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Sete técnicas de defesa da língua portuguesa

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Muitos dizem por aí que «é preciso defender a língua portuguesa». E é, de facto. Mas convém lembrar que a língua portuguesa não é um animal que existe fora de nós, com corpo e sentimentos. Muito menos é algum tipo de entidade divina. Não — a língua portuguesa somos nós, que a falamos e escrevemos.

Por isso, só entendo a frase «é preciso defender a língua portuguesa» se for uma forma mais poética de dizer «é preciso defender os falantes de português».

Ora, por isso mesmo, decidi criar um pequeno guia de defesa da língua — neste caso, um guia de defesa de quem escreve em português.

Agora, um aviso: como escrevi este pequeno guia para ti, vou tratar-te por «tu», o que espero não me trazer problemas com quem não gosta deste tipo de tratamento demasiado próximo. É só desta vez!

Pois bem. É assim que defendes a tua língua: defendendo quem a usa e respeitando os outros — e esperando algum respeito de volta, claro está.

1. Corrige os erros dos outros para ajudar, não para atacar.

Quando vires um erro de português de alguém de quem gostas, diz-lhe, claro. Não fiques a gozar por trás. Mas (e isto é importante), diz-lhe em privado.

Em privado, como? Por e-mail, por mensagem privada ou em conversa. E de forma delicada, a não ser que a tua amizade seja daquelas que toleram insultos.

Sim: a língua portuguesa não se importa que a defendas em privado. Mais vale defender a língua em privado do que atacar um amigo em público. Se for alguém de quem não gostas, enfim, podes usar a técnica da humilhação linguística, mas tens de admitir que é um golpe muito baixo…

Ainda uma nota: quando ouves ou vês um erro, assume a hipótese de que talvez não tenhas razão. Às vezes, acontece. Investiga um pouco. A língua esconde surpresas. Em caso de dúvida, aplica-se o tal princípio: decida-se a favor do réu.

Depois — aqui vem a parte difícil — aponta a fúria revisora aos teus próprios textos… Aí, não tenhas contemplações: procura os erros com olho de lince.

2. Nunca por nunca deixes de escrever com medo de errar.

Tenta não errar, mas acima de tudo não tenhas medo da tua língua.

Errar faz parte. A única maneira de não errar é não escrever.

Confia em ti e escreve. Vais escrever cada vez melhor se escreveres mais.

A língua agradeceria, se existisse fora de nós. Como não existe, agradecemos nós todos, que lemos e escrevemos em português.

3. Tem cuidado com os endireitas da língua.

Quem são eles? São pessoas — quase sempre bem-intencionadas — que encontram problemas em todo o lado e se prestam a endireitar a língua, coitadinha. Isto, claro, sem que a língua peça seja o que for.

Como se detectam estes endireitas? Nem sempre é fácil. Costumam andar obcecados com alguns erros aleatórios. Alguns são erros verdadeiros, mas muitos são erros falsos: construções da nossa língua que não fazem mal a ninguém, são claríssimas e muitas delas antiquíssimas — mas que irritam o endireita, por esta ou aquela razão.

Há alturas em que esses erros falsos servem para que o endireita nos convença que estamos doentes e se ofereça, solícito, para nos curar com as suas mãos. Ora, a língua não vai lá aos puxões. A saúde linguística só se consegue com muito exercício e muita humildade. Muita leitura, muita escrita…

4. Mostra o que escreves a alguém. Aceita as críticas e sugestões.

Custa, não custa? É mais fácil não fazer nada: não escrever, ficar calado, não arriscar. Mas se queres dizer alguma coisa ou escrever alguma coisa, perde o medo, escreve e, depois, mostra a alguém. Pede críticas. Pede sugestões.

Depois, aceita essas críticas e essas sugestões de bom grado. Podem ser justas ou injustas, podem estar bem fundamentadas ou nem por isso, mas são quase sempre úteis, nem que seja para perceberes como encaram os outros aquilo que queres escrever.

Sem sugestões de outras pessoas, dificilmente melhoramos. Afinal, falamos e escrevemos para os outros…

5. Escreve a pensar em quem te vai ler.

Estás a escrever um email? Um blogue? Um livro? Não escrevas para ti. Escreve a pensar em quem te vai ler.

Olha que dá trabalho. Se escrevesses só para ti, era mais fácil. Já sabes o que sabes e o que não sabes, o que gostas e o que não gostas. No caso dos outros, quase que é preciso adivinhar…

Temos de resolver problemas bicudos deste tipo:

  • Como explicar as nossas ideias (se queremos explicar alguma coisa)?
  • Como provocar prazer no outro (nesse caso, já estamos a escrever literatura ou a caminhar para lá)?
  • Como incomodar o outro (se for isso que queres, por algum motivo)?

Ora, para conseguir tudo isto, temos de conhecer o outro o melhor possível. Temos, em primeiro lugar, de escrever para alguém diferente de nós. Senão, não vale a pena.

Em resumo: pensa no leitor, mesmo que não saibas muito bem quem é. (Queres um truque? Escreve para um amigo ou familiar em particular.)

Sim, tens de ser criativo: dar a volta ao texto, pensar em soluções para conseguires fazer o que queres fazer com as palavras.

Mas como aprender tal coisa? Olha para a sugestão 7, ali em baixo…

(Ah, e não é só na escrita que é preciso criatividade: também tens de ser criativo nas conversas se queres convencer os outros, seduzir quem amas, divertir os amigos com piadas, conversar sem descambar tudo em gritos.)

6. Sê um leitor generoso.

O que quero dizer com isto?

Olha com generosidade para o que a outra pessoa quer dizer. Se a outra pessoa não sabe escrever bem, tenta perceber as ideias que estão por trás e depois decide se concordas ou não, se a outra pessoa tem razão ou não. Concentra-te mais no conteúdo do que na forma — e não te concentres na pessoa. Ataca as ideias (se forem de atacar), e não a pessoa ou a forma que a pessoa escolheu para as expressar.

Estou a pedir-te algo duplamente difícil: exigência com o que escreves, mas tolerância no que toca aos textos dos outros. Se quiseres ajudar os outros a melhorar, faz críticas generosas, que ajudem e não destruam a confiança de quem tenta escrever.

Parece impossível? Fácil não é. Mas é uma forma de respeitares a tua língua, ou seja, os falantes da tua língua.

7. Treina a língua: lê e escreve mesmo muito.

A língua materna é como um músculo. Todos sabemos a gramática do português (temos o músculo), mas a forma como a usamos pode ser melhor ou pior: podemos conseguir explicar bem o que queremos; podemos escrever bem ou de forma escabrosa; podemos conversar animadamente ou não saber dizer mais do que três ou quatro monossílabos.

Concentremo-nos na escrita (é o mais difícil). Neste caso, estamos a usar o músculo linguístico de forma artificial, com muitos limites — não estamos frente à outra pessoa, não lhe vemos as reacções nem conseguimos comunicar com os gestos.

Só temos palavras e pontuação.

Quando escrevemos, somos como um cirurgião a fazer uma operação à distância. Tudo é mais complicado e é preciso um outro tipo de treino. Mas os exercícios são óbvios: ler muito; escrever muito. Tentar de novo. Voltar atrás. Ler ainda mais. Escrever mais um pouco.

Não há volta a dar.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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2 Comentários

  1. José António

    Excelente, vou aguardar por mais sugestões
    Obrigado

  2. José Júlio Costa-Pereira

    Devo confessar que em termos da nossa língua, só mesmo um autêntico fundamentalista, mas confessando-o, acho que serei perdoado deste defeito congénito. Ipso facto, jamais deixarei de motu proprio este simpático e útil blogue.

    Como sempre é um prazer e uma mais valia ler os seus artigos. Obrigado

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