Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Paixão e montanhas-russas

By 663highland (Own work) [GFDL, CC-BY-SA-3.0 or CC BY 2.5], via Wikimedia Commons


Ah, pois. O que me calhou na rifa naquele sorteio que vos descrevi no último artigo foi isto: uma montanha-russa em Tóquio que se chama «Big O».

Bem, o desafio era escrever um artigo sobre o tema escolhido pelos deuses escondidos no ventre da Wikipédia. Ora, o que posso eu dizer sobre esta montanha-russa?

Para começar, digo que não me apetece assim muito andar nesta coisa. Isto porque tenho um problema que é o seguinte: tenho medo. (Mas se alguém me oferecer uma viagem a Tóquio só para experimentar, não digo que não.)

O que mais posso dizer?… Neste momento, estou a suar as estopinhas para ver se me safo desta.

Bem, posso muito bem perguntar ao meu caro leitor: por que carga de água tanta gente gosta de andar nestes monstros? Porquê passar uns minutos a ser torturado?

A resposta não é assim muito difícil: estas construções delirantes são seguras (dizem), mas convencem o nosso corpo (e a nossa mente) que estamos em perigo, deixando-nos com o coração aos saltos e a adrenalina a bombar nas veias. Racionalmente, sabemos que não há grande perigo. Mas o corpo não sabe e ficamos mesmo aos saltos como se estivéssemos a viver uma grande aventura.

É uma maneira de nos enganarmos a nós próprios — e esse engano é delicioso. No fundo, as montanhas-russas e outras invenções do género deixam-nos eufóricos à força. Deixam-nos aos gritos e com a cara afogueada. Deixam-nos (e isto é muito importante) como se estivéssemos apaixonados.

E às vezes deixam-nos mesmo apaixonados. Se a dois potenciais pombinhos ainda na fase do vai-não-vai lhes der para entrar numa montanha-russa e passar pelos altos e baixos da coisa, é bem provável que saiam de lá bem mais chegados um ao outro do que entraram. Sim: pode até dar-se o caso de ser naquele momento, entre os gritos e os risos e o coração aos saltos e as mãos que de repente se entrelaçam sem querer — pode dar-se o caso, dizia eu, de ser naquele momento que o cupido acerta no coração dos dois.

No fundo, estas emoções fortes à força de muito carril retorcido são mesmo um poderoso feitiço. Ficamos zonzos, mais vivos do que nunca, com o coração a sair pela boca, nos lábios um sorriso imenso — e, à saída, os passos fazem-se uns centímetros mais chegados um ao outro, os olhares um pouco mais demorados e até as piadas secas começam a deixar-nos na boca um riso mais sincero.

Ou seja, se alguém andar por aí sem saber o que fazer para despertar a paixão no coração da bela amada ou do belo amado, não precisa de inventar ou mandar vir uma qualquer poção do amor. Precisa ainda menos de ir à bruxa. Do que precisa mesmo é de comprar um bilhete para uma bela volta a dois numa montanha-russa. E nem precisa de ir a Tóquio! (Se bem que uma viagem dessas não é de deitar fora.)


E pronto, foi assim que o raio do botão da Wikipédia transformou este blogue, por uns minutos, numa espécie de consultório sentimental. Mas descanse o leitor já aflito: amanhã voltamos à programação habitual.

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3 Comments

  1. Paulo

    Aqui à muitos anos, quando fui aos USA, fui a um parque de montanahs russas. Eramos 5, e como é natural, quando um diz que vai a uma determinada coisa, os outros não têm “tomates” para dizer que não vão.

    O que aconteceu foi que após andar na primeira (relativamente pequena para os padrões deles mas bem maior que aquela que havia na feira popular de Lisboa), a adrenalina fez com que fosse a todas. Por maior que fosse, já não havia medo que surgisse. A última era (à data) o looping mais alto do mundo!

    Marchou como se fosse uma voltinha nos carrinhos de choque da feira da aldeia.

    Nunca mais fui a qualquer parque desse tipo e não tenho grande vontade de ir 🙂

  2. Ernesto Fernandes

    Que apontamento delicioso. Mas aposto que se te oferecessem a viagem com a condição de levares e andares nessa invenção infernal com o teu filho, recusavas terminantemente. Ou seria o contrário?

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