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O que fazer quando um país tem várias línguas?

https://www.flickr.com/photos/mpd01605/3809855101

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Pensem em países com várias línguas: por exemplo, a Espanha e o Canadá.

O que se faz nestes casos?

Bem, em Espanha, uma das línguas é considerada a principal. As outras são brincadeiras lá das regiões. Os bascos, catalães e galegos podem falar as suas línguas, mas têm o dever (constitucional) de aprender a língua nacional. Nada contra esse dever, mas o contrário não acontece: os que falam castelhano estão safos de aprender outra língua de Espanha que não seja a sua.

No Canadá, as duas línguas são ensinadas a todos e usadas a nível federal. São consideradas ambas línguas nacionais e a ambas é dada a dignidade de Estado que leva a que o primeiro-ministro canadiano fale também em francês quando vai aos E.U.A. (vejam o seguinte vídeo, a partir do minuto 9:40).

Repare-se que até Obama diz «Bonjour» logo no início.

Agora imaginem Mariano Rajoy a falar em galego numa visita de Estado ao México (seria uma situação comparável, se virem bem). Imaginem ainda o presidente do México a dizer umas palavras em galego (ou em catalão) por entender ser essa uma das línguas do país do visitante…

Sim, é muito difícil imaginar tal cena. Cairia o Carmo e a Trindade (ou a Gran Vía e Cibeles).

Sim: é difícil, mas por algum motivo acho a solução canadiana mais justa e mais estável…

Pode ser que um dia a Espanha se lembre de dar a todas as suas línguas a mesma dignidade, por mais absurdo que isso possa parecer aos falantes monolingues de espanhol. Mas seria um passo de gigante para criar uma Espanha onde os sentimentos dos seus cidadãos pudessem conviver de forma mais confortável.

Respondem alguns: ora, o espanhol é muito mais útil do que o catalão! Por que razão haveríamos de lhe dar a mesma dignidade e ensiná-la a outros espanhóis?

Ora, porque nisto das línguas nacionais a utilidade de cada uma não é o mais importante. Afinal, o francês é falado por 20% dos canadianos e é, por isso, menos útil do que o inglês. Mas que importa isso? É a língua de parte dos canadianos e isso é reflectido no valor igual que lhe é dado a nível federal.

É verdade que em Espanha há mais línguas do que no Canadá e que o caso canadiano está longe da perfeição (e que o francês tem um prestígio internacional que ajuda muito). Mas todo este problema linguístico de Espanha tem também a ver com uma certa atitude do Estado — e alguns pequenos passos seriam importantíssimos. Por exemplo: Espanha podia não proibir o uso das línguas de muitos espanhóis no parlamento que os representa… Nem estou a falar de incentivar. Estou a falar de não proibir.

ADENDA

Duas notas, na sequência de comentários que recebi ao artigo:

  • José Negro e Enrique Granados lembraram-me, no Facebook, que é possível falar noutras línguas no Senado espanhol e já foi permitido (como excepção…) usá-las no Congresso. Até Espanha se move, o que é bom. Mesmo assim, tendo em conta os milhões de cidadãos que falam outras línguas em Espanha, estamos longe da situação canadiana.
  • Várias pessoas lembraram duas coisas: que o Canadá tem outras línguas a que não dá a mesma dignidade e que mesmo Portugal tem outra língua. Hei-de falar do assunto de novo, em relação a Portugal (e talvez ao Canadá). Fica o assunto em suspenso, até muito em breve, espero. Digo apenas (não consigo resistir) que devemos olhar para a vontade política das comunidades que falam as línguas.

Viagem pelas línguas da Europa (1): Andorra

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Há pessoas que gostam de olhar para o chão e explicar-nos que rochas temos por baixo dos nossos pés. Os professores de geologia, por exemplo.

Gosto de os ouvir — tal como gosto de ouvir quem explica as subtis diferenças arquitectónicas, jurídicas ou artísticas dos vários países e regiões da Europa.

Eu é mais línguas, como sabem. E, por isso, quando viajo, acabo por reparar nas palavras que encontro à minha volta pelas ruas deste nosso continente.

Assim, atrevo-me a isto: vamos dar uma voltita por essa Europa e falar um pouco das línguas que vemos nas ruas.

Não se esqueçam que um dos prazeres de viajar é reparar, ver de novo, aprender alguma coisa. E nada melhor para nos ajudar a viajar melhor do que ler (nem que seja um simples blogue de línguas e tradução).

Vamos a isto!


Comecemos por dar um salto por cima da Península Ibérica. Porquê? Não é certamente por ser paisagem linguisticamente pouco interessante. Muito antes pelo contrário: é dos espaços mais interessantes nesta matéria. Mas, por isso mesmo, deixemo-la mais para o fim.

Damos um salto por cima, mas não saímos da península: aterramos num vale pirenaico, no belíssimo e riquíssimo Principado de Andorra.

Antes de continuarmos, deixem-me que vos diga: há quem arranque cabelos com os erros mais ou menos reais que saem da língua dos outros. Pois eu arranco cabelos quando alguém fala de Andorra como se fosse parte de Espanha.

Não: Andorra não é parte de Espanha.

Andorra é um país independente, membro da ONU, com Governo, Parlamento, Constituição, bandeira e por aí fora.

Tem, isso sim, um chefe de Estado sui generis: o Príncipe de Andorra são duas pessoas.

Quem?

O bispo de Urgell (localidade que fica na vizinha Catalunha) e o Presidente da França.

Antes que comecem a dizer que, por isso, não podemos dizer que se trata de um país, lembrem-se que o Canadá também tem como chefe de Estado a rainha do Reino Unido, tal como a Austrália e mais uns quantos países. Afinal, a Rainha da Jamaica chama-se Isabel II! Quer isso dizer que a Jamaica não é um país? Bem me parecia.

Voltando ao terceiro país ibérico… Os andorranos não são cidadãos espanhóis nem franceses: são andorranos, ponto final.

Muito bem: já vimos que Andorra é um país. Mas, que língua se fala por lá? É verdade, já estamos a falar há não sei quantas linhas e ainda não chegámos ao que aqui nos trouxe.


Pois bem, no que toca às línguas, comecemos pelo mais fácil — e simultaneamente mais curioso.

Andorra não tem como língua oficial o espanhol e muito menos o francês.

A língua oficial de Andorra é uma só: o catalão.

Exacto, a língua oficial de Andorra é uma língua que alguns portugueses julgam ser um dialecto.

Ora, se a diferença entre dialecto e língua é bem mais discutível do que se pensa, a verdade é que dificilmente podemos considerar o catalão um dialecto do espanhol, por todas as razões e mais algumas: evoluíram directamente do latim, têm diferenças significativas de estrutura e vocabulário, tanto o espanhol como o catalão têm dicionários, gramáticas e por aí fora.

Mas sobre tudo isso falaremos mais tarde, quando voltarmos à nossa península.

Agora, basta dizer que Andorra tem essa única língua oficial — e que por isso a TVC (televisão regional da Catalunha) gosta de transmitir os discursos do primeiro-ministro de Andorra na ONU, porque é a única oportunidade que têm de ouvir o catalão num grande fórum internacional…


Se a língua oficial é o catalão, qual é a situação na rua? Que línguas se falam no dia-a-dia.

A situação, claro está, é bem mais difícil de explicar do que dizer qual é a língua oficial.

Na rua ouve-se muito espanhol (uma grande parte da população é espanhola) — tal como também se ouve muito português (uma grande parte da população é portuguesa).

Na zona mais chegada à França (Pas de la Casa), ouve-se também muito francês.

E nas escolas?

Nas escolas públicas, a língua do ensino é o catalão.

Nos notários, tribunais, etc., a língua é o catalão.

E entre os cidadãos andorranos, também se fala catalão.

Haverá muitas misturas, muitas situações complexas, o que é natural num pequeno país encravado entre França e Espanha (e, do lado espanhol, o que temos é a Catalunha, com a sua situação linguística peculiar).

É aborrecido? Nem por isso. Quem por lá vive não parece queixar-se muito.

Em resumo: quem ande pelas ruas de Andorra com os ouvidos bem abertos irá ouvir catalão, espanhol, francês, português e mais umas quantas línguas (até o galego, veja-se bem).

"Església de Sant Esteve (Andorra la Vella) - 8" by MARIA ROSA FERRE ✿ - Flickr: Esglèsia romànica Sant Esteve, Andorra la Vella. Licensed under CC BY-SA 2.0 via Wikimedia Commons.Església de Sant Esteve (Andorra la Vella) – 8” by MARIA ROSA FERRE ✿Flickr: Esglèsia romànica Sant Esteve, Andorra la Vella. Licensed under CC BY-SA 2.0 via Wikimedia Commons.


Proponho-vos então que, da próxima vez que forem a Andorra, reparem nas línguas.

Reparem na estranha sonoridade da língua de quem é mesmo andorrano.

Reparem como nas caixas de multibanco aparece a bandeira de Andorra (ou da Catalunha) a assinalar a língua principal (e o espanhol e o francês aparecem como opções, tal como o inglês).

Reparem em que língua estão escritas as placas da estrada.

Reparem, no fundo, nessa língua estranha e quase invisível aos olhos portugueses que é o catalão, única língua oficial de Andorra.

(Podem começar pela fotografia que encabeça este artigo: reparem na “Farmàcia” no canto inferior direito. Reparem no “Crèdit Andorrà“. Reparem no “Servei 24 hores“. Eis a língua catalã…)


Ora, deixem-me ainda contar-vos que foi nesse país minúsculo do outro lado da península que comecei a ficar obcecado pelo mundo das línguas. Estávamos em 1993…

Bem, isto já vai longo. Conto-vos mais tarde…

Esta viagem há-de continuar!

Cinco palavras francesas de origem portuguesa

Já andámos na senda das palavras portuguesas que foram roubadas pelos ingleses, pelos espanhóis, pelos japoneses

Hoje é dia de vermos cinco exemplos (entre muitos outros) de palavras francesas que tiveram origem por estas bandas, os chamados lusitanismes:

  1. Albatros. Curiosamente, tal como em inglês, o nome francês deste pássaro tem origem portuguesa. Lembra-nos as viagens marítimas de antanho, quando os Portugueses descobriram pássaros e plantas… [Nota: ver comentário abaixo de Fernando Venâncio.]
  2. Bambou. Uma dessas plantas foi esta mesma, o bambu. Lá trouxemos o nome da planta e emprestámo-lo aos franceses, que apenas se atreveram a substituir o nosso “u” pelo “ou” deles.
  3. Baroque. Algum tempo depois dessas descobertas que nos trouxeram tantas palavras novas, estávamos já embrenhados em construir igrejas deste estilo cujo nome emprestámos ao povo que, entretanto, começou a ser a luz das elites portuguesas…
  4. Caste. Por falar de extractos sociais, temos as castas. Também essa palavra emprestámos aos franceses, provavelmente por termos andado a descobrir o caminho marítimo para o país onde estas são parte da vida.
  5. Fétiche. E, por fim, este fenómeno curioso: esta palavra francesa que nós importámos tem, por sua vez, origem portuguesa (vem de “feitiço”). As palavras são assim, andam sempre a vadiar…

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