Há uns tempos, comecei a contar por aqui uma certa viagem que fiz a Nova Iorque. Nessa altura, revelei o que aconteceu no voo — e também já dei uns lamirés sobre o que se passou dentro do quarto do hotel na 42nd Street. Pois hoje conto como fui dar com um russo que tinha um buraco no pescoço ali numa rua de Brooklyn.

Antes disso, tenho de explicar que aquele foi um dia de muitos sustos — talvez até me atrevesse a chamá-los de presságios, não fosse dar-se o caso de… Bem, já vos digo o caso que se deu.

Primeiro presságio: o ataque de que fomos vítimas…

1. O ataque no Central Park

Tudo começou num passeio que demos no inevitável Central Park. Não sei se o leitor concorda, mas aquele parque urbano parece uma espécie de ferida verde num corpo feito de pedra. Os prédios que o rodeiam são exagerados, quase feios — embora o conjunto seja de tirar a respiração.

Pois lá fomos nós armados em antropólogos de fim-de-semana. Por ali estavam as personagens de muitos dos filmes que vemos, na dieta de cinema norte-americano que é apanágio de muito português. As empregadas a tomar conta dos filhos das senhoras, os joggers de fios a sair das orelhas, os Mr. Bigs de telefone na cara e confiança no passo e os cinquentões à Woody Allen a discutir em gabardines nervosas.

Era Setembro e estava sol. O sossego era bom. Passeámos pelos lagos, pelos caminhos, por aquela natureza que, de tão pensada que foi, tinha o seu quê de selvagem. Ao mesmo tempo, aquela era uma paisagem há muito conquistada pelos filmes, pelos livros e pelas fotografias que nos inundam a mente e nos tornam a todos um pouco nova-iorquinos (muito pouco, admito).

Adiante. Lá estávamos nós a passar ao pé dum lago quando, de repente, a Zélia dá um grito de dor e leva as mãos à cabeça.

Tinha sido barbaramente atacada.

Por um esquilo.

E o gajo estava lá em cima da árvore com outra bolota na mão. Atirou-nos, malvado, mas já não nos acertou.

A Zélia estava estupefacta: uma bolota aleija e não é pouco. Ainda fui atrás do esquilo para lhe ensinar o que era bom tirando-lhe uma fotografia às trombas, mas não consegui. Fotografei um dos irmãos, que estas vinganças podem servir-se à família sem que daí venha mal ao mundo.

O que aconteceu a seguir? Nada. Continuámos. Dali a umas duas horas, quando anoitecesse, tínhamos um encontro marcado na Union Square.

Fomos gastá-las para uma livraria de cujo nome já não me lembro e que vendia, no meio dos livros, roupa. Não me lembro do nome, mas lembro-me dos livros que comprei, claro está, embora agora não me apeteça revelar quais foram.

2. Um susto em Union Square

Nessa noite, tínhamos um encontro marcado com o Filipe, amigo do meu irmão Diogo, que vivia por aqueles tempos em Nova Iorque, a estagiar como técnico de som.

Do caminho da livraria até à praça, em que entrámos no violento metro daquela cidade, lembro-me de pouca coisa: lembro-me bem melhor das páginas que me pus a ler e do livro que tinha na mão — diga-se que tinha sido comprado numa banca de livros usados à porta da tal livraria/loja de roupa.

O sol já baixara. A Union Square era um rodopio de casais aos beijos e grupos de estudantes a conversar. Lá ficámos à espera. Foi agradável estar ali um pouco entre nova-iorquinos, a sentir a outra cidade com um encontro marcado, a imaginar as vidas inteiras que por ali passam e as rotinas e sobressaltos que ali tinham a sua paragem.

De repente, chega-se um rapaz ao pé de mim e diz-me:

— Deixas-me ver o teu telemóvel?

3. «Passa para cá o dólar»

Não, não foi um assalto. Ele queria apenas saber o modelo de telemóvel. Pediu-me então, simpaticamente, para ir à loja online do telemóvel e procurar um jogo em concreto.

Procurei o jogo e mostrei o resultado. E ele, feliz:

— Este jogo fui eu que o fiz! Queres comprar?

Não era por ter ali o programador ao lado, mas o jogo parecia-me realmente engraçado. Custava 1 dólar. Tentei comprar, mas não deu, porque a minha loja online era portuguesa e não me deixava comprar o jogo ali nos Estados Unidos (não me lembro bem porquê).

O certo é que prometi comprá-lo logo que chegasse a Portugal. E ele acreditou. E eu comprei — ainda passei umas boas horas a jogar àquele jogo, entre as traduções e as saudades das viagens, num prazer que certamente vale muito mais do que o mísero dólar que paguei.

Já aqui escrevi algumas vezes — e não sou o único a dizê-lo — que os livros são uma espécie de caixinhas de recordações: abrimos as páginas dum livro e lembramo-nos bem dos sítios onde o lemos, onde o comprámos, onde o folheámos distraidamente.

Pois, naquele caso, um jogo de telemóvel foi uma dessas caixinhas de recordações em miniatura: quando me punha a jogar nas semanas seguintes, lembrava-me sempre daquele rapaz que criara um jogo e o andava a vender pelas ruas de Nova Iorque.

Voltemos à Union Square, que se faz tarde e já é de noite: conversámos um pouco com o rapaz — até que vimos o Filipe a surgir pelo meio da multidão, com o sorriso que já conhecia da minha terra.

4. Um caçador de sons em Nova Iorque

Começou-nos logo a contar como eram os dias de Nova Iorque. E, ao contrário do que acontece noutros casos, pusemo-nos a ir mesmo aos sítios da sua vida nova-iorquina.

Começámos pelo laboratório de som onde ele trabalhava. Ficava na Broadway, num prédio onde nenhum turista se atrevia a entrar.

Nada tenho contra fazer turismo: sempre gostei de viajar e não tenho assim tantas certezas sobre a fronteira entre turista e viajante. Sei que existe, mas não sei onde fica. Às vezes, parece-me que a atravesso várias vezes numa só viagem.

Mas também sei que é precisamente naquele momento em que entramos num sítio qualquer que não vem nos guias que uma viagem ganha outro tom, outro sabor: pois é então que até um mísero elevador num velho prédio da Broadway nos parece delicioso e parte duma cidade que agora também é um pouco nossa.

Bem, deixemo-nos de delírios. Lá em cima, no laboratório, eram televisões aos montes, microfones pendurados como estalactites ou perdidos no chão como estalagmites, gravadores e televisores e outros quantos materiais de imagem e som.

O Filipe ainda nos mostrou o seu equipamento de caçador de sons: as almofadas nos ouvidos e o microfone pendurado na sua cana muito particular. Não era aquilo que usava todos os dias. O que tinha na mão chegava. Confessou-nos então que andava por Nova Iorque de aparelho em riste, a caçar aquilo em que poucos reparam: a porta do metro que se fecha, uma conversa passageira numa língua desconhecida, a travagem dum taxi, um insulto dum mafioso, os sons dentro dum café na Village, o sino duma igreja entalada entre dois arranha-céus, o primeiro beijo de dois adolescentes, uma bolota atirada por um esquilo…

Apetecia-me ficar com essas outras fotografias de que ninguém se lembra. Os sons. Os cheiros. Aquilo que desaparece logo que levantamos voo, deixando-nos com fotografias mal tiradas duma cidade a duas dimensões. Pois que as cidades têm todas tantos lados e tanta coisa e até o passar as mãos nas paredes sabe bem e apetece — e é tão difícil guardar… Lá está, só a fraca memória e os deliciosos livros…

Pensámos então em ir jantar. Queixámo-nos dos preços naquela ilha — e o Filipe propôs-nos que fôssemos com ele até Brooklyn, onde iríamos ao supermercado, baratíssimo. Depois, ele tinha lá uma mesa em casa…

— Mas aviso: lá em casa vive um russo com um buraco no pescoço.

5. Os estranhos feiticeiros de Brooklyn

Pois lá fomos, de metro, até Brooklyn. Pelo caminho, íamos conversando sobre aquelas temas a que os viajantes se agarram: pensamos ver um padrão qualquer nos países por onde andamos e, de repente, contamos uns aos outros todos os casos que confirmam esse padrão, com o entusiasmo de quem descobriu uma verdade qualquer sobre o mundo — ou pelo menos sobre uma rua qualquer de Nova Iorque. Este método não me parece ser muito científico, mas é o que temos quando andamos a conversar em ruas longe de casa. E, para dizer a verdade, às vezes as conclusões são pouco mais absurdas que as conclusões a que chegamos sobre a nossa própria terra.

Naquele dia, falámos da estranha simpatia dos nova-iorquinos, que foi uma surpresa para nós, habituados a ouvir falar duma cidade de gente antipática. E o Filipe confirmava: logo no primeiro dia, tinha pedido informações a uma senhora que o ajudou até à exaustão. Depois de o largar, ainda gritou mais uma indicação da janela aberta do carro, por entre os táxis de Nova Iorque. E o Filipe, parado no passeio, olhava de boca aberta para aquela nova-iorquina de simpatia a toda a prova.

Da minha parte, contei como tinha passado à frente — sem querer — numa fila num café e o homem que tinha assim sido relegado para o lugar logo atrás de mim olhou-me não com indignação, mas com surpresa: parecia ser a primeira vez que tal lhe tinha acontecido. Pedi desculpa quando reparei e lá fui para o lugar que me competia, sem problemas e sem estalo. (Foi sorte, eu sei.)

A Zélia contava o estranho caso dos sapatos na mão: pois vimos não sei quantos nativos da zona a correr pelos passeios de sapatos bonitinhos na mão e ténis confortáveis nos pés. Chegámos à conclusão que aquela gente anda tanto quilómetro de manhã que precisa de calçado adequado à corrida — logo no escritório calçam os sapatos mais consentâneos com a importância da tarefa que têm entre mãos.

A casa do Filipe ainda era longe e, quando saímos do metro, andámos pelas ruas a tentar absorver aquela outra cidade dentro de Nova Iorque. Manhattan aparecia-nos como uma loucura de luzes por entre as casas, contra um céu muito escuro. A ilha, vista dali, deixa-nos muito pequeninos. Já as ruas de Brooklyn são duma normalidade que nos deixa desorientados.

Pois foi então que a normalidade se esvaiu num segundo. Apareceram-nos homens com chapéus negros altíssimos, capas brancas e ar de — como direi — feiticeiros. Andavam a percorrer as ruas e a entrar em várias casas, onde as famílias os recebiam felizes.

O Filipe explicou-nos então que aqueles eram judeus ortodoxos que faziam visitas às casas dos correligionários nas sextas-feiras à noite para conversar e conviver.

Continuámos a percorrer as ruas e, entre aqueles homens de chapéus estranhos, víamos talhos turcos, mercearias polacas, restaurantes bálticos e, entre as casas, a embriaguez das luzes de Manhattan como cenário.

Passou um metro por cima de nós e tive vontade de pegar no gravador dele para guardar para sempre aquelas cores, aqueles cheiros e aqueles sons duma noite banal de Nova Iorque.

6. Uma família siberiana

Aproximamo-nos do momento em que conhecemos o tal russo de buraco no pescoço. Mas antes disso fomos a um supermercado normal, barato (e que sabor tem essa palavra depois duns dias de Manhattan), onde comprámos qualquer coisa para jantar.

Pois bem: deixe-nos agora o leitor a escolher pizzas e outras iguarias nos corredores pouco originais do supermercado. Quero agora contar que, nesse dia ou no dia anterior, visitámos o Museu de História Natural — aquele mesmo onde o Ben Stiller andou a tomar ácidos há uns anos.

Pois bem, a certa altura tive aquilo que algumas pessoas chamam de «epifania» e eu chamo de «momento de cansaço».

Estávamos perante uns bonecos dentro dum vidro, daqueles que parecem muito reais, tão reais que o Ben Stiller ainda hoje jura tê-los visto a falar nessas tais noites no museu.

Olhei para aquela cena: uma tenda no meio da Sibéria, uma família — uma mãe, um pai, um filho — protegidos da neve e a comer qualquer coisa. A cena representaria a vida naquelas paragens longínquas há uns bons milhares de anos.

E, tal como, se repetimos uma palavra muitas vezes, ouvimos o som pelo que ele é e não pelo que significa — ao olhar com muita atenção para aqueles bonecos, abstraindo-me de estar em Nova Iorque, num museu, vi como aqueles seres humanos viveram mesmo à neve, em florestas e espetes longínquas — e como aquelas vidas, para eles, eram tão completas como as nossas vidas de gente citadina, que viaja. No fundo, tive ali consciência de como aquelas vidas eram tão humanas como as nossas, com histórias, sarcasmos, discussões, amores e filhos e comida e tantos medos. De alguma maneira, aquela família era ainda mais real do que eu, turista a olhar para bonecos para lá dum vidro.

As epifanias são assim: impossíveis de explicar, ainda por cima a mais de cinco anos de distância. Porque me lembrei agora daquela família? Não sei. Talvez por causa da tal conversa do russo com buraco no pescoço. Provavelmente, o homem tinha tanto a ver com aquela família siberiana como eu. Mas não deixei de pensar como, agora, andamos pelo mundo misturados e nessa altura, em que uma família se abrigava em tendas, uma viagem de alguns quilómetros era uma aventura que seria suficiente para dar origem a lendas e sagas que duravam séculos.

Voltemos pois a Brooklyn, onde já estamos a sair do supermercado de sacos na mão.

— Mas que história é essa do buraco no pescoço?

Ele riu-se:

— Não faço ideia. Ele vive lá em casa e tem um buraco no pescoço. Não liguem. Em princípio, ele não vos faz mal.

Ficámos calados, a olhar. Seriam aquelas as últimas imagens que veria antes de ser barbaramente assassinado por um ex-agente do KGB?

Há sítios piores para morrer. Se tivesse de ser, que fosse rápido — e sem buracos no pescoço.

7. Por fim, o russo e o seu pescoço

Entrámos na casa. Pusemos os sacos na mesa. Olhámos pela janela e lá andavam os feiticeiros de chapéus na cabeça. O Filipe continuava a contar as suas aventuras à procura dos sons de Nova Iorque.

Entrou então na cozinha um homem com cara de mau, como se quisesse confirmar a nossa imagem estereotipada dum agente secreto. (Fico um pouco corado de vergonha: por que razão um russo em Nova Iorque me leva a pensar em agentes secretos?)

O Filipe disse «olá», o homem cumprimentou-o — e não nos disse nada, como se não existíssemos. Subtilmente, eu e a Zélia aproximamo-nos um do outro.

Tentámos ver-lhe o pescoço mas ele franziu os olhos e não virou a cabeça. Olhou para nós. Nós olhamos para ele. Caiu naquela cozinha o silêncio que todos conhecemos daquelas situações em que tentamos ver o pescoço de outra pessoa e ela não deixa.

Vira, não vira, o certo é que o russo encolheu os ombros e virou-se para sair.

E foi então, com um salto, que vimos o tal buraco no pescoço. Ou melhor, vimos qualquer coisa estranha ali entre o cabelo e o colarinho da camisa. Teria levado um tiro? Teria sido preso na Sibéria? Teria tropeçado num degrau à saída do supermercado? Teria um problema de pele?

Sobrevivemos — e eu pensei nas vidas e mistérios que se escondem numa rua banal de Nova Iorque ou de qualquer cidade. Ou até numa tenda na Sibéria ou por trás dum colarinho dum russo nova-iorquino.

O Filipe riu-se da nossa cara de susto e voltámos à conversa de portugueses perdidos numa cidade estrangeira — como seria o nosso aspecto aos olhos daquele russo? Como soaria a nossa língua aos ouvidos dele? Ou o que diriam de nós aqueles homens vestidos de negro que percorriam as ruas de Brooklyn? Ou os nova-iorquinos que, por um momento, saíssem do adormecimento de tantos milhões de turistas e olhassem para nós com olhos de ver? Somos todos um pouco estranhos — mas não deixamos de ser todos mais parecidos do que parece, se virmos bem: desde famílias siberianas numa tenda, passando por judeus ortodoxos, até portugueses a fazer compras num supermercado de Brooklyn. Se a roda do mundo assim quiser, podemos ser vizinhos de qualquer humano deste mundo. Diremos então «olá», a imaginar o que se esconde por trás daqueles olhos e das cicatrizes que todos temos.

Por hoje, fico por aqui. Como disse no início, foi um dia de muitos sustos, de muitos presságios. Mas não aconteceu nada — e aconteceu tudo. Falei-vos de caçadores de sons, vendedores de rua de jogos virtuais, russos com buracos no corpo, feitiços de sexta-feira à noite, portugueses a deambular por Brooklyn. Demos uma boa espreitadela na estranheza que se esconde por trás de todas as esquinas do mundo.

Até à próxima viagem!