Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Porque é que a língua atravessa a estrada?

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Há muitos anos, fiquei impressionado com o que li num livro de matemática de cujo nome não me lembro: quando atravessamos a estrada para chegar ao outro lado da rua, o nosso cérebro tem de fazer uma série de cálculos muito complexos.

Sim, a nossa cabeça mete-se em cálculos bem avançados para conseguir este simples feito: não sermos atropelados. Então quando falamos de conduzir, os cálculos são ainda mais complexos e a rapidez com que tudo se processa é ainda maior (e os erros também aparecem com mais frequência, com consequências trágicas).

Quem se der ao trabalho de investigar o que é preciso para ensinar um robot a passar a estrada ou a conduzir (não é impossível), verá que o nosso cérebro é espantoso. Mesmo um aluno de condução muito atrapalhado está a aplicar uma inteligência inconsciente que espanta a nossa inteligência consciente quando esta se dá ao trabalho de investigar.

Aliás, precisamos de complicados cálculos para andar na rua sem embater nas outras pessoas; para andar de bicicleta; para nadar; para estar em pé; para respirar e, enfim, para viver. Tudo parece natural, não é? Porque é natural! O nosso cérebro é natural e muito complexo, afinado ao longo de milhões de anos de evolução.

Tudo isto acontece debaixo do capô, digamos assim. Nós não temos noção consciente das capacidades do nosso cérebro. Há quem passe décadas a estudar para reproduzir de forma explícita alguns dos cálculos que fazemos inconscientemente. A nossa inteligência consciente não sabe o que anda a fazer a nossa inteligência inconsciente.

No que toca à linguagem, as regras das línguas, aprendidas quando somos muito novos, são espantosamente complexas. É uma complexidade invisível, mas que existe em todos os cérebros que aprenderam essa mesma língua. Sem excepção. Os linguistas têm como ocupação compreender essas regras inconscientes e ainda estão muito longe de o conseguir na sua totalidade. Abram uma gramática descritiva, daquelas mais recentes (normalmente, são grandes calhamaços), e verão a extraordinária complexidade do que é descrito. E é apenas a ponta do icebergue…

No entanto, a nossa inteligência consciente está convencida que a língua se reduz às regras da pequena gramática que estudou quando andou na escola. E está convencida ainda que ninguém sabe falar, que a língua que está nas bocas dos jovens é um conjunto de grunhidos, que ninguém cumpre as regras do português… — mal sabem os cultores dessa visão aquilo que estão a ignorar…

Sim, há quem tenha muita dificuldade na escrita ou em falar em público — que são duas formas de usar a língua um pouco artificiais e que têm regras muito específicas. Mas esses dois aspectos do uso da língua não são, nem por sombras, a língua toda — nem o mais interessante daquilo que é a linguagem humana.

Ora, sendo muito importante aprender a escrever e a falar em público, também é bom olhar com mais respeito para essa complexidade invisível que está na cabeça de todos os falantes. Convém não medir a língua com a régua das nossas certezas. E, mais importante ainda, convém não andar a cortar a língua para se conformar a essa mesma régua. Digo isto porque há sempre quem não entenda as regras invisíveis do português e o queira martelar à força até caber nas regras simplificadas que tem na cabeça. São aqueles a quem alguns chamam de «puristas». Eu diria que são antes «simplistas».

Vou dar três exemplos concretos.

«Deslarguem-me!»

Já sabem que, há uns dias, andei às turras com enervadinhos da língua por causa dum título de jornal: houve por aí uma pequena rebelião por causa dum artigo de jornal que tinha o belíssimo verbo «deslargar» no título. O horror! Ao tentar defender o uso levemente humorístico do verbo, que é perfeitamente aceitável num texto jornalístico (que tende a misturar registos), a coisa azedou e, como não tinham argumentos de jeito, os meus opositores de ocasião acabaram por apontar as armas ao meu português, à procura de falhas. Uma maravilha!

Pois, a regra simplória que tinham na cabeça é esta: «des» é um prefixo que significa negação e ponto final! Ora, a língua portuguesa gosta de vos chatear, é verdade. Tanto assim é que o tal prefixo tem vários significados (tchanam!):

  1. Negação («desfazer»).
  2. Intensificação («deslargar»). Aqui, dizer «intensificação» é uma simplificação. O prefixo tem significados mais subtis…

É estranho? É! Mas todos nós compreendemos perfeitamente o significado das palavras «deslargar», «desmoer», «desinquietar».

Os sociolinguistas sublinharão ainda que os dois significados podem ser encontrados no registo popular, enquanto os registos mais formais usam apenas o significado n.º 1.

Complicado? Ah, pois é. Mas os mecanismos da língua permitem-nos lidar com tudo isto sem espiga, principalmente no caso daqueles que estão mais atentos, que falam mais, que lêem mais. Confusões só aquelas que certas almas criam quando não sabem o que está por baixo do capô da língua…

«Tem dias» e «Caiu umas pinguinhas»

Há uns dias, Fernando Venâncio falava destas expressões tão portuguesas, num divertido post de Facebook. Dizia o linguista:

«Já caiu umas pinguinhas» é perfeitamente gramatical. Sim, ó linguistas (m/f) de aviário que decretais os muitos “erros” da língua portuguesa. Trata-se, ali, da síncope do pronome impessoal ELE em «Ele já caiu umas pinguinhas». […] Por isso dizemos também: «Tem dias». Não é um brasileirismo, como poderia levianamente supor-se. É um português da melhor cepa. É o que resta depois de elidido o pronome em «ELE TEM DIAS». E a graça é, até, que os brasileiros não conhecem (ou já não conhecem) esta jeitosa construção.

Outro linguista, Victor Veríssimo Oliveira, comentava por baixo:

“Ele” seria o que nós gerativistas chamamos de “pronome expletivo”. Ou seja, não tem valor semântico, apenas função sintática de ocupar a posição de sujeito. É como o “it” do inglês ou “il” do francês.

Por outras palavras: as línguas, às vezes, fazem uso de pronomes que servem apenas para ocupar espaço (malandras, as meninas) e nada querem dizer na realidade («it is raining», por exemplo). Depois, línguas como o português europeu dão um passo em frente e permitem que esse pronome desapareça (a tal síncope), deixando um rasto no verbo, que continua a concordar com o tal pronome desaparecido.

Algumas pessoas põem as mãos na cabeça porque as frases («Já caiu umas pinguinhas» e o delicioso «Tem dias») não parecem cumprir uma simples concordância, quando, na verdade, estas frases estão a seguir mecanismos mentais bem mais complexos e profundos.

Sim, eu sei, esta concordância com um pronome desaparecido é aceitável na oralidade e menos na escrita formal. Até nisso a gramática é complexa — o que pode ser aceitável numa situação informal, pode ter de ser evitado na escrita. Porquê? Por vários motivos, sendo um deles este: a escrita tem regras mais simples e menos flexíveis. E, sendo mais permanente, está sujeita a certas elaborações conscientes que, às vezes, corrigem, de forma insegura, aquilo que o inconsciente lá pôs sem medo. Lá está: a inteligência consciente tem algumas manias estranhas.

Reparem: perante «tem dias» e «caiu umas pinguinhas», os linguistas fazem testes, investigam e tentam descobrir o sistema por trás da língua que põe os falantes a dizer, de forma sistemática, estas construções. É um exercício de análise que não é nada fácil.

Já os que pensam a língua à bruta acham que está errado e pronto. É mais fácil, de facto. Mas, o que é triste é isto: atrevem-se depois a dizer que os linguistas não acreditam em regras. Não acreditam eles noutra coisa! Aquilo que os linguistas estudam são essas regras inconscientes, bem mais complexas e difíceis de entender que as regrazitas que vamos decorando ao longo da vida.

«Garantir que fazemos isto!»

Um dia recebi, na empresa onde trabalho, uma reclamação sobre o uso dum verbo. Numa das nossas traduções, tínhamos usado uma construção do tipo: «garantir que fazemos o necessário para» (era uma frase parecida, não me lembro agora das palavras exactas; mas os elementos relevantes são estes: o verbo «garantir», um «que» e um verbo no indicativo).

Ora, a cliente informou-nos que este era um erro de palmatória. Como toda a gente sabe, depois dum «que», o verbo tem de vir no conjuntivo. Ou seja, devíamos ter escrito «garantir que façamos o necessário».

Mais uma vez, temos uma regra simples, decorada algures na vida de alguém, que esse alguém tenta sobrepor a regras mais complexas, que todos temos no nosso cérebro de falantes de português.

O mecanismo real que existe no português-padrão implica que, no caso de o verbo da oração principal ter um conotação de certeza («garantir», «afirmar», etc.), o verbo da subordinada pode vir no conjuntivo ou no indicativo. No caso de o verbo da oração principal exprimir dúvida ou incerteza, então sim não devemos usar o indicativo na oração subordinada. Ou seja, «garantir que fazemos o necessário» está correcto, mas «*duvidar que fazemos o necessário» está incorrecto. Esta última frase deve ser: «duvidar que façamos o necessário».

Será mais ou menos isto:

  • Se o verbo principal exprime certeza, o verbo da subordinada pode estar no indicativo («garantir que fazemos o necessário») OU no conjuntivo («garantir que façamos o necessário»).
  • Se o verbo principal exprime incerteza, o verbo da subordinada tem de estar no conjuntivo («duvidar que façamos o necessário»).

Esta regra (que é capaz de ser ainda mais complexa do que o descrito acima) está gravada, inconscientemente, no cérebro dos falantes de português. Já um estrangeiro que queira aprender a nossa língua perfeitamente (é quase impossível depois dos 15 anos) deverá aprender esta regras de forma mais ou menos consciente.

Sim, é uma regra pouco simpática: não é simétrica (num dos casos temos uma opção entre duas alternativas, no outro caso temos uma só alternativa) e permite duas opções, o que parece ser encarado como pecado mortal por muitos dos tais «linguistas de aviário» (nas palavras de Fernando Venâncio).

Já os estou a ouvir a gritar: «”Ou”? “Também”? Não, não, não! Nós não queremos opções! Nós só queremos proibições!»

Porque é que a língua atravessa a estrada, afinal?

Ora, sim. É essa a pergunta do título.

Mas antes dessa, uma outra pergunta: porque é que a língua é tão complexa? Porque as línguas humanas tendem todas para a complexidade. Podia tentar dizer mais alguma coisa sobre o assunto, mas este artigo já vai para lá de longo. Fica para depois.

Outra pergunta: não podíamos tentar simplificar a língua? Poder, podíamos, mas ninguém nos ligava nenhuma e não serviria de muito. As línguas são sistemas complexos, com as suas correntes profundas, que vivem nesse caldo criado pelo uso conjunto por muitas pessoas. Algumas línguas, às vezes, lá passam por períodos de simplificação (descrevi isso mesmo aqui e chamei-lhes, a esses períodos de simplificação, «marteladas persas»), mas pouco podemos fazer para acelerar o processo. E já todos devíamos saber que simplificações à força costumam dar porcaria…

Então e atravessar a estrada? A nossa língua dá-se ao trabalho de ser complexa, de atravessar a estrada com todos os cálculos que isso implica, para quê? Para nos permitir explicar, discutir, insultar, seduzir, conversar: quando andamos por aí, no dia-a-dia, usamos a língua para muitas coisas e usamo-la de forma muito mais criativa, subtil e inteligente do que pensamos. Mesmo quando balbuciamos, estamos a fazer cálculos linguísticos tremendamente complicados: a modulação da voz, a escolha das palavras, as formas de tratamento, o ritmo, as hesitações… Falhamos muito? Sim, como em tudo. Mas aquilo em que acertamos é tanto que me faz impressão haver por aí tanta indignação com um ou outro uso de algumas inocentes palavras e, por outro lado, tão pouca curiosidade sobre o que as línguas têm lá dentro, que é um espanto de ficar de boca aberta.

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1 Comentário

  1. Rodrigo

    Caro Marco,

    Eu ainda diria que há situações em que é possível dizer “duvida de que fazemos o necessário”.

    Se Fulano é quem diz duvidar, então, dirá “duvido de que (vocês) façam o necessário”, mas se sou eu a referir-me ao que disse fulano, posso muito bem dizer que ele “duvida de que fazemos o necessário”, por achar que, de fato, nós fazemos o necessário.

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