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O que fazer quando um país tem várias línguas?

https://www.flickr.com/photos/mpd01605/3809855101

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Pensem em países com várias línguas: por exemplo, a Espanha e o Canadá.

O que se faz nestes casos?

Bem, em Espanha, uma das línguas é considerada a principal. As outras são brincadeiras lá das regiões. Os bascos, catalães e galegos podem falar as suas línguas, mas têm o dever (constitucional) de aprender a língua nacional. Nada contra esse dever, mas o contrário não acontece: os que falam castelhano estão safos de aprender outra língua de Espanha que não seja a sua.

No Canadá, as duas línguas são ensinadas a todos e usadas a nível federal. São consideradas ambas línguas nacionais e a ambas é dada a dignidade de Estado que leva a que o primeiro-ministro canadiano fale também em francês quando vai aos E.U.A. (vejam o seguinte vídeo, a partir do minuto 9:40).

Repare-se que até Obama diz «Bonjour» logo no início.

Agora imaginem Mariano Rajoy a falar em galego numa visita de Estado ao México (seria uma situação comparável, se virem bem). Imaginem ainda o presidente do México a dizer umas palavras em galego (ou em catalão) por entender ser essa uma das línguas do país do visitante…

Sim, é muito difícil imaginar tal cena. Cairia o Carmo e a Trindade (ou a Gran Vía e Cibeles).

Sim: é difícil, mas por algum motivo acho a solução canadiana mais justa e mais estável…

Pode ser que um dia a Espanha se lembre de dar a todas as suas línguas a mesma dignidade, por mais absurdo que isso possa parecer aos falantes monolingues de espanhol. Mas seria um passo de gigante para criar uma Espanha onde os sentimentos dos seus cidadãos pudessem conviver de forma mais confortável.

Respondem alguns: ora, o espanhol é muito mais útil do que o catalão! Por que razão haveríamos de lhe dar a mesma dignidade e ensiná-la a outros espanhóis?

Ora, porque nisto das línguas nacionais a utilidade de cada uma não é o mais importante. Afinal, o francês é falado por 20% dos canadianos e é, por isso, menos útil do que o inglês. Mas que importa isso? É a língua de parte dos canadianos e isso é reflectido no valor igual que lhe é dado a nível federal.

É verdade que em Espanha há mais línguas do que no Canadá e que o caso canadiano está longe da perfeição (e que o francês tem um prestígio internacional que ajuda muito). Mas todo este problema linguístico de Espanha tem também a ver com uma certa atitude do Estado — e alguns pequenos passos seriam importantíssimos. Por exemplo: Espanha podia não proibir o uso das línguas de muitos espanhóis no parlamento que os representa… Nem estou a falar de incentivar. Estou a falar de não proibir.

ADENDA

Duas notas, na sequência de comentários que recebi ao artigo:

  • José Negro e Enrique Granados lembraram-me, no Facebook, que é possível falar noutras línguas no Senado espanhol e já foi permitido (como excepção…) usá-las no Congresso. Até Espanha se move, o que é bom. Mesmo assim, tendo em conta os milhões de cidadãos que falam outras línguas em Espanha, estamos longe da situação canadiana.
  • Várias pessoas lembraram duas coisas: que o Canadá tem outras línguas a que não dá a mesma dignidade e que mesmo Portugal tem outra língua. Hei-de falar do assunto de novo, em relação a Portugal (e talvez ao Canadá). Fica o assunto em suspenso, até muito em breve, espero. Digo apenas (não consigo resistir) que devemos olhar para a vontade política das comunidades que falam as línguas.

Por que razão o galego é invisível para os portugueses?

desencontros-página001 (2)Na sexta-feira passada, estive no Centro Cultural Galego a falar sobre a a invisibilidade do galego para os portugueses. Esteve comigo o José Ramom Pichel, que falou sobre o encaixe da Galiza entre Espanha e Portugal, e ainda Isaac Lourido, professor de galego e responsável pelo Centro de Estudos Galegos da FCSH/NOVA. A conversa foi animada, com boa disposição e muitas perguntas.

Quero agora deixar aqui algumas notas sobre o que disse por lá.

Parti deste estranho fenómeno: na Galiza, discute-se se o galego e o português são ou não a mesma língua. Por cá, muitas pessoas nem sequer conseguem distinguir o galego do espanhol.

Para muitos de nós, o galego é invisível.

Comecei por contar episódios a que assisti e que mostravam essa invisibilidade do galego aos olhos de alguns portugueses. Não vale a pena contá-los de novo (até porque já contei alguns deles neste blogue). Basta, agora, dizer-vos isto: no final da sessão, alguém do público perguntou em que língua José Ramom Pichel tinha falado, provando à saciedade como o galego pode ser invisível para os portugueses. Reparem: a pessoa em questão estava interessada no galego e não estava, de forma alguma, de pé atrás perante estes fenómenos. Simplesmente, tinha dificuldade em distinguir o galego do castelhano.

Mas donde vem esta dificuldade sentida por tantos portugueses?

Tenho algumas ideias, que deixo aqui como pistas (deixo de lado duas razões importantes: a distracção e o desinteresse de muitos).

O galego apresenta-nos sinais que o associam ao espanhol

Nós não andamos para aí com óculos de linguista. Assim sendo, não andamos a separar línguas e a distinguir falares com precisão. Resultado? Agarramo-nos a certos sinais, a pistas que nos indicam o que está escrito numa língua e o que está escrito noutra. Para um português, as marcas do espanhol são letras e sílabas como ñ, ll, -ción, etc.

Que os galegos tenham esses sinais todos na sua ortografia oficial pode ser azar ou outra coisa, mas é uma realidade. E, assim, perante essas pistas todas, facilmente caímos na esparrela de achar que o galego é espanhol — somos todos detectives linguísticos muito amadores.

Isto, na ortografia. No ouvido, podemos não ter sinais ortográficos, mas temos entoações e sons que associamos ao espanhol. Também aí se cria confusão. O galego tem uma relação íntima com o português, mas tem diferenças: e essas diferenças são muito visíveis, porque notamos mais facilmente o que é diferente do que aquilo que é comum quando olhamos para qualquer realidade que consideramos estrangeira. É o nosso tribalismo a funcionar…

Mas também é verdade isto: às vezes o galego aproxima-se tanto que cai para o cesto do português. Já aqui contei o caso do meu sogro, que ouve a TV Galiza e percebe que, em muitos casos, não está perante falantes de espanhol. Percebe que aquilo é mais português. É como se o galego estivesse ali na corda bamba: ou bem que cai para o lado do espanhol, ou bem que cai para o lado do português.

Vemos o mundo com óculos nacionais

Ora, se está na corda bamba, há muitas tendências nossas que nos fazem empurrá-lo para o lado do espanhol.

Uma dessas tendências é esta: a nossa forma de ver países e línguas está muito marcada pelo nacionalismo.

Muitos dirão: «Nacionalista, eu?». Ora, pois claro. Desde pequenos que somos ensinados a olhar para o território, para a História e para a língua pela lente da nossa nação — e da mesma forma olhamos para o território, para a História e para a língua das outras nações sem duvidar do que nos disseram, desde sempre e para sempre.

Num país como Portugal, onde não se escondem outros pulsares nacionalistas, esta visão não tem grande mal. Pode ser uma visão cheia de mitos, misturados com factos e muitas emoções, mas é a base da comunidade política que somos.

Entre nós, esta visão nacional está associada à língua. Ora, olhamos para Espanha e achamos que tem de ser tão simples como nós: se é um Estado, é uma Nação. Se é uma Nação, fala uma Língua (sim, as maiúsculas são de propósito).

Ora, quando falamos das outras línguas de Espanha, ficamos sem saber o que pensar. Aliás, depois de décadas em que Espanha e Portugal transmitiam uma imagem bem simplista de si próprios, temos tendência para achar que o basco, o catalão e o galego são invenções dos últimos tempos. Ainda há uns anos ouvi quem se queixasse do «novo nome» da ilha de La Toja. Agora chamam-na de A Toxa. Que desplante! Tal como é desplante dizer que a famosa La Coruña agora é A Coruña.

Mesmo que até saibamos o que se passa, não ligamos muito. Olhamos para Espanha como uma nação mais uniforme do que o é na realidade. Desvalorizamos as diferenças entre as regiões espanholas e valorizamos aquilo que distingue Espanha, no seu conjunto, de nós mesmos (ai, o peso da História). E isto também tem impacto na forma como ouvimos as várias línguas de Espanha.

Tanto é assim que o galego, que tem uma relação íntima com a nossa língua, é posto no cesto do espanhol. Não nos convém pensar em relações mais íntimas com uma região de Espanha. Porque de Espanha nem bom vento nem bom casamento (de línguas). Não é assim?

Não gostamos que nos sujem a simplicidade do mundo: em Espanha, há espanhóis. E espanhóis falam espanhol. Para quê complicar?

A situação linguística em Portugal é anormalmente pacífica

Ora, para lá do molde bipolar que temos na cabeça, a verdade é que, em geral, os portugueses não estão atentos às questões relacionadas com o uso de várias línguas no mesmo território, seja ele Espanha ou outro país qualquer.

Afinal, Portugal é dos raros estados onde ninguém questiona o lugar da língua nacional enquanto língua oficial.

Não há debates sobre que língua deve ser usada no sistema de ensino. Não há debates sobre que língua devemos usar no sistema de justiça — e por aí fora.

Assim, os portugueses têm uma especial dificuldade em analisar situações sócio-linguísticas complexas. É-nos difícil compreender que no mesmo espaço convivam várias línguas e estamos longe de nos apercebermos das estranhas dinâmicas que essa convivência implica.

Quando vamos à Galiza e temos pessoas que falam galego ao lado de quem fala espanhol, quando temos placas e publicidade nas duas línguas, claro que ficamos baralhados e tendemos a categorizar tudo da forma mais fácil: se está em Espanha, é espanhol.


De Óscar (xindilo/fotosderianxo) - originally posted to Flickr as Norte e sur, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10784361

De Óscar (xindilo/fotosderianxo – originally posted to Flickr as Norte e sur, CC BY-SA 2.0.

Dividir as línguas como dividimos os países é aquilo que podemos chamar de «simplismo confortável». Ora, estes simplismos (que aparecem em muitos sítios) são muito resistentes. Afinal, são confortáveis. Depois, o nosso cérebro repara mais naquilo que confirma aquilo que julga saber do que nas pistas que contradizem as nossas ideias. Assim, é difícil partir estes moldes bipolares onde enfiamos as línguas da Península.

Para quem se interessa por línguas, é inacreditável como muitos não vêem o que é óbvio — mas todos temos ideias simplistas sobre este ou aquele assunto. Não vale a pena cair no outro simplismo confortável de achar que o mundo se divide entre nós, espertíssimos, e os outros, muito burros. Todos nós somos mais ou menos ignorantes em assuntos que para outros são essenciais. Todos nós temos um ou outro ângulo morto e não vemos fenómenos bem visíveis para as outras pessoas.

Dito isto, gostava de ajudar a curar esta cegueira linguística que aflige mesmo quem é interessado nestas questões. Gosto de mostrar as línguas escondidas que estão mesmo ao nosso lado, a começar pelo galego.

Mas porque acho importante curar esta cegueira? Afinal, que nos interessam as confusões linguísticas dos espanhóis? Para lá da curiosidade que é sempre saudável, digo-vos isto: pelo galego passa a história da nossa língua. Ignorá-lo é ignorar muito de nós próprios.

Galego: uma língua invisível (e um pouco de Tetris)

É já na sexta-feira: no Centro Cultural Galego, em Lisboa, vou falar sobre o «Galego: língua invisível». Comigo vai estar José Ramom Pichel, que irá falar sobre a «Galiza, essa peça de Tetris linguístico». Fomos convidados pelo Centro de Estudos Galegos da FCSH/NOVA.

Se os títulos parecem estranhos (língua invisível? Tetris?), têm uma solução: apareçam por lá, ali perto do Campo dos Mártires da Pátria.

Acho que não se vão arrepender.

Quando? Sexta-feira, 4 de Março, às 19h00.
Onde?
Centro Cultural Galego, Rua Júlio de Andrade, 3 (perto do Campo dos Mártires da Pátria).

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Os portugueses, na Galiza, gostam de falar espanhol?

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Suso Moinhos deixou este comentário no artigo anterior, que trago aqui para cima por ser delicioso:

…E quando vierem à Galiza, falem galego, não permitam que se repitam situações como esta:

-Buenos dias, aonde tenemos que ir para encontrarmos el museu X?
-Bom dia. Para chegarem ao museu continuem até a praça e depois virem à esquerda.
-O senhor é português?
-Não, sou…
-Então é brasileiro? Angolano?
-Sou daqui, sou galego. Portanto, sou lusófono.
-Ah, usted es espanhol…! Muntchas grácias.

Couto Misto: um pequeno país entre Portugal e a Galiza

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Conversas proibidas em dia de eleições

A conversa começou na viagem de Ponte de Sor para Lisboa, ali pelo início da tarde de domingo, com uma certa pressa para chegar a tempo de votar.

Era normal que o assunto fossem as eleições. Íamos a ouvir a rádio e as notícias sobre uma qualquer personagem política que teria dito isto ou aquilo que podia ser ou não interpretado como apelo ao voto. A CNE lá interveio, como tinha de ser — ou não.

Perguntávamo-nos, por essas estradas alentejanas fora, em direcção ao sul (sim, há uma grande parte do Alentejo que fica a norte de Lisboa!): por que razão é preciso impedir a campanha durante o dia das eleições? Sim, eu sei que é normalíssimo em Portugal e já nos parece para lá de discutível, mas pensem lá: qual é o problema de falar de política no dia das Eleições? Que vantagem nos traz?

A única razão que me ocorre é esta: é bom dar uma certa solenidade ao acto e, talvez, manter uma certa ilusão de imparcialidade entre todos os envolvidos nos actos eleitorais. Tirando isto, não sei o que vos diga. Porquê, Deus meu, havemos de estar calados sobre aquilo que estamos a fazer naquele preciso momento? Será que se eu for votar e disser: «VOU VOTAR EM X!» estou a interferir nos direitos dos meus concidadãos? Em que sentido? Se durante as duas semanas anteriores não se fez outra coisa, porque não podemos fazer isso mesmo nesse dia?

Dizem-me: é preciso reflectir. Que seja. Mas à força? Não podemos reflectir na cama? Com auscultadores? Ou até no meio da rua? Será que a coisa funciona assim: os portugueses recolhem todas as informações, fecham-se então em casa e comparam notas no dia anterior ao acto eleitoral. Será isso? Não, não é. Não sendo, para quê uma lei destas?

Como usar países minúsculos para contornar a lei

Ora, mas nada disto interessa agora. O que interessa é ver como as conversas são como as cerejas, lá diz o lugar-comum e eu confirmo. Pois estávamos a falar destas regras estranhas e lembrei-me que, em Espanha, reparei num jornal que contornou todas estas proibições de forma genial.

Como o El Periódico de Catalunya tem uma edição andorrana (El Periòdic d’Andorra), nesses dias de defeso eleitoral, as suas edições espanholas apresentam uma ligação em letras garrafais para a edição andorrana. Os leitores seguem a ligação e, na versão andorrana, têm acesso a todas as sondagens e informações sobre as eleições espanholas, sem qualquer limitação.

Porquê? Porque, claro, Andorra é um país independente, que não tem de seguir a lei espanhola. Grande finta a essas leis estranhas.

São as vantagens de ter um micro-país encostado à fronteira. França também usa de tais vantagens: não só consegue que o seu mui republicano presidente se inclua na lista dos monarcas do mundo (precisamente por causa de Andorra), como ainda usa o Mónaco para ter uma família real muito sua, mesmo sendo o mais republicano dos países. República, sim, revistas cor-de-rosa também!

(França tem historial nesta mistura estranha entre republicanismo radical e laivos de monarquia a assomar à superfície: afinal, o seu primeiro presidente da República (com esse título exacto) foi também o último monarca. Estranhamente, foi primeiro presidente e só depois imperador. Confusões.)

O pequeno país encavalitado entre Portugal e a Galiza

Pois bem, a conversa lá continuou, já estávamos lá para os lados de Coruche. E eu lembrei-me: bem, Portugal também teve um desses micro-países fronteiriços até 1868: o Couto Misto.

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Couto Misto. Fonte: Wikipédia.

Sim, é difícil definir tal território como «país», mas o certo é que se governava a si próprio e não fazia parte nem de Portugal nem de Espanha.

São curiosidades da história e dessa fronteira que é das mais antigas da Europa, mas não deixou de ter ali uma ou outra correcção nos últimos séculos…

Diga-se, de passagem, que este pequeno «país» desapareceu num século em que ainda era possível haver territórios onde o conceito de «país» não tinha assim tanta importância.

Logo a seguir, veio o século XX, com a sua fúria de fronteiras.

Mas que língua se falaria por lá?

A pergunta mais interessante de todas e que nunca me tinha ocorrido fez-me a minha mulher, nessa viagem até Lisboa: mas afinal que língua se falava nesse tal Couto Misto?

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Meaus, no antigo Couto Misto

Eu, sempre virado para essas coisas da língua, nunca tinha pensado nisso.

Mas é, claro, a primeira pergunta que qualquer português faria, perante esta informação desconcertante de que havia um pequeno país na nossa fronteira — um pequeno país entre Portugal e Espanha ou bem que fala português ou bem que fala espanhol, certo?

Na realidade, até ao século XIX, talvez não fosse difícil encontrar gente que falava apenas e só galego nas aldeias da zona. Nas aldeias portuguesas, seria quase impossível encontrar quem falasse português-padrão. Nesse tal Couto Misto todos falariam o falar da zona e tão estranho seria o cobrador de impostos que lá aparecesse a falar espanhol madrileno como aquele que aparecesse a falar português de Lisboa (ou mesmo do Porto). Provavelmente, não aparecia nem um nem outro, pois se há vantagem em não ser nem espanhol nem português, a principal será essa: não pagar impostos.

Voltando à língua. Aposto que, por esses recantos minhotos, dum lado e do outro da fronteira — e ainda mais nesse Couto Misto —, a população rural e pouco alfabetizada falaria mais ou menos a mesma coisa.

Dum lado, todos diriam falar português, do outro, diriam galego — mas a língua seria, mesmo bem entrado o século XIX, mais ou menos a mesma.

O que diriam no Couto Misto (que não era nem dum lado nem do outro), não sei: mas o que falavam seria esse galego-português, língua sem fronteira que se visse (ou melhor, que se ouvisse).

Também aposto que um português de hoje, transportado num qualquer DeLorean para essas aldeias oitocentistas, juraria a pés juntos que a língua que ouvia dos habitantes do tal «país» era galego — mas o mesmo diria de muitas aldeias portuguesas ali encostadas à fronteira.

No que toca à geografia social, estávamos longe do Porto, das escolas, das universidades, dos jornais… Ainda mais longe estávamos de Lisboa, claro está. No que toca ao tempo, estávamos ainda muito longe do país que vai quase todo à escola, que ouve rádio e vê televisão.

Falamos de aldeias perdidas em serranias distantes, encavalitadas em fronteiras a que se dava bem menos importância do que hoje. Estamos a falar doutro tempo — e por esses tempos ainda havia gente que podia falar uma língua sem saber bem se era galego ou português.

Incrível, não é?

As dez línguas de Portugal

É provável que seja uma surpresa para muitos, mas os linguistas não se entendem sobre o que responder à pergunta: «Quantas línguas existem no mundo?»

Na cabeça de muitas pessoas, a coisa parece simples: cada país tem uma língua, com uma ou outra excepção que pouco importa, e por isso basta contar os países.

A verdade é que as excepções são tantas que o difícil é encontrar um país que siga essa suposta regra.

Por exemplo, na Europa, parece-me que só a Islândia é um país que só fala uma língua, língua essa que é exclusiva desse mesmo país. Tudo o mais são misturas, remendos e falares a cavalgar fronteiras.

Bem: não vamos discutir a questão a fundo, que estamos no fim do ano e há outras coisas em que pensar.

Mas podemos, só para nos despedirmos de 2015 neste blogue, olhar para as línguas de Portugal. É um país que muitos apontam como um exemplo de monolinguismo, em contraste, por exemplo, com Espanha, esse caldo de línguas e nomes de línguas.

A verdade é que, mesmo se usarmos o mais apertado dos critérios para contar línguas, em Portugal temos duas línguas nativas: o português e o mirandês, que é reconhecido oficialmente desde há uns anos.

Ora, mesmo as fronteiras destas duas línguas são difíceis de definir: será que o português e o galego são a mesma língua? Será que o mirandês é apenas uma variedade duma língua maior (o leonês — ou asturiano)?

Perante estas complexidades, podemos optar por ser brutalistas: isso não interessa nada e o que eu digo é que é.

Se formos por aí — como muita gente vai — nem o mirandês interessa. É um dialecto do português, ponto final. Catalão? Manias pós-modernas. Galego? Espanhol um bocado aportuguesado. Basco? Grunhidos que ninguém entende.

Ah, a beleza do mundo visto à bruta…

A quem assim pensa, digo, com um sorriso: «Olhe que não, olhe que não…»

Do lado oposto estão aqueles que encontram línguas debaixo de qualquer pedra.

O Ethnologue, um catálogo de línguas muito interessante, parece estar mais perto destes últimos que do lado dos brutos. E ainda bem — embora às vezes exagerem um pouco.

Senão, vejam bem: o site encontra dez (!) línguas em Portugal! (E nem sequer incluíram o inglês algarvio.)

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Sem mais delongas, apresento-vos as 10 línguas do nosso país (que muitos ainda acham ser um país de um só idioma):

  1. Português. Ah, a nossa língua, a última flor do Lácio, nas palavras de Olavo Bilac (não, não estou a falar do cantor — e, já agora, essa de ser a última não é bem assim). Já falámos muito da formosa língua portuguesa neste blogue e, por isso, não vale a pena bater agora nesta tecla. Só duas notas: é oficial há muito tempo (embora não há tanto tempo como se pensa) e há quem lhe chame galego — mas essas provocações ficam para outro dia.
  2. Língua Gestual Portuguesa. Não me venham com os argumentos brutalistas de que isto não é uma língua ou, então, que é português, mas em gestos. Não! É uma língua a sério e nem sequer tem muito a ver com o nosso português oral. Por exemplo, enquanto portugueses e brasileiros se entendem em português (tem dias), os surdos brasileiros usam uma língua gestual muito diferente. Da mesma forma, a língua gestual portuguesa pouco tem a ver com a espanhola — se quisermos entender isto doutra maneira, não se pode dizer que seja uma língua latina. As relações entre as línguas gestuais são outras e cada uma tem um vocabulário, uma gramática e ainda regionalismos e ainda dicionários e normas. Pasmem agora: esta língua é referida pelo nome na nossa constituição (algo que nem o mirandês consegue).
  3. Mirandês, essa língua falada por uns quantos milhares de pessoas ali, num canto do país… Sei que há muitos que não percebem para que serve preservar à força um falar antigo e, segundo eles, inútil, mas, já agora, conto-vos uma história: há uns anos, passou pelas minhas mãos um projecto de tradução de inglês para mirandês pedido por um cliente japonês. O mundo é estranho. E sabiam que podemos ler Pessoa em mirandês?
  4. Cabo-verdiano (ou «kabuverdianu»). Um dos filhos do português (e por isso digo que a nossa língua já não pode ser considerada a última flor do Lácio). No dia-a-dia, chamamos-lhe crioulo (que, no fundo, não é o nome da língua, mas antes o tipo de língua). O cabo-verdiano tem regras como qualquer língua, vocabulário próprio e que já começa a ter alguns dicionários e gramáticas — no entanto, ainda não é oficial em Cabo Verde. Em Portugal, é falado por imigrantes e portugueses de origem cabo-verdiana. (Diz o Ethnologue que o número de falantes em Portugal chega a 200 000 pessoas. Não confirmo nem desminto.)
  5. Barranquenho. Este falar alentejano, ali espetado quase no meio da Andaluzia, até já foi estudado por um grande linguista: José Leite de Vasconcelos. Por isso, respeitinho. Enfim, muitos associam a terra a confusões tauromáquicas, mas, como vemos, é também um município com uma língua própria (não se arrepiem de lhe chamar isso mesmo). Confesso que eu, a fazer esta lista, não incluiria o barranquenho, pelo menos assim à primeira vista. Mas quem sou eu?
  6. Minderico. Esta é uma língua curiosa, falada ali no meio da Serra de Aire e Candeeiros. Começou como código secreto para que comerciantes comunicassem sem que ninguém percebesse. Com o andar dos anos, transformou-se num falar usado por muita gente, em todos os contextos sociais, nessas comunidades serranas. Muitos acharão um excesso para lá do razoável incluir este falar numa lista de línguas. Mas noto que está no Ethnologue e que até tem um código ISO próprio.
  7. Caló português. Esta é a língua de muitos ciganos, que terá uma base portuguesa e muito vocabulário proveniente do romani. Segundo o Ethnologue, é falada por umas 5000 pessoas, em Portugal, e está relacionada intimamente com o caló espanhol, o caló brasileiro, o caló catalão, e por aí fora.
  8. Romani. Esta é a língua indo-iraniana de muitos ciganos europeus. Se a maior parte dos ciganos portugueses falarão em caló (quando não estão a falar em português, claro está), diz o Ethnologue que há umas 500 pessoas a falar romani em Portugal. Ou seja: temos portugueses que falam uma língua aparentada com o persa. Curioso, não é?
  9. Galego. Prova de que a divisão entre o galego e o português tem muito que se lhe diga, o Ethnologue acha que há zonas de Portugal, ali encostadas à fronteira, que falam galego. Não sei o que lhes diga, embora compreenda a indecisão: a fronteira linguística entre Portugal e a Galiza é muito porosa. Muito mais do que alguns portugueses imaginam. Olhando para o mapa do site (acima), parece que o português transmontano é considerado galego, sem mais. Não sei se será prudente dizer isto a algum falante do galego transmontano, mas tudo bem.
  10. Asturiano. Da mesma forma, também não sei por que razão o Ethnologue põe o asturiano como língua de Portugal. Afinal, o asturiano tem um nome próprio por estas bandas: é o mirandês e ninguém se chateia com isso. Será que consideram um dos dialectos do mirandês como «mirandês padrão» e outro — talvez o sendinense? — como asturiano? Sim, meus caros: o mirandês tem vários dialectos. E esta, hein?

Há línguas piores do que outras?

grammarOlhando para a lista acima, que diferença entre as primeiras e as últimas, não é?

O português é uma língua internacional, oficial em vários países e plasmada em séculos de literatura e de codificação em gramáticas e dicionários. Já o português gestual é uma língua reconhecida pela constituição.

Descemos a lista e temos o romani, uma língua falada por poucas centenas de nómadas, e o sendinense, um dialecto de uma língua que muitos acham ser ela própria um dialecto.

Mas, ao contrário do que pensam algumas pessoas, tanto as primeiras como as últimas podem ser considerados línguas completas e podem expressar todas as experiências do ser humano.

A diferença de valor entre todas estas línguas não está na qualidade intrínseca do próprio idioma, mas no prestígio, no reconhecimento oficial e no seu uso. Claro que a falta do uso leva a um vocabulário mais pobre, mas isso resolve-se rapidamente. A estrutura da língua em si, essa, não limita ninguém e pode ser tão complexa e rica no português como no romani — ou no sendinense. Da mesma forma, podemos falar de forma atrapalhada, obscura e cheia de hesitações em português ou em minderico — e podemos ser claros e directos em qualquer uma destas línguas.

Não quer isto dizer que seja igual aprender sendinense ou aprender português: se eu dissesse tal coisa, seria bom que me dessem uma martelada na cabeça (com um martelo do S. João, para não aleijar). O que digo é só isto: o valor de cada língua vem do uso social dessa língua, do número de falantes com quem podemos conversar, dos livros que podemos ler, da relação emocional que estabelecemos com essa língua (já vimos por este blogue que a língua também é forma de marcar a identidade) — e por aí fora. O valor da língua não está nas características dessa língua.

Digo isto porque há quem julgue haver línguas mais limitadas, diria mesmo defeituosas, que não permitem expressar tudo o que uma pessoa pode querer expressar. Ora, isso é um mito: os limites de quem fala e escreve estão na experiência, no talento e na memória de cada pessoa e não na língua que fala.

Tudo para vos dizer que todas estas línguas podiam, quisesse o acaso e a história do mundo, transformar-se em grandes línguas internacionais e de cultura. Não é impossível que o minderico venha a ser a grande língua de comunicação do mundo inteiro daqui a uns 300 anos. É mais improvável do que eu ganhar o Euromilhões cem vezes seguidas, mas não é impossível.

Reparem: o inglês, a língua de maior prestígio a nível mundial, passou por séculos em que era desprezado por qualquer pessoa que quisesse ser alguém na vida — os nobres falam francês normando e essa era a língua de valor.

Também o português, como temos visto, já foi um falar rústico duma região remota.

Não basta olhar para uma língua para saber o que o futuro lhe reserva. Não há línguas melhores ou piores: há, sim, línguas com mais ou menos sorte — ou com falantes mais ou menos teimosos.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

História Secreta da Língua Portuguesa

Capítulo 2. A missão secreta de Tiago na capital dos Visigodos

Ainda não chegámos ao tempo de Camões — estamos longe, mas ainda o havemos de encontrar aos murros pelas ruas de Lisboa — nem sequer ao tempo de Afonso Henriques (no próximo episódio, saberemos que língua falava o nosso primeiro rei). Mas continuamos, muito tempo antes, a tentar perceber donde apareceu a língua deles — deles e nossa, claro está.

Ainda temos muitos séculos de caminho.

Se bem se lembram, no primeiro episódio olhámos para esses tempos em que os celtas começavam a aprender latim. Aproveitámos para conhecer os Contreiras.

Uns seiscentos anos depois, temos ainda gente dessa família a viver mais ou menos nos mesmos sítios.

MADRID SAN LORENZO DEL ESCORIAL MONASTERIO-BIBLIOTECA-COLECCION DET-CODICE ALBENDENSE MOZARABE-CONCILIO DE BRAGA EN EL 561-F 209 V- OBISPO HIDACIO ESCRIBE CRONICA

Teodomiro, rei suevo da Galiza, no século VI.

Estamos no século VII. O Império já caiu, os bárbaros já chegaram.

Entretanto, foi criado o Reino dos Suevos, também chamado Reino da Galiza, com capital em Braga.

Também esse reino desapareceu, integrado no Reino dos Visigodos, que veio a ter a capital em Toledo.

Estamos no coração da Idade das Trevas — mas esse nome fomos nós, gente do futuro, que lhe demos.

Para as gentes dessa altura, estes eram dias tão coloridos como os de hoje, com gente a tentar viver o melhor  possível, com a história a passar nas estradas e nas crises e nas dificuldades de cada pessoa e de cada família…

LEIA O RESTO DA HISTÓRIA NO LIVRO
A INCRÍVEL HISTÓRIA SECRETA DA LÍNGUA PORTUGUESA.

O português do Brasil é falso?

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No Facebook, numa partilha deste artigo em que critico a aversão aberta ao português do Brasil, alguém opta por chamar abertamente «xenofobia» a essa aversão.

Um outro comentador discorda, dizendo (negrito meu):

Talvez a pessoa que utilizou essa palavra nao a tenha aplicado com o sentido de xenofobia… talvez esteja revoltada pelo facto do português brazil estar a tomar conta do verdadeiro português… talvez porque hoje em dia vem tudo PTbr e não em PTpt….talvez a parte do acordo ortográfico que aproxima mais o português do português br…. enfim… coisas que nao deviam ser assim pois o português é de Portugal….

Parece-me ser este um caso do «erro de confirmação». A pessoa acha que hoje em dia vem tudo em português do Brasil. Ora, os programas de televisão infantis são praticamente todos dobrados em português de Portugal. Já é raro vermos produtos em português do Brasil. Nem as telenovelas são hoje brasileiras (pelo menos, na sua maioria). Quanto à língua em si, estamos cada vez mais afastados uns dos outros no que importa (com ou sem acordos). Ou seja, não estamos a ser invadidos.

Mas, claro, quem acredita nisso vai olhar apenas para o que confirma a sua crença: se encontrar um produto que seja com embalagem em «brasileiro», pronto, está o caldo entornado.

Adiante. O mais curioso do comentário é essa ideia do «verdadeiro português»… Parece ser natural aos portugueses achar que o português verdadeiro é nosso e os brasileiros falam uma língua menor, um português falso.

Por exemplo, ainda há uns dias, na TVI, ouvi dizer que Carlos do Carmo pôs uma plateia do Rio de Janeiro a cantar em português. Foi preciso um fadista para pôr os cariocas a cantar na sua própria língua? É isso? Segundos depois, a jornalista diz alto e bom som que «Carlos do Carmo ensina a cantar em bom português.» Percebi, então. Os brasileiros falam português, mas falam mal.

As coisas são um pouco menos fáceis do que pensamos. Nem os portugueses inventaram, um lindo dia, a língua portuguesa, nem os brasileiros passaram a falar uma língua estrangeira no dia em que declararam a independência.

Primeiro, a língua que Estado português adoptou já existia, embora sem nome nem identidade própria (como aprendi na aula de Fernando Venâncio de que vos falei há tempos). Da mesma forma, a língua que o Estado brasileiro adoptou já existia. Neste caso, a língua já tinha nome — nome que o Brasil decidiu manter, sem que daí viesse mal ao mundo.

Como em tudo na vida, as coisas são como são e o português de lá e o português de cá foram mudando. Nenhum deles se deturpou e nenhum deles se manteve puro e imaculado. Mudámos todos. Uma coisa parece-me certa — dificilmente as várias variantes do português se aproximarão de novo, naquilo que de facto importa: o vocabulário, as expressões, a sensação de comunidade linguística.

Dito isto, faz-me imensa confusão essa recusa mental de muitos portugueses em ler e ouvir português do Brasil. Continuamos a poder ler qualquer texto brasileiro sem grandes dificuldades, o que me parece de aproveitar — tal como também é de aproveitar a invisível proximidade com o galego. Não nos limitemos tanto. Convém ter força e ser um pouco menos tribal, mesmo que o tribalismo linguístico seja algo tão natural como a guerra.

Agora, a pergunta final: será que o português do Brasil já se distanciou tanto dos primos ibéricos (galego e português de Portugal) que merece um novo nome? É uma bela discussão e não sei o que acontecerá nas próximas décadas. Mas, para já, os brasileiros chamam à sua língua «português» e nós não nos devíamos incomodar tanto com isso. 

Sim, a língua em que a plateia de Carlos do Carmo cantou foi português: a sua própria língua, vejam lá.

O espanto do galego: e se de repente encontrasse uma língua quase igual ao português?

Sabem aquele caso do passageiro que encontrou um sósia no avião?

O homem ficou espantadíssimo e a foto do momento correu mundo. Ora vejam:

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Ora, parece-me que não seria menor a surpresa de alguns portugueses se atentassem com ouvidos de ouvir na língua dos nossos vizinhos do norte.

Vejam esta canção, cantada pelo grupo Luar na Lubre e que encontrei no sempre interessantíssimo mural de Facebook de Fernando Venâncio.

Claro que quem sabe as voltas que a língua deu percebe perfeitamente que o português e o galego vêm do mesmo sítio e tiveram ali muitos séculos de unidade que só muito recentemente se quebrou (se é que se quebrou).

Quem nunca pensou nisso e ouve, de repente, o galego, pode ficar com a estranha sensação que há uma região de Espanha que anda a tentar falar português. A surpresa será parecida com a do homem da foto, mas talvez com menos risos, que isto de unidades entre diferentes povos da península põe muitos portugueses com a irritação à flor da pele.

Não é caso para isso. O português e o galego estão muito mais próximos do que imaginamos, mas não precisamos de ir a correr encontrar uma solução política à medida dessa proximidade. Os galegos já têm a sua boa dose de dores de cabeça à volta da questão. Fiquemos nós, calmos, surpreendidos com a língua galega e talvez um pouco mais atentos aos vizinhos do norte.

Afinal, ficaremos a perceber melhor donde vem a nossa própria língua se nos deixarmos de complexos e sorrirmos ao ouvir essas palavras galegas, que são tão nossas. Ficaremos também maravilhados com as diferenças, que são deliciosas.

Porque a Galiza não é o nosso país de que fala a canção, mas haverá poucos povos a quem o nuestros hermanos com que apodamos os espanhóis se aplique tão bem. E até podemos dizer isso mesmo em português: nossos irmãos. Eles percebem.

O português, o galego e o japonês

JAPONESES

Uma das partilhas do artigo sobre «10 nomes de línguas de Espanha», onde também falo um pouco do português, mereceu este comentário da leitora Manuela Amaral, no Facebook:

O português como língua independente fez recentemente 800 anos. Galego é galego, português é Português! Quase me apetece dizer que, então, o japonês é português dado as inúmeras palavras portuguesas que os japonês tem. Este artigo é tendencioso e falacioso.

Curiosamente, no tal artigo «tendencioso e falacioso», nunca digo que o galego e o português são a mesma língua. Tentei ser muito cuidadoso. Escrevi apenas que «há quem diga» isso. Ora, é um facto que «há quem diga isso» — concorde-se ou não com essa opinião.

Aliás, basta abrir aquela que é, provavelmente, a mais conhecida gramática da nossa língua (Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra) para vermos mapas onde a área de língua portuguesa inclui a Galiza…

Mapa incluído na Nova Gramática do Português Contemporâneo.

Mapa incluído na Nova Gramática do Português Contemporâneo.

No meu artigo, digo ainda que o galego e o português são duas línguas mais próximas do que muitos portugueses pensam. Será isso tendencioso? Não me parece — mas admito que para quem não conhece bem a relação próxima entre o galego e o português, aludir a essa proximidade possa parecer estranho.

Bem mais tendencioso é dar a entender que a relação entre o português e o galego é comparável à relação entre o português e o japonês só porque o japonês tem alguns vocábulos de origem portuguesa.

Olhemos para as línguas em concreto para vermos como o português e o galego estão, de facto, muito próximos. (Vamos olhar para a ortografia; no que toca à sonoridade das línguas, já aqui falei sobre como soa o galego aos ouvidos portugueses.)

O galego é escrito, actualmente, com várias ortografias. Uma delas, a oficial, está mais próxima do castelhano, mas mesmo neste caso torna-se bastante óbvia a proximidade com o português.

Este pequeno parágrafo (da Wikipédia galega) está escrito na ortografia oficial:

Os nomes “Galiza” e “Galicia” derivan da palabra latina Gallaecia (ou Callaecia), que significaba literalmente “terra dos galaicos”. Callaecia “A terra dos Callaeci”, de *kallā- “madeira” co sufixo complexo local -āik-. Máis tarde tornouse Gallicia, actual Galicia ou Galiza. Os galaicos (en latín: Gallaeci, en grego: Καλλαϊκοί) foron o pobo máis numeroso do noroeste da Península Ibérica xa antes da súa integración ao Imperio Romano no século I a.C, aínda que algúns autores consideran que en orixe o termo “galaico” era empregado para denominar unha pequena tribo ao norte do río Douro; sexa como for, este nome acabou por denominar todo un grupo étnico de lingua celta e culturalmente homoxéneo, situado entre omar Cantábrico e o río Douro.

Ora, é possível usar uma ortografia bem mais próxima do português — a ortografia reintegracionista. Esta é usada por vários autores e websites galegos. Veja-se este parágrafo, retirado de uma entrevista a Valentim Fagim:

A Internet é o grande germe normalizador do século XXI, bem como as redes sociais. Em 2015, os 99% dos contactos com o galego internacional são fruto de um clique. Quantas pessoas galegas nas redes sociais não têm um «amigo» ou seguem ou são seguidos por uma pessoa lusógrafa?

Achará mesmo a leitora que ficou incomodada com a minha referência à proximidade das línguas que, mudando um pouco a ortografia do japonês, este fica quase igual ao português?

Não vou usar o truque baixo de citar aqui um texto em japonês… Todos percebemos que estamos a falar de realidades e de distâncias completamente diferentes.

Enfim, sendo assim, porque terá tido a leitora necessidade de criticar a simples alusão ao facto de haver pessoas que afirmam ser o galego e o português a mesma língua com nomes diferentes? Atrevo-me a sugerir que o mundo das línguas latinas está cheio deste medo de sermos confundidos com os outros precisamente porque são todas línguas com um elevado grau de proximidade. O tal medo é tão forte que — pelos vistos — chega a haver portugueses com receio que o galego represente uma ameaça à nossa identidade.

Dizer que o galego e o português estão muito próximos não é um ataque nem à nossa identidade nem à história da nossa língua. Bem pelo contrário: compreender a relação muito próxima entre o português e o idioma da Galiza dá-nos uma visão bem mais completa e rica do percurso e da força da nossa língua.

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