Certas Palavras

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Livro do dia | Como surgiu a Al-Qaeda?

reading-925589_1280Livros, livros e mais livros! Vou tentar deixar neste meu canto virtual um livro interessante todos os dias.

Pronto: todos os dias é capaz de ser difícil. Mas tentarei sempre que possível — e sempre às três da manhã!

Ora, hoje levanto-me, aproximo-me das estantes e encontro The Looming Tower: Al-Qaeda’s Road to 9/11, de Lawrence Wright (2006).

Em português, A Torre do Desassossego.

Confesso: ainda não acabei de ler esta obra gigantesca (desarrumo tantos os livros, que às vezes perco de vista obras que estou a ler…). Mas li o suficiente para saber que Wright nos explica a história dum certo tipo de fundamentalismo islâmico, aquele que nos deu a Al-Qaeda — e viria a dar origem ao Daesh, embora isso já seja história mais recente.

É interessante saber que a Al-Qaeda teve o seu início numa pacata cidade universitária norte-americana.

Não, não estou a defender uma das muitas e absurdas teorias da conspiração, que põem nas mãos do governo dos EUA a invenção dos seus inimigos.

O que se passa é que alguns dos intelectuais do wahhabismo (a corrente fundamentalista que deu origem ao terrorismo que nos anda a atacar) estudaram na América. No entanto, longe de estarem ao serviço dessa América, esses intelectuais aprenderam a desprezá-la por verem nela um ninho de decadência, perversão e mistura pouco saudável entre homens e mulheres.

Pelo que já li, o livro é um feito incomum de investigação profunda e narração inspirada. O autor explica o percurso intelectual e político da Al-Qaeda de forma detalhada, iluminando certos aspectos do nosso mundo muito para lá da história duma organização terrorista específica. Os bons livros são assim: vão além do tema principal; ou melhor, usam esse tema para mostrar o mundo doutra maneira.

Um pormenor: a certa altura, percebemos como muito do desprezo dos radicais islâmicos pelo Ocidente (e também pelos sectores menos radicais das suas próprias sociedades) se liga à sua aversão ao sexo fora das rigorosas margens religiosas. O Ocidente seria, na mente deles, obcecado pelo sexo, e por isso decadente e por isso desprezível. Curiosamente, também percebemos como há muito de tensão interior nesse desprezo pelos prazeres da carne. A obsessão também está no coração de muitos deles, mas reprimida até se transformar em pureza.

Esta obsessão pela pureza (sexual e não só) é sintoma de muito totalitarismo e muito fanatismo. Diria mesmo que «pureza» é das palavras mais perigosas do mundo. Olhem para as fotos de Osama bin Laden: o seu ar é, muitas vezes, beatífico. A sua fama era de pureza e santidade. E aí reside, muitas vezes, o mal do mundo: na necessidade de limpeza (sexual, étnica, religiosa…), na necessidade de purificação da alma, nem que seja com sangue. Muito sangue.

Livro do dia: The Looming Tower. Lawrence Wright (2006) [Amazon].

Como detectar portugueses (e as pequenas coisas do nosso país)

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«Portugueses, com certeza!»

Há uns anos, estava numa rua de Londres e vi aproximar-se um casal. Sem pensar muito no caso, virei-me para a minha mulher e disse: «São portugueses, quase de certeza.» Segundos depois, lá começámos a ouvir a nossa língua.

Será que foi apenas um acaso? Não digo que não. Seria preciso fazer a experiência algumas vezes e registar os acertos e os enganos para compreendermos se tenho ou não um talento especial para detectar portugueses.

Desconfio, no entanto, que há mesmo algumas pistas que nos ajudam a perceber se uma pessoa é portuguesa: a forma de se vestir, talvez até a forma de andar, uma certa maneira de rir, pormenores que não conseguimos descrever facilmente, mas que, somados, dão essa impressão e essa quase certeza: «Aquele só pode ser português!»

Imagino que isto aconteça em todos os países — e mesmo em muitas regiões e cidades. Lembro-me de ouvir, há alguns anos, um barcelonês a dizer que sabia distinguir catalães pela forma de inclinar a cabeça. (Será apenas uma falsa impressão de quem tem de se preocupar um pouco mais do que o normal com a sua identidade?)

Portugal numa rua banal

Adiante. Há uns meses, ao passear um pouco por Ponte de Sor (a terra da minha mulher), olhei para uma rua, daquelas ruas indistintas, sem nada de especial, com o seu fatídico café, os carros estacionados, os prédios a vaguear pela arquitectura chapa-cinco dos anos 80, 90 e inícios do século XXI (haverá quem saiba precisar o ano, para mim parece-me tudo igual).

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Não estamos a falar de nenhum monumento nacional, de nenhuma rua famosíssima de Lisboa ou do Porto, nem de uma praia conhecida por todos — é uma rua de quem poucos saberão o nome: talvez os seus próprios moradores, talvez o carteiro, se já tiver alguma experiência.

Não é uma rua característica ou sequer bonita — outras há, em Ponte de Sor, que o são. É, numa palavra, uma rua banal. E, no entanto, olhamos para ela e sentimos de imediato que é uma rua perdida num qualquer recanto de Portugal. O tipo de passeio, os modelos de carro, os postes de iluminação, os telhados, a bicicleta… E nem é preciso reparar no anúncio da Sagres ali no meio.

Há muitos outros elementos que não estão na foto mas também ajudam a compor a banal portugalidade de muitos cantos deste país: os sinais de trânsito, o aspecto das escolas, a maneira de arranjar as bermas, as mesas das esplanadas, a motorizada encostada a um portão — e, claro, o sol mais habitual que por outras paragens, o sabor do vento, o cheiro dos pinhais e tudo aquilo que, de repente, já parece um pouco menos prosaico e talvez um pouco mais digno de ser discutido enquanto elemento de identidade nacional.

O país dos cadernos de encargos

Será que esta impressão indesmentível de estarmos perante uma fotografia de Portugal tem a ver com algum tipo de «alma nacional»?

Não me parece — e fazer este exercício de olhar para uma rua banal e ver nela muito de Portugal ajuda-nos a perder essas ilusões: aquilo que sentimos como sendo português tem a ver com a soma de muitos hábitos, de muitas decisões quase aleatórias. Tem a ver com os hábitos das empresas de construção, com os hábitos das câmaras municipais, com os nossos hábitos, aprendidos entre família, amigos e vizinhos. São decisões e hábitos quase inconscientes, mas acabam por construir, em conjunto, essa sensação de estarmos no nosso país.

Por exemplo, a forma exacta das placas das estradas deve ter sido escolhida há muitos anos através de algum tipo de concurso, em que alguma empresa propôs um certo tipo de letra, um certo material ou qualquer outra especificação que permitisse cumprir o caderno de encargos criado pelo obscuro departamento da Administração Pública que trata dessas coisas.

Sim, estamos no mundo dos cadernos de encargos e não tanto da identidade nacional. Mas tudo isto contribui para a sensação de estarmos em Portugal. A essa sensação acrescentamos depois a História que conhecemos ou imaginamos, a nossa língua (claro está), certas ideias e obsessões. Portugal é isso, mas também as tais pequenas coisas.

Todas essas pequenas coisas são quase invisíveis no dia-a-dia. Só quando saímos e voltamos reparamos em tudo isso que faz parte da imagem que temos do nosso próprio país.

Ver o país com o volante ao contrário ainda quente nas mãos

Senti isso de forma muito marcada quando voltei de Inglaterra há uns anos, depois de ter passado alguns dias por lá com um carro nas mãos. A estranheza de conduzir do outro lado da estrada tinha sido intensa — mas a grande surpresa foi ter pegado no meu carro, em Portugal, e ter batido com a mão na porta, à procura das mudanças no meu lado esquerdo. Durante uns segundos, senti estranheza por conduzir como sempre conduzi.

Ora, não é preciso ir a Inglaterra ou conduzir do lado «errado» durante dias. Sempre que entramos em Portugal, na fronteira ou no aeroporto, somos surpreendidos pela estranheza da nossa própria terra.

A sensação dura apenas alguns segundos — e é durante esses segundos que reparamos na maneira como pintamos os prédios, como esperamos na fila do autocarro, como chamamos os táxis, como falamos uns com os outros. Reparamos, enfim, em tudo o que é banal e faz parte de nós.

Tenho para mim que esse é um dos grandes prazeres de viajar: poder ser, durante alguns momentos, estrangeiro na nossa própria terra.

Para que serve andar com um livro à chuva, em Londres?

LIVROS NA BAGAGEM. CAPÍTULO 2.

britain-2938_640Há uns dias, contei-vos as minhas desventuras com livros, bagagens e companhias aéreas. Pois não é que ainda acabei por comprar mais um ou dois livros? Não é defeito! É feitio… Agora, sosseguem: o meu irmão emprestou-me uma mala de mão e não tivemos de pagar a multa da Ryanair. Antes assim.

Mas porque é tão bom andar com livros na bagagem? Porque ando sempre com livros atrás? Sim, cada um é como é, mas acho que não sou o único, como dizia a canção. Há muita gente assim: vão de viagem, e lá vão com livros atrás.

Ora, mas porquê? Onde está o prazer de carregar livros? Ou mesmo de os comprar em todo o lado? Há muitas e boas livrarias por cá — e mesmo que não encontremos nas ruas das nossas portuguesíssimas cidades, temos sempre a Wook, a Amazon e outros que tais.

É um mistério, e mais mistério será para quem não gosta assim tanto de livros. Por isso, vou tentar explicar, contando-vos um dia de passeio por Londres. Estas minhas histórias vão continuar: gostava de vos ir contando a forma saborosa como os livros se misturam com a minha vida. Não porque a minha vida tenha alguma coisa de especial, mas apenas como testemunho de como os livros nos fazem viver um pouco mais. Serão as minhas memórias de leitor andante.

Afinal, os livros e as viagens são dois dos grandes prazeres da vida. Há outros, claro: conversar, brincar, beijar… Mas mesmo esses combinam bem com viagens e, às vezes, até com os livros. Conversar sobre livros, brincar sobre livros, beijar com livros à volta. Enfim, a vida às vezes não é completamente má.

Londres para crianças

Ora, no sábado, quando a minha viagem ao país da minha sobrinha estava já a acabar, decidimos ir, por fim, a Londres. Não é assim tão fácil: há autocarros, comboios, metros e muita gente, numa cidade que é uma das capitais do mundo. Com miúdos, a coisa não é assim tão fácil — nem barata.

london-590114_640Ah, mas é impossível resistir. Ali tão perto e não havemos de dar um salto à capital? Lá fomos, entre autocarros e comboios e metro e double deckers vermelhos, que o Simão adorou, pois então. Há qualquer coisa no kitsch britânico que atrai as crianças: os autocarros vermelhos, os chapéus gigantes dos guardas da rainha, os capacetes redondos dos bobbies, os táxis bem negros, a bandeira de cores bem definidas. Não sei, talvez seja eu que tenho um fraquinho pelo país…

Decidimos ir ao Museu de História Natural. Pelo caminho, o Simão foi conhecendo King’s Cross, o metro de Londres e, de fugida, os magníficos parque da cidade.

Descobrimos até este delicioso aviso:

PILLOW FIGHTS

Quem estiver interessado em saber a origem deste aviso, fique a saber que existe o Dia da Luta de Almofadas.

A sério.


Lá chegámos ao Museu de História Natural — e bem a tempo, porque um sol simpático se transformara entretanto em inverno chuvoso. Já sabemos: em Inglaterra, não são os anos que têm quatro estações, mas os dias…

Vimos dinossauros, o que deixou o Simão aos pulos. Ainda vimos o corpo humano por dentro, exposições de insectos, e muito do que esse museu tem para dar.

Sim, havia muita gente, demasiada gente — mas quem somos nós para nos queixarmos, que também lá estávamos?

O mistério dos caixotes de lixo de Londres

Pois a seguir, acabámos o plano que tínhamos e decidimos ir jantar um pouco mais tarde do que o habitual por lá (ou seja, depois das 19h) para terminar a semana de visita de forma descontraída.

Mas onde?

Aqui foi mais complicado. Estava a chover. Tínhamos ideias diferentes. Estávamos cansados. Foi difícil chegar a conclusões, mas o meu irmão lá nos convenceu a ir jantar à beira do Tamisa, ao Southbank Centre.

Mas as linhas de autocarros não se vergam à nossa vontade. Para lá chegarmos, foram vários minutos a pé, que não seriam nada difíceis, não fosse dar-se o caso de estar a chover.

Lá seguimos pelos caminhos dessas ruas do Royal Borough of Kensington and Chelsea. Digo-vos o nome para tentarem imaginar essa Londres específica, de casas com ar de serem demasiado caras para a bolsa da rainha…

Chegámos por fim à paragem. Chegou-se ao pé de nós uma mulher dos seus 30 anos, muito bem vestida, que tropeçava numa improvável bebedeira a meio do dia. Tropeçava e gritava: «Onde é que está o raio do caixote do lixo?»

Mais um tropeção. Mais uns gritos, à chuva: «Claro que não há! Isto é Londres, não há caixotes do lixo em lado nenhum!»

Gritava sozinha, mas gritava com alguma razão, que é difícil deitar alguma coisa no lixo naquela cidade.

Culpa do terrorismo, dizem alguns. E, de facto, o meu irmão apontou-me para sítios onde há pouco tempo havia caixotes de lixo e agora já não. Nos anos 70, também era difícil encontrá-los, por causa do IRA. Hoje em dia, os terroristas são outros, e talvez os caixotes do lixo não sejam assim tão perigosos, mas nunca fiando.

Lá veio o autocarro, entrámos, passámos pelo City Council de Westminster, depois a Abadia, depois o Parlamento, a ponte sobre o Tamisa, a roda gigante a espantar os olhos do Simão e da Lilah. Parámos na Estação de Waterloo e lá fomos a pé, mais uma vez à chuva, procurar o restaurante. A zona é muito diferente de Kensington: estamos na margem sul, com linhas de comboio a passar por cima de nós e o cimento do Royal Festival Hall à chuva, num dia cinzento. Mas não faz mal.

Chouriças em Londres (e um jantar à beira do Tamisa)

Londres também tem as suas feiras. A caminho do vago restaurante prometido, passámos por uma feira com barraquinhas de comida e bebida e ficamos tentados: por momentos, parecíamos transportados para uma festa de Verão numa qualquer vila portuguesa, com chouriços e demais iguarias ali à venda.

Tudo tinha um ar apetitoso, mas as mesas de bancos corridos, como em qualquer festa de aldeia, estavam vazias — pois estava londrinamente a chover (e nós a andar e o restaurante que não aparecia).

Havia mais gente à procura de poiso. Um português passou por nós a dizer ao grupo que o acompanhava: «Estou aqui estou a ir ao McDonald’s.»

Mas nós, não! Havíamos de encontrar um bom sítio para fechar a viagem. Hambúrgueres, não.

Lá fomos, com os miúdos protegidos o melhor possível da chuva. Diga-se de passagem que a chuva caía, mas não era uma enxurrada. Incomoda, mas não torna impossível andar a pé. Afinal, por mais inacreditável que possa parecer, chove mais em Lisboa do que em Londres. Só que em Londres a chuva é mais miudinha e demora mais tempo a cair…

Uma livraria para sair à noite

Pois cansados e molhados, lá chegámos a um restaurante, ali à beira do Tamisa, ao lado duma das pontes.

Foi um jantar muito agradável, num restaurante muito cheio, mas em que os empregados pareciam não ter qualquer dificuldade em brincar com as crianças e em trazer tudo depressa e bem.

Conversámos, rimo-nos todos, vimos fotografias da semana, falámos de tudo e nada, como apetece. O meu irmão vive em Cambridge desde 2008 e, assim, temos de nos servir destes momentos para falar e conversar ao vivo. Não é que não falemos quase todos os dias doutra maneira, mas sabe bem estarmos juntos — e vermos os dois primos também juntos, a aprender a brincar (e a misturar línguas de forma deliciosa).

Ora, como cereja em cima do bolo, mesmo ao lado do restaurante havia uma livraria Foyles, à vista da nossa mesa, muito bem iluminada, tão apetitosa como uma prateleira cheia de doces para os gulosos. É estranho pensar que, naquela correnteza de restaurantes e bares, está uma livraria aberta até tarde. Enfim: comer bem, passar os dedos pelos livros, beber um copo. Estes apetites não me parecem assim tão diferentes.

No fim do jantar, lá pedi desculpa, mas não conseguia resistir. Queria ir dar uma vista de olhos pelas estantes… Eles riram-se e eu lá fui, com o Simão atrás, que quis ir comigo.

E foi ali que o meu filho comprou o primeiro saco de berlindes da vida dele… Já eu, apesar da pilha que já tinha para levar para Portugal, acabei por comprar este livro:

BOOK

A noite de Londres e as memórias nos livros

Entretanto, voltei. Só estavam a Zélia e a Sofia. O meu irmão também tem os seus impulsos e tinha ido dar uma volta para tirar fotografias ao rio. Fomos ter com ele: a Zélia e a Sofia saíram a conversar animadamente, com a Lilah no carrinho. Eu levei o Simão ao colo até um ponto onde se via o London Eye contra as nuvens ensopadas das luzes de Londres. Apontei e disse-lhe: «Olha a roda a andar.»

Ele disse-me: «Não está nada a andar, pai», com ar de professor. Eu disse-lhe: «Está sim, olha com atenção». E ele olhou, muito concentrado, durante uns segundos. E acabou por dizer: «Tens razão, pai!» E sorriu. Já aprendeu a mudar de ideias, o que me parece muito bom.

(Mas também tem as suas teimosias: passou a semana a tentar convencer-me que o encarnado é para andar e o verde para parar. Porquê? Não sei bem. Se calhar ficou convencido que se os carros andam do lado contrário, as luzes dos semáforos também são ao contrário.)

SOUTHBANK DIOGO

Foto do Diogo.

Nessa noite, ficámos todos uns momentos a ouvir um músico de rua, de noite, com o Big Ben ao fundo.

Para quem, como eu, sempre gostou muito de Londres (hei-de vos contar nos próximos capítulos a minha estranha relação com a cidade), tudo aquilo era delicioso.

Ora, porque vos conto tudo isto? Bem, porque me apetece, e espero não estar a ser demasiado aborrecido. Mas há outra razão para vos contar memórias que para mim são simpáticas, mas para quase todos os outros serão banais. A razão é esta: queria dar um exemplo em que um livro fica indelevelmente ligado a um sítio e um momento. E não é por ser um livro especial ou sequer por ser um livro sobre Londres. Apenas e só porque o comprei, folheei e li um pouco nessa noite.

Para que servem os livros?

Os livros, meus amigos, servem para muitas coisas: para fazer peso na bagagem, para levar debaixo do braço, para servir de base para escrever (ai, que dor!), para atrair pó, para pôr debaixo dos pés das mesas bambas — e até para ler!

Mas os livros são também, para quem não passa sem eles, uma maneira muito pessoal de marcar a paisagem e as cidades por onde andamos. Ao folhear este ou aquele livro, lembro-me onde estava quando li esta ou aquela passagem. Às vezes, só a capa chega para lembrar esta ou aquela cidade, este ou aquele café, esta ou aquela companhia.

Os livros guardam essas memórias. São uma espécie de fotografia da mente: registam as sensações, as memórias, o diálogo contínuo que temos connosco mesmos: as ideias em que andamos a matutar por esses dias, as conversas, os desejos, até os momentos banais em que entramos num autocarro com o livro na mão e picamos o bilhete. A nossa vida acaba misturada com o que lemos e com os livros que compramos ou que, por sorte, levamos connosco.

Os livros servem para viajar melhor, para ir onde nunca fomos, para conhecer a nossa própria cidade, para viver um pouco mais.

Sei que, durante muito tempo, sempre que olhar para este livro (Londoners), vou lembrar-me desse jantar de duas famílias de irmãos, das conversas dessa noite, da paisagem de Londres, que nunca tinha visto dali, à noite, à chuva, do percurso de autocarro já com o livro dentro do saco molhado da Foyles,  da conversa com o Simão intrigado com o roda gigante — e ainda da mulher bêbada, dos dinossauros do museu, da dificuldade que era pôr o carrinho da Lilah no autocarro, do metro em que andámos de manhã, das lutas de almofadas que afinal são proibidas em certos parques, não vá alguma acertar num qualquer soldado de chapéu muito grande.

Nos próximos capítulos hei-de continuar por aí fora, entre cidades e livros, a falar um pouco das minhas memórias de leitor sem rumo. Porque o verdadeiro prazer de viajar é não saber exactamente onde vamos a seguir: tal e qual como acontece com os livros. É bom planear viagens e pôr livros numa pilha para os ler um a seguir ao outro. Mas ainda é melhor rasgar os planos ou desmanchar a pilha de livros, para voltar a empilhá-la, logo a seguir, doutra maneira qualquer.

Vamos a isto.


Cenas dos próximos capítulos

No próximo capítulo, vamos conhecer a voz que lê os nomes das estações londrinas — sim, vou apresentar-vos a senhora que diz, no sotaque exacto que associamos aos britânicos, nomes como Piccadilly Circus, Oxford Street e todas as outras estações (são centenas). Depois, havemos de ir a muitas cidades, incluindo a nossa Lisboa, onde até os autocarros são musas para alguns poetas. Todas estas viagens, claro está, com muitos livros na bagagem.

O prazer dos livros à sorte (ou como viajar sem livros não presta)

LIVROS NA BAGAGEM. CAPÍTULO 1.

Não sei se tem perdão, mas quando viajo de avião tento fazê-lo de forma não muito cara. Calha assim voar na Ryanair, o que põe em polvorosa quem percebe de aviões, mas nada posso fazer: é barato e leva-nos onde queremos. E o certo é que a viagem para Londres é rápida e indolor, pelo menos se o avião não cair. Para quê pagar mais 200 euros só para comer um mau almoço? Sim, eu sei, há outras considerações nisto tudo. Mas pronto, repito isto: espero que me possam perdoar.

Pois tudo para dizer que a tal companhia do Ryan tem umas regras muito apertadinhas quanto às bagagens. E, sim, uns gramas a mais podiam deixar-nos com uma multa tão cara como o próprio bilhete. Assim, nada de abusar da roupa e muito menos desse pesadelo que são os livros (pesadelo no sentido de peso).

Vim então visitar o meu irmão a Cambridge. E vim na Ryanair. E trouxe um só mísero livro. Que horror, não é? Uma semana, um livro?

Ora, claro que não. Porque se o livro veio sozinho para Inglaterra, há-de ir bem acompanhado para Portugal. Calculámos tudo (eu e a Zélia) para ter espaço para os livros no regresso.

E ainda a semana vai a meio e já tenho uma pilha de livros na estante do meu irmão prontos para transporte para Portugal na bagagem dum singela família que reza aos deuses para que os gramas não ultrapassem os caprichos das balanças do aeroporto.

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E o bom é que ficaram baratíssimos. Alguns destes custaram 2 libras… O mais caro terá sido 9 libras. No total terei gastado umas 25 libras para sete livros. Não é mau!

A minha cunhada Sofia pergunta-me se os vou ler todos: não faço ideia. Mas já vão todos com uma ou duas dentadas — e um deles até já vai bem comido.


Ah, e que prazer foi entrar numa livraria com seis andares… Numa cidade como Cambridge há muitas outras, todas apetitosas, mas esta enche-me as medidas de leitor de tão completa que é. Há mesas tão específicas que fico com a cabeça a andar à roda: a mesa dos romances policiais de Cambridge; a mesa dos livros para ajudar a decidir se o Reino Unido há-de ficar ou sair da União Europeia; a mesa dos livros para perceber melhor a economia dos últimos 10 anos; estão a ver a ideia.

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Ora, em viagem, os livros vou escolhendo-os ao sabor das capas, do dinheiro que acho que devo gastar, do interesse do título, do folhear das páginas. Os livros que quero mesmo comprar vêm pela Amazon ou encontro-os nas livrarias lá da terra. Por exemplo, dos livros ingleses, ando há algum tempo a querer The Buried Giant, de Kazuo Ishiguro, e The Noise of Time, de Julian Barnes. Ora, já peguei neles uma ou duas vezes nestes dias, mas não os trouxe. Isto porque quando viajo, gosto de ir pelos meus dedos, rezando à deusa chamada Serendipity.

E foi assim que, entre livrarias antigas, outras de desconto, acabei com a pilha que vos mostrei acima. Prometi a mim mesmo que ficava por aqui, mas ainda tenho aqueles dois debaixo de olho. Mas esses talvez fiquem para comprar em Lisboa, que a Ryanair não perdoa — e ainda tenho de levar três livros que uma amiga me pediu para um amigo dela (a malta dos livros é uma máfia, ah pois é).

84 Charing Cross Road, de Helene Hanff

Uma americana compra livros à distância a uma livraria inglesa nos anos 50 e 60. Por carta. Torna-se amiga do livreiro. E nada disto é ficção, neste livro que recolhe essas mesmas cartas. Veio a ser uma peça de teatro e um filme de 1987 com Anne Bancroft e Anthony Hopkins. Se o ler e se a vontade assim o ditar, dir-vos-ei o que achei. Para já, encontro muitos nomes de livros no meio daquelas páginas. Água na boca, água na boca…

Accidence Will Happen, de Oliver Kamm

Deste já aqui vos falei e parei de ler porque estava a concordar demasiado com o autor. Tenho de me acalmar e lê-lo com mais vagar e mais espírito crítico. É um livro cruel para todos os puristas da língua. Saem com as orelhas a arder. (Foi escrito por um antigo purista, entretanto curado de tal mal.)

Já que o elogiei tanto, fica aqui um pequeno reparo: o título baseia-se num trocadilho muito rebuscado. O autor explica-o no texto, mas por ser tão difícil de apanhar, muitos tenderão a achar que é apenas um erro intencional («accidence» em vez de «accidents»), dando munições aos tolos que acham que os linguistas e todos os que se tentam afastar da visão purista e simplista da língua são, de alguma maneira, a favor dos erros (tanto que até os põem na capa só para irritar). Nada de mais errado, claro. Mas tendo em conta a forma simplista como muitos puristas vêem a língua, não me admiro que pensem isso deste livro. Ou talvez já seja eu a pensar demasiado…

Matilda, de Roald Dahl

Já conhecia contos de Roald Dahl para adultos e já vi, claro, o filme. Mas nunca tinha lido a Matilda em livro. Encontrei-a enquanto estava com o Simão no andar dos brinquedos e livros infantis da Waterstone’s. É um livro deliciosamente incorrecto (começa com o autor a imaginar-se professor e a arranjar formas de insultar os alunos nas avaliações) e malandro como só as crianças sabem ser (e Roald Dahl, claro está). É possivelmente a defesa da leitura mais implacável que conheço. Não consigo parar de ler. A Matilda é a heroína de todos os que vivem entre livros num mundo que não gosta de ler. E dá para rir sem parar.

Millennium, de Tom Holland

Um livro de divulgação histórica sobre a Europa por volta do ano 1000. Entre reis, cavaleiros e muita guerra e aventura, esta é uma História a sério, escrita de forma empolgante, pelo menos a julgar pela pequena dentada que lhe dei. Mais veremos lá para frente.

Junk Mail, de Will Self

Nada tenho a declarar. Talvez um dia, se me apanharem.

Falling Upwards, de Richard Holmes

Este é um livro sobre balonismo (!). Sim, eu sei, é um tema incrivelmente específico. Mas, às vezes, os temas específicos levam-nos a descobrir perspectivas sobre o mundo e sobre a História que nos seriam invisíveis se nos mantivéssemos no geral e naquilo que nos interessa à partida. O folhear do livro levou-me a apostar nele, no espírito de sorte e azar que estas coisas implicam. Veremos.

The Canterbury Tales, de Geoffrey Chaucer, recontados por Peter Ackroyd

Há muitos muitos anos, li estes contos por imposição universitária. Agora, apeteceu-me lê-los numa outra versão, em prosa e em inglês actual, reescritos por Peter Ackroyd. «When the soft sweet showers of April reach the roots of all things…» Sim, as traduções também servem para isto: manter os clássicos de há muitos séculos bem próximos dos leitores de hoje em dia.


Agora, uma confissão: ao contrário do que vos disse no início, trouxe mais do que um livro para cá. Trouxe várias dezenas.

Mas não menti: só trouxe um livro em papel. Tenho as tais dezenas de outros livros no telemóvel. Aliás, um dos dois livros que estou a ler de fio a pavio por estes dias está em formato electrónico.

Para quê andar com volumes atrás, se não me importo de ler no telemóvel? Acho sinceramente que o livro em papel tem vantagens que compensam as dores de costas de os transportar, o pó que temos de limpar e tudo o mais. O livro é também um delicioso objecto, que apetece folhear e mordiscar. Não vai desaparecer. Só que não temos de nos impedir o melhor de dois mundos: papel nuns casos, pixeis noutros. Nada nos obriga a ter de escolher.

Agora que é um prazer ler e falar do que lemos, lá isso é. E não acham que um dos maiores prazeres de viajar é ler, misturando de forma imprevisível as memórias dos sítios por onde passamos com as memórias dos livros que lemos?

Da Guerra na Ucrânia ao Acordo Ortográfico (passando pela Galiza)

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Se há coisa que me intriga é a capacidade de algumas pessoas para enfiar o acordo ortográfico em qualquer discussão que tenha vagamente a ver com a língua portuguesa.

Basta escrever ou falar do português, e temos logo alguém que fala do acordo, com muita indignação e muitos argumentos, mesmo que o texto nada tenha a ver com o assunto. Julgo que já aqui falei do caso em que recebi um comentário irado sobre o acordo ortográfico num artigo sobre o corrector ortográfico.

Outro exemplo: ainda ontem, por baixo das notícias sobre o incêndio no Museu da Língua Portuguesa, li quem tentasse estabelecer paralelos mais ou menos metafóricos entre o incêndio (onde morreu uma pessoa) e a morte da língua, coitada, que já nem existe depois de ter sido assassinada por esse acordo do demo. (É por isso que estou a escrever isto em tailandês: o português já morreu.)

Pois bem, vou fazer o mesmo, mas em pior: vou tentar enfiar o Acordo Ortográfico numa discussão sobre a Guerra na Ucrânia! Será que vou conseguir?

Falar ucraniano às escondidas dos pais

Comecemos, então, esta história singela numa sala de aula, ali perdida numa avenida de Lisboa.

Em certo momento de cada semestre, nas minhas disciplinas de Prática da Tradução, costumo perguntar o que querem os alunos fazer no futuro e, para isso, pergunto que línguas sabem, que interesses têm, o que andam a estudar — tudo isto para começar a orientá-los para um possível futuro na tradução.

Este semestre, tenho três alunas ucranianas. Ao perguntar-lhes qual a língua materna, duas delas responderam «ucraniano» e a terceira respondeu «russo». Tudo normal. Lá discutimos algumas ideias para quem é nativo dessas línguas e quer trabalhar em tradução.

Por curiosidade, perguntei-lhes em que língua falavam entre elas. A aluna de língua russa respondeu-me que falavam em ucraniano entre as três e acrescentou: «O meu pai não gosta, mas pronto.»

(Lembrei-me de ler, há alguns anos, de um fenómeno curioso nas escolas catalãs: quando o catalão era proibido nas salas e os professores obrigavam ao uso do espanhol durante as aulas, os alunos tentavam falar em catalão durante os intervalos. Agora, que o catalão é a língua do ensino na Catalunha, há muitos alunos que passaram a falar em espanhol nos intervalos — imagino que alguns deles com aquele gostinho especial de quem está a irritar os professores e os pais que defendem a língua catalã. A nossa relação com as línguas — e com os mais velhos — é complicada…)

Voltando à Ucrânia: já todos sabemos que temos uma questão linguística complicada na Ucrânia: uma parte da população fala ucraniano, outra parte fala russo — e esta é uma das facetas da guerra que assola o país. Falámos disto há uns tempos («Mas afinal que língua se fala na Ucrânia?»).

Ora, a língua é muito mais do que uma forma de comunicação: é também uma forma de nos identificarmos com este ou aquele grupo. A língua é uma forma muito prática de nos distinguirmos entre «nós» e «eles». Por outras palavras, a língua serve como pintura de guerra, como marca tribal — e quase todos desejam fazer corresponder a língua à nação (tribo). Como?

  • Para uns, o ideal seria conseguir a independência da sua comunidade linguística (catalães, bascos, quebequenses, etc.).
  • Já outros tentam redesenhar fronteiras para «limpar» as comunidades linguísticas e fazer corresponder a fronteira política à fronteira da língua (rebeldes russófonos, irredentistas de todo o tipo).
  • Por fim, temos aqueles que desejam mais ou menos secretamente que os seus concidadãos se deixem de manias e passem a falar a língua mais importante (que é sempre a sua) — sim, estou a falar, por exemplo, de alguns espanhóis mais centralistas.

flag-999687_640É verdade que há países que conseguem ultrapassar a questão e criar uma identidade nacional que ultrapassa as divisões linguísticas — a Suíça é o caso mais óbvio.

Mas, em quase todos os outros casos, a questão não se resolve bem. Mesmo em países tão pacíficos como o Canadá, a questão nunca se resolve por completo: há sempre sectores importantes da população que continuam a desejar qualquer coisa que simplifique a situação.

Há quase sempre uma identificação mais ou menos consciente entre a tribo (a nação) e a língua. A língua é quase a manifestação física (sonora, neste caso) da identidade e isto é tão natural que nem percebemos. Confiamos em quem fala a nossa língua, desconfiamos de quem não fala a nossa língua, principalmente se achamos que devia falar a nossa língua (como acontece em Espanha e na Ucrânia).

E no caso das línguas internacionais?

Quando uma língua é partilhada por vários povos, cada povo dá mais importante à sua identidade do que à identidade conjunta dos vários países que falam essa língua. Aliás, em muitos casos, há uma recusa activa e consciente dessa identidade conjunta — o que é natural, tendo em conta que muitos destes países falam a mesma língua porque foram colonizados por um deles.

Ora, a identidade vai alimentar-se daquilo que distingue os vários povos uns dos outros: o sotaque, o vocabulário ou mesmo a ortografia (e, nalguns casos, o importante é o nome da língua). A Escócia fala pacificamente inglês (pelo menos, fora das Terras Altas, onde ainda se fala gaélico) — mas ai de quem disser que têm de falar com sotaque inglês. A Áustria insiste na utilização de algum vocabulário próprio na União Europeia. Os galegos têm uma questão ortográfica complicada (já lá chegamos). Alguns valencianos começam a subir pelas paredes se alguém disser que a sua língua própria se chama catalão: pode ou não ser a mesma língua, mas o nome é valenciano, ponto final.

Tudo depende de quem cada povo quer fugir, digamos assim. Os valencianos que insistem num valenciano «independente» sentem-se espanhóis, mas nunca por nunca catalães. Os escoceses insistem num sotaque próprio porque são britânicos, mas não ingleses. Os brasileiros não se importam de chamar «português» à sua língua porque o importante é distinguirem-se dos vizinhos que falam espanhol.

Bem, voltemos à Rússia e à Ucrânia. Tudo isto que dissemos é fácil de perceber — e há quem não tenha qualquer problema em usar este animal adormecido que é o tribalismo linguístico para fazer valer os seus objectivos estratégicos.

O imperialismo linguístico de Putin — e Portugal Maior

Vladimir Putin usou a identificação linguística do seu povo com os falantes de russo da Ucrânia para justificar as suas acções militares dos últimos tempos: ele tinha de invadir a Crimeia e ajudar os rebeldes do Leste ucraniano porque estas pessoas falam russo e ele tinha de os socorrer (faziam parte da tribo russa, se quisermos).

Como bem descreve The Economist, Putin trouxe à liça das relações internacionais desta segunda década do século XXI uma doutrina que tenta identificar à força a língua com uma comunidade política. Se a levássemos a sério, teríamos de redesenhar o mundo à medida das línguas. Assim, lá apareceria um Portugal Maior, pluricontinental:

PORTUGAL MAIOR

Ou seja, Putin está a ser, de forma muito concreta e literal, imperialista.

Para lá das ironias, a verdade é que esta doutrina é de aplicação impossível.

Parece possível no caso da Rússia, porque a União Soviética acabou há pouco tempo. Aqueles ucranianos de língua russa ainda se lembram do tempo em que faziam parte dum grande país em que a língua era o russo. Nunca se sentiram particularmente atraídos pela independência da Ucrânia. O que sentem, acima de tudo, é saudosismo pela União Soviética, o seu grande país de língua russa. Era mais simples: a sua língua era a língua do seu país. Agora, sentem-se cidadãos dum país que valoriza, em primeiro lugar, outra língua.

No fundo, sentem-se como os catalães numa Espanha que dá primazia ao espanhol. Estão também na mesma situação em que estariam os catalães de língua espanhola no caso hipotético de independência da Catalunha…

Da mesma forma, o tal Portugal Maior (construção que deixará os brasileiros a rir-se a bom rir) é um disparate, porque a identidade nacional dos povos lusófonos está ligada, acima de tudo, à forma específica de português e não à Língua Portuguesa como um todo internacional.

Prometi-vos uma passagem pela Galiza…

Andar aos socos na Galiza por causa da ortografia

Voemos então até à Galiza, onde estas questões identitárias parecem estar muito vivas em redor da questão da ortografia.

Há uns meses, à saída da aula que descrevi aqui, pus-me a conversar com Emilio Cambeiro, um antigo professor de galego da FCSH que também foi assistir à aula.

Perguntei-lhe se a discussão sobre qual é a melhor ortografia para a língua galega está ou não muito presente na vida dos galegos.

(Já agora, ele fala-me naquela forma de falar dos galegos que, aos ouvidos portugueses, é muito curiosa e muito mais fácil de compreender do que pensamos.)

Contou-me ele que, há uns tempos, a conversar com um professor civilizadíssimo, calmo e ponderado, viram ambos passar outro professor — que tinha a característica de apoiar a outra ortografia. Pois, só o simples contacto visual descambou em insultos e gestos indecorosos. Não conseguiam partilhar sequer o mesmo espaço.

Bem, é fácil imaginar que o que se passa nos corredores das universidades não será representativo de toda a sociedade, mas mesmo assim fiquei impressionado com a intensidade da questão — tudo por causa da ortografia!

Para quem não tem andado atento, o que se passa é o seguinte: a língua galega tem uma ortografia oficial, que a aproxima do espanhol (usa o «ñ», por exemplo) e outra, reintegracionista, que a aproxima do português (usa o «nh», por exemplo). A questão ainda é mais complexa, porque há outras opções entre os dois extremos, para, de forma geral, é esta a discussão: ou o galego é visto como língua muito separada do português, com uma ortografia adaptada da língua principal de Espanha ou é visto como uma língua relacionada com o português, com consequências ortográficas. Os argumentos são imensos e vividos de forma espectacularmente emocional de um lado e do outro. Às questões técnicas e históricas, junta-se a relação emocional de cada um com a Galiza e a sua opinião pessoalíssima sobre o encaixe desta em Espanha.

A bem da verdade, diga-se que grande parte da população usa a ortografia que aprende na escola, ou seja, a ortografia oficial, com o «ñ» a lembrar que a Galiza é uma comunidade espanhola. Mas os reintegracionistas lá continuam a lembrar que, ao aproximarem-se do português, abrem as portas a uma segunda língua internacional, o que expande os horizontes dos galegos. Muitos outros galegos ficam horrorizados: mas haverá língua mais internacional do que o espanhol? Que se fale galego na Galiza e espanhol no mundo, que isso do português não pode interessar a espanhol que se preze. Enfim, podia continuar a descrever a situação dum lado e do outro, mas acho que dá para ter uma ideia.

Curiosamente, quando os galegos falam, é impossível (pelo menos para mim) perceber que norma escrita usam. Tudo isto é uma questão ortográfica — e na ortografia conseguimos ver as sensibilidades identitárias de cada um…

E, nós, Portugueses, que temos com isto? Pelo interesse que temos na questão, pouco ou nada. Alguns dirão até que estas discussões são um tanto quanto ridículas. E, no entanto…

…somos mais parecidos com os Galegos do que pensamos…

Ah, pois… Ao ouvir a descrição do violento encontro entre dois professores universitários numa universidade galega, tive vontade de me rir do exagero verbal e da violência por causa de ortografia, mas depois lembrei-me que nós, portugueses, andamos às turras virtuais por causa do acordo.

Como já expliquei noutras ocasiões, encontro um argumento contrário ao acordo que me parece suficiente e mortal: o acordo não serve rigorosamente para nada. Mas, para muitas pessoas, este argumento não basta: é preciso carregar as tintas com retórica que, às vezes, roça a má-educação, cheia de extremismo desnecessário e, nalguns casos, xenofobia (mal) encapotada. Tremo ao ouvir alguns dos defensores da minha própria posição…

Mas, olhando friamente para as coisas, entendo a desmesura das reacções. Os Portugueses, como todos os povos, identificam a sua identidade com a sua língua.

Ora, como a sua língua é internacional, o nosso coração tribal dá muita importância às diferenças que nos distinguem no âmbito dessa mesma língua: temos algum medo de ser confundidos com os outros povos.

Como muitos povos, sentimos uma certa insegurança identitária, o que nos leva a achar que o mundo está todo convencido que somos uma província de Espanha.

Também no que toca ao Brasil, há por cá algum medo que a antiga colónia nos invada culturalmente (será que isto ainda virá dos traumas desses anos em que o nosso rei viveu no Brasil?) O pânico com as telenovelas brasileiras, com o português abrasileirado, com as palavras que não são nossas — tudo isso se explica se percebermos que temos esse tal coração tribal a bater no nosso peito.

Neste cenário, venham lá dizer que vamos apagar as consoantes que nos ajudam a distinguir os nossos textos dos textos brasileiros! Podemos argumentar que é só ortografia, que não nos vamos tornar brasileiros (e eles, afinal, também mudam umas quantas coisas) — o medo não desaparece, o horror é intenso.

Como vimos no caso da Galiza, a ortografia pode valer muito neste campeonato da identidade.

Argumentam-nos com o valor duma língua de 200 milhões, que merece uma só ortografia. O nosso coração tribal irá sussurrar-nos: «De que vale o número de falantes, se ficarmos menos portugueses?»

Não estou a dizer que concordo com estes sentimentos. Estou apenas a descrevê-los. Reparem no simples facto de os dinamarqueses falarem uma língua de poucos milhões sem que tal lhes seja minimamente incomodativo. E os malteses? Os galeses? E por aí fora… Dizem-nos: «Mas a nossa língua não é galês! É falada por 200 milhões!» E o nosso diabo tribal lá volta a dizer: «Mais valia ser falada só por nós, se assim nos deixassem as consoantes sossegadas.»

Mais uma vez vos digo: não me parece a mim, racionalmente, que o acordo ponha em perigo a nossa identidade, nem de perto nem de longe. Mas esse exagero retórico do campo anti-acordo vai beber ao tal tribalismo linguístico, que é algo muito real e muito forte.

A atracção da simplicidade: a cada tribo, uma língua

Admitam que esta viagem entre a Ucrânia e o nosso país aponta num sentido: os seres humanos tendem a querer que a relação entre a tribo (ou nação) e a língua seja simples e sem qualquer ambiguidade.

Se somos ucranianos, temos alguma dificuldade em aceitar que outros ucranianos falem a língua do vizinho.

Se somos falantes de russo na Ucrânia, não gostamos de ser obrigados a falar outra língua e, de qualquer forma, era mais simples se ainda vivêssemos num país em que a nossa língua era a principal.

Se somos galegos, ou bem que nos acomodamos em Espanha e usamos uma roupagem que admite essa acomodação, ou sonhamos com outras ideias — e a forma como vemos e pensamos a língua segue essas nossas tendências.

Se somos portugueses, queremos falar português e que ninguém diga que a nossa língua «é de todos». Não: é nossa! Por isso mesmo alguns de nós até dizem que seria mais confortável se os brasileiros dissessem que falam «brasileiro»…

O coração tribal do ser humano bate muito forte. E conseguimos ouvir esse bater com facilidade se olharmos para esta questão das línguas…

(Uma pergunta importante: será que devemos ou podemos mudar esta característica do ser humano? Veremos num próximo artigo, que este já vai longo. Mas o certo é que não serve de nada espicaçarmos o bicho de forma gratuita, sem razões muito fortes. É também por isso que o acordo foi um erro.)

O português do Brasil é falso?

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No Facebook, numa partilha deste artigo em que critico a aversão aberta ao português do Brasil, alguém opta por chamar abertamente «xenofobia» a essa aversão.

Um outro comentador discorda, dizendo (negrito meu):

Talvez a pessoa que utilizou essa palavra nao a tenha aplicado com o sentido de xenofobia… talvez esteja revoltada pelo facto do português brazil estar a tomar conta do verdadeiro português… talvez porque hoje em dia vem tudo PTbr e não em PTpt….talvez a parte do acordo ortográfico que aproxima mais o português do português br…. enfim… coisas que nao deviam ser assim pois o português é de Portugal….

Parece-me ser este um caso do «erro de confirmação». A pessoa acha que hoje em dia vem tudo em português do Brasil. Ora, os programas de televisão infantis são praticamente todos dobrados em português de Portugal. Já é raro vermos produtos em português do Brasil. Nem as telenovelas são hoje brasileiras (pelo menos, na sua maioria). Quanto à língua em si, estamos cada vez mais afastados uns dos outros no que importa (com ou sem acordos). Ou seja, não estamos a ser invadidos.

Mas, claro, quem acredita nisso vai olhar apenas para o que confirma a sua crença: se encontrar um produto que seja com embalagem em «brasileiro», pronto, está o caldo entornado.

Adiante. O mais curioso do comentário é essa ideia do «verdadeiro português»… Parece ser natural aos portugueses achar que o português verdadeiro é nosso e os brasileiros falam uma língua menor, um português falso.

Por exemplo, ainda há uns dias, na TVI, ouvi dizer que Carlos do Carmo pôs uma plateia do Rio de Janeiro a cantar em português. Foi preciso um fadista para pôr os cariocas a cantar na sua própria língua? É isso? Segundos depois, a jornalista diz alto e bom som que «Carlos do Carmo ensina a cantar em bom português.» Percebi, então. Os brasileiros falam português, mas falam mal.

As coisas são um pouco menos fáceis do que pensamos. Nem os portugueses inventaram, um lindo dia, a língua portuguesa, nem os brasileiros passaram a falar uma língua estrangeira no dia em que declararam a independência.

Primeiro, a língua que Estado português adoptou já existia, embora sem nome nem identidade própria (como aprendi na aula de Fernando Venâncio de que vos falei há tempos). Da mesma forma, a língua que o Estado brasileiro adoptou já existia. Neste caso, a língua já tinha nome — nome que o Brasil decidiu manter, sem que daí viesse mal ao mundo.

Como em tudo na vida, as coisas são como são e o português de lá e o português de cá foram mudando. Nenhum deles se deturpou e nenhum deles se manteve puro e imaculado. Mudámos todos. Uma coisa parece-me certa — dificilmente as várias variantes do português se aproximarão de novo, naquilo que de facto importa: o vocabulário, as expressões, a sensação de comunidade linguística.

Dito isto, faz-me imensa confusão essa recusa mental de muitos portugueses em ler e ouvir português do Brasil. Continuamos a poder ler qualquer texto brasileiro sem grandes dificuldades, o que me parece de aproveitar — tal como também é de aproveitar a invisível proximidade com o galego. Não nos limitemos tanto. Convém ter força e ser um pouco menos tribal, mesmo que o tribalismo linguístico seja algo tão natural como a guerra.

Agora, a pergunta final: será que o português do Brasil já se distanciou tanto dos primos ibéricos (galego e português de Portugal) que merece um novo nome? É uma bela discussão e não sei o que acontecerá nas próximas décadas. Mas, para já, os brasileiros chamam à sua língua «português» e nós não nos devíamos incomodar tanto com isso. 

Sim, a língua em que a plateia de Carlos do Carmo cantou foi português: a sua própria língua, vejam lá.

A ansiedade e a tradução

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A ansiedade abunda na nossa profissão: há a ansiedade do cliente, a do gestor de projectos, a do estudante de tradução, a do professor de tradução (ou mesmo a do vendedor de ferramentas de tradução)…

Isto para não esquecer a ansiedade do próprio tradutor — quando, por exemplo, está a olhar para uma frase difícil sem saber se amanhã vai ter trabalho.

Vou tentar fazer um pequeno mapa de algumas destas ansiedades.

O cliente ansioso

O nosso trabalho consiste, se virmos bem, em diminuir a ansiedade do cliente. O cliente tem aquele documento urgentíssimo para traduzir, o prazo do concurso está a acabar, só ele e mais ninguém conhece os termos correctos da sua actividade e tem muito medo de entregar tão preciosos textos a um estranho…

Nós, que trabalhamos neste ramo, lá temos de tentar encontrar soluções para todos estes problemas. É por isso que quase me atrevo a dizer que a ansiedade do cliente é uma grande amiga do tradutor… Sem ela, o cliente nunca poderia vir a apreciar o valor do nosso trabalho.

Mas, admitamo-lo — a ansiedade do cliente é também a nossa grande inimiga. Também a encontramos quando os clientes disparam ao primeiro problema, quando não confiam em nós, quando estão sempre de pé atrás perante estes (o cliente abre aspas) profissionais (o cliente fecha aspas) que vêm das Letras (ai), que andaram a estudar Línguas (ai, ai) e que não percebem nada de tecnologia (ai, ai, ai).

Esta desconfiança é como chumbo nos pés quando começamos a trabalhar — mas não nos resta outra opção do que tentar desatar esses chumbos enquanto trabalhamos. Temos de desfazer com muito trabalho e algum risco a desconfiança com que o cliente nos olha.

O leitor ansioso

Há um cliente de tradução tão especial, mas tão especial que a poucos passaria pela cabeça chamá-lo de “cliente”: estou a falar do leitor de livros traduzidos.

Também aqui a ansiedade impera. Claro que é uma ansiedade muito passageira — quando o tradutor é bom (e é bom muito mais vezes do que admite o senso comum), o leitor esquece-se de que está a ler uma tradução e embrenha-se na história ou no que for que está a ler.

Dito isto, todos sentimos, em muitos comentários às traduções que por aí se lêem, aquilo a que podemos chamar síndroma do milagre: os médicos sabem que, para muitas pessoas, a cura de uma doença será sempre milagre, enquanto a morte dum ente querido será sempre culpa do médico.

Num contexto bem menos dramático, também o tradutor sente esta síndroma: se o livro emperra e é mau, há leitores que acusam o tradutor de não saber escrever e não saber transmitir a magia do Autor (assim, em maiúscula, claro).

Já a qualidade dum bom livro nasce sempre das impolutas mãos do Autor. E, no entanto, bem vistas as coisas, muito do prazer dum bom livro, o prazer das palavras ali mesmo à nossa frente, vem do invisível labor do Tradutor (deixem-me lá pôr a maiúscula só desta vez).

O gestor de projectos ansioso

Abandonemos os vagos prazeres da literatura e atiremo-nos de cabeça para aquilo a que muitos chamam tradução comercial, ou empresarial, ou industrial — ou outro desses termos que assustam aqueles que não vêem a tradução para lá das doces páginas dos meus queridos livros.

O gestor de projectos é essa figura que partilha com o tradutor da invisibilidade que parece ser sina desta profissão.

O que faz este gestor?

Basicamente, tenta arrebanhar para si toda a ansiedade do mundo.

Senão, vejamos: tem de aguentar com as investidas ansiosas do cliente a ver o prazo a passar e a tradução a não aparecer — apesar de o prazo acordado ainda vir bem longe (“mas eu disse para me enviarem logo que fosse possível!”).

Tem ainda de se haver com a ansiedade de não saber se os três tradutores que estão a trabalhar naquele projecto essencial para o mais importante dos seus clientes não vão entrar no Triângulo das Bermudas da tradução, ou porque a internet no centro da Amazónia foi abaixo ou porque afinal o trabalho é mais difícil do que parecia e morreu a terceira tia em sete dias.

Tem de lidar com o computador que parece o mais caprichoso dos mamíferos, tão caprichoso que pára de trabalhar só porque sim — ou talvez seja porque está a pensar na saúde dos nossos olhos (mas sem qualquer consideração pela nossa saúde mental).

Tem ainda que lidar com o ficheiro que mal preparado, a tradução que vem com erros, o cliente que não percebe porque há tanta maiúscula nas traduções alemães, o colega que não percebe porque não aceitamos mais do que trinta projectos por dia — e quando quer descansar, há sempre o estúpido dosmartphone a apitar e outro e-mail a chegar.

Enfim, podemos sempre dizer: há solução para isto tudo! E há, claro!Por exemplo, desligar e ligar o computador. Ou, no que toca ao excesso de e-mails, podemos sempre afogar o telemóvel na banheira. Mas não conseguimos ter todas as soluções em todos os momentos e, à medida que se multiplicam os projectos, os ficheiros, os programas e as pessoas que temos entre mãos, as olheiras vão ficando mais profundas e o nosso corpo começa a dar saltos cada vez que uma porta se fecha.

O gestor de projectos é essa pessoa que parece ter várias bolas na mão, todas elas a ameaçar cair e todas elas mais ou menos frágeis e todas elas a gritar com as suas próprias ansiedades (o gestor de projectos é também uma bola nas mãos do tradutor, por exemplo; mas já lá chegaremos).

Não há pessoa mais ansiosa do que aquele que gere a ansiedade dos outros.

O tradutor ansioso

Ora, e chegamos ao tradutor, aquele que está concentrado nos textos que tem para traduzir, lendo-os com toda a atenção do mundo e escrevendo então novos textos, depois de observar com algum prazer os fios com que se cosem as línguas — isto quando consegue alguns minutos de sossego entre cinco e-mails de dois gestores de projectos, o pagamento à Segurança Social que ainda não fez, o manual da nova ferramenta de tradução que um cliente inventou, dois glossários do cliente incoerentes entre si, três memórias de tradução por limpar, vários currículos por enviar, um site por criar e todo o grande et caetera que dói ao fim de cada dia.

Tudo isto, claro, é parte da vida dum tradutor freelancer. Um tradutor que seja trabalhador duma empresa (de tradução ou não) terá, talvez, um pouco mais de tempo para sentir a pura ansiedade de fazer um bom trabalho — mas mesmo assim, lá aparecerão, por vezes, os medos que a todos tocam sobre o futuro da empresa onde se trabalha — ou então os normais conflitos e chatices de que nenhum local de trabalho está livre.

Já o tradutor freelancer tem de ser ao mesmo tempo tradutor, gestor de projectos, marketeiro, contabilista, técnico de informática e fiscal de si próprio.

Há quem acabe por gostar imenso de ser esta empresa dentro duma só pessoa. Outros há, no entanto, que prefeririam estar sossegados, a trabalhar sem ter de pensar no trabalho que ainda não chegou.


Talvez fosse o momento de começar a apontar para soluções mais concretas para este oceano de ansiedade. Espero vir a ter tempo para isso, mas, para já, o texto vai longo e tenho muito para fazer. A última coisa que me apetece é ficar ansioso por causa do tempo que passei a escrever um texto sobre ansiedade…

(Publicado do Medium no dia 27 de Abril de 2015.)

Os livros e a sorte (e ainda poetas que traduzem ciência)

Há quem se considere um leitor sistemático, daqueles que têm listas de livros por ler e seguem religiosamente os seus planos quinquenais de leitura.

Admito que há vantagens nessa técnica — mas, no meu caso, os grandes prazeres da leitura são, quase sempre, fruto do maldito jogo de sorte e azar que é, quase todos os dias, a nossa complicada vida.

Ainda ontem li uma pequena crítica sobre um livro italiano traduzido para inglês: Seven Brief Lessons on Physics, de Carlo Rovelli.

A crítica chamou-me a atenção porque é um livro italiano traduzido para inglês por um poeta e uma tradutora (Simon Carnell e Erica Segre), combinação já por si curiosa, mas ainda mais intrigante por ser este um livro sobre Ciência (mais propriamente, sobre Física).

Sou um mero trabalhador das Letras e, por isso, nem me devia interessar pela Ciência (dizem as más línguas) — mas a verdade é que não consigo afastar-me desse meu outro amor. Ter um par tradutor-poeta a traduzir um cientista parece-me uma provocação que, só por si, me põe com água na boca para comprar o livro (mais ainda porque a crítica era extraordinariamente positiva).

Ora, a verdade é que fiquei com vontade de o ler, mas vontades há muitas e livros ainda mais. Fiquei com o nome a pairar nos meus olhos, mas não andei à procura do livro e a água na boca não foi de tal ordem que me levasse a abrir o site da Amazon para mandar vir a tal preciosidade.

Pois, não é que hoje, enquanto dava uma olhadela pelas estantes de literatura inglesa da Fnac do Colombo, encontro o tal livro, como cientista perdido no meio de escritores, ali a chamar a atenção com a sua humilde lombada?

Vejam se o encontram:

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Quem pode resistir a tal coincidência? Um livro que fugiu da sua estante para me chamar atenção a mim… Não consegui evitar pegar nele. Agora, aqui está, ao lado do meu computador, à espera que acabe o dia de trabalho para o atacar sem dó nem piedade.

Viagem pelas línguas da Europa (1): Andorra

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Há pessoas que gostam de olhar para o chão e explicar-nos que rochas temos por baixo dos nossos pés. Os professores de geologia, por exemplo.

Gosto de os ouvir — tal como gosto de ouvir quem explica as subtis diferenças arquitectónicas, jurídicas ou artísticas dos vários países e regiões da Europa.

Eu é mais línguas, como sabem. E, por isso, quando viajo, acabo por reparar nas palavras que encontro à minha volta pelas ruas deste nosso continente.

Assim, atrevo-me a isto: vamos dar uma voltita por essa Europa e falar um pouco das línguas que vemos nas ruas.

Não se esqueçam que um dos prazeres de viajar é reparar, ver de novo, aprender alguma coisa. E nada melhor para nos ajudar a viajar melhor do que ler (nem que seja um simples blogue de línguas e tradução).

Vamos a isto!


Comecemos por dar um salto por cima da Península Ibérica. Porquê? Não é certamente por ser paisagem linguisticamente pouco interessante. Muito antes pelo contrário: é dos espaços mais interessantes nesta matéria. Mas, por isso mesmo, deixemo-la mais para o fim.

Damos um salto por cima, mas não saímos da península: aterramos num vale pirenaico, no belíssimo e riquíssimo Principado de Andorra.

Antes de continuarmos, deixem-me que vos diga: há quem arranque cabelos com os erros mais ou menos reais que saem da língua dos outros. Pois eu arranco cabelos quando alguém fala de Andorra como se fosse parte de Espanha.

Não: Andorra não é parte de Espanha.

Andorra é um país independente, membro da ONU, com Governo, Parlamento, Constituição, bandeira e por aí fora.

Tem, isso sim, um chefe de Estado sui generis: o Príncipe de Andorra são duas pessoas.

Quem?

O bispo de Urgell (localidade que fica na vizinha Catalunha) e o Presidente da França.

Antes que comecem a dizer que, por isso, não podemos dizer que se trata de um país, lembrem-se que o Canadá também tem como chefe de Estado a rainha do Reino Unido, tal como a Austrália e mais uns quantos países. Afinal, a Rainha da Jamaica chama-se Isabel II! Quer isso dizer que a Jamaica não é um país? Bem me parecia.

Voltando ao terceiro país ibérico… Os andorranos não são cidadãos espanhóis nem franceses: são andorranos, ponto final.

Muito bem: já vimos que Andorra é um país. Mas, que língua se fala por lá? É verdade, já estamos a falar há não sei quantas linhas e ainda não chegámos ao que aqui nos trouxe.


Pois bem, no que toca às línguas, comecemos pelo mais fácil — e simultaneamente mais curioso.

Andorra não tem como língua oficial o espanhol e muito menos o francês.

A língua oficial de Andorra é uma só: o catalão.

Exacto, a língua oficial de Andorra é uma língua que alguns portugueses julgam ser um dialecto.

Ora, se a diferença entre dialecto e língua é bem mais discutível do que se pensa, a verdade é que dificilmente podemos considerar o catalão um dialecto do espanhol, por todas as razões e mais algumas: evoluíram directamente do latim, têm diferenças significativas de estrutura e vocabulário, tanto o espanhol como o catalão têm dicionários, gramáticas e por aí fora.

Mas sobre tudo isso falaremos mais tarde, quando voltarmos à nossa península.

Agora, basta dizer que Andorra tem essa única língua oficial — e que por isso a TVC (televisão regional da Catalunha) gosta de transmitir os discursos do primeiro-ministro de Andorra na ONU, porque é a única oportunidade que têm de ouvir o catalão num grande fórum internacional…


Se a língua oficial é o catalão, qual é a situação na rua? Que línguas se falam no dia-a-dia.

A situação, claro está, é bem mais difícil de explicar do que dizer qual é a língua oficial.

Na rua ouve-se muito espanhol (uma grande parte da população é espanhola) — tal como também se ouve muito português (uma grande parte da população é portuguesa).

Na zona mais chegada à França (Pas de la Casa), ouve-se também muito francês.

E nas escolas?

Nas escolas públicas, a língua do ensino é o catalão.

Nos notários, tribunais, etc., a língua é o catalão.

E entre os cidadãos andorranos, também se fala catalão.

Haverá muitas misturas, muitas situações complexas, o que é natural num pequeno país encravado entre França e Espanha (e, do lado espanhol, o que temos é a Catalunha, com a sua situação linguística peculiar).

É aborrecido? Nem por isso. Quem por lá vive não parece queixar-se muito.

Em resumo: quem ande pelas ruas de Andorra com os ouvidos bem abertos irá ouvir catalão, espanhol, francês, português e mais umas quantas línguas (até o galego, veja-se bem).

"Església de Sant Esteve (Andorra la Vella) - 8" by MARIA ROSA FERRE ✿ - Flickr: Esglèsia romànica Sant Esteve, Andorra la Vella. Licensed under CC BY-SA 2.0 via Wikimedia Commons.Església de Sant Esteve (Andorra la Vella) – 8” by MARIA ROSA FERRE ✿Flickr: Esglèsia romànica Sant Esteve, Andorra la Vella. Licensed under CC BY-SA 2.0 via Wikimedia Commons.


Proponho-vos então que, da próxima vez que forem a Andorra, reparem nas línguas.

Reparem na estranha sonoridade da língua de quem é mesmo andorrano.

Reparem como nas caixas de multibanco aparece a bandeira de Andorra (ou da Catalunha) a assinalar a língua principal (e o espanhol e o francês aparecem como opções, tal como o inglês).

Reparem em que língua estão escritas as placas da estrada.

Reparem, no fundo, nessa língua estranha e quase invisível aos olhos portugueses que é o catalão, única língua oficial de Andorra.

(Podem começar pela fotografia que encabeça este artigo: reparem na “Farmàcia” no canto inferior direito. Reparem no “Crèdit Andorrà“. Reparem no “Servei 24 hores“. Eis a língua catalã…)


Ora, deixem-me ainda contar-vos que foi nesse país minúsculo do outro lado da península que comecei a ficar obcecado pelo mundo das línguas. Estávamos em 1993…

Bem, isto já vai longo. Conto-vos mais tarde…

Esta viagem há-de continuar!

Um livro passeando pelas minhas memórias

Sempre achei os livros mais do que textos: são objectos, coisas que ocupam espaço e têm peso — e ainda bem.

Um aspecto curioso destes objectos, e também das palavras neles impressas, é a forma como são uma espécie de âncoras de certas memórias, sinais dos dias em que os lemos.

Explico-me: acontece-me, por vezes, reler certo livro (ou mesmo abri-lo ao acaso) e recordar então o lugar onde o li e o que sentia na altura.

Estranhamente, não é preciso ter lido o livro para que este fenómeno aconteça: às vezes pego num livro por ler e lá me vem à cabeça o momento onde o comprei, onde o folheei pela primeira vez, com vontade de lê-lo até ao fim, vontade que lá ficou guardada por muitos e bons anos entre as duas capas.

Assim, cada livro é também uma pequena história dentro da minha vida. Vêm-me estas considerações à cabeça por causa do livro que comecei a ler hoje: Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho.

Li a primeira vez o livro por volta dos meus catorze anos, depois de o comprar numa feira do livro na minha escola primária, onde voltara para visitar a minha mãe, que era lá professora nessa altura.

imageEssa primeira edição era dum encarnado romano — ou duma cor que Mário de Carvalho descreveria com a palavra exacta, como é seu hábito. Afinal, consegue ser um escritor de vocabulário imenso e simultânea clareza cristalina.

Comprei o livro porque uma das leituras que me tinha aberto a porta aos prazeres da literatura fora a «Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho», que tinha lido, na íntegra, no meu manual de Português do oitavo ano. Foi aquele momento em que deixei de lado recomendações do professor e perguntas a responder e li com um prazer de que nunca me esqueci.

Bem, cheguei a casa e depressa estava embrenhado no romance, e pensar nos acontecimentos de Tarcisis é uma das formas que tenho de recordar a casa onde então vivia com os meus pais, naquela terra que era, na altura dos romanos, uma ilha.

O sabor do romance era bem diferente da gulodice da Inaudita Guerra. Lembro-me de ter ficado algo desorientado com aquele discurso romano, aquele ambiente sereno, onde irrompiam bárbaros — e cristãos. Lembro-me de pensar que o livro tinha um sabor metálico. Não sei o que isso quer dizer, mas foi o que senti.

Poucos anos depois, na minha fúria de arrebanhador de livros, fui comprando semanalmente uma colecção da Planeta DeAgostini de romances portugueses. Há quem torça o nariz a estas colecções de papelaria, mas não sofro desse mal. Para mim um livro é um livro é um livro. Comprei a colecção na papelaria dos meus avós maternos, donde guardo imensas recordações muito boas e uma recordação dolorosíssima que um dia conto (ou não).

Adiante: o certo é que nessa colecção lá vinha o Deus que passeia e acabei com dois livros iguais, mas de capas diferentes, nas estantes.

Pois foi nesse segundo exemplar, desta vez amarelo, que peguei ontem, quando precisava de escolher um livro para trazer para Ponte de Sor, onde vim passar o fim-de-semana na casa dos meus sogros. De certa forma, quis deixar no outro, intactas, as memórias de há muitos anos.

Estou a ler e está-me a saber melhor do que da primeira vez — não será uma questão de ser uma edição diferente, mas sim dos anos de leituras que entretanto passaram.

Este foi um livro que comprei a visitar a escola primária, armado em quase adulto a voltar ao local de infância; recordo-me agora aos 34, a sorrir perante esse jovenzito a ler romances feito gente grande. Talvez daqui a muitos anos leia este mesmo livro uma terceira vez, a recordar-me desses tempos em que o meu filho era criança.

Os livros são o que têm dentro e são também a vida que guardamos neles, quase sem querer.

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