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Línguas, livros e outras viagens

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O que fazer quando um país tem várias línguas?

https://www.flickr.com/photos/mpd01605/3809855101

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Pensem em países com várias línguas: por exemplo, a Espanha e o Canadá.

O que se faz nestes casos?

Bem, em Espanha, uma das línguas é considerada a principal. As outras são brincadeiras lá das regiões. Os bascos, catalães e galegos podem falar as suas línguas, mas têm o dever (constitucional) de aprender a língua nacional. Nada contra esse dever, mas o contrário não acontece: os que falam castelhano estão safos de aprender outra língua de Espanha que não seja a sua.

No Canadá, as duas línguas são ensinadas a todos e usadas a nível federal. São consideradas ambas línguas nacionais e a ambas é dada a dignidade de Estado que leva a que o primeiro-ministro canadiano fale também em francês quando vai aos E.U.A. (vejam o seguinte vídeo, a partir do minuto 9:40).

Repare-se que até Obama diz «Bonjour» logo no início.

Agora imaginem Mariano Rajoy a falar em galego numa visita de Estado ao México (seria uma situação comparável, se virem bem). Imaginem ainda o presidente do México a dizer umas palavras em galego (ou em catalão) por entender ser essa uma das línguas do país do visitante…

Sim, é muito difícil imaginar tal cena. Cairia o Carmo e a Trindade (ou a Gran Vía e Cibeles).

Sim: é difícil, mas por algum motivo acho a solução canadiana mais justa e mais estável…

Pode ser que um dia a Espanha se lembre de dar a todas as suas línguas a mesma dignidade, por mais absurdo que isso possa parecer aos falantes monolingues de espanhol. Mas seria um passo de gigante para criar uma Espanha onde os sentimentos dos seus cidadãos pudessem conviver de forma mais confortável.

Respondem alguns: ora, o espanhol é muito mais útil do que o catalão! Por que razão haveríamos de lhe dar a mesma dignidade e ensiná-la a outros espanhóis?

Ora, porque nisto das línguas nacionais a utilidade de cada uma não é o mais importante. Afinal, o francês é falado por 20% dos canadianos e é, por isso, menos útil do que o inglês. Mas que importa isso? É a língua de parte dos canadianos e isso é reflectido no valor igual que lhe é dado a nível federal.

É verdade que em Espanha há mais línguas do que no Canadá e que o caso canadiano está longe da perfeição (e que o francês tem um prestígio internacional que ajuda muito). Mas todo este problema linguístico de Espanha tem também a ver com uma certa atitude do Estado — e alguns pequenos passos seriam importantíssimos. Por exemplo: Espanha podia não proibir o uso das línguas de muitos espanhóis no parlamento que os representa… Nem estou a falar de incentivar. Estou a falar de não proibir.

ADENDA

Duas notas, na sequência de comentários que recebi ao artigo:

  • José Negro e Enrique Granados lembraram-me, no Facebook, que é possível falar noutras línguas no Senado espanhol e já foi permitido (como excepção…) usá-las no Congresso. Até Espanha se move, o que é bom. Mesmo assim, tendo em conta os milhões de cidadãos que falam outras línguas em Espanha, estamos longe da situação canadiana.
  • Várias pessoas lembraram duas coisas: que o Canadá tem outras línguas a que não dá a mesma dignidade e que mesmo Portugal tem outra língua. Hei-de falar do assunto de novo, em relação a Portugal (e talvez ao Canadá). Fica o assunto em suspenso, até muito em breve, espero. Digo apenas (não consigo resistir) que devemos olhar para a vontade política das comunidades que falam as línguas.

O estranho caso do português que pensava que sabia inglês

Não sei se já alguma vez o meu caríssimo leitor ouviu falar do mais hilariante livro alguma vez publicado sobre a língua inglesa. Foi escrito por um português!

Antes que comece a inchar o peito com orgulho pátrio, convém dizer isto: o tal português não queria escrever um livro hilariante. Queria escrever, isso sim, um livro que ensinasse inglês. Só que se esqueceu dum ponto importante: aprender primeiro a falar a língua!

Sim, Pedro Carolino escreveu um livro sobre como falar inglês sem saber falar inglês.

O livro tem, hoje em dia, o título English As She Is Spoke. Foi várias vezes publicado no Reino Unido e nos Estados Unidos como livro de humor. Mas a primeira edição (O novo guia da conversação em portuguez e inglez) era uma tentativa genuína de ensinar inglês… sem saber inglês!

mark-twain-391120_1280É preciso talento! Ou muita lata. (Atrevo-me a dizer que essa lata ainda hoje existe, como descrevi neste texto sobre as traduções para inglês…)

O certo é que o livro foi um sucesso. Pedro Carolino teve a honra de ser insultado por Mark Twain, que chamou o autor português de «honest and upright idiot». Não é para todos.

Querem um exemplo do hilariante texto? Aqui vai:

The fishing.

That pond it seems me many multiplied of fishes. Let us amuse
rather to the fishing.
I do like-it too much.
Here, there is a wand and some hooks.
Silence! there is a superb perch! Give me quick the rod. Ah! there
is, it is a lamprey.
You mistake you, it is a frog! dip again it in the water.

«You mistake you!»

Pode encontrar o texto completo aqui. Pode ainda dar uma espreitadela no artigo da Wikipédia sobre o livro.

Os erros falsos (outra vez)

Falei-lhe de Pedro Carolino por uma razão. Já lá vamos.

Antes, pergunto-lhe a si, leitor deste blogue (se já o é há algum tempo): consegue enumerar os temas de que escrevo por aqui?

Línguas, claro.

Alguma literatura.

Umas outras manias pessoais.

E a língua portuguesa, pois então.

Dentro da língua portuguesa, gosto particularmente de falar dos erros falsos que por aí andam. Sim, todas as pessoas que se arrogam o direito de inventar regras arbitrárias ou encontrar lógicas falsas na nossa língua para melhor poder acusar os outros de falar mal deixam-me fora do sério. Tento acalmar-me e, depois, explicar como estão errados. Nem sempre consigo, eu sei. Mas tento.

Ainda nos últimos dias, encontrei mais um caso: alguém que dizia que a frase «hoje estaremos fechados» está errada (porque logo a seguir à palavra «hoje» não podemos usar o futuro — pois, pois).

É mais um exemplo a juntar aos outros de que já falei: «terramoto», «queria um café», «saudades tuas», «pelos vistos», «espaço de tempo»…

São tudo palavras ou expressões correctíssimas, muito portuguesas, mas que algumas pessoas se afadigam a condenar, encontrando lógicas absurdas, muito distantes do verdadeiro conhecimento linguístico (que é coisa difícil e para o qual convém ouvir quem trabalha a sério no caso: os linguistas).

Agora, a quem fica arrepiado com a ideia de que algumas destas regras são falsas, faço uma sugestão: leia, para começar, linguistas de outras línguas. Chegue depois aos portugueses.

Porquê? Não será, certamente, por falta de qualidade dos linguistas pátrios. Longe disso. O problema é outro: a questão dos erros falsos e das regras inventadas desperta emoções tão fortes que, às vezes, é mais fácil falar da língua dos outros. Começamos a perceber como estas coisas funcionam sem despertar os nossos próprios demónios nacionais. Depois, já fortalecidos com o bom conhecimento linguístico, podemos abordar a nossa língua sem temores nem palas nos olhos.

Assim, gostava de falar um pouco dos chamados mitos do inglês. Verá que não são assim tão diferentes dos nossos na sua arbitrariedade e inutilidade.

Os erros falsos da língua inglesa

Os linguistas de língua inglesa que explicam bem o mundo da linguagem humana são imensos e escrevem muito bem. Só para nomear alguns: David Crystal; Steven Pinker; John McWhorter — mas há tantos outros…

Todos os que refiro acima já se debruçaram sobre algumas das regras falsas do inglês:

(1) «Não podemos dividir os infinitivos (“split infinitives”).»

Esta regra não aparece em nenhum prontuário ou gramática minimamente respeitável e, no entanto, imensa gente pensa que é verdadeira.

leonard-nimoy-393861_640Sim, segundo estas pessoas, dizer «to boldly go» (como se diz no Star Trek) é um erro terrível. Devíamos dizer «to go boldly». Sim: seguir esta regra leva-nos a escrever frases feias, pouco naturais.

Mas, assim sendo, esta «regra» existe porquê? Porque alguém se lembrou de escrever, há uns séculos, que não devíamos dividir os infinitivos em inglês porque no latim também não se dividem. Claro que não se dividem! Em latim, são uma só palavra. Já em inglês, são duas. Não poder dividir duas palavras porque há línguas em que essas duas palavras são só uma é das coisas mais abstrusamente ilógicas que já ouvi. Mas as lógicas dos profissionais do pânico são de partir o coco a rir.

(2) «Não podemos usar “they” como pronome singular.»

Sim, há séculos que os bons escritores usam o «they» para se referirem a alguém de quem não sabem o sexo. Por exemplo: «Everyone has the right to their safety.»

Muitos dizem que este é um erro terrível — e esta regra, ela sim, ainda aparece como regra de etiqueta em muitos livros respeitáveis. Convém, por isso, ir com cuidado.

Mas, a verdade é que muitos e cuidadosos escritores e oradores usam o «singular they». Foi até considerada a palavra do ano de 2015 pela American Dialect Society.

É uma palavra magnífica porque evita construções sexistas («Everyone has the right to his opinion.») ou atrapalhadas («Everyone has the right to his or her opinion.»).

(3) Há quem defenda que não podemos terminar uma frase inglesa com uma preposição.

Há uma história apócrifa em que Churchill teria dito o seguinte a um revisor que lhe tinha corrigido uma frase a terminar numa preposição: «This is the sort of English up with which I will not put.»

Ou seja, Churchill, com uma frase, teria dado cabo da tal «regra», ao mostrar como segui-la pode dar origem a frases horríveis. Não deu (porque a história é inventada), mas imagino que o único primeiro-ministro laureado com o Prémio Nobel da Literatura saberia bem o que são regras falsas e regras verdadeiras.

Sim, a frase apócrifa de Churchill é horrível porque segue a tal regra falsa. Uma frase mais natural, mas que os paniqueiros do inglês acham ser errada, seria: «This is the sort of English which I will not put up with.»

Qualquer bom escritor inglês acaba muitas frases com preposições. Mas alguns profissionais do pânico acham que não devem. Porquê? Porque fica mal. Na cabeça deles, claro.


Pois é: nenhuma destas regras é regra da língua inglesa. Uma pessoa pode decorar estas manias e continuar a falar pessimamente inglês; da mesma forma que pode não cumprir nenhuma destas regras e falar muito bem.

kids-1093758_1280A força destas regras vem da tradição, da insegurança linguística, de ideias falsas sobre o inglês (por exemplo, a ideia peregrina de que a sua gramática deve seguir o latim…), da falta de conhecimento e da força das regras de etiqueta: quando muita gente torce o nariz a uma palavra ou construção, claro que temos de ter em conta tal opinião generalizada. São manias, pequenas regras de etiqueta inúteis mas que, em certos momentos, têm muita força.

Mas estas regras fazem mal? Fazem mal, sim: dão a falsa sensação de que estamos a falar bem quando as seguimos. Quando, na verdade, falar bem e escrever bem é outra coisa. No fundo, estas regras falsas são uma perda de tempo. São ainda uma forma de levantar barreiras sociais sem qualquer razão. Enfim, já me estou a repetir. Adiante.

O que são, de facto, as verdadeiras regras do inglês?

Os linguistas chamam-lhes «gramática» — não o livro, mas o conjunto de regras que todos os falantes duma língua têm dentro do cérebro, sem conseguir descrevê-las de forma consciente. São regras complexíssimas e com muitas excepções (que, no fundo, são mini-regras ainda mais complexas). São estas as regras que os linguistas procuram e descrevem.

No fundo, as verdadeiras regras do inglês são as regras que Pedro Carolino não tinha aprendido quando escreveu o seu livro. São aquelas regras que aprendemos naturalmente no caso da língua materna, sem grandes lições nem livros (excepto no caso da escrita) — e que nos esforçamos para aprender mais tarde, quando queremos falar outra língua já em adultos.

Qualquer falante nativo de inglês saberia que o texto de Pedro Carolino está errado: todos os falantes têm estas regras na cabeça. Não é preciso manuais de etiqueta ou listas de erros para o saber.

Quer isto dizer que não temos nada a aprender no que toca à nossa própria língua? Claro que temos! Temos de aprender os vários registos, a língua-padrão (que inclui algumas das regras de etiqueta, para o mal e para o bem), a ortografia, estratégias para sermos claros e convincentes — e muito, mas mesmo muito mais. Perder tempo com regras que não existem na língua, impostas por mania ou desconhecimento a falantes inseguros, só nos deixa com menos tempo para falar bem e escrever bem.

Por isso, ingleses, dividam os vossos infinitivos se assim conseguirem dizer melhor o que querem dizer; e, claro, terminem frases com preposições sempre que quiserem. Já nós, portugueses, não podemos dividir os infinitivos, nem costumamos acabar frases com preposições, mas podemos dizer «queria um café», «tenho saudades tuas», «hoje, vou ler um livro»…

Sugestões de leitura

(1) Our Magnificent Bastard Tongue. McWhorter fala da história do inglês e, pelo meio, lá bate mais um pouco nos inventores de regras. Refere, da forma divertidíssima que lhe é típica, o nosso Pedro Carolino.

(2) Far from the Madding Gerund, de Mark Liberman e Geoffrey K. Pullum, linguistas muito respeitados e fundadores do excelente blogue Language Log. A não perder, para quem gosta destes assuntos e de largar uma boa gargalhada.

Sexo obrigatório? (O diabo da tradução está na estrutura das frases…)

grammar

Quando traduzimos entre línguas latinas, a interpretação da estrutura da frase não é o nosso pior problema. Os problemas mais graves são outros: os falsos amigos, as interferências sintácticas e por aí fora.

(A quem está neste momento a perguntar onde raios pára o sexo neste artigo, gostaria de dizer: tende paciência, lá chegaremos.)

Já na tradução de inglês para português, o diabo está mesmo na interpretação da estrutura das frases. O tradutor tem de estar muito atento e perceber mesmo o que está a traduzir: não basta entrar em modo de tradução mecânica, que para isso já temos o nosso amigo Google Translate, que está cada vez melhor a fazer más traduções.

Um exemplo extremo será o caso da tradução de português para inglês da expressão “gestão, operação e manutenção da rede MPLS-TP”. Pode parecer simples, mas um tradutor apanhado num momento mais distraído pode acabar por fazer algo do género:

Management, operation and network maintenance MPLS-TP

Obviamente, uma tradução mais correcta seria:

MPLS-TP network management, operation and maintenance

(“Mas alguém faria um disparate destes?” Sim, eu sei, todos nós achamos sempre que nunca faríamos tão desabrido disparate. Mas não se esqueçam que os tradutores têm de interpretar centenas ou milhares de frases destas por dia. Nem sempre é assim tão fácil…)

Outro caso, desta vez no que toca à tradução entre inglês e português:

European packaging recovery and recycling targets are reviewed every five years.

A leitura em inglês parece fácil. Mas muitos tradutores, numa tradução apressada, podem meter os pés pelas mãos: será que estamos a falar de recuperação de embalagens europeia e objectivos de reciclagem? Ou serão objectivos europeus de reciclagem e recuperação de embalagens?

Uma reflexão rápida permite chegar a conclusões, mas a rapidez com que muitos de nós traduz leva ao disparate (de que ninguém está livre!).

Tradução errada:

A reutilização de embalagens e os objectivos da reciclagem na Europa são revistos a cada 5 anos.

Proposta de tradução mais correcta:

Os objectivos europeus de recuperação e reciclagem de embalagens são revistos a cada 5 anos.

Isto porque a estrutura da frase original, bem interpretada, será algo como

[European [packaging [recovery and recycling]] targets] are reviewed every five years.

e não

[European packaging recovery] and [recycling targets] are reviewed every five years.

Quando a ambiguidade está presente no original, uma boa estratégia será inverter a frase completamente.

Por exemplo:

European banks and indebted countries….

Será que estamos a falar de bancos europeus por um lado e países endividados por outro? Ou será que estamos a falar dos países endividados e bancos — todos eles europeus? Se o original não permitir esclarecer, podemos tentar manter a ambiguidade invertendo toda a expressão:

Os países endividados e os bancos europeus…

Se em vez de “banks” tivéssemos “institutions”, a coisa seria mais complicada, porque teríamos de escolher entre o feminino e o masculino no adjectivo, mas mesmo assim esta solução é útil em muitos casos.

Então e afinal onde está o sexo obrigatório nesta salganhada de más traduções? Ora, este problema da estrutura das frases pode levar a traduções embaraçosas, como aconteceria se um tradutor mais distraído encontrasse este parágrafo de um artigo do The Guardian sobre o sexismo na indústria musical dos EUA:

This week, a tipping point has been reached. Lily Allen launched the video to her comeback single, Hard Out Here, which takes aim at music industry sexism with specific reference to the Blurred Lines video. And three women’s organisations launched the Rewind&Reframe campaign, with a four-pronged strategy: to enable young women to air their grievances about music videos, to campaign for age ratings on videos, to encourage compulsory sex and relationship education in schools, and to pressure the music industry to get its house in order.

Se não interpretarmos bem esta frase (ou se formos tradutores muito perversos) podemos traduzir isto como “encorajar o sexo obrigatório e a educação sobre relações pessoais nas escolas”.

Obviamente, a tradução correcta seria algo como “promover a obrigatoriedade da educação sexual e sobre relações pessoais nas escolas”.

Teríamos ainda de mexer um pouco naquele “sobre” ali enfiado a martelo e nas “relações pessoais” (será essa a tradução certa?), mas já vamos no caminho certo.

Portanto, a interpretação errada da estrutura será esta:

to encourage [[compulsory sex] and [relationship education]] in schools

e a interpretação correcta será:

to encourage [compulsory [sex and relationship education]] in schools

Sim, o título prometia algo mais interessante, eu sei. Mas, mesmo pouco interessante, espero que vos seja útil.

Texto escrito originalmente em Dezembro de 2013 para outro blogue.

O problema das traduções para inglês em Portugal

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Qualquer tradutor irá receber, mais cedo ou mais tarde, uma reclamação. Numa empresa de tradução como aquela em que trabalho, em que temos largas centenas de projectos por ano, mesmo que 99% de projectos corram muito bem, vamos ter sempre algumas dessas mensagens difíceis por ano.

Acontece, claro. Há vezes em que o cliente tem razão e outras em que não tem razão. Como tudo na vida, é complicado.

Ora, isto tudo para vos falar do problema das traduções para inglês em Portugal.

Em geral, as traduções para inglês devem ser feitas por tradutores nativos de língua inglesa. Tendo em conta isto, será estranho pensar que há um grande número de reclamações feitas por clientes portugueses relativas a traduções feitas por tradutores britânicos — e por causa de questões de língua inglesa!

Porquê este fenómeno?

Tal acontece porque (isto é uma teoria minha que mereceria um estudo mais aprofundado), no que toca ao português, os clientes sabem, de facto, avaliar o texto e, assim, reconhecem quando o trabalho está bem feito.

No caso das outras línguas, o cliente sabe que não sabe e, por isso, confia um pouco mais no pobre tradutor.

No que toca ao inglês, o cliente sobrevaloriza os seus próprios conhecimentos e, assim, acaba por avaliar o inglês dos tradutores nativos pelo prisma do seu inglês aprendido em Portugal e num âmbito restrito. Pode ser um inglês óptimo, mas dificilmente será o inglês dum tradutor nativo.

Ou seja, no caso das traduções para inglês, quem gere projectos em Portugal está bem tramado. Os clientes pedem-nos as traduções não porque não se julguem capazes de as fazer, mas porque não têm tempo. Se tivessem, claro que fariam eles próprios o trabalho — e, ui, quão melhores seriam as traduções feitas pelo próprio cliente.

Ora, antes de mais: há um ponto onde os clientes nos levam vantagem óbvia — o conhecimento da terminologia específica da sua empresa. Sim, porque, às vezes, mesmo dentro de cada sub-sub-sub-área da sub-sub-área da sub-área da área técnica em que estamos a trabalhar, encontramos termos diferentes dependendo da empresa. Uma chatice, é o que é.

Solução? Convencer o cliente a ajudar-nos a gerir a terminologia da sua empresa. Por outras palavras: criamos glossários com ajuda do cliente e aplicamo-los nas traduções. Alguns clientes suspiram de alívio. Outros dizem: mas então V. Exas. não sabem  de cor e salteado os termos que usamos aqui dentro? Esta vida de tradutor é animada.

Por outro lado, muitas vezes, aparecem reclamações das traduções para inglês por esta razão: algum colega do cliente lê o trabalho do tradutor e diz ao cliente que ele faria as traduções doutra forma. E, pronto, está o caldo entornado. A terminologia está bem, mas o colega faria doutra maneira. Logo, o tradutor fez um mau trabalho. Devia ter adivinhado a exacta tradução que teria saído da cabeça do colega.

Isto acontece porque:

  • O cliente confia mais no colega do que no tradutor.
  • O cliente tem na cabeça o mais pernicioso mito sobre a actividade de tradução que por aí anda: a ideia profundamente errada de que, para cada frase, só pode existir uma tradução correcta.

Esta ideia parece tão absurda para qualquer pessoa que trabalhe em tradução que nos esquecemos que há muita gente por aí que acredita piamente nisto.

Não me interpretem mal: para cada frase no original, existem muito mais traduções incorrectas possíveis do que traduções correctas. Não vale tudo, muito pelo contrário.

O que vale é isto: dois tradutores diferentes fariam, certamente, duas traduções diferentes — e as duas podem estar correctas (e também podem estar ambas erradas, ou apenas uma delas, claro está).

Ou seja, quando pomos lado a lado um tradutor profissional e um colega do cliente que passou uma temporada em Inglaterra e pedimos aos dois para traduzir um texto, os dois farão duas traduções diferentes. Pode acontecer que ambas estejam correctas. Pode até acontecer que o tradutor tenha feito um mau trabalho — mas é bem provável que o tradutor tenha feito um bom trabalho e o colega do cliente não perceba que lá por usar outras frases em inglês, tal não significa que o tradutor britânico não saiba escrever na sua própria língua.

O que fazer?

Bem, podemos queixar-nos e ficar por aí.

Ou podemos tentar perceber se de facto a tradução tem problemas ou não (é difícil aceitar críticas alheias, mas o tradutor tem de ser honesto consigo próprio).

Quando o erro é do cliente, podemos tentar explicar o que se passa. O cliente pode acabar por nos ajudar — ou revelar-se um mau cliente, o que é sempre bom saber.

De forma mais prática, podemos tentar melhorar todos os dias, o que pode significar adaptarmo-nos às preferências daquele cliente em particular.

Em suma: podemos sempre aprender com os erros: os nossos — e os do cliente.

Que línguas se falam em Gibraltar?

Tinha uns 12 anos quando as fronteiras acabaram na Europa. Não sendo minimamente nostálgico de um tempo em que era preciso passaporte para ir a Badajoz, não deixo de sentir um certo sabor a aventura ao aproximar-me daquelas fronteiras a sério, em que é preciso parar e passar por guardas que nos olham desconfiados.

Ora, a fronteira a sério mais próxima de Portugal é também a fronteira mais pequena do mundo: aquela linha bem marcada entre Gibraltar e Espanha.

Gibraltar sempre me fascinou. Aliás, os países minúsculos são para mim fonte de particular encanto, que agora não consigo explicar sem me alongar demasiado. Não sendo propriamente um país, aquele pedaço de Império Britânico ali ao sol do Mediterrâneo parece uma Inglaterra dos Pequenitos, com África ao fundo.

Pois bem, houve um Verão da minha adolescência em que os meus pais me levaram a mim e aos meus irmãos a passear de carro pelo Sul de Espanha.

Lá fomos visitar essa Inglaterra-ao-Sul, onde entrámos e ficámos parados no semáforo à espera que um avião aterrasse. Ao fundo, o Rochedo, onde se esconde a única espécie de símios da Europa (se exceptuarmos a nossa própria espécie, claro está).

Fiquei desiludido por perceber que os gibratinos conduzem do lado «certo» da estrada. Fiquei, no entanto, maravilhado por estar num território onde se falava inglês, a língua que tinha começado a aprender há pouco tempo.

Fomos comer qualquer coisa e acabámos no McDonald’s, porque turista que é turista não faz ideia onde se come bem em terra estrangeira.

Pus-me na fila para demonstrar ao meu pai que sabia pedir comida em inglês. Ele lá me acompanhou, para ver o que dali saía.

Peço o menu (não me lembro qual) e qual não é o meu espanto quando a senhora me pergunta qualquer coisa numa língua que parecia tudo menos inglês. Perguntou-me: «efodrin?»

Olhei, pasmado. Ela esperava a resposta, impaciente. O meu pai, mais prático e habituado a inglês de rua e menos a inglês da escola, lá me disse: «a senhora está a perguntar o que queres beber».

Exacto. Ela tinha dito «And for drink?», mas com sotaque espanhol carregado.

Fiquei a perceber que as línguas de Gibraltar são um pouco mais complicadas e misturadas do que presumia. Fala-se, oficialmente, inglês, quase todos falam também espanhol e têm ainda aquilo que se pode chamar de língua própria, o llanito.

O llanito é uma forma de falar que não é oficial e consiste, pelo menos à primeira vista, num espanhol com muitas palavras e expressões inglesas à mistura. Certamente terá as suas próprias regras — e há quem defenda a criação duma ortografia oficial. Um exemplo dum texto nessa ortografia proposta:

Soi un fem biliva de ke tolô làngwijez son ìkwol vàlid fomz de komiunikeixon rigadles de kwàntô spìkaz tengan. Er Llanito ê un làngwij avlàu por apròksimetli 20,000 – 30,000 personâ. Er kontènpori Llanito s’iso divèloping durante’r 20f sènchuri n’Hivertà kwando’r lòukol varàieti del’Andalûh (ke lla ‘vìa sìo ìnfluentsd por er Henovêh, la Haketìa etc) se vio stròngli ìnfluentsd pol’Inglêh Vritàniko.

Se usarmos ortografias mais habituais, temos algo como: «Soy un firm believer de que todos los languages…»

(Podem encontrar o original llanito e as traduções em espanhol e inglês neste site.)

Parece uma grande misturada? Não será mais do que o próprio inglês, que no fundo é anglo-saxão misturado com francês normando.

Por outro lado, esta tentativa de dar forma escrita ao llanito não será uma maneira de criar uma língua à força? Talvez. Mas não seria a primeira nem a última vez.

Bem, o certo é que acabei por pedir «water» e a senhora percebeu. E deu-me o troco em libras, o que me deixou maravilhado.

Um novo pronome para a língua inglesa?

grammar

McWhorter (um excelente linguista norte-americano) explica-nos neste artigo (em inglês) como é extraordinariamente difícil mudar os pronomes de uma língua de forma consciente.

Os substantivos e adjectivos mudam constantemente — McWhorter compara-os ao software, que podemos instalar e desinstalar em qualquer computador sem grandes problemas.

Já os pronomes são parte do hardware da língua. Não são imutáveis, mas qualquer mudança demora muito mais tempo.

Não quer dizer que não mudem: o «thou» inglês desapareceu e, no que toca à nossa língua, o «você» substituiu o «tu» no Brasil.

Ora, vem esta discussão a propósito das propostas (que já vêm de há algumas décadas) para criar um pronome neutro na língua inglesa. McWorther discute o «ze», que serviria para nos referirmos a uma pessoa sem que fosse necessário explicitar o género.

Se quiserem perceber o porquê destas propostas, leiam o artigo. Ficarão também a perceber um pouco melhor o porquê de haver tanta gente que usa o «they» ou «their» para se referir a alguém cujo sexo desconhecemos.

Há quem jure que é um erro gravíssimo. Mas talvez não seja bem assim. Leiam, leiam…

Cinco maneiras muito ibéricas de dizer “Amo-te!”

Ora, estamos a chegar ao Dia dos Namorados. Há muitas formas de o comemorar. Há quem aposte num jantar a dois, outros pensam num fim-de-semana num qualquer canto dessa velha Europa e há quem imagine programas inconfessáveis em público.

Uma outra ideia será passear um pouco, sem destino, durante dois ou três dias, por essa Península fora, sem horários e sem grandes planos.

Sim, eu sei, há sempre o perigo de passarmos demasiadas horas dentro do carro. Mas pensem numa cidade como a Corunha, ou Sevilha, ou Toledo ou uma qualquer dessas maravilhas que se escondem a poucas horas das nossas fronteiras — e aventurem-se.

Fica a ideia. Para aguçar o apetite, aqui ficam também cinco maneiras de dizer “amo-te” por essa península fora:

Amo-te!

Sim, começamos pelo nosso muito português “amo-te”. Há quem diga que é pouco sonoro, que até os brasileiros nos ganham aos pontos, apesar de falarem a mesma língua (ou, pelo menos, darem o mesmo nome à língua que falam). Não importa. Se não é sonoro, que se diga em sussurro, ao ouvido, que fica tão bem ou ainda melhor do que gritar esta frase que, bem vistas as coisas, é só para dois.

¡Te quiero!

Ora, os nossos amigos do outro lado da raia parecem mais expansivos. Ou talvez seja um estereótipo. Mas lá que exclamam, ¡exclamam! E ¡querem! Ninguém fica com dúvidas desde impulsivo desejo. Vamos lá ceder à tentação da caricatura e imaginemos um português a dizer ao ouvido “amo-te” a uma espanhola, que lhe responde, bem alto, “pois, eu, meu amor, ¡te quiero!, e é já!”

T’estimo!

Os catalães parecem mais carinhosos, mas talvez seja apenas uma ilusão. Também sabem dizer ¡Te quiero!, claro está. Parece haver muita estima por aqueles lados — e também uns apóstrofes engraçados, nessa língua que, às vezes, aos nossos ouvidos, parece estranhamente próxima, mesmo quando as palavras se afastam da Ibéria e se aproximam do outro lado dos Pirenéus, com verbos como “parlar” e “manjar”. Tudo ilusão: são tão (ou tão pouco) ibéricos como nós.

Maite zaitut!

Andámos pelo amar, pelo querer, pelo estimar. E de repente, como uma pedra no charco, cai-nos esta língua basca, que parece antiga — embora, no fundo, seja tão recente como todas as outras, eternamente renovadas em cada novo falante. Olhamos para estas duas palavras e ficamos com um ponto de interrogação na cabeça: onde está o amor, onde estou eu e onde estás tu? Mas fica-nos esta ideia: mesmo nas línguas mais estranhas, há sempre o amor que resiste, porque é comum a todos nós, humanos.

I love you!

Perguntam agora os mais desconfiados: mas o que é isto? Que invasão anglo-saxónica é esta? Ora, não se esqueçam que, escondido ali na ponta sul da península, temos um pedaço britânico, apesar de tal facto não agradar aos nossos vizinhos peninsulares. É certo que, lá por Gibraltar, mais do que inglês, falam llanito, mas que fique aqui registado este tão amor em tons ingleses. Dizem que o inglês britânico é a nova língua do amor e muitos jovens ibéricos lá dirão, aos ouvidos das suas namoradas, “I love you!” E não precisam de estar em Gibraltar…

Ficam outros amores por dizer: amores mirandeses, araneses, asturianos e de todas as outras variedades que nem nome têm. Não fica por dizer em galego, porque um “amo-te”, assim mesmo, serve bem por aquelas paragens.

Obviamente, dedico este post à Zélia, que já teve direito a ouvir muitas destas formas de dizer a mesma coisa. São as agruras de quem casou com um maluquinho das línguas…

Pode a Câmara do Porto mudar a língua inglesa?

A conta de Twitter de Rui Moreira (presumo que não seja gerida directamente pelo próprio) respondeu a um artigo meu sobre o nome inglês da nossa cidade nortenha.

Diz o Twitter de Rui Moreira:

Respondi:

E podia ter acrescentado: não podemos controlar os nomes que os outros dão às nossas cidades. Seria tão absurdo como os ingleses virem cá exigir que passássemos a dizer “London” e não “Londres” ou os lisboetas começarem a reclamar do estranho nome de “Lisbonne” que os franceses dão à cidade.

A verdade é que compreendo aquilo que a Câmara do Porto está a fazer. O Porto é uma marca, há ali uma variação entre “Porto” e “Oporto” em inglês e convém acertar agulhas para que as campanhas de divulgação tenham mais impacto.

Não são os primeiros a tentar controlar os nomes internacionais das cidades: os ucranianos já tentaram impor o uso internacional do nome “Kyiv” em vez de “Kiev“. Porquê? Porque “Kiev” é o nome russo; se em ucraniano se diz “Kyiv”, o mundo devia seguir o exemplo, porque a Ucrânia já não é soviética. O mundo não está para aí virado (nem sequer como forma de arreliar Putin).

Por vezes, é o próprio nome do país que vem à liça: os generais birmaneses insistem que temos de chamar “Myanmar” à Birmânia — e muita gente cai na patranha. Timor-Leste insiste que o nome do país em inglês é… “Timor-Leste” (nada de “East Timor”). A Costa do Marfim quer que o nome do país seja “Côte d’Ivoire“… em inglês!

Cada uma destas tentativas de controlar os nomes que os outros povos chamam às nossas terras e países terão razões diferentes. Mas a verdade é que o sucesso ou fracasso destas tentativas não depende de qualquer decisão destes governos ou câmaras: depende da vontade (imprevisível) de uma comunidade muito grande de falantes. Há nomes que entram na língua, outros que nem por isso. As razões das línguas são, por vezes, insondáveis.

Voltando ao nome do Porto, julgo que, neste caso, a Câmara levará a melhor, a longo prazo, no que toca ao inglês. Não porque assim o tenha decidido, mas porque os dois nomes (“Porto” e “Oporto”) têm vindo a aproximar-se em frequência de uso. (Em espanhol, não tenho dados para averiguar.)

Ou seja, a Câmara do Porto pouco ou nada pode fazer para mudar a língua inglesa, mas neste caso a língua inglesa até parece inclinada para fazer a vontade à Câmara.

Existem várias línguas árabes?

1. A língua de casa e a língua da escola

A situação linguística dos países de língua árabe confunde-nos: afinal, a língua oficial é o árabe, mas os locais dizem-nos que as diferenças entre os vários árabes são tão grandes como entre as línguas latinas. Se um marroquino conversar com um iraquiano na língua que usa para falar com os filhos, ninguém se entende.

Ora, o que se passa nos países árabes é algo semelhante ao que se passou na Europa durante grande parte da nossa História: as línguas que falávamos em casa eram já formas muito alteradas duma língua comum, mais antiga. No entanto, essa língua comum (o latim) mantinha-se, na sua forma clássica, como língua oficial, transmitida através do ensino, dos governos e da Igreja.

2. E se, nos países latinos, falássemos todos latim?

Se quisermos imaginar uma situação semelhante no presente, podemos imaginar um mundo em que a língua oficial dos vários países latinos continuasse a ser o latim, mas todos falássemos português, galego, espanhol, etc. na nossa vida pessoal.

Todos teríamos sido educados em latim, leríamos jornais em latim, escreveríamos em latim e, provavelmente, nem acharíamos estranho falar uma língua em casa e outra na escola.

Tal como os árabes, também nós comunicaríamos sem dificuldade com italianos, romenos, espanhóis e franceses, usando nesses casos o latim clássico. Entre portugueses, usaríamos o vernáculo português, em toda a sua variedade regional e social. Se nos perguntassem, diríamos que a nossa língua é o latim, ponto final.

Alguns autores mais virados para o povo utilizariam o vernáculo na literatura, haveria um ou outro programa de rádio na língua informal, mas os tribunais, as televisões, o governo, tudo isso seria em latim. Talvez um político ou outro usasse o português para bater mais fundo no coração do povo.

3. Diglossia: A Tale of Two Languages

A situação nos países árabes é aquilo a que os linguistas chamam diglossia: uma situação em que duas línguas ou dois dialectos coexistem numa mesma sociedade, mas são usados em contextos sociais diferenciados.

É o que acontece, por exemplo, na Suíça de língua alemã, onde o alemão oficial é usado em muitas situações formais, mas todos falam entre si, fora dessas situações formais, em suíço-alemão (uma língua bastante diferente). A situação consegue ser complexa a este ponto: é possível que um professor universitário use o alemão quando está a dar uma aula, mas passe a usar o suíço-alemão quando está a conversar, em privado, com os alunos.

Muitos dirão: então, mas o suíço-alemão não é um dialecto? Na realidade, chamarmos língua ou dialecto àquilo que se fala em casa não quer dizer muito: o que conta é haver uma forma oficial muito diferente daquilo que se fala em casa.

Na prática, todas as línguas sofrem um fenómeno parecido, em maior ou menor grau: o português formal (e o português escrito) não é igual ao português informal (bem mais variado e rico, para dizer a verdade). No Brasil, esta diferença é ainda mais marcada.

4. Os árabes falam todos árabe(s)

Voltando aos países árabes: o que temos é uma língua oficial comum, com uma longa literatura, transmitida pelo sistema de ensino e usada na escrita e uma série de variadíssimos dialectos ou línguas orais (chamemos-lhe o que quisermos).

A comunicação entre todos está garantida pela aprendizagem da língua oficial, mas as línguas em que as mães falam com os filhos já são outras.

Apesar disso, a população não considera a situação anormal: é tão natural como, para um português, usar palavras da sua terra quando vai visitar os avós. A designação de árabe abrange não só a língua clássica e o padrão oficial (o árabe moderno padrão, que já não será o puro árabe clássico), mas também todos os vários árabes coloquiais.

A resposta à pergunta “que língua fala?” será sempre “árabe”, mas por trás temos esta estranha e intrigante situação.

5. E o inglês? Será o novo latim?

Agora, uma pequena provocação: não será que, por toda a Europa, o inglês é hoje o que o latim foi um dia? Não sendo oficial, serve, em muitos casos, para a comunicação oral entre falantes de línguas maternas diferentes. Será que estamos a caminhar para uma situação diglóssica entre o inglês e cada uma das outras línguas europeias?

O português é a terceira língua europeia mais falada no mundo

Se quisermos achar um campeonato das línguas em que o português fica no pódio, é este: o campeonato das línguas europeias com mais falantes em todo o mundo.

Sim, é verdade: falamos a terceira língua europeia mais falada no mundo (as duas primeiras são o inglês e o espanhol, cuja posição relativa é controversa: é difícil saber qual das duas é mais falada).

Ficamos, assim, com o nosso orgulho um pouco mais inchado, falantes desta língua mundial só ultrapassada por duas outras línguas no mesmo continente.

O problema, claro, é que este campeonato interessa pouco: o português é muito falado no mundo, mas o centro de gravidade está bem no interior da América do Sul, onde está rodeado por territórios de língua espanhola.

Além disso, como podemos ver olhando para os dois primeiros lugares, o facto de o espanhol e o inglês estarem empatados não significa que o espanhol tenha uma importância igual à do inglês no que toca à comunicação internacional.

Ou seja: sim, somos a terceira língua europeia mais falada, mas o segundo lugar está mesmo ali ao lado a ofuscar-nos. Além disso, se o campeonato for o das línguas mais faladas na Europa, descemos por aí abaixo, até uma posição bem perto da do catalão.

Mas não desanimem: na realidade, estes campeonatos interessam pouco. Afinal, grande parte dos catalães podia dizer alto e bom som que fala espanhol e prefere sublinhar a sua língua própria, pouco falada no mundo (e na Europa), mas muito sua. O mesmo se passa com tantas línguas por esse mundo fora: os luxemburgueses falam todos alemão e francês e mesmo assim optaram por defender e tornar oficial o luxemburguês (sem perder as outras duas línguas, que dão muito jeito por aqueles lados).

E, claro, nem os espanhóis querem trocar de língua para poderem ficar em primeiro lugar num qualquer campeonato de egos linguísticos, nem nós nos passaria pela cabeça trocar o português pelo espanhol em prol da comunicação internacional. As línguas são mais do que um instrumento de comunicação.

Mas afinal a comunicação não é importante? Claro que é! Fiquemos contentes por ter oito países com os quais podemos comunicar em português (e convém não esquecer a Galiza) e, para o resto, façamos o mesmo que os outros países: aprendamos línguas, que só nos faz bem.

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