Certas Palavras

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Qual é a palavra mais perigosa da língua portuguesa?

Mas onde é que eu tenho a cabeça? Então começo a falar de piolhos num blogue sobre a língua? Pois, hoje, tenho de voltar a falar do português. Mas andamos em época de muita preocupação: são os ataques terroristas sem fim à vista, são as eleições americanas, são os ingleses a querer aumentar o tamanho do Canal da Mancha…

Pois, neste turbilhão de notícias, entrevejo uma palavra, talvez apenas uma ideia, ou será um desejo? Seja como for, essa ideia tem um nome e esse nome é, quanto a mim, a palavra mais perigosa da nossa língua. Sei que dizer uma coisa destas é um bom exemplo do maior erro de português de todos os tempos: a hipérbole destravada. Mas, que seja! Hoje apetece-me ser destravado.

Pois bem: assim sendo, qual é a palavra mais perigosa da língua portuguesa?

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Nada de pensamentos impuros!

Ora bem. No meu concurso muito pessoal, a palavra que ganhou o prémio Palavra Mais Perigosa do Mundo 2016 é…

… rufem os tambores…

«Pureza.»

Imagino a cara dos meus caríssimos leitores: «o gajo passou-se?». Num mundo de crise económica, terrorismo global, nacionalismo galopante — acusa a pureza de ser perigosa? Que mal pode ter a pureza? Acima de tudo: a palavra mais perigosa? Que exagero mais estrambólico.

Enfim, a mais perigosa não sei. Mas parece-me mesmo que é uma palavra muito, muito perigosa — por ser tão sedutora.

Não acreditam? Bem, deixem-me então dar-vos exemplos de sítios onde tantos procuram pureza quando a pureza só faz é mal:

  • Nação. É sedutora, esta ideia de nos refugiarmos num país puro. Dá-nos a sensação que o mundo já foi bem mais simples e puro e agora é tudo uma grande confusão. A mistura, a impureza — parece um sinal dos tempos mais em que vivemos. Esta sensação, à mistura com um certo pessimismo ingénuo (havemos de falar disto), leva a movimentos políticos de retorno à nação pura (que nunca existiu). Vemos isto em tantos casos que nem vale a pena referi-los. Pronto, afinal vale, até porque há um elefante na sala: o famoso laranjinha que assombra a Casa Branca porque milhões de americanos têm saudades dum país com menos crime (quando o crime está em níveis historicamente baixos), sem imigração (quando a expulsão dos imigrantes seria um desastre para o país), sem comércio internacional (num país que sempre ganhou com esse comércio internacional). Por cá, também temos disto, claro. Vemos, por exemplo, no futebol: há quem ache que só pode defender Portugal quem nasceu em Portugal, o que me parece redutor. Para estes, o Pepe nunca deveria ter entrado na selecção. Acima de tudo, pureza! O resto que se lixe.
  • Raça. Este foi o ideal de pureza que mais estragos fez. Enquanto a ideia de nação ainda costuma permitir que qualquer pessoa se junte ao grupo, desde que aceite a sua cultura e a sua língua, no ideal de pureza racial, as pessoas ficam definidas para sempre logo à nascença. Para estes, a nossa raça mais ou menos inventada é o aspecto principal da nossa identidade, queiramos ou não queiramos. Nesta visão do mundo, as raças são identidades que devem ser defendidas. Nem vale a pena explicar por que razão isto é perigosíssimo.
  • Partidos. Na política, há quem queira ideologias puras, partidos uniformes, ideias sempre iguais. Será isso bom? Não me parece… Esta necessidade de pureza também se vê nas escolas literárias, nas disciplinas intelectuais, etc. O desejo de pureza intelectual é a melhor receita para ideias mortas, dogmáticas, irrelevantes… Aliás, o desejo de matar a discussão e deixar apenas os puros é o exacto contrário da ideia de ciência e progresso intelectual.
  • Comportamento sexual. Será que a pureza sexual é positiva? Nada tenho contra a prudência e contra a elegância (coisas muito diferentes da pureza). Menos ainda contra a educação sexual e contra o planeamento familiar. Mas a obsessão com a pureza a todo o custo parece-me ser terrível para cada um de nós e para o mundo — limita-nos a vida e leva-nos a querer controlar a vida dos outros. Ainda há anos, nos E.U.A., havia leis contra a prática de sexo oral dentro do quarto de cada um. Felizmente, foram todas eliminadas duma só vez por uma decisão sábia do Supremo Tribunal. Pois não acham que leis dessas são das coisas menos elegantes, mais taradas e menos sábias do mundo? É por estas e por outras que o horror à sexualidade diferente me parece ser fruto de obsessão pelo sexo. Deixem lá cada um com as suas manias e comportamentos impuros (entre adultos livres, qual é o mal?).
  • Religião. O que atrai muitos dos terroristas que se explodem por aí? Um ideal puro de amor a Deus e desprezo pelo mundo infecto. Lutam contra uma sociedade que querem menos depravada. Defendem aquilo que vêem como uma lei sagrada e eterna — e pura. Têm uma visão totalitária do mundo e das sociedades — que se querem puras. Aliás, os totalitários de todas as cores são assim — adoram a pureza, adoram os simplismos que impõem aos outros. Ambiguidades? Dúvidas? Diferenças? Discussão? Democracia? Nada disso é puro. É tudo complexo e muito sujo. Por isso, mais do que aceitar uma mundo complicado, alguns acabam numa explosão que os deixa de alma intacta e mártires, em direcção à eternidade. O desejo de pureza, aqui, é a perfeita incarnação do mal.

Reparem como estes campos onde a pureza se apresenta como sedutora são facetas da identidade pessoal e colectiva. Ou seja, o desejo de pureza é especialmente perigoso quando está ligado a uma qualquer identidade (nacional, religiosa…)

Não me entendam mal: percebo a necessidade de ter uma identidade forte. Em relação à nossa identidade pessoal, não acho que todos temos de ir a correr atrás de qualquer moda ou tentação que nos apareça à frente. Já as nações, é normal que mantenham rituais e mitos próprios, que ajudam a manter a comunidade forte e coesa. Também os partidos precisam de princípios básicos que unam os militantes. Digo mais: o medo da diluição não deve ser todo posto no mesmo saco do purismo exacerbado. Podemos levá-lo a sério e discuti-lo.

Mas — e este mas é  muito importante — quanto mais forte um país, um partido ou uma pessoa, menos necessidade tem de afirmar uma pureza a todo o custo.

(Já no que toca à raça, esqueçam lá isso… Excepto quando a identidade racial nasce duma história qualquer de opressão, parece-me absurdo basear a nossa identidade na proximidade superficial de cor ou aspecto.)

A necessidade de pureza a todo o custo é um sinal de extrema fragilidade. A obsessão pela pureza das identidades que descrevi acima está, muitas vezes, ligada à insegurança. Quando achamos que a nossa nação está em decadência, viramo-nos para a pureza irreal que julgamos ver no passado. Quando temos acesso a cada vez mais textos escritos, nem todos bons, achamos que a língua precisava de purificação (em vez de nos darmos ao trabalho de procurar o que é bom).

A vida pede mais descontracção, mais confiança, menos pureza, porque um certo grau de mistura é a melhor forma de garantir a força e a vitalidade de qualquer língua, qualquer nação, qualquer pessoa. E então na religião temos um caso muito óbvio em que a pureza pode ser extraordinariamente perigosa… Quando o mundo é complexo, aparece-nos a tentação de soluções simples, totalitárias, em que Deus manda viver assim ou assado desde o início do mundo, para todo o sempre. É por este caminho que algumas pessoas se tornam monstros ao serviço dum ideal muito puro. Mais vale ter dúvidas, gostar mais das pessoas concretas, do seu corpo real, aqui e agora, do que das suas almas futuras e eternas.

O desejo de pureza levado ao extremo leva ao terrorismo, ao fascismo, ao sangue dos inocentes que têm o azar de ser vistos como impuros. Solução para estas fúrias dos puros? Não tenho. Mas posso propor que respiremos fundo. Algumas gargalhadas ajudam a viver melhor. Lembrem-se que os muito, muito puros odeiam o riso.

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3 Comentários

  1. Emanuel Almeida

    Então e a pureza da água? A pureza do ar? A pureza de pensamento?

    • Marco Neves

      Nada contra a pureza da água, a pureza do ar ou das pedras preciosas. Já a pureza de pensamento parece-me perigosa.

  2. Nem de propósito, há alguns dias atrás acabei de ler o polémico livro de George Steiner, “O Transporte para San Cristobal de A.H.”. Nele Steiner, imagina um Adolf Hitler já nos seus 90 anos, no final da década de setenta, que ao invés de se ter suicidado no bunker do Reichtag, teria fugido para a América do Sul. E no final, mesmo no último capítulo, Steiner dá a Adolf Hitler a hipótese de se defender, como que num julgamento. Hitler afirma que tudo o que aprendeu sobre pureza da raça, aprendeu-o a partir das escrituras sagradas, onde o povo hebraico chacina, expulsa e torna escravos os povos (Amonitas, Jebusitas, Cananeus) daquilo que se tornaria Israel. E a ideia do ubermensch (o super-homem de Nietzche que a ideologia nazi apropriou erradamente) vem dos judeus também, “material em segunda-mão” afirma o A.H. de Steiner, uma pálida imitação do povo escolhido por Deus, os judeus vetero-terstamentários e os cristãos neo-testamentários.
    Esta paranóia judaico-cristã da pureza, do homem puro, perfeito, o uber-mensch tem feito tanto mal à humanidade. Deveríamos celebrar sim, as nossas fraquezas, as nossas imperfeições, a nossa humanidade. Afinal são as nossas fraquezas que nos moldam, que nos fazem mais fortes, que nos dão coragem para enfrentarmos as demandas de perfeição que as nossas sociedades imbuídas deste espírito de perfeição nos atiram diariamente. E que nos fazem rir do ridículo de nós próprios. À gargalhada.

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