Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

A saudade nos olhos da minha avó Leonor

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A semana passada, a minha avó Leonor fez 80 anos. Estivemos na festa dela, onde celebrámos essa mulher incrível, que fez tanto e passou por tanto quase sem pestanejar. Mas isso são coisas muito nossas, pouco interessarão aos leitores deste blogue. O que interessa talvez seja isto: enquanto cantávamos os parabéns, a minha avó sorria e chorava ao mesmo tempo. Tinha ali a família toda, mas faltavam alguns, ou porque estão longe ou porque já morreram. Falta o meu avô, que morreu o ano passado. Falta a minha tia, a filha mais nova da minha avó, que morreu em 2012. E faltam tantos outros, claro, a começar pelos pais. E, assim, a minha avó chorava e sorria, feliz e triste ao mesmo tempo. Ou seja, a minha avó tinha a saudade na cara, essa sensação de tristeza calorosa, uma felicidade que sente falta de si própria. Não me venham agora com esses discursos absurdos a dizer que só os portugueses sabem o que é a saudade. Isto é demasiado importante para essas tretas. Não, não, não: essa tal palavra é da nossa língua, mas há tantas palavras por esse mundo fora… E se há pessoas que não têm a nossa palavrinha para descrever o sentimento, podem escrever frases, parágrafos, livros inteiros numa qualquer língua para dizerem o que sentem — porque a saudade, essa, na verdade pertence a todos os seres humanos e faz parte das nossas vidas, dos nossos corpos, dos nossos sonhos e não se deixa apanhar por banalidades…

Mas também vos digo: em português ou noutra língua qualquer, escrevam-se os livros que se escreverem, ninguém consegue dizer exactamente o que a minha avô Leonor sentia naquele momento e o que sentíamos nós ali ao pé dela — naquele dia, naquele momento, a saudade era uma palavra só dela, porque eram as memórias dela que lhe passavam nos olhos, os abraços que deu e agora já não dá, ali a passar naquele sorriso e naquelas lágrimas.

Depois, no fim, dei-lhe um abraço e todos, ali, entre irmãos, filhos, netos e bisnetos, brincámos uns com os outros e fomos felizes durante uma tarde.

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2 Comments

  1. Ernesto César Valente Fernandes

    Estás a escrever cada dia mais bem. Quero ver para onde encarreirarás. Deveria ter escrito melhor? Não interessa. Certo fraseado, lembra-me, O António Lobo Antunes. No transmitir sentimentos, estados de alma.

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