Certas Palavras

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As superstições da língua

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Este gato não faz mal a ninguém — e o «espaço de tempo» também não!

Há esperança! Há esperança! Para todos os que andam perdidos no pântano do pedantismo linguístico, não desespereis! É possível sair do pântano!

Encontrei um livro nas minhas andanças dos últimos dias — depois conto-vos quais foram — que é uma maravilha.

Um antigo «stickler» do inglês (uma expressão para «pedante» ou «paniqueiro»), que passava o tempo a dar conselhos linguísticos com pouco fundamento num jornal, percebeu que estava errado e passou a olhar para a língua com outros olhos, depois de a estudar melhor e deixar de lado as superstições infantis.

Descobriu que a língua não está em decadência, que há regras e «regras», que podemos e devemos discutir o uso da língua, mas com base nos factos e não das superstições e — o que é verdade — as ideias erradas dos pedantes são prejudiciais para quem quer escrever bem.

Deixou de dar conselhos? Não, mas passou a dá-los com mais exigência e conhecimento, clareza e tolerância — com um pouco de civismo linguístico!

Agora, digo-vos isto porque gostei dessa palavra que ele utilizou: de facto, muitas das proibições que por aí se espalham são superstições. O medo do «espaço de tempo», do «copo de água», do «não há nada» e de tantos outros supostos erros que não são erros coisa nenhuma são superstições dos inseguros da língua: são pessoas que acham que se conseguirem proibir tais construções vão obrigar os outros a pensar melhor e a escrever melhor.

Não: vão apenas amputar a nossa língua e mostrar falta de respeito pelos falantes da língua.

Claro que os supersticiosos contrapõem logo: lá vêm estes dizer que vale tudo!

Não, amigos: dizer a um supersticioso que pode entrar em casa com o pé esquerdo não é o mesmo que dizer que pode entrar com os sapatos todos sujos. Percebem a diferença? Mais (só para ficar claro, já que os pedantes gostam de exagerar): dizer a uma criança que pode pisar as pedras brancas e azuis da calçada sem problemas não é o mesmo que dizer que pode atravessar a estrada sem olhar.

Que se limitem a eles próprios, enfim, ainda se aceita. Mas o problema é que os tais supersticiosos da língua querem obrigar toda a gente a andar só pelas pedras azuis e a entrar em casa sempre com o pé direito — só para se sentirem bem, provavelmente. E se não concordarmos, ainda nos insultam, dizendo que não sabemos andar (neste caso, falar). É tão normal ouvi-los acusar toda a gente e mais alguma de não saber falar como deve ser…

É curiosíssimo como estas superstições surgem em várias línguas e em várias épocas. Não é um problema só nosso. Valha-nos isso.

Ora, amigos que tremem de medo ao usar a língua: vá, não sejam supersticiosos. Todos podemos escrever e falar cada vez melhor sem andarmos a atirar uns aos outros superstições infantis e inúteis.

Para quem estiver interessado em saber de que livro estava eu a falar, aqui fica:

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2 Comentários

  1. Prezado Marco Neves,

    Saudação!
    Alguns textos seus já estão recomendados aos meus amigos do Facabook (https://www.facebook.com/groups/1535910733391712/ ) porque, sinceramente, acho-os interessantes. E este será mais um que eu recomendarei a eles. Mas, uma coisa me intrigou: estaria você falando de pessoas como eu, por exemplo. Seria eu um supersticioso da Língua Portuguesa?
    O meu grupo foi criado com o objetivo de ajudar as pessoas com certa dificuldade para falar e em escrever. E, para isso, tenho recomendado alguns dos seus textos aos meus amigos.
    E, além de textos seus, tenho levado até eles outros exemplos, como os que se seguem.
    ALBERTO NEPOMUCENO, compositor cearense responsável pela composição do Hino a Fortaleza, tinha como lema: “Não tem pátria o povo que não canta a sua língua.” E eu diaria: Não tem pátria o povo que não ama, não defende, a sua língua.
    NELSON S. LIMA, PhD e Presidente do Instituto da Inteligência, dirigindo-se a estudantes, disse: “Se você não tem nada de especial quando se candidata a um emprego significa que muitos outros concorrentes podem ter algo mais a oferecer. Talvez saibam falar melhor. No futuro será cada vez mais assim.”
    Sou autor do Projeto Cultural FÁLÁR + LÊR = ÊSCRÊVÊR (canta-se, fala-se e lê-se como se escreve) criado em 2011 com a finalidade de lembrar às crianças, aos jovens, aos concurseiros e aos profissionais em geral que Sotaque é um erro de entonação e os regionalismos são erros (vícios) de pronúncia que as crianças e os jovens aprendem com familiares, amigos e vizinhos, muitos deles semianalfabetos. Essas crianças e jovens vão às escolas é para aprender a Língua Portuguesa Padrão.
    Lembrem-se: Jovens nascem, crescem e formam-se no Norte ou Nordeste, e, depois, vão procurar trabalho no Sul, Leste ou Oeste, ou vice-versa. Portanto, todos eles precisam aprender a Língua Portuguesa Padrão, e não, os sotaques e regionalismos.
    Eis alguns dos poemas do meu livro, GREGÓRIO DE MATOS FOI UM JESUS CRISTO BAHIANO – UM TRIBUTO A GREGÓRIO DE MATOS, publicado em 2014, que os declamos em ônibus, bares, festas e outros eventos, além de publicá-los nos meus comentários das redes sociais:
    1º) BAHIANO, COM H, É ASSIM
    (Fala errado e nasce em qualquer lugar:
    Nasce no Acre, Na Paraíba,
    no Rio Grande do Sul ou no Amapá)

    Bahiano vive CUMENO
    CUSTELA, ABOBRA e TUMANTE,
    VENO seu time e DIZENO:
    Até INTÃO tá IMPATE.
    Bahiano fica FUMANO
    SINTINO CHERO de GAIS,
    E UVINO o AMÔ FALANO
    PELAS COSTA ou PUR TRAIS.

    Bahiano planta MANDHOCA
    E cultiva ANANAIS.
    Chama outro de INDIOTA
    E confunde MAS com MAIS.
    Bahiano fala ARROIZ,
    Diz que ele é da PAIZ,
    “Levanta” a VÓIZ, e depois,
    Chama o demo SATANAIS.

    Bahiano, MERMO MININO,
    Ou JOVE, VÉI e RAPAIZ,
    Crê em JESUIS, o divino,
    Na CRUIZ, e, TAMÉM, na PAIZ.
    E tem mais: eu e você,
    O bahiano chama NÓIS.
    Não sabe que S é Z
    Pós vogais. Não fale PÓIS.

    Bahiano escreve três
    E, depois, diz que é TRÊIS.
    Dez (déz), ele diz é DÉIZ.
    Dezesseis (dézêssêis), diz DIZÊSSÊIS.
    Dezessete (dézésséti), é DIZÉSSÉTI.
    Dezoito (dézôitu), ele diz: DIZÔITU.
    De quem BAHIANO é tiete,
    Fã, aluno ou INCOSTO?

    Bahiano escreve três
    E, depois, diz que é TRÊIS.
    Dez (déz), ele diz é DÉIZ.
    Dezesseis (dézêssêis), diz DIZÊSSÊIS.
    Dezessete (dézésséti), é DIZÉSSÉTI.
    Dezoito (dézôitu), ele diz: DIZÔITU.
    De quem BAHIANO é tiete,
    Fã, aluno ou encosto?

    Bahiano escreve três
    E, depois, diz que é TRÊIS.
    Dez (déz), ele diz é DÉIZ.
    Dezesseis (dézêssêis), diz DIZÊSSÊIS.
    Dezessete (dézésséti), é DIZÉSSÉTI.
    Dezoito (dézôitu), ele diz: DIZÔITU.
    De quem BAHIANO é tiete,
    Fã, aluno ou encosto?
    .
    .
    .
    .
    .
    2º) BAHIANO FALA ERRADO DE A A Z
    (Zezinho Nascimento)

    Bahiano, escreve certo,
    Porém, não fala nem lê.
    Escreve ler (lê-re), porém, lê “lê”.
    Escreve ler (lê-re), porém, lê “lê”.
    Bahiano (com agá),
    Escreve amar (amá-re) e lê: “amá”.
    Escreve amor (amô-re) e lê: “amô”.
    Escreve amor (amô-re) e lê: “amô”.
    Bebida (bêbída), ele diz: “bibída”.
    Bezerro (bêzêrru), ele diz: “bizêrru”.
    Coberta (côbérta), ele diz: “cubérta”.
    Coador (côadô-re) é “cuadô”.
    Descansar (dêscansá-re) é “discansá”.
    Desamor (dêsamô-re) é “disamô”.
    Escola (êscóla), ele diz: “iscóla”.
    Embora (embóra), ele diz: “imbóra”.
    Ferida (fêrída), ele diz: “firída”…
    Zoada (zôáda), ele diz: “zuáda”.

    Bahiano, escreve certo,
    Porém, não fala nem lê.
    Escreve ler (lê-re), porém, lê “lê”.
    Escreve ler (lê-re), porém, lê “lê”.
    Bahiano (com agá),
    Escreve amar (amá-re) e lê: “amá”.
    Escreve amor (amô-re) e lê: “amô”.
    Escreve amor (amô-re) e lê: “amô”.
    Escreve amor (amô-re) e lê: “amô”.
    Escreve amor (amô-re) e lê: “amô”.
    Escreve amor (amô-re) e lê: “amô”.

    Conheça o Projeto Falar + Ler = Escrever clicando no link: https://www.facebook.com/nossosviciosemauscostumes/?pnref=story

  2. Na verdade, estes poemas foram musicados. Ou seja, viraram letras de música. Porém, ao serem copiados e colados aqui, eu esqueci-me de apagar as partes que estão repetidas na música.

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