Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

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O que fazer quando um país tem várias línguas?

https://www.flickr.com/photos/mpd01605/3809855101

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Pensem em países com várias línguas: por exemplo, a Espanha e o Canadá.

O que se faz nestes casos?

Bem, em Espanha, uma das línguas é considerada a principal. As outras são brincadeiras lá das regiões. Os bascos, catalães e galegos podem falar as suas línguas, mas têm o dever (constitucional) de aprender a língua nacional. Nada contra esse dever, mas o contrário não acontece: os que falam castelhano estão safos de aprender outra língua de Espanha que não seja a sua.

No Canadá, as duas línguas são ensinadas a todos e usadas a nível federal. São consideradas ambas línguas nacionais e a ambas é dada a dignidade de Estado que leva a que o primeiro-ministro canadiano fale também em francês quando vai aos E.U.A. (vejam o seguinte vídeo, a partir do minuto 9:40).

Repare-se que até Obama diz «Bonjour» logo no início.

Agora imaginem Mariano Rajoy a falar em galego numa visita de Estado ao México (seria uma situação comparável, se virem bem). Imaginem ainda o presidente do México a dizer umas palavras em galego (ou em catalão) por entender ser essa uma das línguas do país do visitante…

Sim, é muito difícil imaginar tal cena. Cairia o Carmo e a Trindade (ou a Gran Vía e Cibeles).

Sim: é difícil, mas por algum motivo acho a solução canadiana mais justa e mais estável…

Pode ser que um dia a Espanha se lembre de dar a todas as suas línguas a mesma dignidade, por mais absurdo que isso possa parecer aos falantes monolingues de espanhol. Mas seria um passo de gigante para criar uma Espanha onde os sentimentos dos seus cidadãos pudessem conviver de forma mais confortável.

Respondem alguns: ora, o espanhol é muito mais útil do que o catalão! Por que razão haveríamos de lhe dar a mesma dignidade e ensiná-la a outros espanhóis?

Ora, porque nisto das línguas nacionais a utilidade de cada uma não é o mais importante. Afinal, o francês é falado por 20% dos canadianos e é, por isso, menos útil do que o inglês. Mas que importa isso? É a língua de parte dos canadianos e isso é reflectido no valor igual que lhe é dado a nível federal.

É verdade que em Espanha há mais línguas do que no Canadá e que o caso canadiano está longe da perfeição (e que o francês tem um prestígio internacional que ajuda muito). Mas todo este problema linguístico de Espanha tem também a ver com uma certa atitude do Estado — e alguns pequenos passos seriam importantíssimos. Por exemplo: Espanha podia não proibir o uso das línguas de muitos espanhóis no parlamento que os representa… Nem estou a falar de incentivar. Estou a falar de não proibir.

ADENDA

Duas notas, na sequência de comentários que recebi ao artigo:

  • José Negro e Enrique Granados lembraram-me, no Facebook, que é possível falar noutras línguas no Senado espanhol e já foi permitido (como excepção…) usá-las no Congresso. Até Espanha se move, o que é bom. Mesmo assim, tendo em conta os milhões de cidadãos que falam outras línguas em Espanha, estamos longe da situação canadiana.
  • Várias pessoas lembraram duas coisas: que o Canadá tem outras línguas a que não dá a mesma dignidade e que mesmo Portugal tem outra língua. Hei-de falar do assunto de novo, em relação a Portugal (e talvez ao Canadá). Fica o assunto em suspenso, até muito em breve, espero. Digo apenas (não consigo resistir) que devemos olhar para a vontade política das comunidades que falam as línguas.

Os portugueses, na Galiza, gostam de falar espanhol?

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Suso Moinhos deixou este comentário no artigo anterior, que trago aqui para cima por ser delicioso:

…E quando vierem à Galiza, falem galego, não permitam que se repitam situações como esta:

-Buenos dias, aonde tenemos que ir para encontrarmos el museu X?
-Bom dia. Para chegarem ao museu continuem até a praça e depois virem à esquerda.
-O senhor é português?
-Não, sou…
-Então é brasileiro? Angolano?
-Sou daqui, sou galego. Portanto, sou lusófono.
-Ah, usted es espanhol…! Muntchas grácias.

Em Barcelona, com ouvidos bem abertos

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Cada um de nós tem as suas manias, a sua perspectiva e uma ou outra coisa de que percebe mais do que o habitual. Já andei a viajar com quem conhecia todas as rochas e lá me ia descrevendo o que via debaixo dos pés. Também conheço quem me explique as várias técnicas de fabrico de cerâmica nas regiões por onde passamos. Outros conhecerão os pássaros, as plantas, a roupa, e por aí fora.

Já cá por casa, como é fácil adivinhar lendo este blogue, tenho o ouvido bem atento às línguas. Ora, a verdade é que muitos portugueses têm, pelo contrário, o ouvido um pouco mais fechado do que o normal para as diferenças linguísticas porque vivemos num país relativamente simples neste ponto: é difícil para nós perceber que, num só país, se possam esconder várias línguas.

Também é difícil estarmos atentos às implicações políticas do uso de cada língua, porque em Portugal tudo é simples: o português é a língua do Estado e a língua de quase todos. Ponto final.

Ora, a semana passada, fiz uma viagem até Barcelona. Fui de carro. Não porque sou masoquista, mas agora não me apetece explicar as razões. Fica para depois. Obviamente, lá fui reparando nalguns pormenores curiosos, que já tinha encontrado noutras viagens, mas que nunca me canso de apontar. Ficam aqui, para vos dar a conhecer um pouco melhor a complexidade da situação sócio-linguística da Catalunha. O que isto significa em termos políticos e sociais ficará para outra altura.

Os nomes das terras

LLEIDAAntes ainda de chegar à Catalunha, noto as placas a indicar «Lleida». Há muitos anos, quando atravessei pela primeira vez a nossa península, ainda me lembro de ver placas a dizer «Lérida». Hoje em dia, «Lérida» já não se vê.

O único nome oficial é mesmo «Lleida», em catalão, e isto mesmo quando estamos a ler textos em espanhol. Porquê? Porque, na Catalunha, a toponímia oficial é monolingue: só em catalão. O resto de Espanha, neste ponto em particular, lá decidiu ir atrás e usa os nomes catalães em certos contextos onde talvez não fosse normal esperar tal cedência.

Alguns espanhóis dizem que isto é ser mais papista do que o papa: afinal, ninguém diz «London» em espanhol, por que razão é preciso dizer «Lleida», se a palavra espanhola é «Lérida»? Repare-se que não estamos a falar do nome da terra nas placas dentro da Catalunha. Estamos a falar do nome da terra nas placas do resto de Espanha e nos documentos em espanhol. Em catalão, claro que o nome é «Lleida».

Estamos muito longe dos tempos em que ninguém, fora da Catalunha, sabia que «Lérida» não era assim chamada pelos habitantes da própria cidade.

Só para acabar: também pela Galiza, que optou pela toponímia apenas em galego, o nome da velhinha La Coruña é agora só A Coruña. Parece que só nós, portugueses, insistimos em usar o nome castelhano… Já no País Basco e em Valência, a solução foi dar dois nomes às cidades. Assim, o nome oficial de San Sebastián é «Donostia-San Sebastián» e o nome oficial de Elche é «Elx-Elche».

As placas da estrada

img_3339Logo quando passamos a fronteira entre Aragão e a Catalunha (os independentistas diriam, sem pestanejar «fronteira entre Espanha e a Catalunha») vemos uma mudança nas placas da estrada. Onde antes estava apenas «Red de Carreteras del Estado», temos agora, por cima, a versão catalã: «Xarxa de Carreteres de l’Estat». A versão em espanhol mantém-se porque são estrados da tal Estado (ou «Estat»). Nas estradas mantidas pela Generalitat (governo catalão) ou pelos municípios, o espanhol não é fácil de encontrar. E, sim, para lá de Aragão, as «salidas» agora são «sortides»…

Os nomes das terras também ganham um sabor bem pouco castelhano: temos Mollerussa, Montserrat, Sant Cugat e por aí fora…

Publicidade e conversas de rua

Em Barcelona, cada vez mais se vê catalão escrito e cada vez menos espanhol. Mesmo a publicidade começa a ser muito em catalão e menos em espanhol. Digo «cada vez mais» sem deixar de referir que a sensação é pessoal, de quem vai à cidade de vez em quando.

Já nas ruas, ouve-se uma mistura das duas línguas que, para muitos ouvidos portugueses, não deixa de soar ao mesmo (mas os ouvidos portugueses, muitas vezes, nem o galego conseguem distinguir…).

Note aquele que não está tão habituado a essa língua como os catalães dizem os jj à portuguesa, como usam verbos como «parlar» e «manjar», como dizem «bon dia», como têm vogais bem mais fechadas que o castelhano. Com tempo, habitua-se. Mas tem de perceber que, numa mesma loja de Barcelona, vai ouvir as duas línguas, se for preciso entre as mesmas pessoas.

Estava eu no Pans & Company (que, diga-se, é de origem catalã e lia-se, originalmente, à catalã, com o ny a fazer de nh) e ouvi a mesma rapariga a atender um rapaz em espanhol, um senhor mais velho em catalão, para logo voltar ao espanhol no cliente seguinte. Tudo sem pestanejar.

Falar catalão com estrangeiros?

Tente o português falar um pouco de catalão com catalães e terá uma surpresa: por alguma razão, muitos passam rapidamente para o espanhol mesmo perante estrangeiros que até gostariam de ouvir essa bela língua um pouco escondida. Porquê? Não sei. Talvez seja do hábito. É tão pouco normal que um estrangeiro saiba o que é o catalão (quanto mais dizer umas frases na língua), que o catalão não se sente bem a falar a sua língua com quem não é de lá. Para estrangeiros, a língua certa é o espanhol, diz o inconsciente catalão.

Podem não falar muito catalão com estrangeiros, mas não deixam de sorrir e gostar de algumas frases: um «bon dia», um «benvinguts», uma «bona nit», um «parlo una mica de català». Ou até: «t’estimo molt» (mas aqui convém usar apenas com quem mereça). Quanto a dizer o nome, a frase é estranhíssima: «Em dic Marco.» Sim, chamo-me Marco. Ou, mais literalmente, «digo-me Marco».

Cinema

E o cinema? Bem, há filmes em catalão (no original ou traduzidos), mas a maioria é lançada em espanhol, o que se compreende. Mas não deixa de ser curioso: passei por um cinema e todas as indicações (preços, condições, etc.) estavam em catalão, bem como a publicidade à empresa dona das salas. Já os filmes estavam em espanhol (incluindo cartazes).

Passear pela cidade

barcelona-915071_1280Andei a passear pela cidade durante as Festas de Santa Eulália, a grande festa de Inverno de Barcelona. Ouvia-se muito catalão na rua. Ouvi eu algo assim (alguém a gritar): «tancat» (o quê? o carrer). Em Madrid, teria ouvido «cerrada» (o quê? a calle).

E livros?

Num supermercado, havia a indicação na prateleira dos livros em catalão: «Llibres en català». Os livros em espanhol não tinham indicação nenhuma. Neste mundo, o normal ainda é o espanhol. Os livros em catalão têm a sua área específica…

Mas, não se enganem: não deixa de ser, das línguas minoritárias deste mundo, a que está mais bem protegida na área da literatura. Talvez por muitas editoras terem a sede em Barcelona, há muita edição em catalão. Muito mais do que em galego e basco, por exemplo. E há ainda esta coisa extraordinária: muitas traduções para catalão. Ainda há uns anos encontrei na Fnac de Lisboa Os Maias traduzidos para catalão. Estranhíssimo achado, há que dizer. Alguém que quis encomendar a versão em espanhol e se enganou…

Jornais

img_3330Dos jornais, já falei há poucos dias. Há jornais em espanhol (La Vanguardia, por exemplo), outros em catalão (El Punt Avui, por exemplo) e o El Periódico, quem tem duas edições: uma em catalão, outra em espanhol.

 

Estacionamentos e restaurantes

Já o estacionamento está (ou não) «lliure». Ou seja, «libre». Note-se que «lliure» lê-se, mais ou menos, «lhiúra». Sim, o «e» final lê-se como um a fechado. «Clàssiquesimg_3307» (que vi num menu dum restaurante para descrever sandes) escreve-se assim mas lê-se «clássicas». Praticamente igual à palavra portuguesa, com vogais fechadas e tudo. Só o s final é que é menos «ch» que o nosso. O menu é curioso: o «jamón» é «pernil», o «queso» é «formatge», o «atún» é «tonyina».

E podia continuar por aí fora. Podia ainda relacionar tudo isto com as estelades (bandeiras independentistas) que se vêem por toda a cidade, podia falar dos graffittis catalanistas dentro da cidade e espanholistas nos subúrbios, das «fruiteries», dos autocolantes com o «CAT» nalgumas matrículas (menos do que há uns anos — isto vai de manias, claro), e ainda do teatro que é quase só em catalão (não é como o cinema), dos tribunais que são quase só em espanhol, da polícia catalã que tem o bonito nome «mossos d’esquadra» e muito mais. Podia falar da literatura, com grandes escritores catalães que escrevem ou escreviam em espanhol (Juan Marsé ou Manuel Vásquez Montalbán) e lá têm umas frases em catalão pelo meio, outros que escrevem romances em espanhol e teatro em catalão (Eduardo Mendonza), outros que escrevem só em catalão (deixo-vos só o nome da escritora que escreveu La plaça del diamant, grande obra catalã do século XX: Mercè Rodoreda). Só na literatura, temos imenso para explorar neste mundo das línguas…

É uma situação muito, mas mesmo muito complexa, mas que todos os que lá vivem tentam navegar o melhor que podem e sabem. Há muitos anos, no início deste século, andei por lá mais dias, a conversar com muito mais pessoas, incluindo:

  • um padre que se orgulhava de ter protegido o catalão na sua paróquia quando a situação política era muito diferente e me dizia, baixinho, que tinha muita inveja dos portugueses por sermos independentes;
  • um senhor chamado Manuel (de Barthelona, pois então) que se orgulhava de ser espanhol e que sabia falar catalão, sem grande entusiasmo, mas não o conseguia nem queria escrever (e era amigo de Aznar e do rei, dizia-me ele);
  • e ainda um cirurgião e a sua mulher, catalanistas dos quatro costados, espantadíssimos com o meu interesse pela sua língua.

Do jantar com esse casal barcelonês, num pequeno apartamento no Eixample, lembro-me bem da filha, com uns cinco anos, a mostrar-me como sabia músicas de Natal e dos pais, orgulhosos, a olhar para a filha a cantar na sua língua. Lembro-me dessa língua estranha que me encantava por ser tão desconhecida no meu país. Não me recordo bem de qual era a canção, mas talvez a música fosse esta (lembro-me de ouvir o «ha nascut»:

castellers-930746_1280Estigui content,
Jesús ha nascut ;
Per dur-nos la joia
Al món ha vingut.

A menina quase não sabia espanhol, que iria começar a aprender na escola, dali a uns meses. Aqueles pais e aquela menina estavam a tentar viver a sua língua de forma tão normal como nós, portugueses, vivemos a nossa.

O tal senhor Manuel, bem espanhol, também queria viver na sua língua (o espanhol) da melhor forma possível e dizia-se irritado por ver o filho a aprender quase tudo em catalão.

São situações complicadas, que não se resolvem com opiniões brutalistas, é-assim-porque-tem-de-ser. Para já, enfim, digo-vos só: quando forem a Barcelona, abram os ouvidos. Reparem mais no que vos rodeia. Sim, é uma cidade pouco normal no que toca às línguas. E é tão interessante.

É também, como todos sabemos, um mimo de cidade… Mas isso são outras histórias.

Fins aviat, Barcelona!

Um jornal em duas línguas

Por terras catalãs, gosto sempre de confirmar que o El Periódico mantém esta deliciosa (e cara) particularidade: uma edição vermelha em espanhol e outra azul em catalão. Tirando a língua, as edições são iguais. Tendo em conta que todos os leitores da edição azul conseguem ler a edição vermelha (já o contrário será menos verdade), temos aqui uma demonstração de como a língua é muito mais do que uma forma de comunicação: é também, e muito, sinal de identidade. Para o bem e para o mal.

«Espanhol» ou «castelhano»: certezas há muitas!

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Certezas há muitas, não é? E todos gostamos de as espaventar no Facebook, que nem sempre se presta à dúvida e à hesitação, grandes conselheiras em muitos assuntos.

Nestas coisas da língua, então, quantos não atiram com certezas e tapam os ouvidos a qualquer argumento um pouco mais pensado!

Por exemplo, escrevo (e partilho) um artigo a dar para o longo sobre o uso das palavras «castelhano» e «espanhol» para designar a língua mais falada no país vizinho.

Resposta dum comentador de ocasião? Aqui têm:

Se mais dúvidas houvesse, bastaria ler a Constituição espanhola para se ficar a saber que a Língua oficial de Espanha é o castelhano! Caso contrário, diríamos que na Europa se fala o europeu, tal como antigamente na URSS se falava o “soviético”… disparate!!!

Deixa-me um pouco triste ter feito o esforço de escrever um artigo o mais explicado e moderado possível sobre uma matéria com que trabalho todos os dias e ser despachado assim a toque de «disparate» e pontos de exclamação — e que não haja dúvidas!

Ainda por cima, os argumentos apresentados são discutidos no artigo partilhado — bastava ler com a mente um pouco mais aberta. Estivessem os argumentos errados, que se apresentassem os argumentos contrários, mais fortes, sem «disparates» e pontos de exclamação despropositados.

Em conversa com o comentador, percebi que a questão é esta: como o autor do comentário é contra uma visão monocromática da nacionalidade espanhola, acha que o termo «espanhol» está incorrecto. Se «espanhol» estivesse correcto, não podíamos aceitar o basco, o catalão e o galego como línguas de Espanha.

Ora, a verdade é que até concordo que o termo «castelhano» facilita a vida a quem quer encaixar as várias identidades espanholas numa Espanha de várias nações. Se eu fosse espanhol, iria por aí e não tanto por identidades monocromáticas e de uma só língua.

Mas isso sou eu. Nestas questões de correcção, as nossas opiniões políticas particulares têm pouca importância. É preciso ir mais fundo e estudar as línguas em si, a forma como são usadas e a forma como estão registadas nos dicionários e afins.

Quando alguém acha que todos os falantes duma língua estão errados, estamos perante a ideia de que a língua se confunde com os nossos desejos pessoais. Já temos falado por aqui de muitos casos desses.

De que vale a maioria dos espanhóis chamarem à sua língua de «espanhol» (e considerarem tal palavra como sinónimo de «castelhano»)?

De que vale os dicionários portugueses registarem os dois termos como sinónimos?

De que vale muitos países de língua espanhola usarem o termo «espanhol» nas constituições, enquanto outros usam «castelhano»?

Se eu tenho cá a minha lógica, só a minha opção está correcta!

E, no entanto, não é assim.

Uma coisa são as nossas opiniões e desejos, outra coisa são os factos das várias línguas. E, neste ponto, o facto é este: em espanhol (e em português), «castelhano» e «espanhol» são duas palavras sinónimas, que designam a mesma língua — e estão ambas correctas.

(Sobre esta questão interessante e complexa dos nomes das línguas em Espanha, também escrevi este artigo: «10 nomes de línguas de Espanha (incluindo o português)».)

História Secreta da Língua Portuguesa

Capítulo 2. A missão secreta de Tiago na capital dos Visigodos

Ainda não chegámos ao tempo de Camões — estamos longe, mas ainda o havemos de encontrar aos murros pelas ruas de Lisboa — nem sequer ao tempo de Afonso Henriques (no próximo episódio, saberemos que língua falava o nosso primeiro rei). Mas continuamos, muito tempo antes, a tentar perceber donde apareceu a língua deles — deles e nossa, claro está.

Ainda temos muitos séculos de caminho.

Se bem se lembram, no primeiro episódio olhámos para esses tempos em que os celtas começavam a aprender latim. Aproveitámos para conhecer os Contreiras.

Uns seiscentos anos depois, temos ainda gente dessa família a viver mais ou menos nos mesmos sítios.

MADRID SAN LORENZO DEL ESCORIAL MONASTERIO-BIBLIOTECA-COLECCION DET-CODICE ALBENDENSE MOZARABE-CONCILIO DE BRAGA EN EL 561-F 209 V- OBISPO HIDACIO ESCRIBE CRONICA

Teodomiro, rei suevo da Galiza, no século VI.

Estamos no século VII. O Império já caiu, os bárbaros já chegaram.

Entretanto, foi criado o Reino dos Suevos, também chamado Reino da Galiza, com capital em Braga.

Também esse reino desapareceu, integrado no Reino dos Visigodos, que veio a ter a capital em Toledo.

Estamos no coração da Idade das Trevas — mas esse nome fomos nós, gente do futuro, que lhe demos.

Para as gentes dessa altura, estes eram dias tão coloridos como os de hoje, com gente a tentar viver o melhor  possível, com a história a passar nas estradas e nas crises e nas dificuldades de cada pessoa e de cada família…

LEIA O RESTO DA HISTÓRIA NO LIVRO
A INCRÍVEL HISTÓRIA SECRETA DA LÍNGUA PORTUGUESA.

O espanhol e o árabe têm muito em comum (e o português também)

Neste blogue, falamos muito da proximidade entre o galego e o português. Mas quem diria que línguas como o espanhol e o árabe também têm muitos elementos em comum?

Bem, diriam todos os que conhecem a história das línguas ibéricas. Mas é giro perceber isto na prática…

(Através da página do NEIIA da FCSH.)

Já agora, reparem como a mesma experiência podia ser feita com o português no lugar do espanhol…

Que línguas se falam em Gibraltar?

Tinha uns 12 anos quando as fronteiras acabaram na Europa. Não sendo minimamente nostálgico de um tempo em que era preciso passaporte para ir a Badajoz, não deixo de sentir um certo sabor a aventura ao aproximar-me daquelas fronteiras a sério, em que é preciso parar e passar por guardas que nos olham desconfiados.

Ora, a fronteira a sério mais próxima de Portugal é também a fronteira mais pequena do mundo: aquela linha bem marcada entre Gibraltar e Espanha.

Gibraltar sempre me fascinou. Aliás, os países minúsculos são para mim fonte de particular encanto, que agora não consigo explicar sem me alongar demasiado. Não sendo propriamente um país, aquele pedaço de Império Britânico ali ao sol do Mediterrâneo parece uma Inglaterra dos Pequenitos, com África ao fundo.

Pois bem, houve um Verão da minha adolescência em que os meus pais me levaram a mim e aos meus irmãos a passear de carro pelo Sul de Espanha.

Lá fomos visitar essa Inglaterra-ao-Sul, onde entrámos e ficámos parados no semáforo à espera que um avião aterrasse. Ao fundo, o Rochedo, onde se esconde a única espécie de símios da Europa (se exceptuarmos a nossa própria espécie, claro está).

Fiquei desiludido por perceber que os gibratinos conduzem do lado «certo» da estrada. Fiquei, no entanto, maravilhado por estar num território onde se falava inglês, a língua que tinha começado a aprender há pouco tempo.

Fomos comer qualquer coisa e acabámos no McDonald’s, porque turista que é turista não faz ideia onde se come bem em terra estrangeira.

Pus-me na fila para demonstrar ao meu pai que sabia pedir comida em inglês. Ele lá me acompanhou, para ver o que dali saía.

Peço o menu (não me lembro qual) e qual não é o meu espanto quando a senhora me pergunta qualquer coisa numa língua que parecia tudo menos inglês. Perguntou-me: «efodrin?»

Olhei, pasmado. Ela esperava a resposta, impaciente. O meu pai, mais prático e habituado a inglês de rua e menos a inglês da escola, lá me disse: «a senhora está a perguntar o que queres beber».

Exacto. Ela tinha dito «And for drink?», mas com sotaque espanhol carregado.

Fiquei a perceber que as línguas de Gibraltar são um pouco mais complicadas e misturadas do que presumia. Fala-se, oficialmente, inglês, quase todos falam também espanhol e têm ainda aquilo que se pode chamar de língua própria, o llanito.

O llanito é uma forma de falar que não é oficial e consiste, pelo menos à primeira vista, num espanhol com muitas palavras e expressões inglesas à mistura. Certamente terá as suas próprias regras — e há quem defenda a criação duma ortografia oficial. Um exemplo dum texto nessa ortografia proposta:

Soi un fem biliva de ke tolô làngwijez son ìkwol vàlid fomz de komiunikeixon rigadles de kwàntô spìkaz tengan. Er Llanito ê un làngwij avlàu por apròksimetli 20,000 – 30,000 personâ. Er kontènpori Llanito s’iso divèloping durante’r 20f sènchuri n’Hivertà kwando’r lòukol varàieti del’Andalûh (ke lla ‘vìa sìo ìnfluentsd por er Henovêh, la Haketìa etc) se vio stròngli ìnfluentsd pol’Inglêh Vritàniko.

Se usarmos ortografias mais habituais, temos algo como: «Soy un firm believer de que todos los languages…»

(Podem encontrar o original llanito e as traduções em espanhol e inglês neste site.)

Parece uma grande misturada? Não será mais do que o próprio inglês, que no fundo é anglo-saxão misturado com francês normando.

Por outro lado, esta tentativa de dar forma escrita ao llanito não será uma maneira de criar uma língua à força? Talvez. Mas não seria a primeira nem a última vez.

Bem, o certo é que acabei por pedir «water» e a senhora percebeu. E deu-me o troco em libras, o que me deixou maravilhado.

A língua portuguesa num Portugal espanhol

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Se Portugal não tivesse recuperado a independência em 1640, o que teria acontecido à nossa língua?

É muito difícil imaginar uma história alternativa, mas, olhando para as línguas minoritárias de Espanha, teria acontecido algo do género:

  • O espanhol seria usado por grande parte da população, principalmente nas cidades.
  • O português estaria preservado nas aldeias e seria ensinado no sistema de ensino desde a recuperação da autonomia, nos anos 80, depois de anos de supressão dessa antiga língua.
  • O português rural seria considerado o mais puro e correcto e o português urbano seria considerado por muitos como uma variedade impura e espanholizada da língua.
  • O português sentiria pressão da língua espanhola em termos fonéticos e ortográficos: falaríamos com um sotaque com muitas interferências castelhanas e, quem sabe, utilizaríamos o «ñ».
  • Haveria, possivelmente, uma luta de ortografias, entre a ortografia mais espanholizada e a ortografia que iria beber ao que Camões e outros autores do Portugal independente de antanho tinham escrito. Em nenhum caso teríamos uma ortografia parecida com a ortografia modernizada de hoje em dia, criada por decreto em 1911 (e alterada várias vezes a partir daí).
  • O Brasil teria optado por deixar de lado o nome de «português» e diria alto e bom som que a sua língua é o brasileiro. O português seria uma língua menor, uma estranha mistura de espanhol e brasileiro — pelo menos na cabeça de espanhóis e brasileiros. Muitos chamá-lo-iam de «dialecto».
  • Muitos portugueses veriam a ligação ao Brasil como forma de marcar a diferença e diriam que, no fundo, os brasileiros falam português, embora os brasileiros achassem tal ideia um disparate completo. Muitos nem sequer sonhariam que em Portugal se fala uma língua com fortes ligações ao brasileiro.
  • Haveria, certamente, um movimento nacionalista português, com sectores independentistas com maior ou menor força. Esse movimento faria do português uma bandeira.
  • Socialmente, as classes urbanizadas veriam o espanhol como essencial para a vida profissional e o português como um resquício algo folclórico, que os seus filhos aprendem só por mania política dos nacionalistas.
  • Uma grande parte da população universitária olharia para o português com muita simpatia, protegendo-o como forma de afirmação identitária e ainda como sinal de recusa do centralismo cultural castelhano.
  • Por estes dias, algumas terras teriam tentado recuperar os nomes portugueses. «Oporto» já era, oficialmente, «Porto». A província de «La Guardia» já se chamaria de novo província da «Guarda». E por aí fora…
  • Em Madrid, o português seria encarado com o nariz torcido, como outra das línguas pouco espanholas que atrapalham a ideia duma nação espanhola unida.

Com pouca dificuldade podemos olhar para a Galiza e ver o reflexo desta história inventada. O Brasil da história acima descrita somos nós e o português é o galego da nossa vida real.

(Os mais atrevidos podem ainda imaginar que a Catalunha seria um país independente e olharia para Portugal sem reconhecer em nós uma outra nação. Quanto à língua, para os catalães, o português seria espanhol, ponto final.)

10 nomes de línguas de Espanha (incluindo o português)

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Sim, Espanha é um país complicado no que toca a línguas.

Aliás, Espanha é um país complicado, ponto final. (E bem interessante, por estranho que isso possa parecer a alguns ouvidos portugueses.)

Ora, nesse país complicado, os nomes das línguas parecem multiplicar-se, ainda mais do que as próprias línguas.

Antes, um aviso: a lista abaixo é de nomes de línguas — e não, necessariamente, de línguas separadas. Assim, o “catalão” e o “valenciano” são nomes da mesma língua (há quem discorde), tal como os nomes “espanhol” e “castelhano” se referem ao mesmo idioma (e, neste caso, ninguém discorda).

Vejamos, então, 10 nomes de línguas de Espanha (entre outros):

Espanhol. Este é o nome da língua que o mundo conhece como língua de Espanha. Há quem ande por aí convencido que tudo acaba aqui: em Espanha, fala-se espanhol, ponto final. Mas, não…

Castelhano. Um outro nome dado ao espanhol, muito usado em Espanha para distingui-lo das outras línguas espanholas. Em Portugal, há quem use “castelhano” convencido que é muito mais correcto do que o corriqueiro “espanhol”. Noutro local deste blogue, tenta-se explicar a confusão. No fundo, são sinónimos.

Catalão. Este é o nome oficial da língua própria da Catalunha (e de mais uns quantos sítios). Sim, os catalães faltam também espanhol, mas uma grande parte da população tem como língua materna o catalão, falado em várias regiões de Espanha, em Andorra e ainda numa cidade italiana chamada, em italiano, “Alghero” e, em catalão, “L’Alguer”.

Valenciano. Mais a sul, na Comunidade Valenciana, o catalão muda de nome, mas sem deixar de ser a mesma língua. Claro que há uma ou outra pessoa que insiste que é uma língua diferente, porque dá jeito. E não é assim tão difícil criar uma língua própria: um nome, umas regras ligeiramente diferentes, um dicionário, uma academia, uma gramática e temos feito o idioma. Tudo para garantir que não se fala a língua do vizinho de cima.

Lapao. Sigla de “Lengua aragonesa propia del área oriental“. Desde 2013, é este o termo usado pelo Governo de Aragão para designar o catalão falado no seu território (encostado à Catalunha). Porquê? Porque tudo é válido para evitar dizer o nome “catalão”, que é um bicho papão. Sim, há regiões de Espanha com medo do “imperialismo linguístico” das outras regiões. Quem tem menos medo do catalão goza com este termo usando a risível abreviatura “lapao”. Parece que para o Governo de Aragão, mais vale falar lapao que catalão.

Aranês. Esta é uma das línguas da Catalunha. No fundo, é outro nome para a língua occitana, falada no sul de França. Lá chegaremos, em boa hora, no futuro deste blogue (espero).

Basco. Esta é a língua misteriosa que ali se esconde em redor dos Pirenéus e que não se sabe muito bem donde vem. Não é, sequer, uma língua indo-europeia e, assim, está na companhia do húngaro e do finlandês como elementos estranhos na paisagem linguística europeia.

Euskera. O nome da língua basca em basco é “euskera” e esse nome é usado muitas vezes mesmo em textos escritos noutras línguas de Espanha.

Galego. A língua nossa vizinha, a mais próxima do português — ou mesmo, segundo muitos, um outro nome para a nossa língua.

Português. Haverá poucos que queiram chamar directamente “português” à língua que os galegos falam (até porque argumentam, e bem, que a língua nasceu dos dois lados do Rio Minho e nunca saiu de Portugal em direcção a norte). Mas já serão muitos aqueles que se atrevem a dizer algo que para os portugueses mais distraídos será uma grande surpresa: o galego e o português serão dois nomes para a mesma língua, com diferenças marcadas, é certo, mas sem que tal implique uma separação insanável. Há mesmo quem diga que o português do Brasil está mais distante do português europeu do que o galego. Não vamos entrar, para já, por aí. Fica para mais tarde. Mas podemos afirmar que, para lá dos nomes e das divisões, o português e o galego estão bem mais próximos do que a fronteira faz crer e, por isso, há também uma língua de Espanha que é um pouco nossa. E daí não vem mal ao mundo.

Para lá destes 10 nomes, há mais: “maiorquino”, “bable”, “aragonês”, “leonês” e há até alguns atrevidos que falam da língua andaluza.

Ora, que lições podemos tirar desta profusão de nomes de línguas?

Antes de mais, é fácil perceber que as línguas são fáceis de criar, pelo menos se acharmos que criar uma língua é dar-lhe um nome. As nossas ideias sobre o que é uma língua ou não é acabam por ser muito mais fluidas do que pensamos — principalmente no território das línguas latinas, muito onde todos os falares fazem parte dum só mundo linguístico. Assim, surgem nomes que para alguns serão nomes da mesma língua, para outros significam algo mais: significam a existência duma identidade separada e, nalguns casos, duma língua separada.

Depois, uma lição sobre a humanidade: a necessidade de marcar a diferença é algo muito humano. Assim, num espaço nacional muito fracturado e onde populam identidades locais, regionais e nacionais para lá da identidade nacional espanhola, é normalíssimo vermos surgir nomes de línguas como cogumelos.

Tudo isto também se aplica a nós, à nossa maneira.

Por exemplo, terá muito a ver com esta necessidade de ver na língua o reflexo simples da nossa identidade que leva a que muitos portugueses não consigam ver o galego como língua irmã do português. Afinal, são os galegos são espanhóis…

Mesmo no que toca ao Brasil, os portugueses, em geral, não estão muito interessados em sublinhar a proximidade. Que os brasileiros chamem à sua língua “português” parece um pouco estranho, mas ainda se aceita. Agora que haja por aí tentativas de pôr tudo no mesmo saco e unificar a língua já parece demais.

Também por aí se explica a facilidade com que tantos portugueses dizem “brasileiro” para designar a língua dos brasileiros, que estes últimos chamam “português” sem mais.

Tudo isto porque a língua serve para comunicar, mas serve também (e muito) para marcar a nossa identidade. Goste-se ou não, convém não esquecer esta característica do ser humano.

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