Meu amor, agora que estamos a pensar em casar tenho de te revelar o mais pesado dos meus segredos. Está ali guardado na cave dos meus pais.

Não vai ser fácil. Mas tens de saber isto se queres mesmo casar comigo.

Vem, dá-me a mão, desce as escadas. Prepara-te. Vou acender a luz.

Aqui está.

Quando tivermos uma casa vamos ter de enfiar lá estes 2562 livros (em breve 2565, pois amanhã vou às compras). São muitos? São. Mas não faças essa cara, isto é assim mesmo, cada pessoa tem o seu passado, o seu peso, os seus caixotes. Há homens com bagagem, eu tenho uma biblioteca. Sim, estas pilhas de livros espalhadas pelo chão são uma biblioteca. Há aqui uma organização invisível, que segue alguns caminhos que nem a ti posso confessar.

Sim, é este o meu segredo. Querias o quê? Um cadáver escondido na cave? Máquinas de tortura? Andas a ler demasiados livros. Tenho aqui uns quantos romances sobre pessoas que lêem livros a mais — lêem-nos mal ou lêem os livros errados. Ah pois é, fica a saber que isto dos livros não é só comprar e ler. Alguns compram-se e não se lêem. Alguns lêem-se pela metade ou a começar pelo fim. Outros compram-se, lêem-se e queimam-se com prazer. (Olha, tens aqui Los mares del Sur. Lê e não queimes.)

Já que estamos numa de revelações, tens de saber que esta biblioteca que aqui tens cresce sem parar. E se me sair a sorte grande ou me tornar rico, esquece as férias nas Caraíbas, esquece o Mercedes, esquece isso tudo: vou mas é gastar o dinheiro em mais livros e numa casa que dê para os livros.

Tens de perceber o que está aqui: olha-me este livro todo riscado, uma edição de bolso da Penguin do Pride and Prejudice. Li isto no quarto ano da faculdade, no apartamento de Benfica onde nunca foste e, em certas tardes, sozinho a andar pelas ruas de Lisboa, a tentar perceber o mundo e as mulheres através da Jane Austen. Sim, eu sei, é ridículo. É uma verdade universalmente reconhecida que um gajo de óculos a ler Jane Austen no meio da rua não percebe grande coisa nem da vida nem das raparigas. Adiante.

Aqui este The Alexandria Quartet li-o há uns cinco anos, em Madrid, ainda namorava com a Carolina. Sim, a Carolina. Já sei que não gostas dela, mas o que queres?, aquela viagem foi importante e aqui está, na biblioteca que te há-de acompanhar para o resto da vida, na saúde e na doença, na sala de estar e nos carros das mudanças.

Nessa viagem, a Carolina e eu ficámos num hotel na Gran Vía, com uma piscina lá em cima donde se via a cidade inteira. Lembro-me de estar a ler e ela a nadar à minha frente, enquanto eu vagueava por uma Alexandria de delírio.

A certa altura, a Carolina veio deitar-se ao sol e lembro-me dos exactos movimentos dela, bem mais perto do que o aconselhável para deixar um rapaz a ler sossegado, e lembro-me que do biquíni saltou uma gota de água que salpicou a página 137 do Quartet, que ficou para sempre com o papel enrugado no sítio onde a gota caiu. Nunca mais me esqueci e para mim o melhor do livro é essa ruga — e olha que eu gosto muito do livro.

Não faças essa cara. Se vamos casar, não posso ter segredos, não é verdade? Tens de te casar comigo inteiro, até com as rugas das gotas da água das outras mulheres que já passaram por estes livros.

Aqui esta edição dos Dubliners, comprei-a em Cambridge, quando fui lá contigo e começámos a namorar. Ainda hoje folheio o livro e lembro-me de passearmos encasacados nos relvados nas traseiras dos colégios e sonharmos com outras vidas ao sol frio do Inverno inglês. Lembro-me de anoitecer e começar a nevar e do conforto que foi entrar na livraria, de escolher este livro, olhar para ti e sentarmo-nos os dois num dos sofás do café no terceiro andar, onde demos o primeiro beijo a sério. Também te lembras? Eu sei que sim.

Pronto, aqui tens: o peso todo dos meus livros. Sou eu que encontras aqui. Todas as vezes que mudarmos de casa, lá terão de ir estes calhamaços todos. E como arrumar isto na sala? Sim, na sala. Ou achas que vamos ter dinheiro para uma casa com escritório? Nem penses que os livros vão para a arrecadação. Ou queres que passe mais tempo lá em baixo do que contigo na nossa casa? E o pó, já imaginaste? Vamos passar horas a limpar as estantes! E daqui a muitos anos, se por cá ficares e eu não for mais do que pó, terás de os vender — ou talvez fiquem para os filhos que aí vêm, que bem podem herdar este estranho bichinho dos livros. Enfim: aqui me tens. Decide lá. Tens tempo. Mas entretanto dá-me um beijo — cuidado é para não derrubares essa pilha de livros aí atrás de ti. Obrigado.

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