cropped-pencil-918449_1280-2.jpgÉ mais ao contrário: quem não sabe pensar bem raramente consegue alinhavar as ideias na escrita. E, enfim, quem não tem jeito para a escrita às vezes atrapalha-se no pensamento — há uma ligação, sem dúvida.

Mas esta ideia, se tem alguma coisa de verdadeiro, acaba por ser repetida como mantra e, muitas vezes, não passa de superstição: quem não sabe cumprir as regras de ortografia (importantíssimas, claro) ou mesmo as regras de etiqueta da língua (menos importantes) não sabe pensar. Ora, não é bem assim. É mais complicado do que isso.

Vejam esta imagem que apanhei no Twitter:

escrever

Não faço ideia de que debate faz isto parte, não sei quem são os debatentes, mas tenho a certeza absoluta que usar ou não usar «de o» num contexto como o Twitter (onde temos de abreviar a ortografia não poucas vezes) não diz absolutamente nada sobre as ideias e o pensamento da pessoa ou os méritos da questão em debate (seja ela qual for).

Neste contexto, atacar um erro de português, ainda por cima no que toca a uma convenção ortográfica e não ao funcionamento sintáctico da língua, é apenas uma estratégia de debate um pouco, hum, baixa.

É humor? Talvez. É uma piada? Com certeza. Mas também mostra essa ideia da relação entre o pensamento e as convenções da língua que parece muito profunda, muito inteligente — mas que está errada. Na verdade, as regras de ortografia não nos ajudam a pensar melhor. Ajudam, sim, a mostrar que nos interessamos pela língua, que lemos muito, que levamos a escrita o suficientemente a sério para sermos levados a sério, que respeitamos as convenções que nos permitem escrever sem ruído. Agora, pensar bem? Isso é outra coisa, bem mais difícil e que nada tem a ver com «de o» ou «do».

(E, sim, eu sei que, na frase, «de o» é a forma correcta de acordo com as convenções ortográficas da nossa língua. Mas não é disso que estou a falar: estou a falar do profundo erro de pensamento que muitos exibem ao confundir convenções ortográficas muito superficiais com bom pensamento e boas ideias.)