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Qual é o nome da nossa língua? Será galego?

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Há línguas com problemas de identidade: por exemplo, o catalão é chamado de valenciano na Comunidade Valenciana — alguns valencianos consideram este outro nome como uma outra forma de nomear aquela que é a mesma língua, enquanto outros consideram o valenciano e o catalão como duas línguas separadas. O governo catalão insiste na tese da unidade, o governo valenciano vai vacilando, ao sabor do vento político. Pelas Ilhas Baleares, onde as variantes da língua são bem mais distintas do que em Valência, a questão é pacífica: a língua é o catalão e o mallorquí (falado em Maiorca), eivissenc (falado em Ibiza), etc. são os nomes dos dialectos locais.

Sem sair de Espanha, temos ainda o problema do nome da língua oficial de todo o Reino: espanhol ou castelhano? (Já falámos disso neste site.) Há que dizer que este fenómeno da multiplicação dos nomes não é um problema exclusivamente ibérico: os coreanos têm dois nomes para a sua língua, por exemplo.

Adiante. O que nunca passaria pela cabeça a um português é ver esta questão colocada em relação à sua própria língua. Gostamos, às vezes, de chamar “brasileiro” ao português além-Atlântico, mas ninguém duvida que a língua que se fala em Portugal tem um só nome e é português. Perguntar qual é o nome da nossa língua parece um disparate dos antigos.

Ora, na verdade, há quem dê outro nome à nossa língua: os reintegracionistas galegos defendem que o galego e o português são uma só língua, com dois nomes diferentes nos dois lados da fronteira. Ou seja, falamos todos galego-português, dando-lhe um nome diferente conforme o sítio onde estamos.

Para os reintegracionistas, esta união do galego e do português serve dois propósitos: não só marca a independência do galego em relação ao espanhol, como integra a sua língua num conjunto internacional que liberta o galego da apertada identidade de língua regional. (Não nos podemos esquecer que também nós sentimos esta necessidade de distinção marcada em relação aos vizinhos e, simultaneamente, de expansão da nossa identidade imaginada.)

Alguns diriam ainda que olhar para o galego e para o português como uma só língua é uma visão mais fiel à verdadeira história do nosso idioma, nascido em redor do rio Minho, sem olhar para a fronteira que divide galegos e portugueses.

E a verdade é que a língua que os reintegracionistas escrevem é indubitavelmente a nossa (usam uma ortografia do galego que se aproxima conscientemente da nossa ortografia). Se têm dúvidas, visitem a página da Associaçom Galega da Língua. As marcas que distinguem a ortografia galega da portuguesa são poucas, mas incluem este curioso “çom” que nos faz recordar a pronúncia do nosso Norte.

Alguns reintegracionistas vão mais longe: querem chamar português ao galego, sem mais. Defendem a criação da Academia Galega da Língua Portuguesa. A ortografia, neste caso, é igual à portuguesa.

Do lado oposto, o governo da Galiza defende a separação entre as duas línguas, promovendo (e ensinando) uma ortografia bem diferente, que afasta o galego do português (como podemos ver no site oficial da Xunta de Galicia). Também aqui há uma narrativa identitária a proteger: o galego é uma língua própria da Galiza, onde é co-oficial com o castelhano. Não há qualquer interesse em promover a ligação da língua galega a uma língua estrangeira como o português. Não se quer perigosas associações a identidades pouco espanholas. Temos, assim, uma língua própria, mas muitos “eñes”.

O galego vê-se assim na situação curiosa de ter um espectro de ortografias que percorre as ideias políticas de cada um… Para cada posição política, uma ortografia.

Pessoalmente, sempre tive um fraquinho pela diversidade linguística de Espanha, embora mais virado para o lado catalão da península. Nos últimos tempos, no entanto, tenho sentido um interesse crescente pelo galego e pelas implicações políticas da ortografia e do nome que se dá à (nossa?) língua na região vizinha.

Também acho muito curioso como uma questão sobre a nossa língua passe ao lado da quase totalidade dos portugueses. Para nós, a Galiza não é personagem nas narrativas que contamos sobre Portugal e o mundo. E se calhar é pena…

(Repare-se que falei apenas de ortografia — num próximo artigo, falarei do galego falado e da forma como é encarado pelos portugueses.)

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20 Comentários

  1. xx

    Q patetice d artigo.

    Sejam valentes e publiquem q falam uma língua galaica e xq.

    Obrigado.

    • Marco Neves

      Não percebi este comentário, mas não faz mal, tanto em galego como português podemos dizer patetices sem vir mal ao mundo por isso. 🙂

      • Valentim Fagim

        Bom, alguém que se chama XX até é natural que não diga nada mais de interessante 😉

    • A língua galaica era a que falavam os celtas, antes de chegarem os romanos.

  2. Nóbrega

    Nossa? Nossa, sim. Castelhanizada nos últimos séculos, mas sobrevivente até aos dias de hoje. É curioso que a Galiza, aqui tão perto, acabe por estar tão longe, mais longe que Timor, por vezes. As fronteiras imaginárias surtem efeito na consciência das pessoas.

  3. Roi

    É muito lindo ver que desde Portugal há algo de interesse pola causa galega 🙂

  4. orxeira

    Non argumento, non quero argumentar. Cando vos leo sinto como se me engurrichasen as entrañas, mesmo me veñen ganas de gomitar.

    Non quero ofender ninguén, só expreso un profundo sentimento de carraxe e de noxo.

    A todos vos que vos decides reintegracionistas una pregunta quero eu facervos… onde nacestes…? cando e onde aprendestes o galego…?

    Se cadra aprendestelo nos libros ou na televisión ou por casualidade foi no bochinche da facultade de letras, alá en Lisboa; ou foi na cantina, iso ,para o caso, pouco mais ten.

    Quero que saibades que a maioria das palabras que vos aprendestes ai eu xa as tiña ouvido, que digo ouvido, escoitado antes de miña nai me botase da barriga. O resto atopeinas despois, estaban por todos os lados, unhas agachadas e outras ben á vista.
    Na borralleira, na garmalleira, nos pes da estripia, detras do unllar, nos caixóns da lacena, no baño, debaixo do xergón,nas libras das vacas, nas alegrias do cocho (o mais das veces era cocha), no lastre da eira, no colmo, no pipote do viño, nas duelas do cabás, na cheda do carro, no bico dos carballos, entre a pinica, na xostra (esa era miña mais que de ninguén, era eu quen apañaba con ela) e tamén na bosta que comin por decir merda.

    Se queredes procurar polo galego é ai que está…mágoa non poder recuar no tempo…

    • Que cousa absurda!

      Cada quem aprendeu galego onde lhe quadrou: um dos pais e avôs, na casa, outros na rua e outros na escola. E daí? E ainda: também estava aí a ortografia espanhola antes de a tua nai te botar do ventre?

    • Luís

      Orxeira, já te deste conta que este artigo foi escrito por um português? E sabes que boa parte das palavras que aprendestes na barriga da tua mãe, também eu as aprendi na barriga da minha e ela não me pariu na Galiza, mas a mais de 400 km a sul da fronteira. Sabes que na Galiza, mesmo lá arriba na Ortigueira . Se eu tivesse alguma vez levado a minha avó à Galiza, tenho a certeza de que ela se ia entender mais depressa com os de lá do que com os de Lisboa. Até à 50 anos era a mesma língua, agora em Portugal aprendemos a falar como os de Lisboa, a televisão e a escola obrigam-no, na Galiza, os novos aprendem a falar como lhe saiu dos colhões aos que mandavam em 79/80, assim ensina a TVG e a escola. Na escola, dizem os rapazes, que o o galego que lhe ensinam não quadra com o que aprendem em casa. A escola também ensina a escrever ao jeito de Burgos e não ao jeito provençal, que era como os galegos escreviam até ao século XV e os portugueses continuam a escrever.

      Este dizem que era do Ferrol: http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=1628&tr=4&pv=sim

  5. Carlos Pimentel

    Até ao século XVI, o Galego e o Português /galaico-português, foi a língua, talvez mais falada, no norte de Portugal e no noroeste da Península Ibérica. Gil Vicente e Camões, confirmam-no ao escreverem obras em galaico -português.
    Por que é que o Galego perde interesse, enquanto língua, e o Português, evoluiu?
    Não querendo entrar no campo da linguística, mas no campo histórico/político, direi que, a razão pela qual o Galego perde a sua importância como língua oficial do Reino da Galiza, prende-se com a unificação de todos os reinos, após o casamento de Fernando de Aragão com Isabel de Castela, numa nova nação que se designará por España, adotando o Castelhano como sua língua oficial, relegando todas as outras línguas, até então oficiais nos seus reinos, para segundo plano. Portanto o Galego estagna, em termos de evolução linguística, enquanto a sua língua irmã, o Português, prossegue a sua normal evolução linguística.
    Espero ter contribuído, sob o ponto de vista histórico, com esta síntese, para algum esclarecimento sobre este assunto tão delicado, que carece de outra profundidade, tanto no campo histórico, como no linguístico.
    Um abraço, Carlos Pimentel

    • Marco Neves

      Agradeço o comentário e a óptima síntese dum assunto tão complexo, cuja explicação no espaço restrito de um artigo num blogue é sempre insuficiente. Obrigado e até breve!

  6. Antonio

    Sou brasileiro (do Nordeste) e minha opinião é que nós, brasileiros e portugueses, falamos dialetos da língua galega. Houve fatos políticos, como bem explicou Carlos Pimentel no seu comentário, que prejudicaram o galego. Podemos dar nomes diferentes, mas na essência é um mesmo idioma. Nós nos entendemos bem. Leio um artigo em galego e entendo, assim como um galego lê este meu comentário e me entende.

  7. Carlos

    Ainda vão dizer que Dom Afonso Henriques falava português aquando da conquista de Al-Lixbouna.
    Façam a pergunta: que nacionalidade teriam os soldados do exército do Henrique I quando começou a reconquista?

  8. Pepe do martelo

    Nos, os galegos que escoitamos as nosas mais falar, nosas mais mulleres de labregos e marinheiros, dende fai seculos, os que falaron galego fumos nos , non a RAG que debe ser unha rapaza nova.
    Amecendo as xestas no teito da cabana, meu abo decia ” ai o e a ua”….. e ibamos xantar.

  9. Pepe do martelo

    O meu DNI di que son asturiano, manda carallo—

  10. “Ou seja, falamos todos galego-português, dando-lhe um nome diferente conforme o sítio onde estamos.”
    Dizer galego-português é tam absurdo coma dizer castelão-espanhol. Som sinónimos e, polo tanto, ou usas um ou utilizas outro. O que se pode fazer é nuã frase usar galego e noutra, usar português; pra assim ter mais variedade léxica. Mais junta-los nuã mesma frase… Isso equivaleria, por exemplo, a dizer:
    “Vou colhelo autocarro-machimbombo-ónibus.”

    • Marco Neves

      Usei um termo («galego-português») que os portugueses conhecem dos tempos de escola. Percebo o que me quer dizer, mas temos de começar por algum lado… 🙂

  11. O -çom era a pronúncia e grafia utilizadas em Portugal até nom há moito e a mais coerente coa etimologia. Além disso, é a pronuncia de tódolos galegos.
    http://www.aeg.gal/opiniom/item/87-o-indesejado-ditongo-ao

  12. Aleixo Valadares

    A situaçom da língua galega é complicada e está fortemente marcada por ideias políticas. Enquanto a Galiza está mais próxima a Portugal e ao Brasil a nível linguístico, a nível político está ligada à Espanha, e isto marca fortemente o debate entre os “reintegratas”, que asseveram que a nossa língua é internacional, e os “isolatas”, que asseveram que a nossa língua é simplesmente regional. Eu, como se pode notar no texto, sou reintegracionista e isto provoca muita controvérsia, sobretodo com a gente que nom fala galego como primeira língua e que só mostra interesse quando “os reintegratas querem destruir a língua sem sentido”. Os reintegracionistas somos tal porque cremos que a nossa língua merece um destino melhor que ser lembrada como umha simples regional. Os cámbios que fazemos nom som porque colhemos o que gostamos e cambiamos o que odiamos. Os cámbios que fazemos som porque a nossa língua contaminou-se de palavras castelhanas e sofreu um processo de assimilaçom com a língua de Castela que a degradou fortemente. A explicaçom dos cámbios que fazemos estám no livro de 1980 sob o título de “Estudo crítico das normas ortográficas e morfológicas do idioma galego”. Deixo-vos a hiperligaçom para poderdes baixá-lo do meu Google Drive: https://drive.google.com/file/d/0By-vvYzW7tRMQU1nb1NOajVneWc/view?usp=sharing

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