Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

«Saudade»: uma palavra genuinamente brasileira?

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Há uns anos, encontrei num grupo do Facebook um desabafo irado duma portuguesa que me deixou muito intrigado.

A razão do desabafo? Contava ela que se sentira insultada por uma pequena frase num post de Facebook duma empresa brasileira.

O que dizia o tal post? Simplesmente isto (atentem no insulto):

«Saudade», uma palavra genuinamente brasileira.

O autor brasileiro é bem capaz de ficar a coçar a cabeça: «Mas que disse eu de errado?»

Por que razão se sentiu a tradutora portuguesa insultada por esta declaração tão inócua?

Os comentários ao post foram também muito curiosos. Houve quem acusasse o autor brasileiro de ignorância ou de querer afirmar que «saudade» é uma palavra de origem brasileira, etc.

A indignação foi muita, a surpresa de qualquer brasileiro que por ali parasse seria maior ainda.

Tentei argumentar um pouco, dizendo que erro seria dizer que «saudade» é uma palavra exclusivamente brasileira. Muito do que disse caiu em saco roto. A frase era incomodativa para muitos e houve quem lembrasse, out of the blue (posso usar estrangeirismos?), o maldito acordo ortográfico, que é agora enfiado em qualquer discussão da língua. Como se o acordo tivesse alguma coisa a ver com a tal da saudade.

Tudo por causa duma palavra que não pode ser genuinamente brasileira! Nem pensar!

Mas que raio?…

(Na altura, fiquei tão intrigado que escrevi a primeira versão deste artigo, que foi publicado no Medium.com. Agora, dei-lhe uma volta e publiquei de novo, neste blogue. É o que estão a ler.)


Ora bem, o que se passou foi o seguinte (digo eu — que posso estar errado):

  1. O autor brasileiro estava a falar duma palavra da sua língua, que é uma palavra que sente como genuína dessa língua (portuguesa) e da sua cultura (brasileira) e é, portanto, uma palavra genuinamente brasileira.
  2. Os portugueses que comentaram a frase fazem uma outra associação. Desde pequenos ouvem dizer que «saudade» é uma palavra portuguesa, o que é obviamente verdade. Ouvem também dizer que é uma palavra que só existe em português e da qual devemos ter orgulho (já é menos verdade, mas deixemos passar desta vez).
  3. Sendo o nome da língua indistinto do adjectivo que nos caracteriza enquanto povo, não fazemos convenientemente a distinção entre o que é uma palavra em português e uma palavra portuguesa. Se dizemos que «saudade» só existe em português, no nosso íntimo associamo-la, em exclusivo, à cultura portuguesa. Ouvir um brasileiro dizer que é uma palavra genuinamente brasileira enche-nos de estranheza, de confusão — e consideramos a coisa quase tão insultuosa como um espanhol dizer que a «saudade» é genuinamente espanhola.

Para destrinçarmos toda esta confusão, convém atentarmos na palavra “português”. Esta palavra tem vários significados, entre eles:

  1. (n.) pessoa com nacionalidade portuguesa.
  2. (n.) língua românica oficial em oito países.
  3. (adj.) relativo a Portugal e aos portugueses [tal como “brasileiro” significa “relativo ao Brasil e aos brasileiros”].
  4. (adj.) relativo ao português e à língua portuguesa [falada por portugueses, brasileiros, angolanos, etc.].

Há, claro, uma associação entre todos, mas não deixam de ser significados separados. O brasileiro que escreveu a frase «insultuosa» sabe distinguir entre os vários significados.

Um brasileiro pode dizer, sem qualquer dificuldade, que uma palavra é portuguesa, no sentido 4., sem querer com isso dizer que não é brasileira. Pode ainda dizer que uma palavra é brasileira (no sentido de “relativa aos brasileiros e ao Brasil”) sem deixar de defender que é portuguesa (no sentido 4.).

«Saudade», para um brasileiro, é uma palavra portuguesa («em português») e brasileira («relativa ao Brasil e aos brasileiros»).

Já para um português, os sentidos estão misturados. Achamos que uma palavra portuguesa [4.] (=«em português») é sempre uma palavra acima de tudo portuguesa [3.] (=«relativa aos portugueses»). Para nós, «saudade» é uma palavra portuguesa e, por isso, pertence, acima de tudo, aos portugueses e a Portugal. Ficamos irritados quando os brasileiros dizem que essa mesma palavra é também muito brasileira.

Claro que isto não faz sentido: se acharmos que os brasileiros só podem chamar genuinamente brasileiras as palavras que não sejam partilhadas com os portugueses, estaríamos a dizer que, no fundo, falam uma língua estrangeira desde a nascença e que pouco há de genuinamente brasileiro — que os americanos também falam uma língua estrangeira desde a nascença e pouco têm de genuíno. O mesmo diríamos dos escoceses, dos argentinos, dos belgas, dos suíços, etc.

Não faz sentido, mas é um reflexo muito português… Está associado à forma como muitos portugueses dizem «brasileiro» para descrever a língua falada pelos brasileiros, como ficam admirados quando um estrangeiro diz que aprendeu português mas desata a falar com sotaque brasileiro, como dizem que existe um sotaque brasileiro mas não existe um sotaque português, etc.

No fundo, muitos portugueses acham que os brasileiros falam uma língua emprestada e deviam ter respeitinho a quem lhes emprestou essa língua. Alguns vão mais longe e acham que os brasileiros andaram a estragar a língua…

Para um brasileiro, «português» e «língua portuguesa» são nomes da sua língua. A língua pode ser doutros também, incluindo os portugueses, mas é, indubitavelmente, sua. Que tenha um nome estrangeiro não importa muito. Sempre aprendeu português e sempre associou a língua portuguesa ao Brasil de forma tão íntima como os portugueses associam a língua portuguesa a Portugal.

Um brasileiro não está constantamente a lembrar-se de que há uma ligação a outros países com a mesma língua, da mesma forma que os portugueses também não fazem essa associação sempre que falam da língua portuguesa. Para um brasileiro, uma palavra em português é, por definição, uma palavra brasileira, porque o português é a língua dos brasileiros. Claro como água — mas estranhíssimo e até ofensivo para ouvidos portugueses.

Confesso que este problema é um problema que tem consequências negativas acima de tudo para os portugueses, que assim revelam uma visão limitada e mais pobre da sua própria língua.

Sim, fomos nós que pegámos num dialecto da zona do Minho (falado entre a Galiza e o Norte do que é hoje Portugal) e lhe demos estatuto de língua oficial. Fomos nós que pegámos nela e a levámos a outros locais, que assentámos arraiais no outro lado do Atlântico e nos misturámos com outras raças e culturas e criámos o Brasil — e por lá ficámos. Os brasileiros não importaram o português: os brasileiros são os descendentes dos portugueses que levaram o português até àquelas paragens.

Se aquilo que por lá se fala já é outra língua ou não é uma discussão interessante — mas não implica que as palavras que os brasileiros usam não sejam genuinamente brasileiras. «Saudade» é uma palavra da língua portuguesa e, por isso, é genuinamente brasileira.

Digo mais: mesmo que um dia os brasileiros se cansem de chamar «português» à sua língua, «saudade» lá continuaria como palavra bem brasileira.

As línguas são de quem as fala, com o sabor particular que cada palavra tem na boca de cada um, um sabor que muda de lugar para lugar, de época para época. Nenhuma dessas palavras pertence mais a uns do que a outros — todas estas palavras são genuinamente de todos nós.

ADENDA

Ora, nos recantos do Facebook, encontro uma crítica a este texto:

É uma palavra portuguesa que pode ser usada por brasileiros ou qualquer pessoa que saiba o que é saudades. Seria igualmente bizarro se alguém falasse “Shakespeare um autor genuinamente estadunidense”, com essa desculpa de língua inglesa e cultura estadunidense.

Ora bem, por onde começar?… Talvez pelo facto simples de que Shakespeare é uma pessoa e já morreu, enquanto a palavra «saudade» ainda está aí para as curvas, viva e genuína na boca de todos os falantes de português, sejam eles portugueses, angolanos ou brasileiros. «Saudade» não é uma palavra importada por brasileiros. Veio na boca daqueles que fundaram o país e por lá ficaram.

Além disso, Shakespeare nasceu em Inglaterra. Já a palavra «saudade» não apareceu assim de repente em terras de Portugal. Se formos por aí, ainda acabamos a dizer que «saudade» é genuína apenas e só da Galiza…

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

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9 Comentários

  1. Venâncio

    Muito bom, caro Marco!

  2. Ernesto Fernandes

    É triste ter que “puxar orelhas” a tanto burro. Triste e cansativo e enfadonho!

  3. Paulo

    O problema é a democracia!

    Depois da afirmação bombástica, a sua clarificação…
    A democracia de qualquer pessoa actualmente ter a possibilidade (e vontade) de ser ‘ouvido’. E devido a isso, se vê tanto post no facebook, no twiter, nos (geralmente) idiotas comentários à noticias de jornais e também nos blogs,

    Aquilo que na reaalidade falta a muita gente que comenta/espalha/reclama seja do que for, é na verdade uma coisa muito simples;

    Bom Senso.

    • Marco Neves

      Sem dúvida!

      Bom senso, ou seja, pensar um pouco antes e falar e, se preciso for, contar até dez.

  4. João Falcão-Machado

    Eu me atreveria a extrapolar: genuinamente brasileira se, por exemplo, pensarmos que nos idos de 1500 (ou 600 ou de 700), os portugueses que por lá ficaram, tinham saudade do luso terrunho… (Pronto, só fui lançar mais confusão!!!)

  5. Edgar Correia

    achei muito interessante os comentários, e posso estar errado, mas para mim não existe língua Brasileira, Angolana, nem Moçambicana. Assim como não existe língua Americana, ou Australiana; ou Mexicana, Chilena ou Argentina. Segundo minha opinião, existe a língua Portuguesa, Inglesa e Castelhana. Agora não me preocupa que um brasileiro diga que saudade é uma palavra brasileira se estiver a falar com um estrangeiro. Além disso, penso que os dicionários dizem língua Portuguesa, Americana e “Espanhola” e não Brasileira, Americana ou Mexicana.

  6. Maria Hercília Carvalho

    Foi muito claro, como é seu hábito, Marco Neves. A língua é só uma.

  7. David Eduardo Martins

    Bom dia, que bom encontrar na internet, novamente, bons portugueses. Sensato o seu texto e muito boas suas colocações. De uma análise ímpar.

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