Ontem, de manhã, enquanto ia pôr o meu filho à creche, vi, parados no passeio, à espera de passar a passadeira, duas pessoas distraídas.

Um homem estava a ler um jornal.

Uma rapariga estava a ler qualquer coisa no telemóvel.

Agora podia aproveitar a embalagem dos discursos habituais e começar a reclamar por causa destes distraídos jovens, sempre a olhar para o ecrã.

E, reparem, quase sempre estes discursos partem dum exemplo destes: alguém vê um jovem ao telemóvel e desata a perorar sobre o mal dessa tecnologia e os defeitos dessa geração.

Até pode ser que os telemóveis nos estejam a dar cabo da vista e da mente e do crescimento capilar. Até pode ser que haja por aí muito mal educado que não sabe levantar a cabeça quando deve.

Mas reconheçam que este discurso também é moda. A poucos passaria pela cabeça reclamar pela leitura do jornal, mas é possível que a rapariga estivesse a ler a mesmíssima notícia que o homem do lado, de jornal na mão.

Os telemóveis são ferramentas de comunicação e leitura. Há exageros na sua utilização? Claro, como pode haver em tudo. Mas faça-se o esforço de, nem que seja só às vezes, questionar os discursos habituais antes de começarmos a debitar pânicos preguiçosos.

E, já agora, acham mais perigoso para a saúde mental estar duas horas a ler e a escrever no telemóvel ou a ver televisão? É uma pergunta inocente…

(Aviso: este texto foi escrito num telemóvel.)

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.