"Bathroom Selfie", James Needham, 2016.

“Bathroom Selfie”, James Needham, 2016.

Ora, encontrei este quadro ao ler um pequeno artigo chamado “James Needham’s “Bathroom Selfie” Painting Continues a 40,000-Year Artistic Tradition”. Este retrato dum casal tem andado por aí a ser partilhado aos milhares.

O artigo, de Ben Thomas, é uma defesa do quadro, depois de este ter sido atacado nas páginas do The Guardian. Parece que este quadro é uma selfie e isso é mau. Ainda por cima duma selfie numa casa de banho. O horror!

Ben Thomas percorre 40 000 anos de arte para mostrar que a pintura é, desde o início, muito virada para momentos menos próprios e muito para as selfies

MÃOS

“Estamos aqui!”

Não me vou pôr para aqui a reproduzir os momentos menos próprios citados por Ben Thomas, que isto é um blogue de família (apesar do rabo ali em cima). Mas podem ir ao tal artigo. Vale a pena.

Reparem: as selfies, na arte, existem há muito tempo. Até temos uma palavra muito portuguesa para isso mesmo: «auto-retrato». É uma palavra que anda muito esquecida por estes dias… Pronto, admito que uma «vara de auto-retratos» será menos prática que um «selfie stick». Mas «auto-retrato» tinha o seu valor, tinha o seu quê.

Pois é: as selfies não são manias de agora. São coisa antiga, muito humana.

Mas o articulista do The Guardian parece ter achado que isto é o pináculo do egocentrismo moderno: uma selfie na casa de banho com pretensões a ser arte. É superficial, diz ele. Mas vai mais longe. Pergunta mesmo, porque não é pessoa para fazer por menos, se isto não será o fim da arte, numa casa de banho de Sydney. Uma pessoa fica logo impressionada!

Pois digo-vos que é um egocentrismo estranho este o de querer mostrar ao mundo o momento em que estamos sentados na sanita. Ou a lavar os dentes.

Bem, antes de continuar, um aviso à navegação: a verdade é que não sou a pessoa ideal para falar de pintura. Era um zero à esquerda em Educação Visual e estou muito longe de ser um crítico de arte.

Mas a arte também serve para chegar a pobres míopes como eu e não apenas aos que estão preparados para a analisar, certo?

E, a verdade é que gostei do quadro. Porquê? Só porque é uma provocação? Longe disso. Nem o acho especialmente provocador.

As razões que nos levam a gostar deste quadro ou daquele são complexas, talvez mesmo — atrevo-me a dizer isto — misteriosas. Mas podemos olhar com atenção e tentar, de forma honesta, explicar o que nos chamou a atenção. Claro que nos arriscamos a revelar mais sobre nós próprios do que sobre o quadro, mas também disso se alimenta a arte.

Aqui vai então este exercício pessoal. Por que raio gostei eu dum quadro destes? Que valor pode ter uma selfie conjugal numa casa de banho qualquer perdida na Austrália?

Gostava de vos apontar para cinco pormenores.

1. A cara de satisfação do homem

his faceOra, sim, quando temos alguma necessidade física, ficamos com esta cara quando por fim conseguimos satisfazê-la. Mas imagino que nem seja por isso.

Não sei porque será: talvez uma passagem engraçada do livro que tem na mão, que agora está a contar à mulher, enquanto ela escova os dentes (será que está habituada a ouvir o marido e a não dizer nada, ou será que está a pensar no que ele lhe disse e prepara-se para ripostar logo que termine de lavar aqueles dentes e cuspir a pasta)?

Ou talvez aquela cara seja apenas o contentamento de estar a viver, simplesmente, ali com ela, uma vida a dois. Uma vida banal de quem gosta de ler, amar uma mulher bonita e pintar — mesmo que seja pintar uma cena destas. Há coisas piores no mundo.

2. A cara de lavar-dentes da mulher

herfaceSim, lavar os dentes. O que posso dizer sobre isso? Nada, de facto — a não ser que acho muito bem que a pintura moderna se ponha a incentivar os bons hábitos de higiene. Três vezes ao dia, se faz favor!

Bem, agora olho para os óculos. Algumas das minhas pessoas usam óculos em casa e lentes de contacto na rua. No caso delas, os óculos são um objecto íntimo, que só é visto por pessoas em quem confiam. Têm uma cara privada e outra pública, como qualquer um de nós, mas marcadas por esse objecto que, a mim, me acompanha todo o santo dia. Já tentei usar lentes, sem grande sucesso, confesso.

E, lá está, lembrei-me disto ao olhar para o quadro. Já avisei acima que isto não é uma crítica objectiva.

Não sei porquê, mas a tomada de electricidade ali à direita também me chamou a atenção. Mas isso ficará para sempre no segredo dos deuses: não consigo perceber porquê. Que sensações me pode trazer uma tomada de electricidade? E, no entanto, há ali qualquer coisa…

3. O rabo dela

BUTTSó não lhe chamo o «elefante na sala», porque ele até é bem proporcionado e chamar-lhe «elefante» ficaria muito mal. Mas, lá está: o rabo nu da rapariga a lavar os dentes está ali no meio e poucos serão os que não reparam.

Lembra-nos algo tão simples como isto: ela está agora simplesmente a lavar os dentes, mas haverá momentos em que pensa no corpo, em que pensa no aspecto que tem aos olhos da outra pessoa.

Aquele arremedo de beleza ali no meio leva-nos a imaginar os dois noutra situação, mais teatral ou mais animal (ou as duas coisas). Os dois enlaçados, horas antes, num quadro mais privado que presumo que ele não queira pintar. Não pinta, mas está ali a pairar — apesar de ela estar a lavar os dentes, de ter o cabelo apanhado, há ainda um certo ar sexy que não sei se não será uma das razões para a cara de contentamento do homem.

Somos estas coisas todas: gente que seduz e vai para a cama e gente que lava os dentes e se senta na sanita. Nem sempre conseguimos ver esses momentos todos num só quadro.

4. As gotas de água do banho

BATHDROPLETSOra, o banho: parece que eles, neste quadro, já tomaram banho. Pelo menos, vejo gotas a escorrer pelo vidro.

O banho é um momento privado como há poucos. Para mim é também o momento de não ver nada à frente do nariz: como não tenho lentes de contacto e não posso usar óculos no banho, não me vejo a mim próprio. Resultado: quando saio, tenho muitas vezes água no chão.

A minha mulher exasperava-se com isto, mas já percebeu que não faço mesmo por mal. Eu não vejo para onde vai a água!

Mas lá me consigo lavar…

Enfim, agora que não escapo à acusação de estar a criar uma selfie em forma de artigo de blogue, digo-vos ainda isto: o banho, como a condução, é dos momentos em que tenho mais ideias e mais avanço com os projectos que ando sempre a magicar: não sei porquê, confesso. Já ouvi dizer que é por serem momentos em que não posso escrever. Por causa disso, o cérebro está à vontade para associar ideias e para criar qualquer coisa.

Talvez. A verdade é que há muitas vezes em que saio da banheira, a pingar, ponho o toalhão à volta do corpo, sem ver nada, pego nos óculos embaciados e vou a correr apontar aquilo de que me lembrei. A Zélia ri-se, mas já sabe que não há mesmo nada a fazer: cada um tem as suas taras e manias.

5. O livro na mão do homem

BOOKE uma das minhas taras e manias é, claro está, ler. Em todo o lado. Até numa sanita. Se este quadro não valesse por mais nada, valeria por mostrar esse hábito estranho: estar sentado na sanita com um livro na mão.

Há quem ache muito estranho, há quem goste de ler grandes romances — ou o jornal do dia — enquanto está na casa de banho. Goste-se ou não, faz parte da vida — pelo menos, da vida do casal deste quadro. E da minha. É por isso que digo que há sempre tempo para ler, nem que seja enquanto a mulher (ou o homem) lava os dentes, o filho ainda não acordou e nós estamos sentados na sanita.

E, com um livro na mão, até nesse sítio tão prosaico podemos viajar pelo mundo inteiro ou pensar nas aventuras que quisermos.

Pronto: podia continuar, mas a verdade é que o quadro tem os seus quês, mais do que cinco, aliás. Sim, eu sei: devia olhar também para o uso da perspectiva, para o jogo de espelhos múltiplos, para as cores, para as texturas, para tudo isso. Mas aí está o meu limite.

Agora, ainda podia começar por aqui a discorrer sobre como uma pintura pode servir de espelho — pois vemos lá qualquer coisa de nós mesmos —, como a avaliação duma obra depende das nossas vidas, como aquilo que é banal para uns será belo para outros, como a literatura também descreve muitos momentos banais… Podia, mas agora digo-vos só: apesar de parecer algo tão trivial que nem merece o qualificativo de arte, não deixa de ser arte criar qualquer coisa que mexe com os outros e que tem uma beleza estranha, tendo como material as tintas e a própria vida dum homem e duma mulher que vão à casa de banho juntos. A arte é muito mais do que isto — mas também é isto.