Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

A poesia dos autocarros de Lisboa (e como os poetas também gostam de bola)

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Livros na Bagagem. Capítulo 10.

Os manuais escolares têm má fama entre aqueles que dizem defender a verdadeira literatura. Afinal, que raio de literatura é essa que é partida aos bocados e entregue aos alunos em pedaços mastigáveis? Quem poderia alguma vez perceber o valor e o sabor da literatura lendo bocados de livros?

A coisa é, claro, mais complicada: afinal, algumas pessoas não teriam contacto com a literatura não fossem os manuais. Se estes já são caros, imagine-se o que seria comprar todas as obras que merecem ser lidas. Por outro lado, ler um capítulo desgarrado dum romance servirá para muito pouco…

Enfim, esse debate merecia um texto longo, cheio de «tendo-em-conta-ques», «por-conseguintes» e outros que tais. Fica para outro dia.

E, na verdade, temos sempre os poemas, que são obras completas ali na página.

Há poemas que nos atingem sem percebermos bem como. No meu 10.º ano, tinha um manual cinzento (na cor, não no conteúdo). Encontrei este poema, que acho que nunca cheguei a dar na aula e, sem saber porquê, fiquei agarrado:

Um Amor

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice, A Partilha dos Mitos

Caraças. Ainda hoje fico afectado por este poema. Por algum motivo, isto batia certo com uma imagem qualquer que tinha do que era viver numa cidade e ter um grande amor numa cidade — e perder esse grande amor nessa cidade. Era como se eu já tivesse vivido aquilo, o que era impossível.

Essas luzes dos autocarros no crepúsculo, os passos numa praça ou num cais — bolas, parece que até consigo ouvir os exactos autocarros da Carris a passar com as luzes a acenderem-se e achar isso bonito.

Enfim, anos depois, vim a ser aluno de Nuno Júdice, mas parece que as pessoas conseguem desdobrar-se e ali tinha um professor e não o poeta do poema que mais me marcara na adolescência. Nunca lhe cheguei a dizer a importância daquele poema para mim.

E, sim, cada um de nós é muita coisa ao mesmo tempo. Quem é poeta, também pode ser professor e até pode ter paixões mais comuns, por mais estranho que possa parecer. Há uns anos, decidi ir ao lançamento duma tese de doutoramento sobre a obra do poeta. A tese chama-se Na Teia do Poema: um percurso intertextual na Poesia de Nuno Júdice e o autor é Ricardo Marques. O autor da tese, durante o lançamento, contou vários episódios curiosos. Um deles ficou-me na memória. Passou-se num qualquer Junho em que havia um Euro a decorrer em que Portugal participava. O Ricardo estava sentado à secretária na FCSH, a analisar de forma muito profunda e complexa um dos poemas de Nuno Júdice, sob um calor intenso — quando o poeta, ele próprio, que ali era professor, entra pelo gabinete adentro e pergunta: «Então e o resultado? Qual é o resultado?»

Falava, claro, não do resultado da análise do poema, mas do jogo de Portugal que estava a dar na televisão.

Ah, que a poesia não é algo separado da vida, pois não? Os poetas também podem gostar de bola — e, na verdade, às vezes, sem saber, deixam marcas profundas em adolescentes que encontram, de repente, as luzes dos autocarros a acenderem-se num poema e uns passos quaisquer numa praça de Lisboa… Tudo num simples manual de Português.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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1 Comentário

  1. Não conhecia este poema de Nuno Júdice e foi um momento feliz este em que o li graças à sua partilha. A imagem do “ainda apanhámos o crepúsculo” fez-me lembrar os momentos em que, ao cair da noite, no sul de São Tomé, numa missão de voluntariado, a minha imaginação alimentava o desejo vão de parar o crespúsculo efémero antes de o dia ser completamente devorado pela noite…
    Abraço.

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