Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Será que temos um vocabulário mais pobre do que antigamente?

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Muitos dizem que sim. E, de tão repetida, esta ideia tornou-se tão óbvia que poucos a questionam.

Afinal, se o comum dos mortais de hoje em dia usa menos palavras do que Eça ou Camilo ou ainda Shakespeare, isso só pode querer dizer que usamos muito menos palavras do que antigamente. Não é assim?

Ora, pensemos um pouco. Será que os londrinos da época isabelina usavam as palavras todas que Shakespeare usou? Será que os portugueses de oitocentos, quase todos iletrados, usavam todas as palavras de Camilo, de Eça, de Garrett?

Não será errado usar os génios como padrão para avaliar o uso da língua pela população em geral? Lembremo-nos de que os génios da língua são precisamente aqueles que usam as palavras como mais ninguém consegue usar.

Sim, devemos usar esses génios para ler e para aprender, mas parece-me um pouco exagerado concluir que hoje usamos menos palavras porque não usamos tantas como os melhores escritores do passado.

Esta ideia pode ser, se virmos bem, sintoma duma certa preguiça mental: tenho aqui à mão uma ideia feita que me faz passar por lúcido — ou até me dá ares de crítico implacável destes tempos degenerados? Ah, sendo assim, escuso de pensar muito. Basta usar a tal ideia — e quem me criticar é porque faz parte desse mundo estúpido.

O curioso é que, quando alguém lamenta tal decadência do vocabulário, com toda a certeza do mundo, costuma atirar números ao ar sem preocupação em confirmá-los. São os adolescentes que só usam 800 palavras; são os portugueses que já só conhecem 150 palavras; são os jovens de hoje em dia que só percebem 1500 palavras. Donde vêm estes números sempre tão diferentes uns dos outros? Não faço ideia, mas alguém disse a outro alguém e apareceu escrito não sei onde e isso basta a quem já tem a certeza.

David Crystal, um ensaísta que escreve sobre língua inglesa (estes disparates não conhecem fronteiras) pegou nestas ideias e desmontou-as com algum humor neste post — quem se der ao trabalho de ler, irá perceber que o número de palavras que conhecemos e usamos é muito superior ao que pensamos…

Outra das provas muito usadas de que o vocabulário está em declínio é o facto de haver palavras nos bons livros de antigamente que hoje já ninguém usa.

Mais uma vez, parem três segundos e pensem: não acontecerá o mesmo ao contrário? Não haverá palavras de hoje em dia que antigamente ninguém conhecia — porque nem sequer existiam?

Antes de continuarmos, um aviso: é óbvio que um vocabulário extenso é bom e necessário — e ajuda em quase tudo. Mas será assim tão óbvio que os jovens de hoje conhecem menos palavras do que os jovens de há 100 anos, pouquíssimos dos quais iam à escola? 

Sim, quem quiser defender a ideia da decadência do vocabulário pode usar a estratégia de comparar todos os jovens de hoje, de todas as origens sociais e situações familiares, com os jovens seleccionados de antigamente (os pouquíssimos que iam à escola). Mas isso é um erro quase tão grande como comparar-nos a todos com Eça e Camilo. 

Comparem os escritores com os escritores e a população toda com a população toda (se conseguirem) e digam-nos então se estamos a piorar ou não — até lá, deixem de nos insultar o vocabulário, se faz favor.

Agora, se alguém ainda me quiser acompanhar depois destas blasfémias, reparemos em dois fenómenos curiosos.

1. Hoje escrevemos e falamos muito mais do que antigamente

Hoje temos de escrever e falar muito mais do que os nossos antepassados — as nossas profissões dependem das palavras muito mais do que as profissões da grande maioria da população desses belos tempos, em que quase todos passavam os dias curvados, ao sol, na terra. Sim: as gentes das cidades eram uma minoria. Hoje somos a grande maioria.

Parece-me, à partida, difícil de acreditar que, ao usar mais palavras, usemos uma menor variedade de palavras. É possível, mas pouco provável — se alguém quiser provar tal coisa, convém apresentar números sólidos e não se deixar ficar pelas impressões, sempre tão enganadoras.

Certamente que haverá quem use mais palavras e quem use menos palavras — quem tenha um maior vocabulário (porque lê muito e conversa muito) e quem tenha um vocabulário mais pobre.

Há ainda quem use muitas palavras diferentes em situações que as pedem e, quando é preciso, se restrinja às boas e curtas palavras que todos percebem.

Vou-me repetir, mas não faz mal. Pensem lá: a população portuguesa já foi, na sua maioria, analfabeta. Será que os portugueses de então falavam todos como Camilo e, agora que já vão à escola, que vêem televisão e ouvem rádio, que lêem jornais e livros (menos do que queríamos, mas mais do que antigamente) — acham mesmo que, agora, o vocabulário é menos variado do que nos tempos em quase ninguém sabia ler? Se acham que tal fenómeno inacreditável é um facto real, para lá das impressões mal pensadas, têm forma de o demonstrar?

(O curioso é que muitos do que se queixam de falta de vocabulário estão, no dia seguinte, a queixar-se das novas palavras que se ouvem por aí. É divertido ver tais cambalhotas entre quem não aceita a mera hipótese de não estarmos a destruir a língua.)

2. Nem sempre precisamos de palavras diferentes

Agora, o choque: querer variar o vocabulário à força serve apenas para fugir às críticas mal pensadas dos profissionais do pânico.

Olhem só para este exemplo: uma professora americana, com o intuito de obrigar os alunos a variar o vocabulário, proibiu o uso de palavras pequenas e comuns, como «fun», «good», «bad», «see».

Como diz o colunista Johnson, a intenção pode ser boa, mas o resultado é péssimo. Em muitas frases, são as palavras comuns que nos servem melhor. Andar a limitar assim o que podemos escrever não pode ser boa ideia. É o mesmo que proibir os atletas de andar para que eles aprendam a correr melhor.

Trouxe este exemplo à baila só para verem como estes pânicos pouco fundamentados podem conduzir ao disparate.

Se um professor português fosse pelo mesmo caminho, acham que seria bom proibir palavras como «ver» para obrigar ao uso de outras palavras? Que frase será melhor num diálogo realista?

  1. «Acabei de ver um acidente!»
  2. «Acabei de observar um acidente!»

Quase todos preferimos a primeira, mas as regras da tal professora obrigam os alunos a escolher a segunda.

O que importa é que a grande maioria das pessoas usa as duas palavras. Vemos certas coisas, mas observamos com atenção outras coisas. Podemos ter um arsenal de palavras muito rico, mas não andar sempre a gastar munições. Os falantes de português são mais inteligentes do que os pintam.

Como dizia George Orwell, que em certos dias até dizia umas coisas acertadas no que toca ao uso da língua, as palavras curtas e simples são, muitas vezes, preferíveis às palavras longas e raras.

O segredo está em usar a palavra certa no momento certo — não está em variar o vocabulário à força, só para fugir às críticas de quem desespera por não viver rodeado de Shakespeares.

Para concluir…

Sim: um escritor pode usar toda a paleta de palavras que a língua lhe oferece. Mas, por outro lado, um formulário do Estado ganha muito em ser simples e fácil de compreender por todos.

Sim: um adolescente parece debitar apenas e só monossílabos quando fala com alguns adultos — mas ponham-se à escuta quando o mesmo adolescente conversa com os amigos e vão ficar com os ouvidos a arder de tanta palavra nova e desconhecida.

O nosso vocabulário está cada vez mais pobre? Tenho dúvidas, tenho mesmo muitas dúvidas…

(Já sei que algumas pessoas vão achar que este texto defende um vocabulário limitado. Não! Leiam de novo. Defendo que o nosso vocabulário é menos limitado do que parece — e ainda bem. Já agora, aproveitem para ler este post sobre a necessidade que as crianças têm de palavras — muitas palavras.)

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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1 Comentário

  1. fernando

    Eu penso que o português atual está sim cada vez mais pobre. É bem difícil traduzir do inglês (riquíssimo em vocabulário) para o português. Vou dar um pequeno exemplo: “passerby”. É alguém que está passando, um “transeunte”. No entanto, não posso usar transeunte na tradução, pouquíssimos vão entender, é termo em desuso, muito culto; é o problema da simplificação da língua, da redução de vocábulos. Então, tenho de usar o horrível “pedestre”. Esse sim, mais compreensível, mas tem um porém. Um passerby pode estar conduzindo um veículo, um pedestre, no entanto, sempre estará a pé, por definição. Faço traduções do inglês para o português, e é bem complicado. Outro exemplo: qualquer tipo de persiana em inglês é shutter, seja porta, janela ou o obturador da máquina fotográfica. No entanto, em português brasileiro só se entende persiana por janela. Fazer o quê? Ou se usa o termo original ou se modifica o próprio sentido original do texto, trocando shutter por ‘porta’. Muitas línguas adotam os termos estrangeiros quando não possuem equivalente, aqui no Brasil, há uma resistência imbecil a isso. Como se fôssemos perder nossa identidade, a qual nunca existiu por sinal (mistura de culturas = cultura nenhuma; é como ler um pouco de tudo mas nunca terminar um livro sequer).

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