Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Palavras escondidas com o rabo de fora

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[Aviso: este artigo contém símbolos estranhos. Espero que os computadores dos caríssimos leitores se aguentem à bronca.]

Como se diz a palavra «giz»?

Ia eu a caminho da festa de que vos falei há uns dias, quando passei numa curiosa terra chamada GIZ. Sim, Portugal tem terras com nomes muito estranhos.

Ora, a minha cabeça é ainda mais estranha. Aquilo em que pensei quando passei na simpática aldeia foi isto: a palavra «giz» tem duas consoantes que leio praticamente da mesma maneira.

A coisa é subtil: a transcrição fonética da palavra costuma aparecer com o «z» lido como «ch»: [ʒˈiʃ]. Mas, para vos dizer a verdade, ouvindo com atenção, parece-me que lemos a palavra com um «j» final: [ʒˈiʒ]. Leio «giz» como «jij».

Seja como for, em Portugal, ninguém lê este «z» como «z»: seria algo como [ʒˈiz], o que não se diz em lado nenhum (repito que estou a falar da leitura da palavra isolada).

No Brasil, a coisa varia entre a leitura carioca muito parecida com a nossa e a leitura paulista, em que o «z» se lê como um «s»: [ʒˈis].

Algumas pessoas menos dadas a estes temas linguísticos estarão agora a perguntar que raio de símbolos são estes. São símbolos do Alfabeto Fonético Internacional (a sigla comum é a inglesa: IPA), o alfabeto que os linguistas usam para transcrever os sons das várias línguas o mais objectivamente possível — o que não é nada fácil.

Quando olhamos para a nossa língua transcrita com este alfabeto ficamos surpreendidos. A palavra «português», por exemplo, é assim: [puɾtugˈeʃ]. Já a palavra «carro» transcreve-se como [kˈaʀu]. Isto, claro, se estivermos a falar da pronúncia lisboeta, porque a transcrição fonética consegue apanhar as diferenças de pronúncia da língua.

Por outro lado, e levantando só um pouquinho o véu desta área imensa da linguística, a fonologia estuda a forma como esses sons se organizam para distinguir significados: assim, podemos dizer «giz» de várias maneiras, mas o significado será sempre o mesmo; já se mudarmos o último som para «gil» o sentido que obtemos já é outro.

O estranho caso da blogger que queria dividir as palavras

Ah, mas a língua é malandra até dizer chega. Quando temos uma vogal à frente da palavra (por exemplo «giz amarelo»), aí sim lemos o «z» como «z» — «gizamarelo» ou, em IPA: [ʒˈizɐ.mɐ.ɾˈɛ.lu]. «Lemos», como quem diz. Depende da zona do país. Há quem mantenha a pronúncia das duas palavras como quando aparecem isoladas. Temos, assim, leituras como «gijamarelo» ou «estájaver?» em vez do mais sulista «estázaver?».

Estas formas de ligar as palavras umas às outras variam de língua para língua (claro) e, dentro de cada língua, são uma das características que distinguem os vários sotaques. Ora, claro, estas diferenças vêm trazer à baila os fantasmas tribais de que temos falado por aqui tantas vezes. Tu falas de maneira diferente? Não és cá dos meus…

Um pequeno exemplo: há uns anos, lembro-me de ler num dos blogue da moda (não me lembro qual) um texto em que a blogger gozava com alguém que apareceu na televisão e disse «estájaver?» em vez de se conformar à pura pronúncia lisboeta.

Atirou a blogger (disto já me lembro): «Mas a criatura ainda não percebeu que “estás a ver” são três palavras separadas?»

Fartei-me de rir. Porquê? Porque todos nós dizemos as frases sem pausas. Ninguém, no seu perfeito juízo ou fora de situações muito particulares, diz as várias palavras de forma separada. Estão [pausa] a [pausa] perceber [pausa] o [pausa] que [pausa] estou [pausa] a [pausa] dizer?

Mas ri-me também por isto: na verdade, é precisamente a pronúncia lisboeta da blogger que junta as palavras e lhes muda o som por serem ditas sem qualquer separação. A pronúncia de Lisboa implica dizer «estázaver». Já o falante mais a norte lê «estás» como se fosse uma palavra isolada, com o seu «∫/ʒ» final: «estáj a ver». Ironias da blogaria pseudolinguística nacional.

O amor entre os linguistas

As palavras, na nossa boca, juntam-se, mudam, misturam-se. Juntamo-las umas às outras e temos dificuldade em separá-las na corrente ininterrupta de sons que nos sai dos lábios. Tanto é assim que o tal Alfabeto Fonético Internacional, quando é usado para transcrever frases, não costuma vir com espaços. A frase «amo-te muito» é transcrita como «ˈɐmutɨmˈũjtu». Parece pouco romântico? Mas é assim que dizemos a frase… Não pomos lá espaços no meio. (Será que algum casal de geeks linguísticos escreve bilhetes de amor usando o alfabeto fonético?)

Há quem julgue que juntar as palavras é descuido, tentando contrapor uma pronúncia artificial, em que cada palavra soa de forma isolada. Felizmente, são poucos os doid—— as pessoas que caem nesse erro.

Agora, claro, tenho de fazer o aviso do costume: isto não quer dizer que uma boa dicção da nossa língua não seja importante quando falamos em público — mas uma boa dicção também implica juntar as palavras umas às outras de forma natural e de acordo com as regras da língua…

Uma palavra que desapareceu mas deixou rasto

As regras de ligação entre palavras na oralidade são complexas, quase todas inconscientes — e muito interessantes. Escondem até alguns achados de arqueologia linguística.

Querem ver?

Há uns dias, descobri num interessantíssimo comentário de Fernando Venâncio que a nossa comum pronúncia da expressão «como o Tiago» é uma relíquia duma palavra que já não usamos.

Se ouvirem com atenção, percebem que, muitas vezes, no dia-a-dia dizemos «como o Tiago» desta maneira: «comòtiago» (isto não é Alfabeto Fonético Internacional, note-se).

Ora, usar um O aberto numa junção de palavras é comum quando unimos o A ao O («tira o chapéu» é dito em conversa rápida como «tiròchapéu»). Já a junção de dois U costuma sair U. Então, donde vem o [o] aberto de [comòtiago]? Virá da antiquíssima palavra «coma» (sinónimo de «como»). Há muitos séculos, dizíamos «coma mim» («como eu») e «coma ti» («como tu»). A palavra desapareceu, mas deixou uma marca na maneira como ligamos a palavra «como» ao artigo «o»…

Como esta, haverá outras. Aliás, já vos tinha falado de concordâncias verbais com palavras-fantasma. As palavras desaparecem, mas deixam pistas. E alguns linguistas lá se armam em detectives à procura das palavras escondidas…

A nossa língua é isto tudo e muito mais. Tem regras muito complexas que usamos sem notar, guarda segredos de chorar por mais — e consegue surpreender durante uma vida inteira todos aqueles que para ela olham com curiosidade.

Querem mais um segredo? O português, nisto da malandrice, não é um caso isolado. Estes fenómenos acontecem em todas as línguas, desde a língua falada por algumas dezenas de pessoas na Amazónia até às línguas como o chinês ou o inglês. A linguagem humana é qualquer coisa de nos deixar pasmados.

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12 Comentários

  1. Luciano

    A palavra português, em Portugal, não é dita com a primeira vogal a soar como U?

  2. DePeixes

    “Coma mim” e “coma ti” som formas ainda muito vivas na Galiza. Ou, quando menos, muito vivas na minha família.

    Obrigado polo seu blogue.

    • No galego oficial, recomendo-se o seu uso. A Galiza soube preservar moitas verbas que já nom se usam em Portugal, dende há bem tempo.

  3. João Frias Pinto

    Porque não pronunciamos, todos, da mesma forma? Porque uns dizem “uj ólhos” e, outros pronunciam “uz ólhos”? O mesmo para o plural de orelha, unha, etc. De onde vem esta diferença? E, já agora, porque em determinadas regiões do País, o som “zê” – Viseu, por exemplo – é dito com uma sibilante entre o “J” e o “Z”?
    Terá a ver com a herança das línguas pré-romanas?

  4. Jorge

    Na Beira Baixa continua a dizer-se comamim

  5. marua

    É sempre um prazer ler estas curiosidades sobre a nossa língua, que bem traiçoeira é, mas de uma riqueza enorme. Obrigada pelo que nos vem ensinando ou relembrando.

  6. João Chamiço

    A mim dá-me gozo “ressuscitar” palavras que caíram em desuso. Coma mim, costumo brincar com essa expressão, mas a verdade é que na zona onde nasci, Alto Alentejo, ainda é usada no linguajar do povo.

  7. Ivan da Silva Oliveira Junior

    Professor, bom dia do Brasil e meus parabéns pelo conhecimento, coragem e opiniões no blog. Em um de seus artigos, creio que de 2013, o senhor comenta sobre o imprevisto “h” na frase: ” Não hajas como uma galdéria”. Bem, mas a palavra galdéria é escrita com “l” em Portugal? No sul do Brasil, os gaúchos tratam-se desta forma com o sentido de alegres, folgados etc. Há mais esta duplicidade?

  8. Anabela Ferreira

    ótimo título e ótimo artigo! como sempre!
    É o problema das palavras parónimas, das quais lembro sempre este exemplo aos meus alunos: Isto dantes/estudantes
    que lido com a usal pressa lisboeta, são idênticas 🙂

  9. Orlando de Carvalho

    Belo!
    A questão do dividir ou não as palavras não me parece simples.
    Eu ensino crianças e adultos a proclamarem leituras para audiências. E ensino a separar as palavras. Insisto que não tenham pressa, porque o importante é as pessoas entenderem. Até porque aqui se coloca outra questão. Ao falar normalmente, eu posso fazer uma ligação natural das palavras, com alguma graciosidade, inteligível para o outro e sem me aperceber, mas quando leio, as palavras não são minhas e a graciosidade e a inteligibilidade não saem tão naturalmente. Então, se quero que me entendam, tenho de ir ao encontro do outro, mesmo sacrificando a sequência natural do discurso. Aliás, nos ensaios, forço a separação das sílabas. E as crianças ganhariam muito se os pais tivessem com elas essa cansaço: escutá-las a ler e corrigi-las e mandá-las, quando necessário, separar as sílabas. Se a elisão da vogal surge em idade precoce, corremos o risco de o indivíduo nunca mais se entender.
    Quando eu era menino, o meu pai, que tem apenas a quarta classe, corrigia-me quando eu fazia a elisão das vogais. Estou-lhe grato por isso. Porque me deu bases para eu me corrigir, ainda hoje, a mim mesmo, no sentido de ser bem compreendido pelos outros.
    Acredito que a escrita fonética seja já questão de museu, mas quem andou no liceu, no meu tempo, teve oportunidade de a aprender e aproveitar-se dela.
    Confirmo: belo texto

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