Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Parágrafos despenteados em bom português

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Os livros são como as pessoas: às vezes, despertam-nos uma simpatia imediata.

Pois, aconteceu-me isso com um livrinho que comprei ontem e que ando agora a ler, deixando os outros amigos de cabeceira um pouco de lado.

O livro é Despenteando Parágrafos, de Onésimo Teotónio Almeida (Quetzal, 2015).

Primeiro, a introdução tem à cabeça uma citação de José Cardoso Pires, escritor que é tão importante para mim que ainda nem consegui escrever grande coisa sobre ele neste blogue.

Descubro, assim, que o próprio título desta colecção de ensaios vai beber a Cardoso Pires. Isto é o suficiente para alegrar o meu coração de leitor.

Depois, descubro que Onésimo Teotónio Almeida fala de forma inteligente e prática sobre as questões da linguagem.

Para começar, não cai nos habituais catastrofismos. Só um exemplo:

[Tenho] a sensação de em Portugal ter diminuído sensivelmente a tendência para o texto excessivamente empolado, cultivando a obscuridade e procurando marcar pontos pela dose impressiva de vocabulário rebuscado e pretensamente científico. Em parte, creio, isso deve-se à nova geração educada noutro universo cultural, e à Internet, que nos e-mails e blogue agilizou grandemente e soltou a nossa prosa. (p. 16)

A Internet a fazer bem ao português! Onde é que já se viu tal desaforo? Imagino os profissionais do pânico já de mãos na cabeça e muito suspiro desalentado de todos aqueles que odeiam o tempo em que vivem…

Mas isto é um pormenor. Mais importante é o facto de o filósofo atacar de frente um dos verdadeiros problemas da nossa língua: a linguagem obscura sem razão, tão fácil de usar para disfarçar ideias mal pensadas — ou mesmo a falta de ideias.

O primeiro ensaio é uma recolha de textos risíveis de escritores e ensaístas portugueses, textos tão bem amanhados que, no fim, não fica nada: uma nuvem de palavras de aparência inteligente e que poucos se atrevem a atacar, com medo de dar parte de fraco.

Um exemplo? O ensaio inclui imensos, mas fiquemos só com uma frase (se querem mais delícias destas, comprem o livro, que vale bem a pena): «O Outro é sempre o Outro do Outro, definindo-se pelo espacejamento e pela alteridade ilimitada.»

Sim, eu sei, este exercício é fácil se tirarmos frases do contexto. Mas os extractos escolhidos e comentados por Onésimo Teotónio Almeida são bem mais extensos. Lemos aquilo e ficamos estarrecidos: pomos ao lume estes nacos de prosa e desaparecem num fio de fumo.

Isto, sim, é um problema da língua — muito mais do que as falsas catástrofes dos tais profissionais do pânico («ai, o vocabulário que se vai! ai, a sintaxe que se fica!»).

Por isso, este é um livro que defende o bom português, mesmo não sendo um livro sobre o português. E ainda por cima é divertido e com ideias a fervilhar. O que posso querer mais?

Bem, o dia tem poucas horas e o livro está ali a chamar por mim.

Até amanhã!

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1 Comment

  1. Ainda não consegui decidir se vou gostar do livro; por um lado admiro o ataque contra a abstrusão dos nossos ensaístas – isso é um sério problema entre nós; por outro lado (baseado em leituras superficiais de excertos noutros blogues), parece-me que estende o ataque à literatura e pugna por um perigoso simplismo verbal. Tenho mesmo de ler o livro para perceber o que está a dizer.

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