Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Etiqueta: Espanha

O que fazer quando um país tem várias línguas?

https://www.flickr.com/photos/mpd01605/3809855101

https://www.flickr.com/photos/mpd01605/3809855101

Pensem em países com várias línguas: por exemplo, a Espanha e o Canadá.

O que se faz nestes casos?

Bem, em Espanha, uma das línguas é considerada a principal. As outras são brincadeiras lá das regiões. Os bascos, catalães e galegos podem falar as suas línguas, mas têm o dever (constitucional) de aprender a língua nacional. Nada contra esse dever, mas o contrário não acontece: os que falam castelhano estão safos de aprender outra língua de Espanha que não seja a sua.

No Canadá, as duas línguas são ensinadas a todos e usadas a nível federal. São consideradas ambas línguas nacionais e a ambas é dada a dignidade de Estado que leva a que o primeiro-ministro canadiano fale também em francês quando vai aos E.U.A. (vejam o seguinte vídeo, a partir do minuto 9:40).

Repare-se que até Obama diz «Bonjour» logo no início.

Agora imaginem Mariano Rajoy a falar em galego numa visita de Estado ao México (seria uma situação comparável, se virem bem). Imaginem ainda o presidente do México a dizer umas palavras em galego (ou em catalão) por entender ser essa uma das línguas do país do visitante…

Sim, é muito difícil imaginar tal cena. Cairia o Carmo e a Trindade (ou a Gran Vía e Cibeles).

Sim: é difícil, mas por algum motivo acho a solução canadiana mais justa e mais estável…

Pode ser que um dia a Espanha se lembre de dar a todas as suas línguas a mesma dignidade, por mais absurdo que isso possa parecer aos falantes monolingues de espanhol. Mas seria um passo de gigante para criar uma Espanha onde os sentimentos dos seus cidadãos pudessem conviver de forma mais confortável.

Respondem alguns: ora, o espanhol é muito mais útil do que o catalão! Por que razão haveríamos de lhe dar a mesma dignidade e ensiná-la a outros espanhóis?

Ora, porque nisto das línguas nacionais a utilidade de cada uma não é o mais importante. Afinal, o francês é falado por 20% dos canadianos e é, por isso, menos útil do que o inglês. Mas que importa isso? É a língua de parte dos canadianos e isso é reflectido no valor igual que lhe é dado a nível federal.

É verdade que em Espanha há mais línguas do que no Canadá e que o caso canadiano está longe da perfeição (e que o francês tem um prestígio internacional que ajuda muito). Mas todo este problema linguístico de Espanha tem também a ver com uma certa atitude do Estado — e alguns pequenos passos seriam importantíssimos. Por exemplo: Espanha podia não proibir o uso das línguas de muitos espanhóis no parlamento que os representa… Nem estou a falar de incentivar. Estou a falar de não proibir.

ADENDA

Duas notas, na sequência de comentários que recebi ao artigo:

  • José Negro e Enrique Granados lembraram-me, no Facebook, que é possível falar noutras línguas no Senado espanhol e já foi permitido (como excepção…) usá-las no Congresso. Até Espanha se move, o que é bom. Mesmo assim, tendo em conta os milhões de cidadãos que falam outras línguas em Espanha, estamos longe da situação canadiana.
  • Várias pessoas lembraram duas coisas: que o Canadá tem outras línguas a que não dá a mesma dignidade e que mesmo Portugal tem outra língua. Hei-de falar do assunto de novo, em relação a Portugal (e talvez ao Canadá). Fica o assunto em suspenso, até muito em breve, espero. Digo apenas (não consigo resistir) que devemos olhar para a vontade política das comunidades que falam as línguas.

Em Barcelona, com ouvidos bem abertos

barcelona-838716_1280

Cada um de nós tem as suas manias, a sua perspectiva e uma ou outra coisa de que percebe mais do que o habitual. Já andei a viajar com quem conhecia todas as rochas e lá me ia descrevendo o que via debaixo dos pés. Também conheço quem me explique as várias técnicas de fabrico de cerâmica nas regiões por onde passamos. Outros conhecerão os pássaros, as plantas, a roupa, e por aí fora.

Já cá por casa, como é fácil adivinhar lendo este blogue, tenho o ouvido bem atento às línguas. Ora, a verdade é que muitos portugueses têm, pelo contrário, o ouvido um pouco mais fechado do que o normal para as diferenças linguísticas porque vivemos num país relativamente simples neste ponto: é difícil para nós perceber que, num só país, se possam esconder várias línguas.

Também é difícil estarmos atentos às implicações políticas do uso de cada língua, porque em Portugal tudo é simples: o português é a língua do Estado e a língua de quase todos. Ponto final.

Ora, a semana passada, fiz uma viagem até Barcelona. Fui de carro. Não porque sou masoquista, mas agora não me apetece explicar as razões. Fica para depois. Obviamente, lá fui reparando nalguns pormenores curiosos, que já tinha encontrado noutras viagens, mas que nunca me canso de apontar. Ficam aqui, para vos dar a conhecer um pouco melhor a complexidade da situação sócio-linguística da Catalunha. O que isto significa em termos políticos e sociais ficará para outra altura.

Os nomes das terras

LLEIDAAntes ainda de chegar à Catalunha, noto as placas a indicar «Lleida». Há muitos anos, quando atravessei pela primeira vez a nossa península, ainda me lembro de ver placas a dizer «Lérida». Hoje em dia, «Lérida» já não se vê.

O único nome oficial é mesmo «Lleida», em catalão, e isto mesmo quando estamos a ler textos em espanhol. Porquê? Porque, na Catalunha, a toponímia oficial é monolingue: só em catalão. O resto de Espanha, neste ponto em particular, lá decidiu ir atrás e usa os nomes catalães em certos contextos onde talvez não fosse normal esperar tal cedência.

Alguns espanhóis dizem que isto é ser mais papista do que o papa: afinal, ninguém diz «London» em espanhol, por que razão é preciso dizer «Lleida», se a palavra espanhola é «Lérida»? Repare-se que não estamos a falar do nome da terra nas placas dentro da Catalunha. Estamos a falar do nome da terra nas placas do resto de Espanha e nos documentos em espanhol. Em catalão, claro que o nome é «Lleida».

Estamos muito longe dos tempos em que ninguém, fora da Catalunha, sabia que «Lérida» não era assim chamada pelos habitantes da própria cidade.

Só para acabar: também pela Galiza, que optou pela toponímia apenas em galego, o nome da velhinha La Coruña é agora só A Coruña. Parece que só nós, portugueses, insistimos em usar o nome castelhano… Já no País Basco e em Valência, a solução foi dar dois nomes às cidades. Assim, o nome oficial de San Sebastián é «Donostia-San Sebastián» e o nome oficial de Elche é «Elx-Elche».

As placas da estrada

img_3339Logo quando passamos a fronteira entre Aragão e a Catalunha (os independentistas diriam, sem pestanejar «fronteira entre Espanha e a Catalunha») vemos uma mudança nas placas da estrada. Onde antes estava apenas «Red de Carreteras del Estado», temos agora, por cima, a versão catalã: «Xarxa de Carreteres de l’Estat». A versão em espanhol mantém-se porque são estrados da tal Estado (ou «Estat»). Nas estradas mantidas pela Generalitat (governo catalão) ou pelos municípios, o espanhol não é fácil de encontrar. E, sim, para lá de Aragão, as «salidas» agora são «sortides»…

Os nomes das terras também ganham um sabor bem pouco castelhano: temos Mollerussa, Montserrat, Sant Cugat e por aí fora…

Publicidade e conversas de rua

Em Barcelona, cada vez mais se vê catalão escrito e cada vez menos espanhol. Mesmo a publicidade começa a ser muito em catalão e menos em espanhol. Digo «cada vez mais» sem deixar de referir que a sensação é pessoal, de quem vai à cidade de vez em quando.

Já nas ruas, ouve-se uma mistura das duas línguas que, para muitos ouvidos portugueses, não deixa de soar ao mesmo (mas os ouvidos portugueses, muitas vezes, nem o galego conseguem distinguir…).

Note aquele que não está tão habituado a essa língua como os catalães dizem os jj à portuguesa, como usam verbos como «parlar» e «manjar», como dizem «bon dia», como têm vogais bem mais fechadas que o castelhano. Com tempo, habitua-se. Mas tem de perceber que, numa mesma loja de Barcelona, vai ouvir as duas línguas, se for preciso entre as mesmas pessoas.

Estava eu no Pans & Company (que, diga-se, é de origem catalã e lia-se, originalmente, à catalã, com o ny a fazer de nh) e ouvi a mesma rapariga a atender um rapaz em espanhol, um senhor mais velho em catalão, para logo voltar ao espanhol no cliente seguinte. Tudo sem pestanejar.

Falar catalão com estrangeiros?

Tente o português falar um pouco de catalão com catalães e terá uma surpresa: por alguma razão, muitos passam rapidamente para o espanhol mesmo perante estrangeiros que até gostariam de ouvir essa bela língua um pouco escondida. Porquê? Não sei. Talvez seja do hábito. É tão pouco normal que um estrangeiro saiba o que é o catalão (quanto mais dizer umas frases na língua), que o catalão não se sente bem a falar a sua língua com quem não é de lá. Para estrangeiros, a língua certa é o espanhol, diz o inconsciente catalão.

Podem não falar muito catalão com estrangeiros, mas não deixam de sorrir e gostar de algumas frases: um «bon dia», um «benvinguts», uma «bona nit», um «parlo una mica de català». Ou até: «t’estimo molt» (mas aqui convém usar apenas com quem mereça). Quanto a dizer o nome, a frase é estranhíssima: «Em dic Marco.» Sim, chamo-me Marco. Ou, mais literalmente, «digo-me Marco».

Cinema

E o cinema? Bem, há filmes em catalão (no original ou traduzidos), mas a maioria é lançada em espanhol, o que se compreende. Mas não deixa de ser curioso: passei por um cinema e todas as indicações (preços, condições, etc.) estavam em catalão, bem como a publicidade à empresa dona das salas. Já os filmes estavam em espanhol (incluindo cartazes).

Passear pela cidade

barcelona-915071_1280Andei a passear pela cidade durante as Festas de Santa Eulália, a grande festa de Inverno de Barcelona. Ouvia-se muito catalão na rua. Ouvi eu algo assim (alguém a gritar): «tancat» (o quê? o carrer). Em Madrid, teria ouvido «cerrada» (o quê? a calle).

E livros?

Num supermercado, havia a indicação na prateleira dos livros em catalão: «Llibres en català». Os livros em espanhol não tinham indicação nenhuma. Neste mundo, o normal ainda é o espanhol. Os livros em catalão têm a sua área específica…

Mas, não se enganem: não deixa de ser, das línguas minoritárias deste mundo, a que está mais bem protegida na área da literatura. Talvez por muitas editoras terem a sede em Barcelona, há muita edição em catalão. Muito mais do que em galego e basco, por exemplo. E há ainda esta coisa extraordinária: muitas traduções para catalão. Ainda há uns anos encontrei na Fnac de Lisboa Os Maias traduzidos para catalão. Estranhíssimo achado, há que dizer. Alguém que quis encomendar a versão em espanhol e se enganou…

Jornais

img_3330Dos jornais, já falei há poucos dias. Há jornais em espanhol (La Vanguardia, por exemplo), outros em catalão (El Punt Avui, por exemplo) e o El Periódico, quem tem duas edições: uma em catalão, outra em espanhol.

 

Estacionamentos e restaurantes

Já o estacionamento está (ou não) «lliure». Ou seja, «libre». Note-se que «lliure» lê-se, mais ou menos, «lhiúra». Sim, o «e» final lê-se como um a fechado. «Clàssiquesimg_3307» (que vi num menu dum restaurante para descrever sandes) escreve-se assim mas lê-se «clássicas». Praticamente igual à palavra portuguesa, com vogais fechadas e tudo. Só o s final é que é menos «ch» que o nosso. O menu é curioso: o «jamón» é «pernil», o «queso» é «formatge», o «atún» é «tonyina».

E podia continuar por aí fora. Podia ainda relacionar tudo isto com as estelades (bandeiras independentistas) que se vêem por toda a cidade, podia falar dos graffittis catalanistas dentro da cidade e espanholistas nos subúrbios, das «fruiteries», dos autocolantes com o «CAT» nalgumas matrículas (menos do que há uns anos — isto vai de manias, claro), e ainda do teatro que é quase só em catalão (não é como o cinema), dos tribunais que são quase só em espanhol, da polícia catalã que tem o bonito nome «mossos d’esquadra» e muito mais. Podia falar da literatura, com grandes escritores catalães que escrevem ou escreviam em espanhol (Juan Marsé ou Manuel Vásquez Montalbán) e lá têm umas frases em catalão pelo meio, outros que escrevem romances em espanhol e teatro em catalão (Eduardo Mendonza), outros que escrevem só em catalão (deixo-vos só o nome da escritora que escreveu La plaça del diamant, grande obra catalã do século XX: Mercè Rodoreda). Só na literatura, temos imenso para explorar neste mundo das línguas…

É uma situação muito, mas mesmo muito complexa, mas que todos os que lá vivem tentam navegar o melhor que podem e sabem. Há muitos anos, no início deste século, andei por lá mais dias, a conversar com muito mais pessoas, incluindo:

  • um padre que se orgulhava de ter protegido o catalão na sua paróquia quando a situação política era muito diferente e me dizia, baixinho, que tinha muita inveja dos portugueses por sermos independentes;
  • um senhor chamado Manuel (de Barthelona, pois então) que se orgulhava de ser espanhol e que sabia falar catalão, sem grande entusiasmo, mas não o conseguia nem queria escrever (e era amigo de Aznar e do rei, dizia-me ele);
  • e ainda um cirurgião e a sua mulher, catalanistas dos quatro costados, espantadíssimos com o meu interesse pela sua língua.

Do jantar com esse casal barcelonês, num pequeno apartamento no Eixample, lembro-me bem da filha, com uns cinco anos, a mostrar-me como sabia músicas de Natal e dos pais, orgulhosos, a olhar para a filha a cantar na sua língua. Lembro-me dessa língua estranha que me encantava por ser tão desconhecida no meu país. Não me recordo bem de qual era a canção, mas talvez a música fosse esta (lembro-me de ouvir o «ha nascut»:

castellers-930746_1280Estigui content,
Jesús ha nascut ;
Per dur-nos la joia
Al món ha vingut.

A menina quase não sabia espanhol, que iria começar a aprender na escola, dali a uns meses. Aqueles pais e aquela menina estavam a tentar viver a sua língua de forma tão normal como nós, portugueses, vivemos a nossa.

O tal senhor Manuel, bem espanhol, também queria viver na sua língua (o espanhol) da melhor forma possível e dizia-se irritado por ver o filho a aprender quase tudo em catalão.

São situações complicadas, que não se resolvem com opiniões brutalistas, é-assim-porque-tem-de-ser. Para já, enfim, digo-vos só: quando forem a Barcelona, abram os ouvidos. Reparem mais no que vos rodeia. Sim, é uma cidade pouco normal no que toca às línguas. E é tão interessante.

É também, como todos sabemos, um mimo de cidade… Mas isso são outras histórias.

Fins aviat, Barcelona!

De Espanha, bons ventos e bons livros

Os portugueses lêem poucos livros espanhóis. Pronto, dizem-me já os pessimistas do costume: os portugueses não lêem, ponto final.

Reformulo: os portugueses que lêem lêem poucos livros espanhóis. Ficou uma frase abstrusa, mas pelo menos mais verdadeira.

Ficam já a saber que nisto de os portugueses lerem poucos livros espanhóis, quem fica a perder são os portugueses…

Querem um exemplo? O livro Anatomía de un instante, de Javier Cercas (em português:Anatomia de um Instante, editado pela Dom Quixote).

O livro, como explica o autor, apareceu-lhe como única opção depois de investigar os eventos de 23 de Fevereiro de 1981 com o objectivo de escrever um romance. Essa foi a data do último golpe de Estado da Europa Ocidental, felizmente abortado. O autor investigou os eventos e chegou a esta conclusão: só um livro de história poderia fazer jus a uma história que é ela própria um romance.

A narrativa centra-se no instante em que Tejero entra pelo Congresso dos Deputados de arma na mão e os deputados, compreensivelmente, baixam-se todos.

Todos, excepto dois [ver nota*]: Adolfo Suárez e Santiago Carrillo, sentados nos extremos opostos do hemiciclo, o primeiro o representante final do franquismo, e o segundo o líder do Partido Comunista Espanhol. Vejam bem a capa da edição espanhola, abaixo. Aí têm Suárez impávido, perante um golpe de Estado. Isto tudo gravado pelas câmaras da TVE!

A partir dessa coragem exemplar dos dois políticos dos extremos, segue-se uma viagem pela vida dos dois homens e pela vida de Espanha das décadas que antecederam a Transição e de tudo o que aconteceu nesse período apaixonante.

Vemos como ambos tiveram de abdicar de muito do que eram para conseguir esse prodígio: uma Espanha que se tornou uma democracia desenvolvida sem sobressaltos de maior, poucas décadas depois duma Guerra Civil que pôs os avós desta geração de políticos uns contra os outros — até à morte.

Para conseguir isto, foi necessário fazer cedências dolorosas: Suárez abdica das ideias franquistas e Carrillo abdica da nostalgia pela República perdedora da Guerra Civil.

As cedências são mútuas, o resultado inesperado. Suárez legaliza o Partido Comunista, o que marca para lá de qualquer dúvida o fim do franquismo. Carrillo aceita a bandeira franquista como bandeira nacional. E estes são apenas dois exemplos. As acções destes extremistas acabaram por permitir a consolidação da democracia espanhola.

O resultado? Os partidos de ambos tornam-se irrelevantes em poucos anos — mas Espanha ficou, sem dúvida, a ganhar. Se querem lições de como pôr o interesse do país à frente do partido, aqui têm um exemplo bem concreto.

O livro é daqueles que não se consegue deixar de lado. E ninguém sai indiferente ao que lê aqui — muito menos os portugueses, que têm em Espanha uma caixinha de surpresas que poucos acabam por descobrir, iludidos que estão pela imagem simplista do são os nossos vizinhos.

Reparem em Adolfo Suárez sentado (Carrillo, nesta foto, não se vê) e nas costas dos outros deputados, agachados nas bancadas:

ANATOMIA

* Luis Alías Gijón e Francisco Belard chamaram-me a atenção para este facto que não me devia ter escapado: não foram apenas estes dois deputados, mas também o vice-presidente do governo, Gutiérrez Mellado, a ficar de pé. Fica feita a importante correcção, tanto mais que Gutiérrez Mellado teve a coragem de fazer frente de viva voz aos golpistas. Leia-se este artigo sobre o vice-presidente do Governo.

Que línguas se falam em Gibraltar?

Tinha uns 12 anos quando as fronteiras acabaram na Europa. Não sendo minimamente nostálgico de um tempo em que era preciso passaporte para ir a Badajoz, não deixo de sentir um certo sabor a aventura ao aproximar-me daquelas fronteiras a sério, em que é preciso parar e passar por guardas que nos olham desconfiados.

Ora, a fronteira a sério mais próxima de Portugal é também a fronteira mais pequena do mundo: aquela linha bem marcada entre Gibraltar e Espanha.

Gibraltar sempre me fascinou. Aliás, os países minúsculos são para mim fonte de particular encanto, que agora não consigo explicar sem me alongar demasiado. Não sendo propriamente um país, aquele pedaço de Império Britânico ali ao sol do Mediterrâneo parece uma Inglaterra dos Pequenitos, com África ao fundo.

Pois bem, houve um Verão da minha adolescência em que os meus pais me levaram a mim e aos meus irmãos a passear de carro pelo Sul de Espanha.

Lá fomos visitar essa Inglaterra-ao-Sul, onde entrámos e ficámos parados no semáforo à espera que um avião aterrasse. Ao fundo, o Rochedo, onde se esconde a única espécie de símios da Europa (se exceptuarmos a nossa própria espécie, claro está).

Fiquei desiludido por perceber que os gibratinos conduzem do lado «certo» da estrada. Fiquei, no entanto, maravilhado por estar num território onde se falava inglês, a língua que tinha começado a aprender há pouco tempo.

Fomos comer qualquer coisa e acabámos no McDonald’s, porque turista que é turista não faz ideia onde se come bem em terra estrangeira.

Pus-me na fila para demonstrar ao meu pai que sabia pedir comida em inglês. Ele lá me acompanhou, para ver o que dali saía.

Peço o menu (não me lembro qual) e qual não é o meu espanto quando a senhora me pergunta qualquer coisa numa língua que parecia tudo menos inglês. Perguntou-me: «efodrin?»

Olhei, pasmado. Ela esperava a resposta, impaciente. O meu pai, mais prático e habituado a inglês de rua e menos a inglês da escola, lá me disse: «a senhora está a perguntar o que queres beber».

Exacto. Ela tinha dito «And for drink?», mas com sotaque espanhol carregado.

Fiquei a perceber que as línguas de Gibraltar são um pouco mais complicadas e misturadas do que presumia. Fala-se, oficialmente, inglês, quase todos falam também espanhol e têm ainda aquilo que se pode chamar de língua própria, o llanito.

O llanito é uma forma de falar que não é oficial e consiste, pelo menos à primeira vista, num espanhol com muitas palavras e expressões inglesas à mistura. Certamente terá as suas próprias regras — e há quem defenda a criação duma ortografia oficial. Um exemplo dum texto nessa ortografia proposta:

Soi un fem biliva de ke tolô làngwijez son ìkwol vàlid fomz de komiunikeixon rigadles de kwàntô spìkaz tengan. Er Llanito ê un làngwij avlàu por apròksimetli 20,000 – 30,000 personâ. Er kontènpori Llanito s’iso divèloping durante’r 20f sènchuri n’Hivertà kwando’r lòukol varàieti del’Andalûh (ke lla ‘vìa sìo ìnfluentsd por er Henovêh, la Haketìa etc) se vio stròngli ìnfluentsd pol’Inglêh Vritàniko.

Se usarmos ortografias mais habituais, temos algo como: «Soy un firm believer de que todos los languages…»

(Podem encontrar o original llanito e as traduções em espanhol e inglês neste site.)

Parece uma grande misturada? Não será mais do que o próprio inglês, que no fundo é anglo-saxão misturado com francês normando.

Por outro lado, esta tentativa de dar forma escrita ao llanito não será uma maneira de criar uma língua à força? Talvez. Mas não seria a primeira nem a última vez.

Bem, o certo é que acabei por pedir «water» e a senhora percebeu. E deu-me o troco em libras, o que me deixou maravilhado.

A língua portuguesa num Portugal espanhol

cropped-IMG_1295-3.jpg

Se Portugal não tivesse recuperado a independência em 1640, o que teria acontecido à nossa língua?

É muito difícil imaginar uma história alternativa, mas, olhando para as línguas minoritárias de Espanha, teria acontecido algo do género:

  • O espanhol seria usado por grande parte da população, principalmente nas cidades.
  • O português estaria preservado nas aldeias e seria ensinado no sistema de ensino desde a recuperação da autonomia, nos anos 80, depois de anos de supressão dessa antiga língua.
  • O português rural seria considerado o mais puro e correcto e o português urbano seria considerado por muitos como uma variedade impura e espanholizada da língua.
  • O português sentiria pressão da língua espanhola em termos fonéticos e ortográficos: falaríamos com um sotaque com muitas interferências castelhanas e, quem sabe, utilizaríamos o «ñ».
  • Haveria, possivelmente, uma luta de ortografias, entre a ortografia mais espanholizada e a ortografia que iria beber ao que Camões e outros autores do Portugal independente de antanho tinham escrito. Em nenhum caso teríamos uma ortografia parecida com a ortografia modernizada de hoje em dia, criada por decreto em 1911 (e alterada várias vezes a partir daí).
  • O Brasil teria optado por deixar de lado o nome de «português» e diria alto e bom som que a sua língua é o brasileiro. O português seria uma língua menor, uma estranha mistura de espanhol e brasileiro — pelo menos na cabeça de espanhóis e brasileiros. Muitos chamá-lo-iam de «dialecto».
  • Muitos portugueses veriam a ligação ao Brasil como forma de marcar a diferença e diriam que, no fundo, os brasileiros falam português, embora os brasileiros achassem tal ideia um disparate completo. Muitos nem sequer sonhariam que em Portugal se fala uma língua com fortes ligações ao brasileiro.
  • Haveria, certamente, um movimento nacionalista português, com sectores independentistas com maior ou menor força. Esse movimento faria do português uma bandeira.
  • Socialmente, as classes urbanizadas veriam o espanhol como essencial para a vida profissional e o português como um resquício algo folclórico, que os seus filhos aprendem só por mania política dos nacionalistas.
  • Uma grande parte da população universitária olharia para o português com muita simpatia, protegendo-o como forma de afirmação identitária e ainda como sinal de recusa do centralismo cultural castelhano.
  • Por estes dias, algumas terras teriam tentado recuperar os nomes portugueses. «Oporto» já era, oficialmente, «Porto». A província de «La Guardia» já se chamaria de novo província da «Guarda». E por aí fora…
  • Em Madrid, o português seria encarado com o nariz torcido, como outra das línguas pouco espanholas que atrapalham a ideia duma nação espanhola unida.

Com pouca dificuldade podemos olhar para a Galiza e ver o reflexo desta história inventada. O Brasil da história acima descrita somos nós e o português é o galego da nossa vida real.

(Os mais atrevidos podem ainda imaginar que a Catalunha seria um país independente e olharia para Portugal sem reconhecer em nós uma outra nação. Quanto à língua, para os catalães, o português seria espanhol, ponto final.)

Uma ideia para Espanha: verdadeiro multilinguismo

Sei que custa a muitos espanhóis, mas dar a mesma dignidade institucional às várias línguas de Espanha seria um passo importante para que todos os povos de Espanha se sentissem mais confortáveis no nosso reino vizinho.

No que toca à Catalunha, o governo central de Espanha podia permitir o uso do catalão no Parlamento espanhol, incentivar a aprendizagem do catalão no resto de Espanha, não olhar para essa língua (nem para as outras línguas de Espanha) como menos correctas, menos importantes, menos dignas.

Estou em crer que não vai acontecer nada disso. Nos meios madrilenos corre a narrativa de que isto (o aumento do independentismo) deve-se a os sucessivos governos espanhóis terem dado rédea solta aos sentimentos dos catalães. Não será agora que vão olhar para a segunda língua de Espanha com bons olhos.

Mas é pena. Mais do que grandes declarações sobre a unidade da nação, haver mais espanhóis com um livro como este na mão faria muito pela convivência em Espanha:


Curiosamente, a revista The Economist disse o mesmo há já um ano (negritos meus):

As Johnson wrote in the context of Ukraine, national multilingualism is expensive, in budgetary terms and in the trade-off against other priorities—but it is cheaper than the breakup of a country. And the cheapest solution is merely an attitudinal one: all Spaniards should treat Galician, Basque and Catalan not as regional languages. They are languages of Spain, full stop. Treating them as such, and not as a bother, would go a long way.

Imagine-se só. Até o El País acha o mesmo (negritos meus):

Desde estas páginas hemos defendido una reforma constitucional en sentido federal, en la que se delimiten las competencias de cada nivel de gobernanza, se reconozcan los hechos singulares y se denomine a cada territorio según su peso y preferencias, manteniendo siempre la igualdad básica de derechos sociales para todos los ciudadanos; una reforma en la que se articulen sistemas de coordinación federales (Senado); en la que las altas instancias del Estado demuestren la riqueza del plurilingüismo incorporando progresivamente su práctica normal; y en la que se repartan elementos de capitalidad según el modelo alemán, más en sintonía con nuestro país que el francés.

 

Conhecem o norlandês e o sudolês?

panorama-427997_1280

Vamos imaginar um país que não existe. Chamemos-lhe Lândia. No norte de Lândia, fala-se norlandês. No sul, fala-se sudolês. Ora, os sudoleses falam todos, entre si, sudolês. Ensinam aos filhos sudolês. Lêem sudolês. Sentem-se sudoleses, mas estão num país chamado Lândia, onde a língua oficial é o norlandês (que os norlandeses também chamam, simplesmente, “landês”, porque consideram-na a língua principal do país).

No Parlamento regional do norte, fala-se norlandês e é proibido falar sudolês. No Parlamento regional do sul, fala-se sudolês, mas também se pode falar norlandês.

Todos os sudoleses aprendem norlandês na escola e sabem usá-lo para falar com os norlandeses, alguns dos quais até vivem no sul sem precisar de aprender a língua do sul. Um sudolês que vai para o norte tem de usar sempre norlandês. É impossível a um sudolês que viva no norte pôr os filhos numa escola onde se ensine sudolês. Já no sul, todas as escolas ensinam as duas línguas.

Um filho dum sudolês, a certa altura, pergunta: por que razão eu tenho de aprender a língua do norte, mas eles não querem saber da nossa? Será que a nossa língua é menos importante?

Ora, argumentam os do norte: sim, é menos importante. É muito menos falada. No norte, vivem 40 milhões de pessoas, no sul vivem 7. Mas, para lá dos números, o pai sudolês fica um pouco incomodado por ter de dizer ao filho que a sua língua, no norte, é pouco menos que proibida e nunca pode ser usada pelos políticos que os representam na capital (que fica no norte, claro está).

O pai sudolês também não gosta de ir com o filho de viagem e ouvir sempre: ah, então se são da Lândia, falam norlandês. Explica sempre, com calma, que eles sabem falar norlandês, mas a sua língua própria é o sudolês. Quando dizem isto, ouvem muitas vezes: «isso é um dialecto». Ou então chamam-nos de «nacionalistas» com ar de insulto.

Os sudoleses começam a querer mudar isto. Sentem-se mal. Sentem-se inferiores. Alguns políticos sudoleses começam a aproveitar a onda e a espicaçá-la. Os nordoleses não querem saber: a língua da grande Nação da Lândia é o norlandês. Tudo o resto são restos regionais.

A situação acaba por descambar no crescimento dos partidos independentistas do sul. Os sudoleses querem a independência. Querem um país onde possam falar a sua língua à vontade, sem injustiças.

Haverá forma de resolver isto sem destruir a bela Lândia?

O Governo da Lândia pode usar o modelo canadiano: as duas línguas passam a oficiais em todo o território, mas cada região usa uma delas como principal. Todos aprendem as duas.

A ideia parece boa, mas os norlandeses não querem: nunca por nunca vão obrigar os 40 milhões de norlandeses a aprender uma língua «que não serve para nada».

Os sudoleses encolhem os ombros: «Estão a ver? Eles acham que a nossa língua não serve para nada! Queremos a independência!»

No entanto, para lá de obrigar milhões a aprender uma língua, há sempre a hipótese de a respeitar um pouco mais: de tê-la como opção; de permitir o seu uso no Parlamento; de usá-la nas cerimónias; de considerá-la tão digna como qualquer outra, menos que minoritária.

Afinal, a língua, neste país chamado Lândia, é um dos grandes factores de identidade. A forma como o governo central trata a língua é vista como sintoma da forma como olha para a identidade que está ligada a essa língua. Os sudoleses sabem bem que a sua identidade não é tão bem vista pelo governo central como é a identidade norlandesa.

Por haver esta ligação íntima entre língua e identidade, com alguma sorte, oferecer alguma igualdade simbólica às línguas resolverá a situação, ou talvez apague um pouco o fogo.

Depois, os landeses (todos: do sul e do norte) podem pensar em criar uma federação: o governo federal usará as várias línguas e cada estado escolherá a sua língua própria. No final, todos ensinam a língua do outro e nunca haverá problemas de comunicação.

Enfim: tudo isto para dizer que, nestas situações, o nacionalismo não está só dum lado. Há também desconsiderações às vezes involuntárias, algum sentimento de injustiça, muitas narrativas históricas empoladas, um pouco de vitimização e, sempre, esse sentimento de tribalismo muito humano, que tem de ser gerido e nunca ignorado.


man-290186_1280

Claro que este artigo, que já vai longo, tem a ver com a Catalunha e com o seu difícil encaixe numa Espanha onde ainda muita gente quer ver uma Nação única e de fala castelhana. Substituam “Lândia” por “Espanha”, “norlandês” por “castelhano”; “landês” por “espanhol”; “sudolês” por “catalão” e tudo fará mais sentido.

Sim, a situação espanhola não é tão simples como a descrita acima: há mais do que duas línguas e muitos outros factores. Mas pensemos, então, na Suíça. Talvez Espanha possa sobreviver se quiser ser um pouco mais como a Conferação Helvética: há uma língua preponderante (o alemão, no caso da Suíça, o espanhol, no caso de Espanha), mas a nível federal as quatro línguas do país são consideradas igualmente legítimas e nacionais. E uma delas (o romanche) é falada apenas numas quantas aldeias num canto remoto do país…

O futuro de Espanha talvez passe por aí: dar dignidade a todas as suas línguas e reinventar-se como uma nova Suíça. Há modelos bem piores…

10 nomes de línguas de Espanha (incluindo o português)

Lenguas_y_dialectos_iberorromances

Sim, Espanha é um país complicado no que toca a línguas.

Aliás, Espanha é um país complicado, ponto final. (E bem interessante, por estranho que isso possa parecer a alguns ouvidos portugueses.)

Ora, nesse país complicado, os nomes das línguas parecem multiplicar-se, ainda mais do que as próprias línguas.

Antes, um aviso: a lista abaixo é de nomes de línguas — e não, necessariamente, de línguas separadas. Assim, o “catalão” e o “valenciano” são nomes da mesma língua (há quem discorde), tal como os nomes “espanhol” e “castelhano” se referem ao mesmo idioma (e, neste caso, ninguém discorda).

Vejamos, então, 10 nomes de línguas de Espanha (entre outros):

Espanhol. Este é o nome da língua que o mundo conhece como língua de Espanha. Há quem ande por aí convencido que tudo acaba aqui: em Espanha, fala-se espanhol, ponto final. Mas, não…

Castelhano. Um outro nome dado ao espanhol, muito usado em Espanha para distingui-lo das outras línguas espanholas. Em Portugal, há quem use “castelhano” convencido que é muito mais correcto do que o corriqueiro “espanhol”. Noutro local deste blogue, tenta-se explicar a confusão. No fundo, são sinónimos.

Catalão. Este é o nome oficial da língua própria da Catalunha (e de mais uns quantos sítios). Sim, os catalães faltam também espanhol, mas uma grande parte da população tem como língua materna o catalão, falado em várias regiões de Espanha, em Andorra e ainda numa cidade italiana chamada, em italiano, “Alghero” e, em catalão, “L’Alguer”.

Valenciano. Mais a sul, na Comunidade Valenciana, o catalão muda de nome, mas sem deixar de ser a mesma língua. Claro que há uma ou outra pessoa que insiste que é uma língua diferente, porque dá jeito. E não é assim tão difícil criar uma língua própria: um nome, umas regras ligeiramente diferentes, um dicionário, uma academia, uma gramática e temos feito o idioma. Tudo para garantir que não se fala a língua do vizinho de cima.

Lapao. Sigla de “Lengua aragonesa propia del área oriental“. Desde 2013, é este o termo usado pelo Governo de Aragão para designar o catalão falado no seu território (encostado à Catalunha). Porquê? Porque tudo é válido para evitar dizer o nome “catalão”, que é um bicho papão. Sim, há regiões de Espanha com medo do “imperialismo linguístico” das outras regiões. Quem tem menos medo do catalão goza com este termo usando a risível abreviatura “lapao”. Parece que para o Governo de Aragão, mais vale falar lapao que catalão.

Aranês. Esta é uma das línguas da Catalunha. No fundo, é outro nome para a língua occitana, falada no sul de França. Lá chegaremos, em boa hora, no futuro deste blogue (espero).

Basco. Esta é a língua misteriosa que ali se esconde em redor dos Pirenéus e que não se sabe muito bem donde vem. Não é, sequer, uma língua indo-europeia e, assim, está na companhia do húngaro e do finlandês como elementos estranhos na paisagem linguística europeia.

Euskera. O nome da língua basca em basco é “euskera” e esse nome é usado muitas vezes mesmo em textos escritos noutras línguas de Espanha.

Galego. A língua nossa vizinha, a mais próxima do português — ou mesmo, segundo muitos, um outro nome para a nossa língua.

Português. Haverá poucos que queiram chamar directamente “português” à língua que os galegos falam (até porque argumentam, e bem, que a língua nasceu dos dois lados do Rio Minho e nunca saiu de Portugal em direcção a norte). Mas já serão muitos aqueles que se atrevem a dizer algo que para os portugueses mais distraídos será uma grande surpresa: o galego e o português serão dois nomes para a mesma língua, com diferenças marcadas, é certo, mas sem que tal implique uma separação insanável. Há mesmo quem diga que o português do Brasil está mais distante do português europeu do que o galego. Não vamos entrar, para já, por aí. Fica para mais tarde. Mas podemos afirmar que, para lá dos nomes e das divisões, o português e o galego estão bem mais próximos do que a fronteira faz crer e, por isso, há também uma língua de Espanha que é um pouco nossa. E daí não vem mal ao mundo.

Para lá destes 10 nomes, há mais: “maiorquino”, “bable”, “aragonês”, “leonês” e há até alguns atrevidos que falam da língua andaluza.

Ora, que lições podemos tirar desta profusão de nomes de línguas?

Antes de mais, é fácil perceber que as línguas são fáceis de criar, pelo menos se acharmos que criar uma língua é dar-lhe um nome. As nossas ideias sobre o que é uma língua ou não é acabam por ser muito mais fluidas do que pensamos — principalmente no território das línguas latinas, muito onde todos os falares fazem parte dum só mundo linguístico. Assim, surgem nomes que para alguns serão nomes da mesma língua, para outros significam algo mais: significam a existência duma identidade separada e, nalguns casos, duma língua separada.

Depois, uma lição sobre a humanidade: a necessidade de marcar a diferença é algo muito humano. Assim, num espaço nacional muito fracturado e onde populam identidades locais, regionais e nacionais para lá da identidade nacional espanhola, é normalíssimo vermos surgir nomes de línguas como cogumelos.

Tudo isto também se aplica a nós, à nossa maneira.

Por exemplo, terá muito a ver com esta necessidade de ver na língua o reflexo simples da nossa identidade que leva a que muitos portugueses não consigam ver o galego como língua irmã do português. Afinal, são os galegos são espanhóis…

Mesmo no que toca ao Brasil, os portugueses, em geral, não estão muito interessados em sublinhar a proximidade. Que os brasileiros chamem à sua língua “português” parece um pouco estranho, mas ainda se aceita. Agora que haja por aí tentativas de pôr tudo no mesmo saco e unificar a língua já parece demais.

Também por aí se explica a facilidade com que tantos portugueses dizem “brasileiro” para designar a língua dos brasileiros, que estes últimos chamam “português” sem mais.

Tudo isto porque a língua serve para comunicar, mas serve também (e muito) para marcar a nossa identidade. Goste-se ou não, convém não esquecer esta característica do ser humano.

O fim de Espanha? Isso agora não interessa nada…

rajoy1

“É que nem pensar!”

Gosto de futebol e não costumo entrar nos discursos simplistas, mas disfarçados de lucidez, em que muitos acusam o futebol de alienar as massas.

Mas, vamos lá ver uma coisa: quando o país com o qual fazemos fronteira se prepara para embater contra uma parede com estrondo e não sabemos se vai resistir inteiro (estou a falar das eleições «plebiscitárias» na Catalunha) — o que fazem os jornais portugueses?

Nas edições de hoje, pelo menos, preocupam-se acima de tudo com o pobre futuro do FC Barcelona, que pode ficar sem poder jogar na Liga Espanhola…

Sendo assim, para quando um artigo a mostrar que a integração de Portugal em Espanha resolveria os problemas de tesouraria do Benfica?

Espanha e Catalunha: os dados estão lançados

Mariano Rajoy (presidente do Governo de Espanha) e Artur Mas (presidente da Catalunha) encontraram-se hoje em clima de tensão. Artur Mas quer realizar uma consulta independentista no dia 9 de Novembro. Rajoy diz que essa consulta é ilegal e inconstitucional e não irá realizar-se. Nós, portugueses, podemos dar-nos ao luxo de olhar de fora, apesar de estarmos aqui tão perto. O que pode acontecer?

  1. O governo catalão desiste da ideia em troca de algumas concessões.
  2. O governo catalão tenta avançar, mas o governo espanhol impede a consulta, podendo chegar ao ponto de suspender a autonomia catalã.
  3. O governo catalão avança e Espanha é incapaz de impedir a consulta. 
    1. A independência ganha.
    2. A independência perde.
A hipótese 1. iria acalmar as hostes por uns tempos, mas depressa tudo voltaria ao mesmo. A hipótese 2. seria muito perigosa, no curto prazo, com a política espanhola de pantanas. A hipótese 3.1. seria extremamente perigosa, com toda a probabilidade de intervenção do exército. A hipótese 3.2. seria a mais estável, com o assunto arrumado por vários anos.
Na minha opinião, a hipótese 2. é a mais provável. Veremos o que acontece.
Nota:
Tudo isto está a milhas do pacífico processo escocês, onde as duas partes acordaram um referendo, realizado de forma legal e constitucional (o que, no Reino Unido, é mais fácil, pois não há constituição escrita a exigir reformas difíceis). Espanha podia ter ido pelo mesmo caminho, mas não nos podemos esquecer que, para um inglês, o Reino Unido é uma identidade complexa, que permite a cada um imaginar-se britânico ou inglês (ou escocês, etc.). Já em Espanha, temos duas ideias de Nação opostas: um catalão vê a Catalunha como nação; um espanhol doutra zona vê Espanha como uma nação una e indivisível; neste contexto, o processo catalão é um ataque terrível à identidade nacional de cada espanhol. Já o processo escocês é quase uma mera questão de economia e organização interna (não é assim tão simples, mas a diferença é notória).
“Mas é que nem penses!”

Powered by WordPress & Theme by Anders Norén

Ao continuar a usar este website, autoriza a utilização de "cookies". mais informação

As definições de "cookies" neste website permitem a utilização de "cookies" para oferecer ao leitor a melhor experiência possível. Se continuar a usar este website sem alterar as definições de "cookies" ou se clicar em "Aceitar" está a autorizar o uso de "cookies".

Fechar