Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

O Saramago não sabia escrever português?

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Às vezes, alguma pessoa mais dada a procurar desculpas para não gostar deste ou daquele autor diz que não lê Saramago “porque ele não sabia escrever português”.

Esta ideia desenvolve-se num discurso que inclui afirmações do género: ele não usava vírgulas (se há escritor que gostava de vírgulas, era Saramago); não usava pontuação (a sério?); não seguia as regras do português…

Ora, o que acontece é isto: Saramago tinha uma forma própria de assinalar o diálogo. Em vez do travessão e parágrafo, usava a vírgula e a letra maiúscula.

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Memorial do Convento

É só isto! Uma pequena modificação das convenções ortográficas relativas ao diálogo das personagens. Porquê? Porque sim. Porque dava à sua escrita um sabor mais oral, porque lhe apetecia, porque ficava melhor. Não interessa: não foi o primeiro escritor (e muito menos será o último) a torcer as convenções para conseguir uma voz própria. Alguns vão muito mais longe.

Por exemplo, António Lobo Antunes desmancha de forma mais radical as convenções ortográficas do português e poucos reclamam (talvez porque nunca tenha aberto um livro deste autor?).

lobo antunes

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura

Há outros escritores portugueses que preferem as aspas (ah, malandros!).

O Belo Adormecido, Lídia Jorge

O Belo Adormecido, Lídia Jorge

Há até escritores de língua inglesa que seguem as nossas convenções (ou melhor, as convenções francesas, onde, muito provavelmente, fomos buscar as nossas). Exemplo? James Joyce.

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Ulysses

Para lá das convenções ortográficas, não cabe neste artigo falar do que é a literatura e da forma como os escritores não têm de seguir as apertadas regras do registo formal da sua língua.

A literatura faz-se com as regras e convenções, mas às vezes abusando dessas mesmas regras e convenções para conseguir algum tipo de efeito sobre o leitor.

Quando olhamos para Saramago, estamos muito longe de estar perante um escritor que não sabe as convenções e as regras do português. Um bom escritor usa a língua com todas as suas gradações: a norma, os desvios, os regionalismos, a ortografia e os erros de ortografia — tudo o que for preciso. Tudo é material ao seu dispor.

Em conclusão: dizer que Saramago não sabe escrever porque não segue determinadas convenções equivale a dizer que um pintor famoso não sabe pintar porque não usa apenas as cores definidas no Plano Director Municipal para as fachadas dos prédios do seu município.

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9 Comentários

  1. Ana

    Ser escritor é uma atividade criativa e essa criatividade também pode passar por ter uma maneira propria de pontuar o discurso.As pessoas não percebem…

  2. João Pinto

    Eu sei que a colocação de vírgulas, por exemplo, tem regras. Mas como pessoa que sou, não sabia, talvez por não ter percebido, que afinal havia pessoas que as consideravam facultativas. É minha opinião que não pode ser tudo “à vontade do freguês”.

    • Marco Neves

      E não é à vontade do freguês. O Saramago sabia bem usá-las, como perceberá se o ler com atenção. O que é facultativo é o estilo de indicação do diálogo no caso muito específico da literatura.

  3. “Por exemplo, António Lobo Antunes desmancha de forma mais radical as convenções ortográficas do português e poucos reclamam (talvez porque nunca tenha aberto um livro deste autor?).”

    Eis a grande verdade.

    Não faz mal, Eça de Queiroz também foi acusado no seu tempo de escrever português mal; hoje em dia é usado, pelos críticos de Saramago, como um exemplo a seguir.

    • Marco Neves

      Dizia alguém (já não me lembro quem) que o Eça escrevia em português traduzido do francês. Enfim, cada tempo tem as suas tricas.

  4. Ernesto César Valente Fernandes

    A Minha Técnica Narrativa
    Todas as características da minha técnica narrativa actual (eu preferiria dizer: do meu estilo) provêm de um princípio básico segundo o qual todo o «dito» se destina a ser «ouvido». Quero com isto significar que é como narrador oral que me vejo q
    Quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora, o narrador oral não usa pontuação, fala como se estivesse a compor música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras. Certas tendências, que reconheço e confirmo (estruturas barrocas, oratória circular, simetria de elementos), suponho que me vêm de uma certa ideia de um discurso oral tomado como música. A oralidade, pede pausas como ele bem o reconhece e as pausa tomam as formas de pontos, vírgulas e pontos e vírgulas. Se há forma de expressão que mais pede pontuação, é a musical, algo que ninguém, creio, negará, ou como ler uma frase musical sem que a dita tenha pausas escritas? Ele é sincero em dizer que não usa a técnica convencional para se exprimir. Não é verdade que não usasse vírgulas, mas eram escassas, nuns livros mais que noutros.

  5. Alguém Comenta

    Espero que esse “Porquê?” seja para dar à sua escrita um sabor mais oral, para lhe apetecer e para deixá-lo melhor.

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