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Livros, línguas e outras viagens

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O que fazer quando um país tem várias línguas?

https://www.flickr.com/photos/mpd01605/3809855101

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Pensem em países com várias línguas: por exemplo, a Espanha e o Canadá.

O que se faz nestes casos?

Bem, em Espanha, uma das línguas é considerada a principal. As outras são brincadeiras lá das regiões. Os bascos, catalães e galegos podem falar as suas línguas, mas têm o dever (constitucional) de aprender a língua nacional. Nada contra esse dever, mas o contrário não acontece: os que falam castelhano estão safos de aprender outra língua de Espanha que não seja a sua.

No Canadá, as duas línguas são ensinadas a todos e usadas a nível federal. São consideradas ambas línguas nacionais e a ambas é dada a dignidade de Estado que leva a que o primeiro-ministro canadiano fale também em francês quando vai aos E.U.A. (vejam o seguinte vídeo, a partir do minuto 9:40).

Repare-se que até Obama diz «Bonjour» logo no início.

Agora imaginem Mariano Rajoy a falar em galego numa visita de Estado ao México (seria uma situação comparável, se virem bem). Imaginem ainda o presidente do México a dizer umas palavras em galego (ou em catalão) por entender ser essa uma das línguas do país do visitante…

Sim, é muito difícil imaginar tal cena. Cairia o Carmo e a Trindade (ou a Gran Vía e Cibeles).

Sim: é difícil, mas por algum motivo acho a solução canadiana mais justa e mais estável…

Pode ser que um dia a Espanha se lembre de dar a todas as suas línguas a mesma dignidade, por mais absurdo que isso possa parecer aos falantes monolingues de espanhol. Mas seria um passo de gigante para criar uma Espanha onde os sentimentos dos seus cidadãos pudessem conviver de forma mais confortável.

Respondem alguns: ora, o espanhol é muito mais útil do que o catalão! Por que razão haveríamos de lhe dar a mesma dignidade e ensiná-la a outros espanhóis?

Ora, porque nisto das línguas nacionais a utilidade de cada uma não é o mais importante. Afinal, o francês é falado por 20% dos canadianos e é, por isso, menos útil do que o inglês. Mas que importa isso? É a língua de parte dos canadianos e isso é reflectido no valor igual que lhe é dado a nível federal.

É verdade que em Espanha há mais línguas do que no Canadá e que o caso canadiano está longe da perfeição (e que o francês tem um prestígio internacional que ajuda muito). Mas todo este problema linguístico de Espanha tem também a ver com uma certa atitude do Estado — e alguns pequenos passos seriam importantíssimos. Por exemplo: Espanha podia não proibir o uso das línguas de muitos espanhóis no parlamento que os representa… Nem estou a falar de incentivar. Estou a falar de não proibir.

ADENDA

Duas notas, na sequência de comentários que recebi ao artigo:

  • José Negro e Enrique Granados lembraram-me, no Facebook, que é possível falar noutras línguas no Senado espanhol e já foi permitido (como excepção…) usá-las no Congresso. Até Espanha se move, o que é bom. Mesmo assim, tendo em conta os milhões de cidadãos que falam outras línguas em Espanha, estamos longe da situação canadiana.
  • Várias pessoas lembraram duas coisas: que o Canadá tem outras línguas a que não dá a mesma dignidade e que mesmo Portugal tem outra língua. Hei-de falar do assunto de novo, em relação a Portugal (e talvez ao Canadá). Fica o assunto em suspenso, até muito em breve, espero. Digo apenas (não consigo resistir) que devemos olhar para a vontade política das comunidades que falam as línguas.

Em Barcelona, com ouvidos bem abertos

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Cada um de nós tem as suas manias, a sua perspectiva e uma ou outra coisa de que percebe mais do que o habitual. Já andei a viajar com quem conhecia todas as rochas e lá me ia descrevendo o que via debaixo dos pés. Também conheço quem me explique as várias técnicas de fabrico de cerâmica nas regiões por onde passamos. Outros conhecerão os pássaros, as plantas, a roupa, e por aí fora.

Já cá por casa, como é fácil adivinhar lendo este blogue, tenho o ouvido bem atento às línguas. Ora, a verdade é que muitos portugueses têm, pelo contrário, o ouvido um pouco mais fechado do que o normal para as diferenças linguísticas porque vivemos num país relativamente simples neste ponto: é difícil para nós perceber que, num só país, se possam esconder várias línguas.

Também é difícil estarmos atentos às implicações políticas do uso de cada língua, porque em Portugal tudo é simples: o português é a língua do Estado e a língua de quase todos. Ponto final.

Ora, a semana passada, fiz uma viagem até Barcelona. Fui de carro. Não porque sou masoquista, mas agora não me apetece explicar as razões. Fica para depois. Obviamente, lá fui reparando nalguns pormenores curiosos, que já tinha encontrado noutras viagens, mas que nunca me canso de apontar. Ficam aqui, para vos dar a conhecer um pouco melhor a complexidade da situação sócio-linguística da Catalunha. O que isto significa em termos políticos e sociais ficará para outra altura.

Os nomes das terras

LLEIDAAntes ainda de chegar à Catalunha, noto as placas a indicar «Lleida». Há muitos anos, quando atravessei pela primeira vez a nossa península, ainda me lembro de ver placas a dizer «Lérida». Hoje em dia, «Lérida» já não se vê.

O único nome oficial é mesmo «Lleida», em catalão, e isto mesmo quando estamos a ler textos em espanhol. Porquê? Porque, na Catalunha, a toponímia oficial é monolingue: só em catalão. O resto de Espanha, neste ponto em particular, lá decidiu ir atrás e usa os nomes catalães em certos contextos onde talvez não fosse normal esperar tal cedência.

Alguns espanhóis dizem que isto é ser mais papista do que o papa: afinal, ninguém diz «London» em espanhol, por que razão é preciso dizer «Lleida», se a palavra espanhola é «Lérida»? Repare-se que não estamos a falar do nome da terra nas placas dentro da Catalunha. Estamos a falar do nome da terra nas placas do resto de Espanha e nos documentos em espanhol. Em catalão, claro que o nome é «Lleida».

Estamos muito longe dos tempos em que ninguém, fora da Catalunha, sabia que «Lérida» não era assim chamada pelos habitantes da própria cidade.

Só para acabar: também pela Galiza, que optou pela toponímia apenas em galego, o nome da velhinha La Coruña é agora só A Coruña. Parece que só nós, portugueses, insistimos em usar o nome castelhano… Já no País Basco e em Valência, a solução foi dar dois nomes às cidades. Assim, o nome oficial de San Sebastián é «Donostia-San Sebastián» e o nome oficial de Elche é «Elx-Elche».

As placas da estrada

img_3339Logo quando passamos a fronteira entre Aragão e a Catalunha (os independentistas diriam, sem pestanejar «fronteira entre Espanha e a Catalunha») vemos uma mudança nas placas da estrada. Onde antes estava apenas «Red de Carreteras del Estado», temos agora, por cima, a versão catalã: «Xarxa de Carreteres de l’Estat». A versão em espanhol mantém-se porque são estrados da tal Estado (ou «Estat»). Nas estradas mantidas pela Generalitat (governo catalão) ou pelos municípios, o espanhol não é fácil de encontrar. E, sim, para lá de Aragão, as «salidas» agora são «sortides»…

Os nomes das terras também ganham um sabor bem pouco castelhano: temos Mollerussa, Montserrat, Sant Cugat e por aí fora…

Publicidade e conversas de rua

Em Barcelona, cada vez mais se vê catalão escrito e cada vez menos espanhol. Mesmo a publicidade começa a ser muito em catalão e menos em espanhol. Digo «cada vez mais» sem deixar de referir que a sensação é pessoal, de quem vai à cidade de vez em quando.

Já nas ruas, ouve-se uma mistura das duas línguas que, para muitos ouvidos portugueses, não deixa de soar ao mesmo (mas os ouvidos portugueses, muitas vezes, nem o galego conseguem distinguir…).

Note aquele que não está tão habituado a essa língua como os catalães dizem os jj à portuguesa, como usam verbos como «parlar» e «manjar», como dizem «bon dia», como têm vogais bem mais fechadas que o castelhano. Com tempo, habitua-se. Mas tem de perceber que, numa mesma loja de Barcelona, vai ouvir as duas línguas, se for preciso entre as mesmas pessoas.

Estava eu no Pans & Company (que, diga-se, é de origem catalã e lia-se, originalmente, à catalã, com o ny a fazer de nh) e ouvi a mesma rapariga a atender um rapaz em espanhol, um senhor mais velho em catalão, para logo voltar ao espanhol no cliente seguinte. Tudo sem pestanejar.

Falar catalão com estrangeiros?

Tente o português falar um pouco de catalão com catalães e terá uma surpresa: por alguma razão, a maioria passa rapidamente para o espanhol mesmo perante estrangeiros que até gostariam de ouvir essa bela língua um pouco escondida. Porquê? Não sei. Talvez seja do hábito. É tão pouco normal que um estrangeiro saiba o que é o catalão (quanto mais dizer umas frases na língua), que o catalão não se sente bem a falar a sua língua com quem não é catalão. Para estrangeiros, a língua certa é o espanhol, diz o inconsciente catalão.

Podem não falar muito catalão com estrangeiros, mas não deixam de sorrir e gostar de algumas frases: um «bon dia», um «benvinguts», uma «bona nit», um «parlo una mica de català». Ou até: «t’estimo molt» (mas aqui convém usar apenas com quem mereça). Quanto a dizer o nome, a frase é estranhíssima: «Em dic Marco.» Sim, chamo-me Marco. Ou, mais literalmente, «me digo Marco».

Cinema

E o cinema? Bem, há filmes em catalão (no original ou traduzidos), mas a maioria é lançada em espanhol, o que se compreende. Mas não deixa de ser curioso: passei por um cinema e todas as indicações (preços, condições, etc.) estavam em catalão, bem como a publicidade à empresa dona das salas. Já os filmes estavam em espanhol (incluindo cartazes).

Passear pela cidade

barcelona-915071_1280Andei a passear pela cidade durante as Festas de Santa Eulália, a grande festa de Inverno de Barcelona. Ouvia-se muito catalão na rua. Ouvi eu algo assim (alguém a gritar): «tancat» (o quê? o carrer). Em Madrid, teria ouvido «cerrada» (o quê? a calle).

E livros?

Num supermercado, havia a indicação na prateleira dos livros em catalão: «Llibres en català». Os livros em espanhol não tinham indicação nenhuma. Neste mundo, o normal ainda é o espanhol. Os livros em catalão têm a sua área específica…

Mas, não se enganem: não deixa de ser, das línguas minoritárias deste mundo, a que está mais bem protegida na área da literatura. Talvez por muitas editoras terem a sede em Barcelona, há muita edição em catalão. Muito mais do que em galego e basco, por exemplo. E há ainda esta coisa extraordinária: muitas traduções para catalão. Ainda há uns anos encontrei na Fnac de Lisboa Os Maias traduzidos para catalão. Estranhíssimo achado, há que dizer. Alguém que quis encomendar a versão em espanhol e se enganou…

Jornais

img_3330Dos jornais, já falei há poucos dias. Há jornais em espanhol (La Vanguardia, por exemplo), outros em catalão (El Punt Avui, por exemplo) e o El Periódico, quem tem duas edições: uma em catalão, outra em espanhol.

 

Estacionamentos e restaurantes

Já o estacionamento está (ou não) «lliure». Ou seja, «libre». Note-se que «lliure» lê-se, mais ou menos, «lhiúra». Sim, o «e» final lê-se como um a fechado. «Clàssiquesimg_3307» (que vi num menu dum restaurante para descrever sandes) escreve-se assim mas lê-se «clássicas». Praticamente igual à palavra portuguesa, com vogais fechadas e tudo. Só o s final é que é menos «ch» que o nosso. O menu é curioso: o «jamón» é «pernil», o «queso» é «formatge», o «atún» é «tonyina».

E podia continuar por aí fora. Podia ainda relacionar tudo isto com as estelades (bandeiras independentistas) que se vêem por toda a cidade, podia falar dos graffittis catalanistas dentro da cidade e espanholistas nos subúrbios, das «fruiteries», dos autocolantes com o «CAT» nalgumas matrículas (menos do que há uns anos — isto vai de manias, claro), e ainda do teatro que é quase só em catalão (não é como o cinema), dos tribunais que são quase só em espanhol, da polícia catalã que tem o bonito nome «mossos d’esquadra» e muito mais. Podia falar da literatura, com grandes escritores catalães que escrevem ou escreviam em espanhol (Juan Marsé ou Manuel Vásquez Montalbán) e lá têm umas frases em catalão pelo meio, outros que escrevem romances em espanhol e teatro em catalão (Eduardo Mendonza), outros que escrevem só em catalão (deixo-vos só o nome da escritora que escreveu La plaça del diamant, grande obra catalã do século XX: Mercè Rodoreda). Só na literatura, temos imenso para explorar neste mundo das línguas…

É uma situação muito, mas mesmo muito complexa, mas que todos os que lá vivem tentam navegar o melhor que podem e sabem. Há muitos anos, no início deste século, andei por lá mais dias, a conversar com muito mais pessoas, incluindo:

  • um padre que se orgulhava de ter protegido o catalão na sua paróquia quando a situação política era muito diferente e me dizia, baixinho, que tinha muita inveja dos portugueses por sermos independentes;
  • um senhor chamado Manuel (de Barthelona, pois então) que se orgulhava de ser espanhol e que sabia falar catalão, sem grande entusiasmo, mas não o conseguia nem queria escrever (e era amigo de Aznar e do rei, dizia-me ele);
  • e ainda um cirurgião e a sua mulher, catalanistas dos quatro costados, espantadíssimos com o meu interesse pela sua língua.

Do jantar com esse casal barcelonês, num pequeno apartamento no Eixample, lembro-me bem da filha, com uns cinco anos, a mostrar-me como sabia músicas de Natal e dos pais, orgulhosos, a olhar para a filha a cantar na sua língua. Lembro-me dessa língua estranha que me encantava por ser tão desconhecida no meu país. Não me recordo bem de qual era a canção, mas talvez a música fosse esta (lembro-me de ouvir o «ha nascut»:

castellers-930746_1280Estigui content,
Jesús ha nascut ;
Per dur-nos la joia
Al món ha vingut.

A menina quase não sabia espanhol, que iria começar a aprender na escola, dali a uns meses. Aqueles pais e aquela menina estavam a tentar viver a sua língua de forma tão normal como nós, portugueses, vivemos a nossa.

O tal senhor Manuel, bem espanhol, também queria viver na sua língua (o espanhol) da melhor forma possível e dizia-se irritado por ver o filho a aprender quase tudo em catalão.

São situações complicadas, que não se resolvem com opiniões brutalistas, é-assim-porque-tem-de-ser. Para já, enfim, digo-vos só: quando forem a Barcelona, abram os ouvidos. Reparem mais no que vos rodeia. Sim, é uma cidade pouco normal no que toca às línguas. E é tão interessante.

É também, como todos sabemos, um mimo de cidade… Mas isso são outras histórias.

Fins aviat, Barcelona!

Um jornal em duas línguas

Por terras catalãs, gosto sempre de confirmar que o El Periódico mantém esta deliciosa (e cara) particularidade: uma edição vermelha em espanhol e outra azul em catalão. Tirando a língua, as edições são iguais. Tendo em conta que todos os leitores da edição azul conseguem ler a edição vermelha (já o contrário será menos verdade), temos aqui uma demonstração de como a língua é muito mais do que uma forma de comunicação: é também, e muito, sinal de identidade. Para o bem e para o mal.

Els Caganers: a mais estranha tradição de Natal da Catalunha

mercadillo-navideno-caganer-independentista

Se quem me lê por aqui não estivesse já habituado a uma ou outra incursão pelas tradições da bela Catalunha, poderia achar que este artigo é uma provocação gratuita.

Mas, não. Eu gosto genuinamente da Catalunha! Sou tradutor de catalão! (Este fim-de-semana, por exemplo, tenho entre mãos documentos jurídicos de Andorra nessa língua. É por isso que preciso de escrever artigos destes… Para não dar em maluco.)

Pois, assim, deixem-me apresentar-vos a mais curiosa e estrambólica tradição natalícia: Els Caganers.

Em bom português (tapem os ouvidos às crianças): Os Cagões.

São figuras que se põem ali ao pé do presépio, mas que não estão a adorar o Menino, por uma razão muito simples: o estábulo não tinha boas instalações sanitárias e, assim, há que improvisar.

Ninguém escapa, dos génios da Física aos magos da bola:

E, em dia de eleições…

Que possível simbologia terão estes bonecos muito escatológicos? Segundo a Enciclopèdia Catalana, o caganer enriquece a terra e proporciona prosperidade para o ano que vem aí. Ou, em catalão:

Figura popular del pessebre en actitud de fer de cos. Amb la seva acció enriqueix la terra i proporciona prosperitat per a l’any que ve. El caganer aparegué als pessebres catalans al final del segle XVII, però no es popularitzà fins el segle XIX.

Enfim, foi a lição de cultura catalã do dia. Para quem acha que o Natal anda muito coca-colaficado, tem aqui uma boa opção para decorar a casa e chocar os familiares durante a consoada. Será um Natal diferente…

10 nomes de línguas de Espanha (incluindo o português)

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Sim, Espanha é um país complicado no que toca a línguas.

Aliás, Espanha é um país complicado, ponto final. (E bem interessante, por estranho que isso possa parecer a alguns ouvidos portugueses.)

Ora, nesse país complicado, os nomes das línguas parecem multiplicar-se, ainda mais do que as próprias línguas.

Antes, um aviso: a lista abaixo é de nomes de línguas — e não, necessariamente, de línguas separadas. Assim, o “catalão” e o “valenciano” são nomes da mesma língua (há quem discorde), tal como os nomes “espanhol” e “castelhano” se referem ao mesmo idioma (e, neste caso, ninguém discorda).

Vejamos, então, 10 nomes de línguas de Espanha (entre outros):

Espanhol. Este é o nome da língua que o mundo conhece como língua de Espanha. Há quem ande por aí convencido que tudo acaba aqui: em Espanha, fala-se espanhol, ponto final. Mas, não…

Castelhano. Um outro nome dado ao espanhol, muito usado em Espanha para distingui-lo das outras línguas espanholas. Em Portugal, há quem use “castelhano” convencido que é muito mais correcto do que o corriqueiro “espanhol”. Noutro local deste blogue, tenta-se explicar a confusão. No fundo, são sinónimos.

Catalão. Este é o nome oficial da língua própria da Catalunha (e de mais uns quantos sítios). Sim, os catalães faltam também espanhol, mas uma grande parte da população tem como língua materna o catalão, falado em várias regiões de Espanha, em Andorra e ainda numa cidade italiana chamada, em italiano, “Alghero” e, em catalão, “L’Alguer”.

Valenciano. Mais a sul, na Comunidade Valenciana, o catalão muda de nome, mas sem deixar de ser a mesma língua. Claro que há uma ou outra pessoa que insiste que é uma língua diferente, porque dá jeito. E não é assim tão difícil criar uma língua própria: um nome, umas regras ligeiramente diferentes, um dicionário, uma academia, uma gramática e temos feito o idioma. Tudo para garantir que não se fala a língua do vizinho de cima.

Lapao. Sigla de “Lengua aragonesa propia del área oriental“. Desde 2013, é este o termo usado pelo Governo de Aragão para designar o catalão falado no seu território (encostado à Catalunha). Porquê? Porque tudo é válido para evitar dizer o nome “catalão”, que é um bicho papão. Sim, há regiões de Espanha com medo do “imperialismo linguístico” das outras regiões. Quem tem menos medo do catalão goza com este termo usando a risível abreviatura “lapao”. Parece que para o Governo de Aragão, mais vale falar lapao que catalão.

Aranês. Esta é uma das línguas da Catalunha. No fundo, é outro nome para a língua occitana, falada no sul de França. Lá chegaremos, em boa hora, no futuro deste blogue (espero).

Basco. Esta é a língua misteriosa que ali se esconde em redor dos Pirenéus e que não se sabe muito bem donde vem. Não é, sequer, uma língua indo-europeia e, assim, está na companhia do húngaro e do finlandês como elementos estranhos na paisagem linguística europeia.

Euskera. O nome da língua basca em basco é “euskera” e esse nome é usado muitas vezes mesmo em textos escritos noutras línguas de Espanha.

Galego. A língua nossa vizinha, a mais próxima do português — ou mesmo, segundo muitos, um outro nome para a nossa língua.

Português. Haverá poucos que queiram chamar directamente “português” à língua que os galegos falam (até porque argumentam, e bem, que a língua nasceu dos dois lados do Rio Minho e nunca saiu de Portugal em direcção a norte). Mas já serão muitos aqueles que se atrevem a dizer algo que para os portugueses mais distraídos será uma grande surpresa: o galego e o português serão dois nomes para a mesma língua, com diferenças marcadas, é certo, mas sem que tal implique uma separação insanável. Há mesmo quem diga que o português do Brasil está mais distante do português europeu do que o galego. Não vamos entrar, para já, por aí. Fica para mais tarde. Mas podemos afirmar que, para lá dos nomes e das divisões, o português e o galego estão bem mais próximos do que a fronteira faz crer e, por isso, há também uma língua de Espanha que é um pouco nossa. E daí não vem mal ao mundo.

Para lá destes 10 nomes, há mais: “maiorquino”, “bable”, “aragonês”, “leonês” e há até alguns atrevidos que falam da língua andaluza.

Ora, que lições podemos tirar desta profusão de nomes de línguas?

Antes de mais, é fácil perceber que as línguas são fáceis de criar, pelo menos se acharmos que criar uma língua é dar-lhe um nome. As nossas ideias sobre o que é uma língua ou não é acabam por ser muito mais fluidas do que pensamos — principalmente no território das línguas latinas, muito onde todos os falares fazem parte dum só mundo linguístico. Assim, surgem nomes que para alguns serão nomes da mesma língua, para outros significam algo mais: significam a existência duma identidade separada e, nalguns casos, duma língua separada.

Depois, uma lição sobre a humanidade: a necessidade de marcar a diferença é algo muito humano. Assim, num espaço nacional muito fracturado e onde populam identidades locais, regionais e nacionais para lá da identidade nacional espanhola, é normalíssimo vermos surgir nomes de línguas como cogumelos.

Tudo isto também se aplica a nós, à nossa maneira.

Por exemplo, terá muito a ver com esta necessidade de ver na língua o reflexo simples da nossa identidade que leva a que muitos portugueses não consigam ver o galego como língua irmã do português. Afinal, são os galegos são espanhóis…

Mesmo no que toca ao Brasil, os portugueses, em geral, não estão muito interessados em sublinhar a proximidade. Que os brasileiros chamem à sua língua “português” parece um pouco estranho, mas ainda se aceita. Agora que haja por aí tentativas de pôr tudo no mesmo saco e unificar a língua já parece demais.

Também por aí se explica a facilidade com que tantos portugueses dizem “brasileiro” para designar a língua dos brasileiros, que estes últimos chamam “português” sem mais.

Tudo isto porque a língua serve para comunicar, mas serve também (e muito) para marcar a nossa identidade. Goste-se ou não, convém não esquecer esta característica do ser humano.

Viagem pelas línguas da Europa (1): Andorra

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Há pessoas que gostam de olhar para o chão e explicar-nos que rochas temos por baixo dos nossos pés. Os professores de geologia, por exemplo.

Gosto de os ouvir — tal como gosto de ouvir quem explica as subtis diferenças arquitectónicas, jurídicas ou artísticas dos vários países e regiões da Europa.

Eu é mais línguas, como sabem. E, por isso, quando viajo, acabo por reparar nas palavras que encontro à minha volta pelas ruas deste nosso continente.

Assim, atrevo-me a isto: vamos dar uma voltita por essa Europa e falar um pouco das línguas que vemos nas ruas.

Não se esqueçam que um dos prazeres de viajar é reparar, ver de novo, aprender alguma coisa. E nada melhor para nos ajudar a viajar melhor do que ler (nem que seja um simples blogue de línguas e tradução).

Vamos a isto!


Comecemos por dar um salto por cima da Península Ibérica. Porquê? Não é certamente por ser paisagem linguisticamente pouco interessante. Muito antes pelo contrário: é dos espaços mais interessantes nesta matéria. Mas, por isso mesmo, deixemo-la mais para o fim.

Damos um salto por cima, mas não saímos da península: aterramos num vale pirenaico, no belíssimo e riquíssimo Principado de Andorra.

Antes de continuarmos, deixem-me que vos diga: há quem arranque cabelos com os erros mais ou menos reais que saem da língua dos outros. Pois eu arranco cabelos quando alguém fala de Andorra como se fosse parte de Espanha.

Não: Andorra não é parte de Espanha.

Andorra é um país independente, membro da ONU, com Governo, Parlamento, Constituição, bandeira e por aí fora.

Tem, isso sim, um chefe de Estado sui generis: o Príncipe de Andorra são duas pessoas.

Quem?

O bispo de Urgell (localidade que fica na vizinha Catalunha) e o Presidente da França.

Antes que comecem a dizer que, por isso, não podemos dizer que se trata de um país, lembrem-se que o Canadá também tem como chefe de Estado a rainha do Reino Unido, tal como a Austrália e mais uns quantos países. Afinal, a Rainha da Jamaica chama-se Isabel II! Quer isso dizer que a Jamaica não é um país? Bem me parecia.

Voltando ao terceiro país ibérico… Os andorranos não são cidadãos espanhóis nem franceses: são andorranos, ponto final.

Muito bem: já vimos que Andorra é um país. Mas, que língua se fala por lá? É verdade, já estamos a falar há não sei quantas linhas e ainda não chegámos ao que aqui nos trouxe.


Pois bem, no que toca às línguas, comecemos pelo mais fácil — e simultaneamente mais curioso.

Andorra não tem como língua oficial o espanhol e muito menos o francês.

A língua oficial de Andorra é uma só: o catalão.

Exacto, a língua oficial de Andorra é uma língua que alguns portugueses julgam ser um dialecto.

Ora, se a diferença entre dialecto e língua é bem mais discutível do que se pensa, a verdade é que dificilmente podemos considerar o catalão um dialecto do espanhol, por todas as razões e mais algumas: evoluíram directamente do latim, têm diferenças significativas de estrutura e vocabulário, tanto o espanhol como o catalão têm dicionários, gramáticas e por aí fora.

Mas sobre tudo isso falaremos mais tarde, quando voltarmos à nossa península.

Agora, basta dizer que Andorra tem essa única língua oficial — e que por isso a TVC (televisão regional da Catalunha) gosta de transmitir os discursos do primeiro-ministro de Andorra na ONU, porque é a única oportunidade que têm de ouvir o catalão num grande fórum internacional…


Se a língua oficial é o catalão, qual é a situação na rua? Que línguas se falam no dia-a-dia.

A situação, claro está, é bem mais difícil de explicar do que dizer qual é a língua oficial.

Na rua ouve-se muito espanhol (uma grande parte da população é espanhola) — tal como também se ouve muito português (uma grande parte da população é portuguesa).

Na zona mais chegada à França (Pas de la Casa), ouve-se também muito francês.

E nas escolas?

Nas escolas públicas, a língua do ensino é o catalão.

Nos notários, tribunais, etc., a língua é o catalão.

E entre os cidadãos andorranos, também se fala catalão.

Haverá muitas misturas, muitas situações complexas, o que é natural num pequeno país encravado entre França e Espanha (e, do lado espanhol, o que temos é a Catalunha, com a sua situação linguística peculiar).

É aborrecido? Nem por isso. Quem por lá vive não parece queixar-se muito.

Em resumo: quem ande pelas ruas de Andorra com os ouvidos bem abertos irá ouvir catalão, espanhol, francês, português e mais umas quantas línguas (até o galego, veja-se bem).

"Església de Sant Esteve (Andorra la Vella) - 8" by MARIA ROSA FERRE ✿ - Flickr: Esglèsia romànica Sant Esteve, Andorra la Vella. Licensed under CC BY-SA 2.0 via Wikimedia Commons.Església de Sant Esteve (Andorra la Vella) – 8” by MARIA ROSA FERRE ✿Flickr: Esglèsia romànica Sant Esteve, Andorra la Vella. Licensed under CC BY-SA 2.0 via Wikimedia Commons.


Proponho-vos então que, da próxima vez que forem a Andorra, reparem nas línguas.

Reparem na estranha sonoridade da língua de quem é mesmo andorrano.

Reparem como nas caixas de multibanco aparece a bandeira de Andorra (ou da Catalunha) a assinalar a língua principal (e o espanhol e o francês aparecem como opções, tal como o inglês).

Reparem em que língua estão escritas as placas da estrada.

Reparem, no fundo, nessa língua estranha e quase invisível aos olhos portugueses que é o catalão, única língua oficial de Andorra.

(Podem começar pela fotografia que encabeça este artigo: reparem na “Farmàcia” no canto inferior direito. Reparem no “Crèdit Andorrà“. Reparem no “Servei 24 hores“. Eis a língua catalã…)


Ora, deixem-me ainda contar-vos que foi nesse país minúsculo do outro lado da península que comecei a ficar obcecado pelo mundo das línguas. Estávamos em 1993…

Bem, isto já vai longo. Conto-vos mais tarde…

Esta viagem há-de continuar!

E o catalão aqui tão perto…

É uma língua invisível para a maioria dos portugueses: ora porque raramente a ouvem, ora porque a confundem com o espanhol, por causa do efeito binário de que já falei aqui.

Mas, às vezes, lá aparecem umas palavritas de catalão por terras lusitanas, como neste aviso para levantamento de encomenda que recebi há pouco:

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A MRW parece usar documentos trilingues, com o espanhol em negrito (enfim…), o português em terceiro lugar e o catalão ali no meio.

Sim, eu sei, o tal terceiro lugar é um pouco irritante (ainda por cima em itálico, para chatear ainda mais), mas esqueçam lá isso e aprendam umas palavritas nessa língua desconhecida. Reparem no “enviament” (“envío” em espanhol), no “adreça” (“dirección”) e no “lliurament” (“entrega” em espanhol e português).

Não aparece na imagem, mas o nosso “por favor”, em catalão, é “si us plau”. Se acharem demasiado exótico, lembrem-se do “s’il vous plaît” e já faz mais sentido…

 

Cinco maneiras muito ibéricas de dizer “Amo-te!”

Ora, estamos a chegar ao Dia dos Namorados. Há muitas formas de o comemorar. Há quem aposte num jantar a dois, outros pensam num fim-de-semana num qualquer canto dessa velha Europa e há quem imagine programas inconfessáveis em público.

Uma outra ideia será passear um pouco, sem destino, durante dois ou três dias, por essa Península fora, sem horários e sem grandes planos.

Sim, eu sei, há sempre o perigo de passarmos demasiadas horas dentro do carro. Mas pensem numa cidade como a Corunha, ou Sevilha, ou Toledo ou uma qualquer dessas maravilhas que se escondem a poucas horas das nossas fronteiras — e aventurem-se.

Fica a ideia. Para aguçar o apetite, aqui ficam também cinco maneiras de dizer “amo-te” por essa península fora:

Amo-te!

Sim, começamos pelo nosso muito português “amo-te”. Há quem diga que é pouco sonoro, que até os brasileiros nos ganham aos pontos, apesar de falarem a mesma língua (ou, pelo menos, darem o mesmo nome à língua que falam). Não importa. Se não é sonoro, que se diga em sussurro, ao ouvido, que fica tão bem ou ainda melhor do que gritar esta frase que, bem vistas as coisas, é só para dois.

¡Te quiero!

Ora, os nossos amigos do outro lado da raia parecem mais expansivos. Ou talvez seja um estereótipo. Mas lá que exclamam, ¡exclamam! E ¡querem! Ninguém fica com dúvidas desde impulsivo desejo. Vamos lá ceder à tentação da caricatura e imaginemos um português a dizer ao ouvido “amo-te” a uma espanhola, que lhe responde, bem alto, “pois, eu, meu amor, ¡te quiero!, e é já!”

T’estimo!

Os catalães parecem mais carinhosos, mas talvez seja apenas uma ilusão. Também sabem dizer ¡Te quiero!, claro está. Parece haver muita estima por aqueles lados — e também uns apóstrofes engraçados, nessa língua que, às vezes, aos nossos ouvidos, parece estranhamente próxima, mesmo quando as palavras se afastam da Ibéria e se aproximam do outro lado dos Pirenéus, com verbos como “parlar” e “manjar”. Tudo ilusão: são tão (ou tão pouco) ibéricos como nós.

Maite zaitut!

Andámos pelo amar, pelo querer, pelo estimar. E de repente, como uma pedra no charco, cai-nos esta língua basca, que parece antiga — embora, no fundo, seja tão recente como todas as outras, eternamente renovadas em cada novo falante. Olhamos para estas duas palavras e ficamos com um ponto de interrogação na cabeça: onde está o amor, onde estou eu e onde estás tu? Mas fica-nos esta ideia: mesmo nas línguas mais estranhas, há sempre o amor que resiste, porque é comum a todos nós, humanos.

I love you!

Perguntam agora os mais desconfiados: mas o que é isto? Que invasão anglo-saxónica é esta? Ora, não se esqueçam que, escondido ali na ponta sul da península, temos um pedaço britânico, apesar de tal facto não agradar aos nossos vizinhos peninsulares. É certo que, lá por Gibraltar, mais do que inglês, falam llanito, mas que fique aqui registado este tão amor em tons ingleses. Dizem que o inglês britânico é a nova língua do amor e muitos jovens ibéricos lá dirão, aos ouvidos das suas namoradas, “I love you!” E não precisam de estar em Gibraltar…

Ficam outros amores por dizer: amores mirandeses, araneses, asturianos e de todas as outras variedades que nem nome têm. Não fica por dizer em galego, porque um “amo-te”, assim mesmo, serve bem por aquelas paragens.

Obviamente, dedico este post à Zélia, que já teve direito a ouvir muitas destas formas de dizer a mesma coisa. São as agruras de quem casou com um maluquinho das línguas…

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