Há pouco, a conversar serenamente com um grande amigo meu com o qual concordo em muitas coisas, mas com quem também discordo em muitas outras (mas sem grandes problemas, nem grandes dramas), calhou falarmos sobre esse fenómeno curisoso que é a intensidade com que todos discutimos no Facebook.

É fácil ver discussões no Facebook a descambar para o extremismo, para o insulto, para a desmesura absoluta nos argumentos e no tom.

Mas porquê?

Proponho algumas hipóteses:

  • Nas discussões cara-a-cara, conseguimos perceber que o outro não está a brincar connosco: tem mesmo uma opinião diferente. No Facebook, achamos absurda a ideia de que alguém não concorda com o que para nós é óbvio. Só pode estar a brincar connosco!
  • Nas discussões ao vivo, podemos adiantar argumentos, perceber a reacção, adaptar o tom do que dizemos à forma como o outro está a encarar a questão. No Facebook, o tom é quase sempre o mesmo: a frieza das letras e a indignação moralista de quem tem sempre razão.
  • Nas discussões cara-a-cara, sabemos ainda (quase sempre) encontrar uma espécie de espaço comum onde podemos discutir sem nos agredirmos (pelo menos, a maior parte das vezes). Nem que seja a amizade comum, há quase sempre qualquer coisa que salva a discussão e impede (com algumas infelizes excepções) que a mesma ultrapasse certos limites.

Uma última hipótese: no cara-a-cara, podemos concordar em discordar, sorrir um pouco, encolher os ombros e passar ao assunto seguinte.

No Facebook, não… Pomos um comentário irado e imaginamos o outro a rir-se de nós. Ficamos impacientes à espera da resposta. Quando, finalmente, recebemos resposta, não podemos ignorar nem mudar de assunto: o último comentário fica lá sempre à espera de resposta, por mais encolheres de ombro que façamos ao ecrã de computador. Se não respondermos, perdemos.

E assim discutimos intensamente, sem o calor humano do outro ao nosso lado.

São só hipóteses. Se calhar, sempre fomos assim e sempre discutimos como se nos odiássemos só que não nos lembramos. Ou, se calhar, o Facebook é mesmo um espaço de discussão muito desagradável. Talvez haja alguma solução.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.