começar pelo fim — e isso não está certo.

Ensinar em Itália para um estrangeiro não é fácil nem agora nem o foi antes, ou durante a reforma universitária seguida daquela da escola, e que me apanhou em cheio. Eu aliás pensava que fosse mais fácil mas não era.

Fresca de licenciatura com os resultados publicados no dia 24 de julho (aqui está a referência à data história e não àquela da avenida), no dia seguinte já cá estava. Cheguei cheia de conceitos didáticos e conceções do ensino ideal, e acabei por começar a ensinar inglês e francês comercial numa escola particular, dando aulas ao final da tarde e à noite. Não foi fácil, compreende-se, ensinar coisas que nunca tinha estudado, numa língua que não era a minha, apesar dos extraordinários cinco anos de estudo afincado no Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, onde aliás só voltei a entrar no passado mês de novembro de 2016, e com muitíssima emoção, para falar de um gastrónomo italiano de quem traduzi para português a sua obra-prima.

Passei os meus primeiros dez anos italianos a ensinar em escolas particulares, dando aulas em casa, traduzindo documentos para o tribunal e manuais técnicos, enquanto esperava que chegasse a minha hora de poder entrar na universidade italiana. E assim foi. Só que estávamos mesmo no meio da reforma universitária (ainda não se tratava do Processo de Bolonha, não, essa apanhei-a depois) — e assim passei mais dez anos da minha vida como precária, como professora contratada, até que me apercebi que não iria aguentar a situação por muito mais tempo, ou seja, levantar-me às cinco e meia da manhã, apanhar o comboio para poder estar na aula da Universidade de Bolonha às oito e meia, fresca como uma rosa para ensinar (todos os anos o programa e a cadeira eram diferentes) coisas interessantes a mais de 200 alunos e em duas faculdades diferentes. Foram anos fantásticos, os quais irão ficar para sempre no meu coração, por entre colegas maravilhosos com os quais aprendi muito, e alunos que ainda hoje me honram com a sua amizade. Alunos que hoje são meus amigos inclusive no Facebook, onde continuo a seguir a vida deles, por entre casamentos, alguns divórcios, e os filhos que já vão tendo.

Até que finalmente me decidi a escolher apenas uma das universidades, e hoje ensino apenas naquela que forma tradutores e intérpretes, com ainda mais estudantes do que tinha antes mas todos extraordinários. Acho que me divirto muito, pois até temos um grupo de teatro há oito anos e fazemos espetáculos musicais apenas em português. Ah, sim, continuo precária, ainda não sou efetiva, mas acho que um dia irei chegar lá.

Agora já falo melhor italiano, talvez demais até, e de certeza já não me irá acontecer uma peripécia igual àquela que me tinha acontecido logo no primeiro ano letivo da escola particular onde ensinava inglês e francês comercial. Tinha acabado de entrar, ao final da tarde, para dar a minha aula. Ainda não tinha chegado mais ninguém, e notei logo que a escola tinha sido assaltada pois no chão tinha encontrado aquilo a que nós chamamos, muito simplesmente, um pé-de-cabra. Telefonei logo para os carabinieri tentando explicar o ocorrido mas não me compreendiam, pois eu afirmava de pés juntos, que os ladrões tinham entrado com um pé-de-cabra! Só que em italiano não tem sentido pois diz-se piede di porco, ou seja, pé-de-porco!

Ecco, as línguas muito próximas têm destas coisas, e os trocadilhos também provocados pelos falsos amigos — pus-me a estudar este fenómeno com dedicação e divertimento. Eis alguns deles: tasca que em italiano significa bolso, cantina que é a adega, caldo que significa quente, depressa que não é rápido mas deprimida, dispensa que é a sebenta, squisito que não é o nosso esquisito mas, pelo contrário, significa delicioso, viola que é uma cor, o roxo, vila que é uma moradia, sem esquecer testa que significa cabeça, ou provincia que é uma divisão administrativa, isto é, corresponde ao nosso distrito. Mas há muitos mais. E assim se pode ver que andam para aí muitas línguas traiçoeiras.

Acabei por ter de publicar, por este e outros motivos, o livrinho 366 bons motivos para conhecer Portugal e aprender português para ver se esclarecia algumas coisas, como por exemplo que o português não é igual ao espanhol (!!) e que falar português castiço não é mais difícil do que o brasileiro, só porque o dialeto genovês tem uma cantilena igual ao português do Brasil!

Mas a coisa que mais me entristece é o hábito de se dizer um famoso dito italiano: fare il portoghese. É o nome que se dá a quem entra sem pagar num lugar, como por exemplo no cinema ou no estádio, ou anda de autocarro sem pagar o bilhete. Desde que vivo em Itália, inúmeras foram as vezes que já expliquei o motivo deste dito, escrevendo até para os jornais, dizendo que não são os portugueses que não pagam mas os romanos que se fizeram passar por lusitanos, aquando em 1514, o rei D. Manuel tinha enviado a Roma uma comitiva de cerca de 140 pessoas para trazerem uns presentes ao Papa Leão X, entre os quais um elefante, recordado até numa das obras de José Saramago. Mas não há maneira…

Bom, concluindo, ensinar português em Itália dá trabalho mas é fantástico. Os alunos universitários estudam muito e através das teses que elaboram, descubro sempre coisas que não sabia sobre o meu próprio país. Um país que pouco estima, aprecia e apoia os professores espalhados por este mundo fora, que com abnegação e teimosia tentam divulgar a própria língua e cultura como embaixadores voluntários de um país do qual nunca se esquecem. E para não me esquecer, criei um site — Lisboa-Forlì — para festejar, juntamente com todos os italianos interessados (e são muitos), os primeiros dez anos do ensino da língua portuguesa na universidade de Forlì.

Cinco prazeres da cidade do Porto

Uma amiga minha pediu-me algumas sugestões sobre o Porto. Porquê eu, que não sou de lá? Porque por vezes tenho de lá passar uns dias. Chega para me armar em guia? Claro que não. Mas também não gosto de dizer que não aos amigos e, assim, tentei escrevinhar cinco prazeres da cidade, assim de repente — mesmo sabendo que, em viagem, o melhor plano é ir sem grandes planos.

Confesso: já há uns tempos que lá não vou. Serve assim este exercício também para matar um pouco das saudades que já tenho da cidade.

Ora bem, dito isto, aqui ficam cinco prazeres da cidade do Porto. Há muitos outros, claro está…

  1. Andar pela cidade. Ir à Rua de Santa Catarina, passar pelos Aliados, perdermo-nos pela cidade. Uma cidade como o Porto é para se descobrir à sorte, que é quase sempre a melhor maneira de viajar.
  2. A livraria Lello. Já começa a soar muito a cliché, eu sei, mas não é por muitos dizerem o mesmo que se torna mentira: é uma livraria linda. E até tem livros, vejam lá!
  3. Passear na Foz. O mar mais escuro e intenso do que outras cidades mais a sul. Muito, muito bom. A pé ou de bicicleta — ou até, não havendo alternativa, de carro. E então estar parado uns bons minutos a ver os navios, lá ao fundo.
  4. Fazer um cruzeiro no Douro. Turista que é turista tem de fazer este cruzeiro, não? Não faz mal, faz parte e ninguém se arrepende, que eu saiba.
  5. Passear na Ribeira. É preciso ter cuidado com as armadilhas de turistas. Mas tem de ser — e, depois, claro também isto tem de ser: ir até Gaia e olhar para o Porto ao anoitecer.

Tudo isto é giro, mas uma cidade descobre-se a sério doutra maneira: ter coisas para fazer, ir às compras, trabalhar — estar na cidade não para ver a cidade para viver na cidade. É assim que se descobrem os verdadeiros prazeres do Porto e de qualquer cidade. Sei disso tudo: mas esta foi só uma tentativa desesperada de encontrar sugestões para um fim-de-semana — dois dias que servem para pouco, é verdade, mas é o que temos.

Ajudem-me, leitores do Porto, por favor! O que sugerem para quem vai à cidade durante dois míseros dias?

A língua portuguesa e eu (por Serge Lunin)

Este blogue já me trouxe algumas surpresas muito agradáveis. Uma delas foi esta: descobri Serge Lunin, tradutor e historiador ucraniano que se interessa muito pela língua portuguesa — e, no seu país, tem de viver algumas das questões que abordo por aqui de forma muito próxima e intensa. Desafiei-o a escrever um texto sobre o seu interesse pelo português e sobre como é viver num país com duas línguas. Aqui está o resultado, traduzido, a pedido de Serge Lunin, por Ivan Mestre. É um texto que fala dos sons do português aos ouvidos dum falante de russo, do bilinguismo por que Portugal já passou, da forma como as línguas podem estar ligadas a profundos conflitos nacionais… O texto original está no final, bem como uma pequena autobiografia do autor. [MN]


A língua portuguesa e eu

Serge Lunin
Traduzido por Ivan Mestre.

O português entrou na minha vida por um mero acaso, após comprar um manual de português de 1963 para autodidatas a um alfarrabista. Na altura, o português europeu não era ensinado na União Soviética, e ainda faltava um ano para o golpe de Estado no Brasil. Por isso, ao referir a palavra “escada”, o autor ensinava a pronúncia “izcada”, e só numa nota mencionava que em Portugal se pronunciava como “escada”.

Após a Revolução dos Cravos a situação passou a ser a oposta. Obtive outro manual com a versão europeia, mas comprei ambos os livros já na Ucrânia independente, quando estudava na universidade e recebia uma bolsa de 5 dólares por mês. Na altura não podia permitir-me o luxo de ter Internet ou de viajar para a Europa. Na televisão passavam telenovelas brasileiras traduzidas, já sobre Portugal não sabia quase nada.

Sabia que precisava de fazer alguns esforços. Em Kharkov há uma grande biblioteca científica e lá encontrei um curso audiovisual de português de Antonio Fornazaro, composto por quatro cassetes e um manual. Pela primeira vez ouvi como falavam os portugueses: a sua forma de falar era surpreendentemente agradável. O português do Brasil agrada-me menos.

Em geral, as nossas línguas soam de forma muito semelhante, tal como muitas vezes afirmam as pessoas que não sabem nem russo nem português.

Desde então passaram muitos anos. Há muito que vejo as notícias da RTP ou TVI pela Internet. No ano passado ganhei o concurso de tradução amador “Por Outras Palavras” da Universidade de Lisboa, e finalmente falei com portugueses pessoalmente. Visitei Portugal, aluguei um apartamento em Lisboa e passeei nos seus arredores. Em Portugal está-se muito bem, e se pudesse, ficava muito mais que 9 dias.

O português também me foi útil quando decidi aprender francês, visto que ambas as línguas têm muito em comum. Agora estou a pensar no espanhol, embora já há muito tempo que consigo entender frases simples sem as traduzir (obviamente que nem todas).

Há um ano e meio chegou-me informação sobre uma página da história portuguesa, que por aqui ninguém conhece. Acontece que, em tempos, Portugal foi governado por reis espanhóis e nessa altura as pessoas instruídas falavam nas duas línguas (para além do latim). Comecei a pesquisar a questão ao ler a história da língua portuguesa em russo e ao consultar materiais na Internet em inglês. Mas só em português, espanhol e francês é que existem trabalhos detalhados sobre este tópico. Ainda bem que não me limitei ao inglês!

Na Internet encontrei artigos de Ana Isabel Buescu [http://www.fcsh.unl.pt/faculdade/docentes/aib] e outros especialistas (tive a sorte de poder falar com ela e com mais outros dois pessoalmente em Lisboa). De seguida li a tradução portuguesa do trabalho de Pilar Vázquez Cuesta, que é o único que explora esse tema. O livro foi-me enviado de Portugal por um amigo meu.

Eis o que descobri:  o rei João IV publicou um livro em espanhol depois de ter subido ao trono e quando liderava a guerra de restauração da independência. O poeta Jerónimo Baía elogiava o seu filho, Afonso VI, pelas vitórias sobre os espanhóis… em espanhol. Nas peças de Gil Vicente e Pedro Salgado, uma das personagens falava em português, enquanto a outra respondia em espanhol…

Porque me interessei tanto por isto? Estas situações de bilinguismo são normais na Ucrânia. Falo em russo, mas posso mudar para o ucraniano quando é mais apropriado, visto que as duas línguas são tão semelhantes entre si como o português e o espanhol. Frequentemente na televisão ou em apresentações de livros as pessoas conversam nas duas línguas simultaneamente. Alguns dos escritores de expressão ucraniana mostram as personagens que falam russo de forma negativa, tal como o dramaturgo Simão Machado fazia.

Não duvido que alguns portugueses se possam rir de mim, dizendo que só noto tal semelhança porque vivo na Ucrânia. Para Portugal tudo isto são águas passadas, mas aqui está em jogo o bem-estar de muitos milhões. A guerra no Leste da Ucrânia já se prolonga há três anos. A minha cidade não foi muito afectada. Apenas uma vez ouvi disparos, e de outra vez houve a explosão de uma granada, mas as cidades mais a sul não têm tido tal sorte.

Em ambos os exércitos fala-se o russo frequentemente. A diferença reside no facto de que, no exército ucraniano, todos entendem ucraniano e muitos falam nesta língua. Entre os que vieram da Rússia para combater na nossa terra ninguém entende o ucraniano e alguns odeiam-no.

O conflito entre as duas línguas dura há 25 anos, desde a independência da Ucrânia. Agora tornou-se mais exacerbado, porque os que justificam a invasão por parte da Rússia com a defesa das pessoas de expressão russa (eu, por exemplo, sou uma delas) dão uma boa desculpa para os que odeiam a língua russa proporem leis que tornam a minha vida ainda mais difícil.

Todos os dias no Facebook e noutros sítios centenas de pessoas discutem acesamente o conflito linguístico. Infelizmente, na Ucrânia desconhecem a experiência dos outros países, em que existem problemas semelhantes. As emoções acabam por afastar qualquer desejo de estudar a história de outros países e procurar analogias.

É daí que surge a minha vontade de fazer alguma coisa para abrir os olhos das pessoas. Decidi fazer uma coletânea de autores da Península Ibérica sobre a situação linguística em Portugal nos séculos XV – XVIII, e já escrevi um artigo sobre o tema para o site Historians, onde publico artigos sobre a história da Ucrânia.

Eu próprio consigo traduzir do português para o russo e para o ucraniano. Do espanhol e do francês terei que procurar tradutores. As editoras ucranianas já demonstraram interesse no tema, mas se ninguém lhes der um subsídio, infelizmente, nada feito. Publicar livros não é nada fácil na Ucrânia.


Serge Lunin

«Vivo na cidade ucraniana de Kharkov (Carcóvia), onde nasci. Sou historiador e tradutor. Entre outros livros traduzi de inglês para russo The Gates of Europe: A History of Ukraine de Serhii Plokhy, professor de Harvard, que gostaria de recomendar a todos. Traduzi do ucraniano Vale Frio, memórias de um rebelde camponês (nacionalista) que guerreara contra os comunistas no ano 1920. Para tal, tive de restaurar o texto original que fora adulterado por várias pessoas. Compus também um comentário abrangente. No ano passado, publiquei um artigo sobre a primeira tradução ucraniana de Clarice Lispector. Comparando trechos do texto original da Hora da Estrela, de uma das traduções inglesas e da tradução russa (não muito boa), mostrei que o livro fora na verdade traduzido de russo. Como podem ver, gosto da história, das línguas estrangeiras e de chatear os outros.»


Португальский язык и я

Сергей Лунин

Португальский вошёл в мою жизнь случайно — я купил за полдоллара у букиниста самоучитель 1963 года. Европейский португальский в Советском Союзе тогда не преподавали, а до переворота в Бразилии оставался ещё год. Поэтому автор учил произношению «искада» и только в примечании упоминал, что в Португалии говорят «ишкада».

После Революции гвоздик всё стало ровно наоборот — у меня есть и другой советский учебник, рассчитанный на европейский вариант. Но купил эти книги я уже в независимой Украине, когда учился в университете и получал стипендию 5 долларов в месяц. Тогда я не мог позволить себе ни Интернет, ни поездки в Европу. По телевидению показывали бразильские сериалы в переводе, о Португалии же я не знал почти ничего.

Надо было приложить лишь немного усилий. В Харькове есть крупная научная библиотека и там нашёлся курс Антонию Форназару: четыре кассеты и учебник. Я впервые услышал, как говорят португальцы — их речь оказалась на удивление приятной на слух. Бразильский португальский мне нравится меньше.

Вообще, наши языки звучат очень похоже, как время от времени проговариваются люди, что не знают ни русского, ни португальского.

С тех пор прошло много лет. Я давно уже смотрю по Интернету новости RTP или TVI. В прошлом году победил в любительском конкурсе переводов Лиссабонского университета «Иными словами / Por outras palavras» и впервые поговорил с португальцами лично. В этом году впервые побывал в Португалии, снял квартиру в Лиссабоне, повидал и окрестности столицы. В Португалии очень хорошо, и если бы я мог, то оставался бы там не 9 дней, а намного дольше.

Пригодился мне португальский и когда я решил учить французский — нашлось много похожего. Теперь подумываю об испанском, хотя простые фразы по-испански давно уже могу понять и без перевода (конечно же, не все).

Полтора года назад мне попались сведения о странице португальской истории, которая здесь никому не известна. Оказалось, когда-то королями Португалии были испанские короли, а образованные люди писали на обоих языках (и ещё латыни). Я стал изучать этот вопрос: прочёл историю португальского языка на русском, посмотрел кое-что в сети по-английски. Но по-настоящему серьёзные труды есть только по-португальски, по-испански и по-французски. Как хорошо, что я не ограничился только английским языком!

В Интернете нашлись статьи Аны Изабел Буэшку и других учёных (с ней и ещё двумя мне повезло поговорить лично в Лиссабоне). Затем я прочёл в португальском переводе труд Пилар Васкес Куэсты — единственную книгу на эту тему. Мне прислал её друг из Португалии.

И вот что я узнал: Жуан IV издал фолиант по-испански, уже когда был королём и вёл войну за восстановление независимости. Поэт Жерониму Баия восхвалял его сына, Альфонса VI, за победы над испанцами — тоже по-испански. В пьесах Жила Висенте и Педру Салгаду один персонаж произносил реплику по-португальски, другой отвечал по-испански…

Почему это так меня увлекло? Такие ситуации — обычное дело в Украине. Я говорю по-русски, но могу перейти на украинский, когда это уместнее, ведь языки отличаются друг от друга так же, как испанский от португальского. Часто на телевидении или на презентации книги люди ведут беседу на обоих языках одновременно. Кое-кто из украиноязычных писателей делает отрицательных персонажей русскоязычными — подобно тому, как поступал драматург Симан Машаду.

Не сомневаюсь, что некоторые португальцы посмеются надо мной и скажут, что такое сходство я замечаю только потому, что живу в Украине. Для Португалии всё это — древняя история, но здесь на кону стоит благополучие многих миллионов. Уже три года на Востоке Украины идёт война. Мой город она затронула чуть-чуть — один раз я слышал выстрелы, один раз — взрыв гранаты. Городам южнее так не повезло.

В обеих армиях часто говорят по-русски. Отличие в том, что в рядах украинской армии все понимают украинский и многие говорят на нём. Среди тех, кто явился на нашу землю из России, украинский никто не понимает и кое-кто его ненавидит.

Конфликт между двумя языками длится все 25 лет независимости Украины. Теперь он обострился — ведь те, кто оправдывает вторжение из России защитой русскоязычных, вроде меня, дают хороший предлог ненавистникам русского языка предложить законы, которые сделают мою жизнь труднее.

Каждый день на Фейсбуке и в других местах сотни людей горячо спорят о языковом конфликте. К сожалению, опыт других стран, где есть подобные проблемы, в Украине почти не знают. Впрочем, эмоции отбивают желание разбираться в истории других стран и отыскивать аналогии.

Вот откуда желание сделать хоть что-нибудь, чтоб у людей открылись глаза. Я решил сделать сборник статей авторов с Пиренейского полуострова о языковой ситуации в Португалии в XV–XVIII веках. И написал уже блог на эту тему для сайта Historians, где публикую статьи по истории Украины.

С португальского и на русский, и на украинский я могу перевести сам, для испанского и французского найду переводчиков. Украинские издательства проявили интерес к моей идее, но если никто не даст им гранта, сборника, увы, не будет. Издавать книги в Украине — дело нелегкое.

Fontes das imagens: http://allcastle.info/ e http://mykharkov.info/.

Cinco prazeres das manhãs de domingo

Ora aqui estou eu, bem acordado às sete da manhã dum domingo. Imaginem-me com uma chávena de café a fumegar à minha frente, a teclar furiosamente, empenhado neste ofício da escrita.

É mentira, claro. Neste momento — são exactamente sete da manhã — estou a dormir. Chama-se a isto programar o blogue. Sim, é possível. (Aliás, confesso uma coisa: tenho um artigo agendado para as três da manhã do dia 3 de Março de 2033. Ah, será o meu melhor texto, garanto-vos já.)

Bem, enquanto não chega esse ano, fiquem com estes cinco prazeres das manhãs de domingo. É o meu elogio a estas horas deliciosas.

1. Abrir os olhos e pensar: hoje não é segunda-feira.

O sábado, é sabido, é bem melhor do que o domingo. O sábado sabe bem — o domingo é pasmacento. Pois as manhãs de domingo, no fundo, são a continuação do sábado: a tarde ainda vem longe, o peso da segunda-feira ainda é só um ponto no horizonte. É como aquele prazer secreto de acordar às 5 da manhã dum dia de semana e pensar: ainda posso dormir mais um pouco. Claro que fechamos os olhos e o despertador dispara logo a seguir. Mas acho que percebem onde quero chegar.

2. Ser acordado pelos filhos.

Não é dia de escola. E, assim, os filhos acordam-nos a nós, saltando para a cama. No meu caso, já sabem, não são «filhos», mas «filho». Seja como for, é bom, não é? Risos, conversas novas — e depois o prazer de abrir as cortinas e deixar o sol entrar. (Está a chover? Tudo bem, melhor ainda.)

3. Olhar para a rua e ver poucos carros.

Passam carros, mas não é a mesma coisa. Até se ouvem pássaros nas rotundas. Tanto assim é que a Suécia, quando passou a conduzir pela direita em 1967, escolheu precisamente a manhã dum domingo para a troca. (E pronto, ficaram com o pedaço de informação inútil da semana.)

4. Olhar para o Facebook e ver poucas irritações.

Sim, não são só as estradas: o Facebook, aos domingos de manhã, está vazio. Anda tudo a dormir, a ler em papel ou a conversar a sério. Até dá para passear por lá sem dar a cada momento com discussões furiosas e indignações tramadas. Isto porque, como sabemos, os portugueses só voltam ao Facebook em força e em fúria no domingo à noite.

5. Não ter nada para fazer.

Estas são horas sem horários. Há quem trabalhe, é certo, mas a maioria das pessoas não tem nada para fazer nestas manhãs. Nem sequer temos cafés marcados ou as intermináveis festas de aniversário que aborrecem os sábados dos pais das crianças pequenas. Não: nas manhãs de domingo, o habitual é termos horas cheias de nada. E o nada é muito bom: dá para ler, ver televisão, conversar ou mesmo ficar de olhos abertos a olhar para a rua a ver os poucos carros a passar. São horas tão vazias que alguns até vêm parar a este texto inútil — inútil, espero eu, como uma manhã de domingo.

Muitas manhãs de domingo assim na vida — é o que vos desejo!

O dia em que olhámos para as estrelas no Sul de França

Não serão as melhores conversas aquelas que fluem ao acaso, enquanto vamos passeando pelas ruas duma cidade (por exemplo), ao sabor daquilo que vamos vendo? Há quem já tenha feito bons filmes só com uma conversa assim mesmo — em Viena, lembram-se?

Pois até este passeio em que escrevo no blogue e depois converso, quando posso, com os simpáticos leitores que aqui vêm parar também pode ser um pouco assim: não falamos ao sabor das ruas, mas seguimos ao sabor da lotaria secreta das pequenas descargas eléctricas no meu cérebro. Isto tudo só para dizer isto: por alguma razão que não imagino, lembrei-me há poucos minutos de, há muitos anos, andar perdido nos campos do Sul de França, à noite, a olhar para as estrelas com um grupo de amigos.

Pois, nessa noite (isto foi aí por volta de 1997, acho eu), lembro-me de ouvir uma amiga minha a dizer, lá nos meandros duma deliciosa conversa, que a ciência destruiu a magia das estrelas. Diga-se que não estávamos os dois sozinhos, não vá algum leitor ver aqui mais um folhetim daqueles que já me deu para inventar por aqui…

Não achava na altura (e não acho agora) que a ciência tenha feito tal patifaria às estrelas. Mas, naquele momento, ali com um grupo de amigos a viajar, não estava para grandes debates. Estávamos deitados no campo, a ouvir os grilos enquanto conversávamos — e, ali no escuro da noite longe das cidades, as estrelas pareciam-me tão intrigantes como desde sempre, com ou sem ciência. Um pouco como a Lua: será que o luar mudou quando o primeiro homem pôs o pé no nosso satélite de estimação?

Mas também isto é verdade: nós próprios, aos 17 anos, éramos mais intrigantes do que as estrelas.

Enfim, nessa noite não pensei nisso, mas hoje lembro-me de que a tal magia das estrelas descobri-a eu, precisamente, num livro de ciência (Cosmos) — nele, Carl Sagan imaginava um rapaz duma tribo pré-histórica a olhar para cima e a pensar sobre o que seriam aquelas luzes. Seriam fogueiras de tribos celestiais? Seriam orifícios num lençol negro que tapava um fogo antigo? Estou a citar de cor, pois não tenho o livro aqui comigo e já passaram mais de duas décadas desde que o li. Mas quero imaginar que o tal rapaz tinha precisamente 17 anos.

A realidade, sabemos agora, é ainda mais surpreendente do que podia imaginar esse rapaz há milhares de anos: as estrelas são esferas de fogo muito maiores do que o mundo, a brilhar a milhões de quilómetros de distância — e há muito tempo. Sim, muitas das estrelas que vemos lá em cima já nem sequer existem, mas como a luz demora milhões de anos a cá chegar, estamos a olhar para o passado distante quando elevamos a cabeça para o céu nocturno.

Não é espantoso?

Mas também é espantoso pensar que, tal como esse rapaz inventado por Sagan, continuamos intrigados a olhar para o céu e uns para os outros. Não somos assim tão mais sábios do que esses humanos que lascavam pedras e pintavam as paredes das cavernas: continuamos espantados com o simples facto de estarmos aqui. E, tal como há centenas de milhares de anos, todos descobrimos rapidamente que, saibamos ou não do que são feitas as estrelas, é bom ter 17 anos e estar ao ar livre, entre amigos, a olhar para o céu e a conversar sem rumo.

Um sorriso e um pátio andaluz

Fiquem com este outro quadro de Julio Romero de Torres, o pintor que me calhou na rifa no último artigo. Não é um quadro para marcar a vida de ninguém, mas por algum motivo gosto muito da cara simpática da velhota com a menina a dormir ao colo (o quadro chama-se Mal de amores). A senhora já sabe o que a casa gasta nesta coisa de amores: sabe que a mulher de ar sombrio (será a filha?) fazia bem em encolher os ombros e ir para o pátio andaluz que apetece tanto, lá atrás…

Um quadro copiado milhões de vezes

Caí no vício outra vez. Apeteceu-me pôr a girar aquela roda da fortuna de que vos falei e fui parar, desta vez, a um artigo sobre um quadro espanhol. (Tive sorte, foi o que foi.)

O quadro é este (La Fuensanta):

É de Julio Romero de Torres e foi pintado em 1929. Foi apresentado na Exposição Iberoamericana de Sevilha de 1929 (é o que diz o artigo da Wikipédia) e, depois, desapareceu até 2007.

Bem, não desapareceu completamente: aliás, é provável que muitos espanhóis o conheçam — porque andou nos bolsos deles durante muitos anos, numa nota de 100 pesetas:

Mas como apareceu nas notas, se o quadro se perdeu? Bem, foi usada uma fotografia do quadro. E, a partir da foto, o quadro foi reproduzido 981.200.000 de vezes, nas tais notas de 100 pesetas.

Pois bem, mas este exercício de falar dum assunto ao calhas não pode limitar-se a repetir o que a Wikipédia diz. Para isso já bastam muitos trabalhos que por aí rodam. Pois, deixem-me lá dizer-vos isto: tal como os espanhóis conhecerão este quadro por causa das pesetas, também nós ainda nos lembramos do aspecto de algumas personagens muito nossas por causa da imagem que tínhamos nos bolsos. Pois, se eu disser Gago Coutinho, não se lembram logo deste Gago Coutinho?

E o Bocage? Não é esta a cara que vos aparece na mente?

O dinheiro é sujo, mas às vezes põe-nos arte nos bolsos — ou pelo menos a cara de algumas pessoas importantes. Tenho alguma pena que as notas de euro sejam tão anódinas. E não é que a Europa não tenha pintores em barda — e escritores, compositores e tudo o mais (até piratas, vejam lá). Não tem é poucos. Só que se pomos um quadro austríaco, logo tínhamos Malta a reclamar que também quer lá alguém, não é verdade? Problemas desta moeda complicada — mas também se fossem só esses, estávamos bem! E, sim, também é verdade que a arquitectura é um arte das maiores — mas aquelas janelas e pontes não lembram nada, porque são quase abstractas. E é pena.

Nós não pronunciamos os espaços, chiça!

Fiquei um pouco triste com os comentários apocalípticos de muitas pessoas por causa do magnífico vídeo que partilhei neste artigo. (A página dos professores que criaram o vídeo merece a visita.)

Pois não é que muitos leram o texto e continuaram a partilhar o vídeo como prova irrefutável da decadência do português?

Mas percebi agora, depois de ler com atenção alguns comentários no Facebook sobre os fenómenos naturais descritos no vídeo: muitos andam convencidos de que devíamos dizer os espaços. Ou seja, acham que um português a falar bem faz uma pausa entre cada palavra. Só assim se explica que tantos fiquem horrorizados por todos dizermos «qu’impressão» em vez de «que [pausa que ninguém faz mas muitos acreditam que sim] impressão».

Não, nós não pronunciamos os espaços. Na fala, cada frase é uma sequência de sons e a separação das palavras é mental, não é sonora. Quando eu digo: «Queres água ou sumo?» numa conversa natural, digo algo como (esta transcrição não usa o alfabeto fonético internacional): «Querezaguossúmu?» Lembrem-se das aulas de Português, quando tínhamos de ter em conta as ligações entre vogais para contar as sílabas d’Os Lusíadas… Não fui eu que inventei isto!

Grande parte dos fenómenos descritos no vídeo são apenas fenómenos de ligação complexos que decorrem desse facto simples e universal: as palavras não se separam na fala. É assim em todas as línguas e, aliás, a própria escrita reflectiu isso mesmo até muito tarde. Os espaços foram uma invenção tardia.

Sim, eu sei, o vídeo não trata apenas dos fenómenos de ligação: também temos a queda do «e» em muitas palavras, a transformação do som «s» em «ch» (somos muito palatais nós, os portugueses) e o «o» que se lê «u». Mas tudo isto não passa de portugueses a falar português de forma natural. Não é má dicção: uma óptima dicção tem de respeitar estes fenómenos, bem como a tal ligação entre palavras.

Tudo para concluir que, nisto como em muitos outros casos de análise da língua, é a própria ignorância sobre como a linguagem humana funciona que está na base da sensação de catástrofe. Esta sensação rapidamente descamba em fúria para com os inocentes falantes do português — que mais não fazem do que falar a sua língua. E neste caso do vídeo que indigna sem razão, o mais impressionante é que os próprios indignados também não separam as palavras com pausas e seguem (aposto) quase todos os fenómenos descritos no vídeo. Se assim não fosse, falariam de forma extraordinariamente divertida.

A palavra «desencher» é um erro de português?

No Facebook, encontrei quem se queixasse de ter ouvido um jornalista a dizer a curiosa expressão «o estádio está a desencher».

Por baixo do post, em muitos comentários, lá vinham as indignações habituais: não pode ser, isto agora é só ignorantes, essa palavra não existe, os jornalistas já não são o que eram — e por aí fora.

Confesso: nunca tinha ouvido tal verbo. Supus mesmo que o jornalista tivesse tido ali um assomo de criatividade e não deixei de sorrir. Mas, lá no meio dos comentários indignados, noto que alguém declarou a quem quis ouvir que lá na terra dela todos conheciam aquele verbo. Mais: teve o cuidado de ir ao dicionário — daqueles em papel e mais antigos — e encontrou o verbo «desencher».

Ou seja: a palavra existe. Sim, talvez seja do registo popular e já sabemos que há muitas pessoas incapazes de lidar com tais misturas, vá-se lá saber porquê. Também é verdade que o verbo é transitivo e fica a parecer que falta ali qualquer coisa. Agora o que o jornalista não fez foi inventar uma palavra nova…  Usou uma palavra que aprendeu como todos aprendemos muitas palavras: entre amigos, colegas e familiares.

Perante isto, qual foi a resposta dos indignados? Uma ou outra pessoa lá aceitou que estava perante uma palavra que não conhecia e não era caso para tanta indignação. Mas outras continuaram imperturbáveis na sua fúria por terem sido expostas a uma palavra desconhecida. Mais: declararam a quem os quis ouvir que, se o dicionário tinha essa palavra que elas não conheciam, então o dicionário só podia estar errado! «Desencher»? Alguma vez…

Tenho pena, tenho genuína pena de quem anda a ouvir televisão e a ler textos com o dedo já em riste, pronto a apontá-lo, indignado, à primeira palavra que não conhece. O mundo deve ser triste para quem perdeu assim o gosto pela sua língua.

Paixão e montanhas-russas

By 663highland (Own work) [GFDL, CC-BY-SA-3.0 or CC BY 2.5], via Wikimedia Commons


Ah, pois. O que me calhou na rifa naquele sorteio que vos descrevi no último artigo foi isto: uma montanha-russa em Tóquio que se chama «Big O».

Bem, o desafio era escrever um artigo sobre o tema escolhido pelos deuses escondidos no ventre da Wikipédia. Ora, o que posso eu dizer sobre esta montanha-russa?

Para começar, digo que não me apetece assim muito andar nesta coisa. Isto porque tenho um problema que é o seguinte: tenho medo. (Mas se alguém me oferecer uma viagem a Tóquio só para experimentar, não digo que não.)

O que mais posso dizer?… Neste momento, estou a suar as estopinhas para ver se me safo desta.

Bem, posso muito bem perguntar ao meu caro leitor: por que carga de água tanta gente gosta de andar nestes monstros? Porquê passar uns minutos a ser torturado?

A resposta não é assim muito difícil: estas construções delirantes são seguras (dizem), mas convencem o nosso corpo (e a nossa mente) que estamos em perigo, deixando-nos com o coração aos saltos e a adrenalina a bombar nas veias. Racionalmente, sabemos que não há grande perigo. Mas o corpo não sabe e ficamos mesmo aos saltos como se estivéssemos a viver uma grande aventura.

É uma maneira de nos enganarmos a nós próprios — e esse engano é delicioso. No fundo, as montanhas-russas e outras invenções do género deixam-nos eufóricos à força. Deixam-nos aos gritos e com a cara afogueada. Deixam-nos (e isto é muito importante) como se estivéssemos apaixonados.

E às vezes deixam-nos mesmo apaixonados. Se a dois potenciais pombinhos ainda na fase do vai-não-vai lhes der para entrar numa montanha-russa e passar pelos altos e baixos da coisa, é bem provável que saiam de lá bem mais chegados um ao outro do que entraram. Sim: pode até dar-se o caso de ser naquele momento, entre os gritos e os risos e o coração aos saltos e as mãos que de repente se entrelaçam sem querer — pode dar-se o caso, dizia eu, de ser naquele momento que o cupido acerta no coração dos dois.

No fundo, estas emoções fortes à força de muito carril retorcido são mesmo um poderoso feitiço. Ficamos zonzos, mais vivos do que nunca, com o coração a sair pela boca, nos lábios um sorriso imenso — e, à saída, os passos fazem-se uns centímetros mais chegados um ao outro, os olhares um pouco mais demorados e até as piadas secas começam a deixar-nos na boca um riso mais sincero.

Ou seja, se alguém andar por aí sem saber o que fazer para despertar a paixão no coração da bela amada ou do belo amado, não precisa de inventar ou mandar vir uma qualquer poção do amor. Precisa ainda menos de ir à bruxa. Do que precisa mesmo é de comprar um bilhete para uma bela volta a dois numa montanha-russa. E nem precisa de ir a Tóquio! (Se bem que uma viagem dessas não é de deitar fora.)


E pronto, foi assim que o raio do botão da Wikipédia transformou este blogue, por uns minutos, numa espécie de consultório sentimental. Mas descanse o leitor já aflito: amanhã voltamos à programação habitual.

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