Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

O que se esconde num artigo galego?

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Note-se que os galegos também têm a sua A Buraca

Noto que alguns portugueses lêem o artigo do nome da terra galega O Porriño (onde ocorreu o infeliz acidente ferroviário de há dias) não à portuguesa, como seria natural — «U Porrinho» —, mas como «Ô Porrinho». Pode até parecer uma forma bem correcta de ler, pois aproxima-se do que os próprios galegos dizem. Mas o nome em si («Porriño») costuma ser lido à portuguesa. Só o artigo é que não.

Não há nada de mal nisto: não sou dos que anda para aí a bradar aos céus porque os portugueses não sabem ler os nomes das terras dos outros países. É assim tão estranho que um português não saiba ler bem «Leicester» (que os ingleses lêem «Léster» e não «Laicéster»)? A pronúncia dos nomes ingleses é caótica e nós não aprendemos essa geografia na escola…

No entanto, neste caso, a leitura diferente de O Porriño é curiosa, porque não estamos perante uma palavra inglesa… Estamos a ler uma palavra que usamos todos os dias: o nosso belo e redondo artigo definido. Mas, lá está, perante um nome com um «ñ» e um artigo português, a nossa cabeça dá mais importância ao que é estranho. Muitos nem reparam que os artigos galegos são os nossos! Nada de «El Porriño»! Não interessa: é uma terra espanhola. Tem um «ñ» lá no meio. Aquele «O» só pode ser uma estranha palavra duma só letra. Não tem nada a ver connosco. Logo, lemos «Ô» e não «U».

Estarei a delirar? Talvez. Mas que a espantosa proximidade do galego é invisível para tantos portugueses, lá isso é…

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15 Comentários

  1. Mário Herrero

    Não pode ser melhor explicado. Desse lado da Raia, quero dizer. Essa letra, esse duplo N reduzido, distintivo e distinto, esse Ñ que nos transforma em estrangeiros para o povo português. Esse Ñ que nos faz ESPAÑA… Que nos desfaz. E é tão simples: PORRIÑO /VS/ PORRINHO. Ou ESPAÑA /VS/ NÃO ESPANHA. Muito obrigado, Marcos, pelo interesse. E pela inteligência na leitura do que (nos) ocorre deste lado da Raia.

    • João Frias Pinto

      Excelente intervenção, Mário!!!
      É a grafia, que nos “separa”, infelizmente!

      • orxeira con xis

        Que grafia nen que porra, o que nos separa é a ignorancia, o vivir de costas durante séculos, o feito de que vostedes portugueses non queiran recoñecernos, pasen asi de “raspão” pola orixe da lingua que falan e pola incuestinable conexión co galego. Así mesmo do outro lado, do galego, ocorre o mesmo ou pior xa que non nos recoñecemos a nós mesmos. A grafía non ten importancia ningunha ou logo é tan dificil explicar e entender que o ñ e o ll galegos corresponden ao nh e ao lh ?? Pra rematar digo que eu nem drogado vou escribir en galego con nh ou con lh.

  2. Manuel Alvarez

    Como vizinho dessa terra posso dizer que o nome só tem artigo em Galego e em Português, em Espanhol os nomes próprios não se antecedem nunca de artigo a não ser muito poucas exceções.
    A pronuncia “espanholada” é a tendência que o Marco Neves tem mencionado outras vezes, deve ser uma questão de marcar diferenças, mas o pior não é isso! Chamou-me a atenção que os canais de televisão sub-titulam sempre as declarações de pessoas entrevistadas que falam em Galego (para que?), no entanto deixam sem sub-títulos as declarações de quem fala Espanhol… muito estranho.

    • João Frias Pinto

      Não leve a mal o meu reparo, caro Sr, Alvarez, mas… ninguém fala Espanhol!
      Falarão… Castelhano ???

      • Manuel Alvarez

        Entendo por Espanhol o Castelhano que se fala na Espanha. Também se falha Castelhano noutros países e por vezes difere bastante.

        • Abreu

          O Espanhol não existe, nem pode existir. Tampouco existe a língua “Britânica”
          Quando foi escolhido o nome de Espanhol para o castelhano? Foi feito democraticamente? Quando, como, onde, quem ?

          O castelhano não se fala na Galiza. O castelhano e imposto na Galiza. Há um exercito do Reino da Espanha que garante que o Castelhano se fale na Galiza.
          Na sua “Constituição” fica bem claro que e o Castelhano e língua que os galegos temos que aprender. A nossa não.

          O Sr. Alvares disso: “…por vezes difere bastante.”

          Eu diria que dentro do Reino, difere muito. Curiosamente, ainda não vi eu uma norma do Andaluz. coma na Galiza, onde se procura separar aos galegos, dos portugueses. Por que e que não acontece lá ?

          Parabéns ao Sr. Marco Neves, gosto ler os seus artigos.

  3. Abreu

    O Sr. Alvarez: “Entendo por Espanhol o Castelhano que se fala na Espanha.”
    E Justamente isso o que se pretende. Que se entenda que existe Espanha, por existires a língua “espanhola”

  4. João

    Olhe, João Frias Pinto, que, se se ativer à linha da sua argumentação, concluirá que ninguém fala português nem francês nem italiano, porque, em algum momento, ao dialeto falado pelas classes dominantes em certa época, em certo lugar, deu-se o nome da própria nacionalidade.

  5. Manuel Alvarez

    Bom, já vi que a conversa nos dias passados tem estado a fugir muito ao tema do artigo. O que eu quis vincar foi que as televisão Portuguesa (não me lembro que canal vi) a falta de sub-títulos para alguns dos que falavam Castelhano e aparecerem sempre que alguém falava Galego. Eu sou Galego mas tenho passado a maior parte da minha vida em Portugal. Deixam-me chateado estas situações.

    Não vou alimentar polémicas políticas, este não é o sitio próprio para as discutir nem é do meu interesse. Se o Marco Neves assim o entender que crie um artigo de discussão acerca do nome que cada um quer dar à língua própria ou à do vizinho.
    Eu estudei na minha infância espanhol, num dialecto que faz parte das dezenas de dialectos que tem, mas logo fiz até o secundário na Galiza, re-aprendendo o Espanhol em tempos que o Galego ainda começava a entrar timidamente no ensino como língua oficial. Penso que a partir de ai o Galego foi re-inventado, uma constante corrida para o fazer diferente do Espanhol (ou Castelhano, para mim não faz diferença); na minha humilde opinião, encontro no Português o mais parecido ao Galego que falavam os meus antepassados, nas aldeias, nas casas e em família, longe das autoridades que o proibiam.
    O Espanhol como língua continua a chamar-se assim, Castelhano e Espanhol são sinónimos, fazer disto uma discussão nem vale a pena. Podem chamar-lhe como entenderem, se alguém quer aportar novas ideias, olhem um bom sitio para o fazer de forma aberta, sem misturar políticas:
    https://es.wikipedia.org/wiki/Idioma_espa%C3%B1ol#Pol.C3.A9mica_en_torno_a_.C2.ABespa.C3.B1ol.C2.BB_o_.C2.ABcastellano.C2.BB

    A Wikipedia é bastante universal como para podermos documentar os conteúdos ou manifestar a falsidade do que lá está escrito; todo o mundo pode fazer a sua contribuição.

    • Marco Neves

      Por acaso, já tenho um artigo sobre isso mesmo neste blogue! 🙂

      Aqui fica: http://www.certaspalavras.net/afinal-diz-se-espanhol-ou-castelhano/

    • Abreu

      A escolha da grafia “ñ” -de uma das normas do galego- e uma questão política. Não e uma escolha inocente, e esse e o tema do Artigo. A ortográfica que se tinha escolhido após do franquismo empregava um “nh”. De não ter atuado o espanholismo, o artigo do Sr. Marco das Neves não teria sido preciso.

      “O Espanhol como língua continua a chamar-se assim, Castelhano e Espanhol são sinónimos, fazer disto uma discussão nem vale a pena”

      Na Galiza dízimos: “Mexam por nos, e temos que dizer que chove”
      O Sr. Leva ração. Imos olhar e ficar caladinhos…

      “Eu estudei na minha infância espanhol, num dialecto que faz parte das dezenas de dialectos que tem”

      O Sr. Foi a escola? A minha família, estava a trabalhar e muitos foram assassinado pelas autoridades.
      O Sr. puído estudar em castelhano na Galiza. Os galegos nao podiam estudada galego na Galiza: “Mexam por nos, e temos que dizer que chove”

      “num dialecto que faz parte das dezenas de dialectos que tem”
      O Sr. esta a brincar. O castelhano não e a língua própria da Galiza. E uma língua imposta.

      Pra não gostares da política, o Sr. Alvares fala coma um político.

  6. Zé dos Mudos

    Lamento informá-los que o ñ já era empregue na Idade Média em galego. Só dizer que em castelhano nunca se diz El Porriño, mas Porriño sem artigo. Isto é lógico hoje em dia pois El Porriño pode ser hoje em dia em castellhano um cigarro de haxixe com o dimunitivo galego. O Porriño só se di no galego local, felizmente oficial. A eliminação da pronúncia do artigo é um dos processos de castelhanização da toponímia galega, quer dizer manteve-se o nome , mas retirou-se a pronúncia do artigo

  7. Zé dos Mudos

    Só se diz, queria dizer

  8. Carlos Cao

    Todos os galegos que loitamos para que a nosa lingua (poucos por desgraza) non morrra tamen queremos muito a Portugal.
    Mais ainda namorados de Portugal non somos correspondidos e só uns poucos portugueses queren a Galiza, a realidade e que a maioria dos portugueses non teñen interés na lingua galega quizais por non gostar dun feito que rache coa uniformidade da ESPAÑA que eles aprenderon.
    Non gostan quizais por ver a terra orixe da sua nacionalidade e berce (berço) da sua lingua coma un perigo a sua IDENTIDADE UNICA.
    Os poucos galegos que loitamos por conservar a nosa lingua, cultura e autogoberno temos que ficar cos pes na terra, non podemos esperar nada dos portugueses que ven a Galiza e respostan ao galego falante en CASTELHANO e para eles somos CASTELHANOS. Nos fomos vitimas dun esmagador ataque de seculos do españolismo mais noxento e sería bon poder ter o apoio e axuda de Portugal, mais non o temos.

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