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O soldado romano, a rapariga celta e outros escândalos

nature-184391_1920Vamos então viajar no tempo, à procura da origem da nossa língua. A nossa primeira paragem será nesses tempos em que ainda não havia romanos na nossa península. Já por cá tinham passado fenícios, gregos e todos os outros povos de que ouvimos falar na escola – mas romanos? Ainda não.

Nesse tempo, ali na zona noroeste da Península Ibérica, onde hoje encontramos a Galiza e o Norte de Portugal, viviam povos celtas, que falavam línguas que hoje não conseguimos reconstruir. Talvez a melhor forma de ter uma vaga ideia de como seriam esses falares seja olhar para as línguas celtas que ainda hoje existem, por exemplo na Irlanda, no País de Gales e na Escócia.

Talvez. Porque, para dizer a verdade, a única certeza que temos é que essas línguas desapareceram – não sem deixar alguns vestígios…

(Este é o primeiro capítulo do livro A Incrível História Secreta da Língua PortuguesaA primeira versão do texto foi publicada neste blogue no dia 14 de Dezembro de 2015. O livro foi publicado em Janeiro de 2017 pela Guerra e Paz, com revisão de Inês Figueiras.)

O Império Romano chega ao fim do mundo

Queria agora que imaginassem uma família celta em particular: os Kontebria – ou Contreiras.

Muitos séculos depois, alguns deles ainda vivem na mesma zona, em redor de Braga, entre Guimarães e Tui. No século antes do ano 1, esses Kontebria eram celtas, da tribo dos Galécios, em território onde o Império Romano ainda não chegara.

Ana e Rui Contreiras – perdoem-me o anacronismo dos nomes, mas é mais fácil contar a história assim – são um jovem casal, que se conheceu num mercado ao pé de Braga. Vivem em Citânia de Briteiros e são muito celtas, muito jovens e muito ruivos – como era comum entre os Galécios. Têm uma religião antiga, que os cristãos viriam a chamar pagã. Aquele casal, luminoso e um pouco malandro, prefere adorar o deus Lug, o deus do Sol, que lhes ilumina a pele enquanto se beijam, entre juras de amor na sua língua, ao pé dum riacho qualquer ali para os lados de Guimarães.

Um dia, chegam à aldeia os primeiros rumores das legiões romanas a rondar a zona. Ana está grávida do primeiro filho e, como todas as mães, fica um pouco preocupada. Ouvem-se rumores, é certo – mas será só quando, três anos depois, já têm dois filhos em casa que o brilho das armaduras imperiais surge nas ruas daquela terra. Estamos a falar do fim do mundo, dos cantos mais recônditos da Europa. O Império demorou a chegar a estes recantos – mas chegou.

A população passa por tempos duros de saques e violações: guerra é guerra, mesmo para os civilizados Romanos. Ana, Rui e os filhos escapam ao pior. Ficam escondidos uns tempos na casa duns primos, perto do que viria a ser Braga.

Quando voltam, já o Império se instalou, para não mais dali sair durante muitos séculos.

Os Romanos trazem com eles documentos escritos numa língua que os Celtas não compreendem: o latim da escrita. Ora, este é um latim que nem os soldados falam. Como sabem, o latim clássico tinha palavras como equus, enquanto o latim popular tinha palavras como caballum. Eram duas línguas próximas, mas não exactamente iguais. A verdade é que não foi o refinado latim dos escritores romanos que deu origem à nossa língua. Foi, pelo contrário, a língua dos soldados e do povo, uma língua que ninguém escrevia e muitos desprezavam.

Foi desse falar pouco sofisticado que surgiu o português – mas tenhamos calma que o caminho ainda será longo.

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A língua de casa e a língua da rua

Dois anos depois da chegada das primeiras tropas, com Ana a amamentar um terceiro filho, a população da terra já se desenrasca a comunicar com os invasores.

Os Romanos dizem umas palavras em celta só para se fazerem entender e os Galécios aprendem a falar esse latim de rua – primeiro só umas palavras, depois frases inteiras e, em breve, já conversam sem muita dificuldade.

Tudo é natural: se pensarem bem, os seres humanos comunicam com mais facilidade do que julgamos – para aprender a falar uma língua, não é preciso aulas formais e muitos anos: a melhor maneira é mesmo ter necessidade ou muita vontade. E gente com quem conversar, claro está. Vejamos, agora, o que acontecia na casa de Ana e Rui. Falam todos, entre eles, na língua de sempre, que hoje já não conhecemos: a tal língua celta sem nome.

Na rua, todos falam cada vez mais latim. Não só os soldados e os colonos, mas os próprios celtas, quando, por exemplo, compram e vendem alguma coisa. Afinal, os soldados e colonos ricos são bons clientes.

A população torna-se bilingue sem dificuldade.

*

Uma má notícia: o terceiro filho de Ana e Rui acabou por morrer, como era tão normal nesses tempos. A família junta-se toda ao pé da porta do casal. Chegam-se dois soldados romanos.

– O que é que estes querem? – pergunta o pai de Rui ao filho, que chora abraçado a Ana.

– Tem calma, pai! – O que se passa aqui? – grita Cláudio, um oficial romano que vem a liderar a ronda de três homens.

Marta, uma tia de Ana, diz-lhe: – Meu senhor, morreu um bebé, o mais lindo que já vi. O oficial romano resmunga qualquer coisa, mas sente um aperto no coração, a pensar no seu filho, que ficara na sua terra, uma aldeia perto de Roma. Como estaria ele?

– Os meus sentimentos, minha senhora. Peço apenas que não perturbem tanto a rua.

– Assim faremos. Esta conversa foi em duas línguas: os celtas falaram na sua língua entre todos, a bichanar contra esses invasores, com a hostilidade espicaçada pela tristeza do que acontecera, e Marta falou num latim esforçado ao oficial romano. Choravam em celta, explicavam-se em latim.

A tudo isto assistiam Artur e Inês, os irmãos do bebé que morreu.

Como conquistar uma celta

Estas duas crianças já aprendem as duas línguas, como acontece em qualquer família de emigrantes de hoje em dia – e, tal e qual como nas famílias de emigrantes, a língua dos pais é a menos importante socialmente: é a língua que falam em casa e não usam para mais nada.

Sim, é verdade: nesses primeiros anos depois da invasão, os celtas do Noroeste da Península são como emigrantes na sua própria terra.

Artur e Inês, a viver agora no seio maternal do Império, sabem que o latim é a língua do futuro. Ainda compreendem a língua dos pais e usam-na para falar com eles. No entanto, com os filhos que hão de nascer, já só falarão no latim popular que usam no dia-a-dia.

Ou seja, os netos de Ana e Rui serão já latinos sem tirar nem pôr.

Agora, reparem: tal como acontece quando aprendemos uma língua estrangeira, falamo-la com o sotaque da nossa língua materna. Também Ana e Rui começaram a falar latim com o sotaque próprio da sua língua celta. Foi com esse sotaque que os filhos, Artur e Inês, aprenderam latim. Ou seja, o latim foi aprendido pelas populações ibéricas, mas não sem que as línguas anteriores influenciassem a forma de falar e de aprender esse mesmo latim. Afinal, não havia escolas para todos nem professores de bom latim: havia o dia-a-dia e a língua aprendida na rua.

Artur e Inês falam, então, um latim com sotaque, mas este latim com sotaque é a língua nativa deles. Em breve, o que era uma língua estrangeira, trazida pelos soldados, passou a ser a língua nativa da população da região.

O latim popular com sotaque celta falado na Galécia, há quase 2000 anos, é a semente da nossa língua.

galizaverde

*

Deixem-me agora contar uma história curiosa, que se passou com Inês Contreiras, a filha de Ana e Rui.

Durante a adolescência, sem a memória das invasões, Inês e o irmão tornaram-se muito amigos de alguns soldados e colonos romanos.

Esta proximidade não era bem-vista pelas gentes da terra – mas os jovens já não queriam saber: tinham vivido desde sempre com os Romanos e estes não lhes metiam medo.

Também os romanos já tinham perdido algum do desprezo pela população nativa, que não parece assim tão primitiva a estes colonos que mal se lembram de Roma – afinal, agora, os celtas até já falam latim.

Com mais ou menos preconceitos, viviam naturalmente uns com os outros.

Um dos amigos romanos de Inês chamava-se Pedro. Era um soldado que tinha sido destacado para a zona ainda com os seus quinze anos. Agora, já achava que aquela região era a sua terra. Uma região de cavalos selvagens a correr por entre as árvores das florestas, à beira dum mar revolto que entrava pela terra adentro nas belas rias galegas. Sim, esta era a sua terra sem tirar nem pôr – até porque estava apaixonado por Inês.

Pedro não sabia como se aproximar daquela mulher linda, de olhos azuis, e sempre um pouco distante, como todas as celtas. Sabia que não se podia precipitar. Nem os seus amigos romanos gostavam daquela situação, nem a família dela iria aceitar tudo aquilo sem pestanejar. Qualquer passo em falso e perderia todas as hipóteses.

Nas suas longas conversas ao fim do dia, o soldado brincava com o sotaque de Inês. Inês fingia-se irritada, mas não se importava. Era muito bom ter aquela atenção do romano. Falavam sempre em latim, claro, embora Inês ainda falasse em celta com os seus pais – o celta era a língua da casa, da família, dos mais próximos.

Pois, um dia, Pedro chega-se ao pé de Inês e diz-lhe:

Bore da! [1]

Ou seja, «bom dia» na língua celta. Tinha uma pronúncia um pouco difícil, mas bem perceptível.

Inês fica parada, de boca aberta. Pedro sorri e começa a conversar nessa língua desprezada pelos Romanos. Diz-lhe que esteve a aprender durante muito tempo, com uns amigos da terra, para poder saber como falar na língua em que ela sonhava.

Ela continua de boca aberta e ele fala cada vez mais depressa. Está nervoso. Não sabe se fez bem.

No fim, ela manda-o calar-se, dá-lhe um beijo e quando terminam diz-lhe:

Rwy’n dy garu di!

Casaram-se algum tempo depois, segundo a religião celta, mas respeitando também os ritos romanos.

O sotaque da Galécia nas ruas de Roma

Anos depois, Pedro levou Inês, numa viagem de meses, a visitar Roma. Depois de abraçar a mãe, que não o via há muito tempo, ouviu a senhora, ainda a olhar de lado para a estranha mulher que vinha com o filho, a dizer:

– Mas que sotaque é esse, meu filho? Ficou admiradíssimo por saber que, orgulhoso soldado do Império, já falava com sotaque galécio.

Inês riu-se muito, nesse dia – e aproveitou para dizer que estava grávida.

O primeiro filho nasceu em casa dos pais dele e a viagem de regresso foi adiada alguns meses, para que o bebé crescesse um pouco.

Voltaram, então, à Galécia. Os filhos de ambos já só aprenderam latim, embora ainda ouvissem os pais a falar celta em certas noites – para dizer a verdade, ainda aprenderam umas quantas palavras da boca dos avós – e, entre os amigos, ainda circulavam velhos palavrões, que os pais não sabiam que os filhos também conheciam.

Os primos, filhos de Artur, que se casara com uma celta como ele, também já só falavam latim. Houve famílias em que tudo isto demorou mais tempo, mas poucas gerações depois já a língua celta estava quase esquecida.

Muitos anciãos criticavam os jovens por desistirem tão facilmente da velha língua dos deuses celtas – os jovens encolhiam os ombros e brincavam em latim.

Houve ali, se virem bem, uma espécie de traição linguística. Mas todos os povos, mais tarde ou mais cedo, passam por isso. As línguas são vítimas de traição, mas não nos esqueçamos que as línguas não existem por si, fora das pessoas que as falam – e a essas pessoas, às vezes, interessa mudar de língua. Foi assim com os Celtas – e foi assim com muitos outros povos ao longo dos milénios.

Apesar dessa «traição», a língua celta do povo da Galécia não ficou totalmente esquecida. Há quem diga que foi essa língua que levou a que, em galego e em português, as palavras que, em latim, começavam por «pl», «cl» e «fl» se tenham transformado em palavras começadas por «ch». Exemplos? A «pluvia» latina deu a nossa «chuva». O verbo «clamare» deu o nosso «chamar». A «flama» latina veio a desembocar na nossa «chama».

É difícil saber quais, mas a verdade é que esses falares celtas já perdidos deixaram alguns traços e, ainda hoje, quando falamos o nosso português, bem latino e bem moderno, ouvimos ecos já muito sumidos do que diziam os celtas nesse dealbar do primeiro milénio.

Quem diria a esses jovens, a falar latim com o estranho sotaque da Galécia, sob o olhar reprovador dos velhos celtas, que a sua nova língua ainda viria a ecoar noutros continentes, mas com uns travos da língua dos seus avós?

O nascimento da nossa língua

GallaeciaSerá então que foi assim que nasceu a nossa língua? Tudo depende da forma como queremos dividir a história das línguas. Estes celtas falavam línguas anteriores, os romanos falavam latim – ninguém se lembrou um dia de inventar uma língua de raiz.

Mas julgo ser natural olhar para este encontro do latim com as florestas da Galécia como a origem distante da língua que falamos. Foi aí que o latim popular – a matéria-prima de que é feito, em grande parte, o português – deu de caras com o primeiro molde que lhe veio a esculpir as feições: as línguas dos povos que já por cá andavam.

Essa matéria-prima ainda há-de passar por muitos outros moldes e será ainda salpicada de muitas outras matérias até chegar à forma que tem hoje – forma essa que continua a mudar, pois nunca chegamos ao ponto onde podemos dizer que uma língua está acabada. Continua sempre a mudar, sempre a surpreender-nos.

Ora, mas a verdade é que, nesses primeiros séculos, por entre as rias e as florestas do Noroeste da Península, já falávamos um latim diferente, ao jeito da Galécia.

A nossa língua dava os primeiros passos.

[1] Sei que não é o ideal, mas usei o galês como substituto da língua celta desta gente ibérica de há muitos séculos. Digamos que foi o celta que tinha mais à mão.

Cenas dos próximos capítulos

A história secreta da língua mal começou: nos capítulos seguintes, veremos como um dos descendentes dos Contreiras vai levar uma mensagem de D. Afonso Henriques até um amigo perdido em Al-Uxbuna; um dos netos conhecerá D. Dinis, outro será inimigo de Gil Vicente — e ainda veremos Camões à bulha por Lisboa, um brasileiro a viver o Grande Terramoto, Eça à conversa na Póvoa… E, por fim, chegaremos a estes tempos de blogues e mensagens electrónicas, em que ainda falamos essa língua que deu os primeiros passos nessas conversas entre soldados e celtas, no início do primeiro milénio.

Tudo isto está no livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa, à venda nas livrarias (ou aqui).

Por que razão o galego é invisível para os portugueses?

desencontros-página001 (2)Na sexta-feira passada, estive no Centro Cultural Galego a falar sobre a a invisibilidade do galego para os portugueses. Esteve comigo o José Ramom Pichel, que falou sobre o encaixe da Galiza entre Espanha e Portugal, e ainda Isaac Lourido, professor de galego e responsável pelo Centro de Estudos Galegos da FCSH/NOVA. A conversa foi animada, com boa disposição e muitas perguntas.

Quero agora deixar aqui algumas notas sobre o que disse por lá.

Parti deste estranho fenómeno: na Galiza, discute-se se o galego e o português são ou não a mesma língua. Por cá, muitas pessoas nem sequer conseguem distinguir o galego do espanhol.

Para muitos de nós, o galego é invisível.

Comecei por contar episódios a que assisti e que mostravam essa invisibilidade do galego aos olhos de alguns portugueses. Não vale a pena contá-los de novo (até porque já contei alguns deles neste blogue). Basta, agora, dizer-vos isto: no final da sessão, alguém do público perguntou em que língua José Ramom Pichel tinha falado, provando à saciedade como o galego pode ser invisível para os portugueses. Reparem: a pessoa em questão estava interessada no galego e não estava, de forma alguma, de pé atrás perante estes fenómenos. Simplesmente, tinha dificuldade em distinguir o galego do castelhano.

Mas donde vem esta dificuldade sentida por tantos portugueses?

Tenho algumas ideias, que deixo aqui como pistas (deixo de lado duas razões importantes: a distracção e o desinteresse de muitos).

O galego apresenta-nos sinais que o associam ao espanhol

Nós não andamos para aí com óculos de linguista. Assim sendo, não andamos a separar línguas e a distinguir falares com precisão. Resultado? Agarramo-nos a certos sinais, a pistas que nos indicam o que está escrito numa língua e o que está escrito noutra. Para um português, as marcas do espanhol são letras e sílabas como ñ, ll, -ción, etc.

Que os galegos tenham esses sinais todos na sua ortografia oficial pode ser azar ou outra coisa, mas é uma realidade. E, assim, perante essas pistas todas, facilmente caímos na esparrela de achar que o galego é espanhol — somos todos detectives linguísticos muito amadores.

Isto, na ortografia. No ouvido, podemos não ter sinais ortográficos, mas temos entoações e sons que associamos ao espanhol. Também aí se cria confusão. O galego tem uma relação íntima com o português, mas tem diferenças: e essas diferenças são muito visíveis, porque notamos mais facilmente o que é diferente do que aquilo que é comum quando olhamos para qualquer realidade que consideramos estrangeira. É o nosso tribalismo a funcionar…

Mas também é verdade isto: às vezes o galego aproxima-se tanto que cai para o cesto do português. Já aqui contei o caso do meu sogro, que ouve a TV Galiza e percebe que, em muitos casos, não está perante falantes de espanhol. Percebe que aquilo é mais português. É como se o galego estivesse ali na corda bamba: ou bem que cai para o lado do espanhol, ou bem que cai para o lado do português.

Vemos o mundo com óculos nacionais

Ora, se está na corda bamba, há muitas tendências nossas que nos fazem empurrá-lo para o lado do espanhol.

Uma dessas tendências é esta: a nossa forma de ver países e línguas está muito marcada pelo nacionalismo.

Muitos dirão: «Nacionalista, eu?». Ora, pois claro. Desde pequenos que somos ensinados a olhar para o território, para a História e para a língua pela lente da nossa nação — e da mesma forma olhamos para o território, para a História e para a língua das outras nações sem duvidar do que nos disseram, desde sempre e para sempre.

Num país como Portugal, onde não se escondem outros pulsares nacionalistas, esta visão não tem grande mal. Pode ser uma visão cheia de mitos, misturados com factos e muitas emoções, mas é a base da comunidade política que somos.

Entre nós, esta visão nacional está associada à língua. Ora, olhamos para Espanha e achamos que tem de ser tão simples como nós: se é um Estado, é uma Nação. Se é uma Nação, fala uma Língua (sim, as maiúsculas são de propósito).

Ora, quando falamos das outras línguas de Espanha, ficamos sem saber o que pensar. Aliás, depois de décadas em que Espanha e Portugal transmitiam uma imagem bem simplista de si próprios, temos tendência para achar que o basco, o catalão e o galego são invenções dos últimos tempos. Ainda há uns anos ouvi quem se queixasse do «novo nome» da ilha de La Toja. Agora chamam-na de A Toxa. Que desplante! Tal como é desplante dizer que a famosa La Coruña agora é A Coruña.

Mesmo que até saibamos o que se passa, não ligamos muito. Olhamos para Espanha como uma nação mais uniforme do que o é na realidade. Desvalorizamos as diferenças entre as regiões espanholas e valorizamos aquilo que distingue Espanha, no seu conjunto, de nós mesmos (ai, o peso da História). E isto também tem impacto na forma como ouvimos as várias línguas de Espanha.

Tanto é assim que o galego, que tem uma relação íntima com a nossa língua, é posto no cesto do espanhol. Não nos convém pensar em relações mais íntimas com uma região de Espanha. Porque de Espanha nem bom vento nem bom casamento (de línguas). Não é assim?

Não gostamos que nos sujem a simplicidade do mundo: em Espanha, há espanhóis. E espanhóis falam espanhol. Para quê complicar?

A situação linguística em Portugal é anormalmente pacífica

Ora, para lá do molde bipolar que temos na cabeça, a verdade é que, em geral, os portugueses não estão atentos às questões relacionadas com o uso de várias línguas no mesmo território, seja ele Espanha ou outro país qualquer.

Afinal, Portugal é dos raros estados onde ninguém questiona o lugar da língua nacional enquanto língua oficial.

Não há debates sobre que língua deve ser usada no sistema de ensino. Não há debates sobre que língua devemos usar no sistema de justiça — e por aí fora.

Assim, os portugueses têm uma especial dificuldade em analisar situações sócio-linguísticas complexas. É-nos difícil compreender que no mesmo espaço convivam várias línguas e estamos longe de nos apercebermos das estranhas dinâmicas que essa convivência implica.

Quando vamos à Galiza e temos pessoas que falam galego ao lado de quem fala espanhol, quando temos placas e publicidade nas duas línguas, claro que ficamos baralhados e tendemos a categorizar tudo da forma mais fácil: se está em Espanha, é espanhol.


De Óscar (xindilo/fotosderianxo) - originally posted to Flickr as Norte e sur, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10784361

De Óscar (xindilo/fotosderianxo – originally posted to Flickr as Norte e sur, CC BY-SA 2.0.

Dividir as línguas como dividimos os países é aquilo que podemos chamar de «simplismo confortável». Ora, estes simplismos (que aparecem em muitos sítios) são muito resistentes. Afinal, são confortáveis. Depois, o nosso cérebro repara mais naquilo que confirma aquilo que julga saber do que nas pistas que contradizem as nossas ideias. Assim, é difícil partir estes moldes bipolares onde enfiamos as línguas da Península.

Para quem se interessa por línguas, é inacreditável como muitos não vêem o que é óbvio — mas todos temos ideias simplistas sobre este ou aquele assunto. Não vale a pena cair no outro simplismo confortável de achar que o mundo se divide entre nós, espertíssimos, e os outros, muito burros. Todos nós somos mais ou menos ignorantes em assuntos que para outros são essenciais. Todos nós temos um ou outro ângulo morto e não vemos fenómenos bem visíveis para as outras pessoas.

Dito isto, gostava de ajudar a curar esta cegueira linguística que aflige mesmo quem é interessado nestas questões. Gosto de mostrar as línguas escondidas que estão mesmo ao nosso lado, a começar pelo galego.

Mas porque acho importante curar esta cegueira? Afinal, que nos interessam as confusões linguísticas dos espanhóis? Para lá da curiosidade que é sempre saudável, digo-vos isto: pelo galego passa a história da nossa língua. Ignorá-lo é ignorar muito de nós próprios.

O estranho caso do português que pensava que sabia inglês

Não sei se já alguma vez o meu caríssimo leitor ouviu falar do mais hilariante livro alguma vez publicado sobre a língua inglesa. Foi escrito por um português!

Antes que comece a inchar o peito com orgulho pátrio, convém dizer isto: o tal português não queria escrever um livro hilariante. Queria escrever, isso sim, um livro que ensinasse inglês. Só que se esqueceu dum ponto importante: aprender primeiro a falar a língua!

Sim, Pedro Carolino escreveu um livro sobre como falar inglês sem saber falar inglês.

O livro tem, hoje em dia, o título English As She Is Spoke. Foi várias vezes publicado no Reino Unido e nos Estados Unidos como livro de humor. Mas a primeira edição (O novo guia da conversação em portuguez e inglez) era uma tentativa genuína de ensinar inglês… sem saber inglês!

mark-twain-391120_1280É preciso talento! Ou muita lata. (Atrevo-me a dizer que essa lata ainda hoje existe, como descrevi neste texto sobre as traduções para inglês…)

O certo é que o livro foi um sucesso. Pedro Carolino teve a honra de ser insultado por Mark Twain, que chamou o autor português de «honest and upright idiot». Não é para todos.

Querem um exemplo do hilariante texto? Aqui vai:

The fishing.

That pond it seems me many multiplied of fishes. Let us amuse
rather to the fishing.
I do like-it too much.
Here, there is a wand and some hooks.
Silence! there is a superb perch! Give me quick the rod. Ah! there
is, it is a lamprey.
You mistake you, it is a frog! dip again it in the water.

«You mistake you!»

Pode encontrar o texto completo aqui. Pode ainda dar uma espreitadela no artigo da Wikipédia sobre o livro.

Os erros falsos (outra vez)

Falei-lhe de Pedro Carolino por uma razão. Já lá vamos.

Antes, pergunto-lhe a si, leitor deste blogue (se já o é há algum tempo): consegue enumerar os temas de que escrevo por aqui?

Línguas, claro.

Alguma literatura.

Umas outras manias pessoais.

E a língua portuguesa, pois então.

Dentro da língua portuguesa, gosto particularmente de falar dos erros falsos que por aí andam. Sim, todas as pessoas que se arrogam o direito de inventar regras arbitrárias ou encontrar lógicas falsas na nossa língua para melhor poder acusar os outros de falar mal deixam-me fora do sério. Tento acalmar-me e, depois, explicar como estão errados. Nem sempre consigo, eu sei. Mas tento.

Ainda nos últimos dias, encontrei mais um caso: alguém que dizia que a frase «hoje estaremos fechados» está errada (porque logo a seguir à palavra «hoje» não podemos usar o futuro — pois, pois).

É mais um exemplo a juntar aos outros de que já falei: «terramoto», «queria um café», «saudades tuas», «pelos vistos», «espaço de tempo»…

São tudo palavras ou expressões correctíssimas, muito portuguesas, mas que algumas pessoas se afadigam a condenar, encontrando lógicas absurdas, muito distantes do verdadeiro conhecimento linguístico (que é coisa difícil e para o qual convém ouvir quem trabalha a sério no caso: os linguistas).

Agora, a quem fica arrepiado com a ideia de que algumas destas regras são falsas, faço uma sugestão: leia, para começar, linguistas de outras línguas. Chegue depois aos portugueses.

Porquê? Não será, certamente, por falta de qualidade dos linguistas pátrios. Longe disso. O problema é outro: a questão dos erros falsos e das regras inventadas desperta emoções tão fortes que, às vezes, é mais fácil falar da língua dos outros. Começamos a perceber como estas coisas funcionam sem despertar os nossos próprios demónios nacionais. Depois, já fortalecidos com o bom conhecimento linguístico, podemos abordar a nossa língua sem temores nem palas nos olhos.

Assim, gostava de falar um pouco dos chamados mitos do inglês. Verá que não são assim tão diferentes dos nossos na sua arbitrariedade e inutilidade.

Os erros falsos da língua inglesa

Os linguistas de língua inglesa que explicam bem o mundo da linguagem humana são imensos e escrevem muito bem. Só para nomear alguns: David Crystal; Steven Pinker; John McWhorter — mas há tantos outros…

Todos os que refiro acima já se debruçaram sobre algumas das regras falsas do inglês:

(1) «Não podemos dividir os infinitivos (“split infinitives”).»

Esta regra não aparece em nenhum prontuário ou gramática minimamente respeitável e, no entanto, imensa gente pensa que é verdadeira.

leonard-nimoy-393861_640Sim, segundo estas pessoas, dizer «to boldly go» (como se diz no Star Trek) é um erro terrível. Devíamos dizer «to go boldly». Sim: seguir esta regra leva-nos a escrever frases feias, pouco naturais.

Mas, assim sendo, esta «regra» existe porquê? Porque alguém se lembrou de escrever, há uns séculos, que não devíamos dividir os infinitivos em inglês porque no latim também não se dividem. Claro que não se dividem! Em latim, são uma só palavra. Já em inglês, são duas. Não poder dividir duas palavras porque há línguas em que essas duas palavras são só uma é das coisas mais abstrusamente ilógicas que já ouvi. Mas as lógicas dos profissionais do pânico são de partir o coco a rir.

(2) «Não podemos usar “they” como pronome singular.»

Sim, há séculos que os bons escritores usam o «they» para se referirem a alguém de quem não sabem o sexo. Por exemplo: «Everyone has the right to their safety.»

Muitos dizem que este é um erro terrível — e esta regra, ela sim, ainda aparece como regra de etiqueta em muitos livros respeitáveis. Convém, por isso, ir com cuidado.

Mas, a verdade é que muitos e cuidadosos escritores e oradores usam o «singular they». Foi até considerada a palavra do ano de 2015 pela American Dialect Society.

É uma palavra magnífica porque evita construções sexistas («Everyone has the right to his opinion.») ou atrapalhadas («Everyone has the right to his or her opinion.»).

(3) Há quem defenda que não podemos terminar uma frase inglesa com uma preposição.

Há uma história apócrifa em que Churchill teria dito o seguinte a um revisor que lhe tinha corrigido uma frase a terminar numa preposição: «This is the sort of English up with which I will not put.»

Ou seja, Churchill, com uma frase, teria dado cabo da tal «regra», ao mostrar como segui-la pode dar origem a frases horríveis. Não deu (porque a história é inventada), mas imagino que o único primeiro-ministro laureado com o Prémio Nobel da Literatura saberia bem o que são regras falsas e regras verdadeiras.

Sim, a frase apócrifa de Churchill é horrível porque segue a tal regra falsa. Uma frase mais natural, mas que os paniqueiros do inglês acham ser errada, seria: «This is the sort of English which I will not put up with.»

Qualquer bom escritor inglês acaba muitas frases com preposições. Mas alguns profissionais do pânico acham que não devem. Porquê? Porque fica mal. Na cabeça deles, claro.


Pois é: nenhuma destas regras é regra da língua inglesa. Uma pessoa pode decorar estas manias e continuar a falar pessimamente inglês; da mesma forma que pode não cumprir nenhuma destas regras e falar muito bem.

kids-1093758_1280A força destas regras vem da tradição, da insegurança linguística, de ideias falsas sobre o inglês (por exemplo, a ideia peregrina de que a sua gramática deve seguir o latim…), da falta de conhecimento e da força das regras de etiqueta: quando muita gente torce o nariz a uma palavra ou construção, claro que temos de ter em conta tal opinião generalizada. São manias, pequenas regras de etiqueta inúteis mas que, em certos momentos, têm muita força.

Mas estas regras fazem mal? Fazem mal, sim: dão a falsa sensação de que estamos a falar bem quando as seguimos. Quando, na verdade, falar bem e escrever bem é outra coisa. No fundo, estas regras falsas são uma perda de tempo. São ainda uma forma de levantar barreiras sociais sem qualquer razão. Enfim, já me estou a repetir. Adiante.

O que são, de facto, as verdadeiras regras do inglês?

Os linguistas chamam-lhes «gramática» — não o livro, mas o conjunto de regras que todos os falantes duma língua têm dentro do cérebro, sem conseguir descrevê-las de forma consciente. São regras complexíssimas e com muitas excepções (que, no fundo, são mini-regras ainda mais complexas). São estas as regras que os linguistas procuram e descrevem.

No fundo, as verdadeiras regras do inglês são as regras que Pedro Carolino não tinha aprendido quando escreveu o seu livro. São aquelas regras que aprendemos naturalmente no caso da língua materna, sem grandes lições nem livros (excepto no caso da escrita) — e que nos esforçamos para aprender mais tarde, quando queremos falar outra língua já em adultos.

Qualquer falante nativo de inglês saberia que o texto de Pedro Carolino está errado: todos os falantes têm estas regras na cabeça. Não é preciso manuais de etiqueta ou listas de erros para o saber.

Quer isto dizer que não temos nada a aprender no que toca à nossa própria língua? Claro que temos! Temos de aprender os vários registos, a língua-padrão (que inclui algumas das regras de etiqueta, para o mal e para o bem), a ortografia, estratégias para sermos claros e convincentes — e muito, mas mesmo muito mais. Perder tempo com regras que não existem na língua, impostas por mania ou desconhecimento a falantes inseguros, só nos deixa com menos tempo para falar bem e escrever bem.

Por isso, ingleses, dividam os vossos infinitivos se assim conseguirem dizer melhor o que querem dizer; e, claro, terminem frases com preposições sempre que quiserem. Já nós, portugueses, não podemos dividir os infinitivos, nem costumamos acabar frases com preposições, mas podemos dizer «queria um café», «tenho saudades tuas», «hoje, vou ler um livro»…

Sugestões de leitura

(1) Our Magnificent Bastard Tongue. McWhorter fala da história do inglês e, pelo meio, lá bate mais um pouco nos inventores de regras. Refere, da forma divertidíssima que lhe é típica, o nosso Pedro Carolino.

(2) Far from the Madding Gerund, de Mark Liberman e Geoffrey K. Pullum, linguistas muito respeitados e fundadores do excelente blogue Language Log. A não perder, para quem gosta destes assuntos e de largar uma boa gargalhada.

Os portugueses, na Galiza, gostam de falar espanhol?

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Suso Moinhos deixou este comentário no artigo anterior, que trago aqui para cima por ser delicioso:

…E quando vierem à Galiza, falem galego, não permitam que se repitam situações como esta:

-Buenos dias, aonde tenemos que ir para encontrarmos el museu X?
-Bom dia. Para chegarem ao museu continuem até a praça e depois virem à esquerda.
-O senhor é português?
-Não, sou…
-Então é brasileiro? Angolano?
-Sou daqui, sou galego. Portanto, sou lusófono.
-Ah, usted es espanhol…! Muntchas grácias.

Sexo obrigatório? (O diabo da tradução está na estrutura das frases…)

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Quando traduzimos entre línguas latinas, a interpretação da estrutura da frase não é o nosso pior problema. Os problemas mais graves são outros: os falsos amigos, as interferências sintácticas e por aí fora.

(A quem está neste momento a perguntar onde raios pára o sexo neste artigo, gostaria de dizer: tende paciência, lá chegaremos.)

Já na tradução de inglês para português, o diabo está mesmo na interpretação da estrutura das frases. O tradutor tem de estar muito atento e perceber mesmo o que está a traduzir: não basta entrar em modo de tradução mecânica, que para isso já temos o nosso amigo Google Translate, que está cada vez melhor a fazer más traduções.

Um exemplo extremo será o caso da tradução de português para inglês da expressão “gestão, operação e manutenção da rede MPLS-TP”. Pode parecer simples, mas um tradutor apanhado num momento mais distraído pode acabar por fazer algo do género:

Management, operation and network maintenance MPLS-TP

Obviamente, uma tradução mais correcta seria:

MPLS-TP network management, operation and maintenance

(“Mas alguém faria um disparate destes?” Sim, eu sei, todos nós achamos sempre que nunca faríamos tão desabrido disparate. Mas não se esqueçam que os tradutores têm de interpretar centenas ou milhares de frases destas por dia. Nem sempre é assim tão fácil…)

Outro caso, desta vez no que toca à tradução entre inglês e português:

European packaging recovery and recycling targets are reviewed every five years.

A leitura em inglês parece fácil. Mas muitos tradutores, numa tradução apressada, podem meter os pés pelas mãos: será que estamos a falar de recuperação de embalagens europeia e objectivos de reciclagem? Ou serão objectivos europeus de reciclagem e recuperação de embalagens?

Uma reflexão rápida permite chegar a conclusões, mas a rapidez com que muitos de nós traduz leva ao disparate (de que ninguém está livre!).

Tradução errada:

A reutilização de embalagens e os objectivos da reciclagem na Europa são revistos a cada 5 anos.

Proposta de tradução mais correcta:

Os objectivos europeus de recuperação e reciclagem de embalagens são revistos a cada 5 anos.

Isto porque a estrutura da frase original, bem interpretada, será algo como

[European [packaging [recovery and recycling]] targets] are reviewed every five years.

e não

[European packaging recovery] and [recycling targets] are reviewed every five years.

Quando a ambiguidade está presente no original, uma boa estratégia será inverter a frase completamente.

Por exemplo:

European banks and indebted countries….

Será que estamos a falar de bancos europeus por um lado e países endividados por outro? Ou será que estamos a falar dos países endividados e bancos — todos eles europeus? Se o original não permitir esclarecer, podemos tentar manter a ambiguidade invertendo toda a expressão:

Os países endividados e os bancos europeus…

Se em vez de “banks” tivéssemos “institutions”, a coisa seria mais complicada, porque teríamos de escolher entre o feminino e o masculino no adjectivo, mas mesmo assim esta solução é útil em muitos casos.

Então e afinal onde está o sexo obrigatório nesta salganhada de más traduções? Ora, este problema da estrutura das frases pode levar a traduções embaraçosas, como aconteceria se um tradutor mais distraído encontrasse este parágrafo de um artigo do The Guardian sobre o sexismo na indústria musical dos EUA:

This week, a tipping point has been reached. Lily Allen launched the video to her comeback single, Hard Out Here, which takes aim at music industry sexism with specific reference to the Blurred Lines video. And three women’s organisations launched the Rewind&Reframe campaign, with a four-pronged strategy: to enable young women to air their grievances about music videos, to campaign for age ratings on videos, to encourage compulsory sex and relationship education in schools, and to pressure the music industry to get its house in order.

Se não interpretarmos bem esta frase (ou se formos tradutores muito perversos) podemos traduzir isto como “encorajar o sexo obrigatório e a educação sobre relações pessoais nas escolas”.

Obviamente, a tradução correcta seria algo como “promover a obrigatoriedade da educação sexual e sobre relações pessoais nas escolas”.

Teríamos ainda de mexer um pouco naquele “sobre” ali enfiado a martelo e nas “relações pessoais” (será essa a tradução certa?), mas já vamos no caminho certo.

Portanto, a interpretação errada da estrutura será esta:

to encourage [[compulsory sex] and [relationship education]] in schools

e a interpretação correcta será:

to encourage [compulsory [sex and relationship education]] in schools

Sim, o título prometia algo mais interessante, eu sei. Mas, mesmo pouco interessante, espero que vos seja útil.

Texto escrito originalmente em Dezembro de 2013 para outro blogue.

Couto Misto: um pequeno país entre Portugal e a Galiza

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Conversas proibidas em dia de eleições

A conversa começou na viagem de Ponte de Sor para Lisboa, ali pelo início da tarde de domingo, com uma certa pressa para chegar a tempo de votar.

Era normal que o assunto fossem as eleições. Íamos a ouvir a rádio e as notícias sobre uma qualquer personagem política que teria dito isto ou aquilo que podia ser ou não interpretado como apelo ao voto. A CNE lá interveio, como tinha de ser — ou não.

Perguntávamo-nos, por essas estradas alentejanas fora, em direcção ao sul (sim, há uma grande parte do Alentejo que fica a norte de Lisboa!): por que razão é preciso impedir a campanha durante o dia das eleições? Sim, eu sei que é normalíssimo em Portugal e já nos parece para lá de discutível, mas pensem lá: qual é o problema de falar de política no dia das Eleições? Que vantagem nos traz?

A única razão que me ocorre é esta: é bom dar uma certa solenidade ao acto e, talvez, manter uma certa ilusão de imparcialidade entre todos os envolvidos nos actos eleitorais. Tirando isto, não sei o que vos diga. Porquê, Deus meu, havemos de estar calados sobre aquilo que estamos a fazer naquele preciso momento? Será que se eu for votar e disser: «VOU VOTAR EM X!» estou a interferir nos direitos dos meus concidadãos? Em que sentido? Se durante as duas semanas anteriores não se fez outra coisa, porque não podemos fazer isso mesmo nesse dia?

Dizem-me: é preciso reflectir. Que seja. Mas à força? Não podemos reflectir na cama? Com auscultadores? Ou até no meio da rua? Será que a coisa funciona assim: os portugueses recolhem todas as informações, fecham-se então em casa e comparam notas no dia anterior ao acto eleitoral. Será isso? Não, não é. Não sendo, para quê uma lei destas?

Como usar países minúsculos para contornar a lei

Ora, mas nada disto interessa agora. O que interessa é ver como as conversas são como as cerejas, lá diz o lugar-comum e eu confirmo. Pois estávamos a falar destas regras estranhas e lembrei-me que, em Espanha, reparei num jornal que contornou todas estas proibições de forma genial.

Como o El Periódico de Catalunya tem uma edição andorrana (El Periòdic d’Andorra), nesses dias de defeso eleitoral, as suas edições espanholas apresentam uma ligação em letras garrafais para a edição andorrana. Os leitores seguem a ligação e, na versão andorrana, têm acesso a todas as sondagens e informações sobre as eleições espanholas, sem qualquer limitação.

Porquê? Porque, claro, Andorra é um país independente, que não tem de seguir a lei espanhola. Grande finta a essas leis estranhas.

São as vantagens de ter um micro-país encostado à fronteira. França também usa de tais vantagens: não só consegue que o seu mui republicano presidente se inclua na lista dos monarcas do mundo (precisamente por causa de Andorra), como ainda usa o Mónaco para ter uma família real muito sua, mesmo sendo o mais republicano dos países. República, sim, revistas cor-de-rosa também!

(França tem historial nesta mistura estranha entre republicanismo radical e laivos de monarquia a assomar à superfície: afinal, o seu primeiro presidente da República (com esse título exacto) foi também o último monarca. Estranhamente, foi primeiro presidente e só depois imperador. Confusões.)

O pequeno país encavalitado entre Portugal e a Galiza

Pois bem, a conversa lá continuou, já estávamos lá para os lados de Coruche. E eu lembrei-me: bem, Portugal também teve um desses micro-países fronteiriços até 1868: o Couto Misto.

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Couto Misto. Fonte: Wikipédia.

Sim, é difícil definir tal território como «país», mas o certo é que se governava a si próprio e não fazia parte nem de Portugal nem de Espanha.

São curiosidades da história e dessa fronteira que é das mais antigas da Europa, mas não deixou de ter ali uma ou outra correcção nos últimos séculos…

Diga-se, de passagem, que este pequeno «país» desapareceu num século em que ainda era possível haver territórios onde o conceito de «país» não tinha assim tanta importância.

Logo a seguir, veio o século XX, com a sua fúria de fronteiras.

Mas que língua se falaria por lá?

A pergunta mais interessante de todas e que nunca me tinha ocorrido fez-me a minha mulher, nessa viagem até Lisboa: mas afinal que língua se falava nesse tal Couto Misto?

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Meaus, no antigo Couto Misto

Eu, sempre virado para essas coisas da língua, nunca tinha pensado nisso.

Mas é, claro, a primeira pergunta que qualquer português faria, perante esta informação desconcertante de que havia um pequeno país na nossa fronteira — um pequeno país entre Portugal e Espanha ou bem que fala português ou bem que fala espanhol, certo?

Na realidade, até ao século XIX, talvez não fosse difícil encontrar gente que falava apenas e só galego nas aldeias da zona. Nas aldeias portuguesas, seria quase impossível encontrar quem falasse português-padrão. Nesse tal Couto Misto todos falariam o falar da zona e tão estranho seria o cobrador de impostos que lá aparecesse a falar espanhol madrileno como aquele que aparecesse a falar português de Lisboa (ou mesmo do Porto). Provavelmente, não aparecia nem um nem outro, pois se há vantagem em não ser nem espanhol nem português, a principal será essa: não pagar impostos.

Voltando à língua. Aposto que, por esses recantos minhotos, dum lado e do outro da fronteira — e ainda mais nesse Couto Misto —, a população rural e pouco alfabetizada falaria mais ou menos a mesma coisa.

Dum lado, todos diriam falar português, do outro, diriam galego — mas a língua seria, mesmo bem entrado o século XIX, mais ou menos a mesma.

O que diriam no Couto Misto (que não era nem dum lado nem do outro), não sei: mas o que falavam seria esse galego-português, língua sem fronteira que se visse (ou melhor, que se ouvisse).

Também aposto que um português de hoje, transportado num qualquer DeLorean para essas aldeias oitocentistas, juraria a pés juntos que a língua que ouvia dos habitantes do tal «país» era galego — mas o mesmo diria de muitas aldeias portuguesas ali encostadas à fronteira.

No que toca à geografia social, estávamos longe do Porto, das escolas, das universidades, dos jornais… Ainda mais longe estávamos de Lisboa, claro está. No que toca ao tempo, estávamos ainda muito longe do país que vai quase todo à escola, que ouve rádio e vê televisão.

Falamos de aldeias perdidas em serranias distantes, encavalitadas em fronteiras a que se dava bem menos importância do que hoje. Estamos a falar doutro tempo — e por esses tempos ainda havia gente que podia falar uma língua sem saber bem se era galego ou português.

Incrível, não é?

As dez línguas de Portugal

É provável que seja uma surpresa para muitos, mas os linguistas não se entendem sobre o que responder à pergunta: «Quantas línguas existem no mundo?»

Na cabeça de muitas pessoas, a coisa parece simples: cada país tem uma língua, com uma ou outra excepção que pouco importa, e por isso basta contar os países.

A verdade é que as excepções são tantas que o difícil é encontrar um país que siga essa suposta regra.

Por exemplo, na Europa, parece-me que só a Islândia é um país que só fala uma língua, língua essa que é exclusiva desse mesmo país. Tudo o mais são misturas, remendos e falares a cavalgar fronteiras.

Bem: não vamos discutir a questão a fundo, que estamos no fim do ano e há outras coisas em que pensar.

Mas podemos, só para nos despedirmos de 2015 neste blogue, olhar para as línguas de Portugal. É um país que muitos apontam como um exemplo de monolinguismo, em contraste, por exemplo, com Espanha, esse caldo de línguas e nomes de línguas.

A verdade é que, mesmo se usarmos o mais apertado dos critérios para contar línguas, em Portugal temos duas línguas nativas: o português e o mirandês, que é reconhecido oficialmente desde há uns anos.

Ora, mesmo as fronteiras destas duas línguas são difíceis de definir: será que o português e o galego são a mesma língua? Será que o mirandês é apenas uma variedade duma língua maior (o leonês — ou asturiano)?

Perante estas complexidades, podemos optar por ser brutalistas: isso não interessa nada e o que eu digo é que é.

Se formos por aí — como muita gente vai — nem o mirandês interessa. É um dialecto do português, ponto final. Catalão? Manias pós-modernas. Galego? Espanhol um bocado aportuguesado. Basco? Grunhidos que ninguém entende.

Ah, a beleza do mundo visto à bruta…

A quem assim pensa, digo, com um sorriso: «Olhe que não, olhe que não…»

Do lado oposto estão aqueles que encontram línguas debaixo de qualquer pedra.

O Ethnologue, um catálogo de línguas muito interessante, parece estar mais perto destes últimos que do lado dos brutos. E ainda bem — embora às vezes exagerem um pouco.

Senão, vejam bem: o site encontra dez (!) línguas em Portugal! (E nem sequer incluíram o inglês algarvio.)

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Sem mais delongas, apresento-vos as 10 línguas do nosso país (que muitos ainda acham ser um país de um só idioma):

  1. Português. Ah, a nossa língua, a última flor do Lácio, nas palavras de Olavo Bilac (não, não estou a falar do cantor — e, já agora, essa de ser a última não é bem assim). Já falámos muito da formosa língua portuguesa neste blogue e, por isso, não vale a pena bater agora nesta tecla. Só duas notas: é oficial há muito tempo (embora não há tanto tempo como se pensa) e há quem lhe chame galego — mas essas provocações ficam para outro dia.
  2. Língua Gestual Portuguesa. Não me venham com os argumentos brutalistas de que isto não é uma língua ou, então, que é português, mas em gestos. Não! É uma língua a sério e nem sequer tem muito a ver com o nosso português oral. Por exemplo, enquanto portugueses e brasileiros se entendem em português (tem dias), os surdos brasileiros usam uma língua gestual muito diferente. Da mesma forma, a língua gestual portuguesa pouco tem a ver com a espanhola — se quisermos entender isto doutra maneira, não se pode dizer que seja uma língua latina. As relações entre as línguas gestuais são outras e cada uma tem um vocabulário, uma gramática e ainda regionalismos e ainda dicionários e normas. Pasmem agora: esta língua é referida pelo nome na nossa constituição (algo que nem o mirandês consegue).
  3. Mirandês, essa língua falada por uns quantos milhares de pessoas ali, num canto do país… Sei que há muitos que não percebem para que serve preservar à força um falar antigo e, segundo eles, inútil, mas, já agora, conto-vos uma história: há uns anos, passou pelas minhas mãos um projecto de tradução de inglês para mirandês pedido por um cliente japonês. O mundo é estranho. E sabiam que podemos ler Pessoa em mirandês?
  4. Cabo-verdiano (ou «kabuverdianu»). Um dos filhos do português (e por isso digo que a nossa língua já não pode ser considerada a última flor do Lácio). No dia-a-dia, chamamos-lhe crioulo (que, no fundo, não é o nome da língua, mas antes o tipo de língua). O cabo-verdiano tem regras como qualquer língua, vocabulário próprio e que já começa a ter alguns dicionários e gramáticas — no entanto, ainda não é oficial em Cabo Verde. Em Portugal, é falado por imigrantes e portugueses de origem cabo-verdiana. (Diz o Ethnologue que o número de falantes em Portugal chega a 200 000 pessoas. Não confirmo nem desminto.)
  5. Barranquenho. Este falar alentejano, ali espetado quase no meio da Andaluzia, até já foi estudado por um grande linguista: José Leite de Vasconcelos. Por isso, respeitinho. Enfim, muitos associam a terra a confusões tauromáquicas, mas, como vemos, é também um município com uma língua própria (não se arrepiem de lhe chamar isso mesmo). Confesso que eu, a fazer esta lista, não incluiria o barranquenho, pelo menos assim à primeira vista. Mas quem sou eu?
  6. Minderico. Esta é uma língua curiosa, falada ali no meio da Serra de Aire e Candeeiros. Começou como código secreto para que comerciantes comunicassem sem que ninguém percebesse. Com o andar dos anos, transformou-se num falar usado por muita gente, em todos os contextos sociais, nessas comunidades serranas. Muitos acharão um excesso para lá do razoável incluir este falar numa lista de línguas. Mas noto que está no Ethnologue e que até tem um código ISO próprio.
  7. Caló português. Esta é a língua de muitos ciganos, que terá uma base portuguesa e muito vocabulário proveniente do romani. Segundo o Ethnologue, é falada por umas 5000 pessoas, em Portugal, e está relacionada intimamente com o caló espanhol, o caló brasileiro, o caló catalão, e por aí fora.
  8. Romani. Esta é a língua indo-iraniana de muitos ciganos europeus. Se a maior parte dos ciganos portugueses falarão em caló (quando não estão a falar em português, claro está), diz o Ethnologue que há umas 500 pessoas a falar romani em Portugal. Ou seja: temos portugueses que falam uma língua aparentada com o persa. Curioso, não é?
  9. Galego. Prova de que a divisão entre o galego e o português tem muito que se lhe diga, o Ethnologue acha que há zonas de Portugal, ali encostadas à fronteira, que falam galego. Não sei o que lhes diga, embora compreenda a indecisão: a fronteira linguística entre Portugal e a Galiza é muito porosa. Muito mais do que alguns portugueses imaginam. Olhando para o mapa do site (acima), parece que o português transmontano é considerado galego, sem mais. Não sei se será prudente dizer isto a algum falante do galego transmontano, mas tudo bem.
  10. Asturiano. Da mesma forma, também não sei por que razão o Ethnologue põe o asturiano como língua de Portugal. Afinal, o asturiano tem um nome próprio por estas bandas: é o mirandês e ninguém se chateia com isso. Será que consideram um dos dialectos do mirandês como «mirandês padrão» e outro — talvez o sendinense? — como asturiano? Sim, meus caros: o mirandês tem vários dialectos. E esta, hein?

Há línguas piores do que outras?

grammarOlhando para a lista acima, que diferença entre as primeiras e as últimas, não é?

O português é uma língua internacional, oficial em vários países e plasmada em séculos de literatura e de codificação em gramáticas e dicionários. Já o português gestual é uma língua reconhecida pela constituição.

Descemos a lista e temos o romani, uma língua falada por poucas centenas de nómadas, e o sendinense, um dialecto de uma língua que muitos acham ser ela própria um dialecto.

Mas, ao contrário do que pensam algumas pessoas, tanto as primeiras como as últimas podem ser considerados línguas completas e podem expressar todas as experiências do ser humano.

A diferença de valor entre todas estas línguas não está na qualidade intrínseca do próprio idioma, mas no prestígio, no reconhecimento oficial e no seu uso. Claro que a falta do uso leva a um vocabulário mais pobre, mas isso resolve-se rapidamente. A estrutura da língua em si, essa, não limita ninguém e pode ser tão complexa e rica no português como no romani — ou no sendinense. Da mesma forma, podemos falar de forma atrapalhada, obscura e cheia de hesitações em português ou em minderico — e podemos ser claros e directos em qualquer uma destas línguas.

Não quer isto dizer que seja igual aprender sendinense ou aprender português: se eu dissesse tal coisa, seria bom que me dessem uma martelada na cabeça (com um martelo do S. João, para não aleijar). O que digo é só isto: o valor de cada língua vem do uso social dessa língua, do número de falantes com quem podemos conversar, dos livros que podemos ler, da relação emocional que estabelecemos com essa língua (já vimos por este blogue que a língua também é forma de marcar a identidade) — e por aí fora. O valor da língua não está nas características dessa língua.

Digo isto porque há quem julgue haver línguas mais limitadas, diria mesmo defeituosas, que não permitem expressar tudo o que uma pessoa pode querer expressar. Ora, isso é um mito: os limites de quem fala e escreve estão na experiência, no talento e na memória de cada pessoa e não na língua que fala.

Tudo para vos dizer que todas estas línguas podiam, quisesse o acaso e a história do mundo, transformar-se em grandes línguas internacionais e de cultura. Não é impossível que o minderico venha a ser a grande língua de comunicação do mundo inteiro daqui a uns 300 anos. É mais improvável do que eu ganhar o Euromilhões cem vezes seguidas, mas não é impossível.

Reparem: o inglês, a língua de maior prestígio a nível mundial, passou por séculos em que era desprezado por qualquer pessoa que quisesse ser alguém na vida — os nobres falam francês normando e essa era a língua de valor.

Também o português, como temos visto, já foi um falar rústico duma região remota.

Não basta olhar para uma língua para saber o que o futuro lhe reserva. Não há línguas melhores ou piores: há, sim, línguas com mais ou menos sorte — ou com falantes mais ou menos teimosos.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

História Secreta da Língua Portuguesa

Capítulo 2. A missão secreta de Tiago na capital dos Visigodos

Ainda não chegámos ao tempo de Camões — estamos longe, mas ainda o havemos de encontrar aos murros pelas ruas de Lisboa — nem sequer ao tempo de Afonso Henriques (no próximo episódio, saberemos que língua falava o nosso primeiro rei). Mas continuamos, muito tempo antes, a tentar perceber donde apareceu a língua deles — deles e nossa, claro está.

Ainda temos muitos séculos de caminho.

Se bem se lembram, no primeiro episódio olhámos para esses tempos em que os celtas começavam a aprender latim. Aproveitámos para conhecer os Contreiras.

Uns seiscentos anos depois, temos ainda gente dessa família a viver mais ou menos nos mesmos sítios.

MADRID SAN LORENZO DEL ESCORIAL MONASTERIO-BIBLIOTECA-COLECCION DET-CODICE ALBENDENSE MOZARABE-CONCILIO DE BRAGA EN EL 561-F 209 V- OBISPO HIDACIO ESCRIBE CRONICA

Teodomiro, rei suevo da Galiza, no século VI.

Estamos no século VII. O Império já caiu, os bárbaros já chegaram.

Entretanto, foi criado o Reino dos Suevos, também chamado Reino da Galiza, com capital em Braga.

Também esse reino desapareceu, integrado no Reino dos Visigodos, que veio a ter a capital em Toledo.

Estamos no coração da Idade das Trevas — mas esse nome fomos nós, gente do futuro, que lhe demos.

Para as gentes dessa altura, estes eram dias tão coloridos como os de hoje, com gente a tentar viver o melhor  possível, com a história a passar nas estradas e nas crises e nas dificuldades de cada pessoa e de cada família…

LEIA O RESTO DA HISTÓRIA NO LIVRO
A INCRÍVEL HISTÓRIA SECRETA DA LÍNGUA PORTUGUESA.

As Maldivas e as primas da Língua Portuguesa

Viajar é tão bom, que até gosto das viagens dos meus amigos.

A minha amiga Ana Chainho passou os últimos dias nas Maldivas, o que me parece um sítio muito original para passar estes dias antes do Natal.

Decidi chateá-la um bocado (está de férias, pode aturar os amigos…) e pedir-lhe para tirar fotos às placas e inscrições na língua do país para partilhar convosco, pacientes leitores deste blogue de línguas.

Assim, posso trazer-vos hoje um pequeno cheirinho à língua que se fala nesse paraíso perdido no meio do Índico.

Antes de vos mostrar o resultado, reparem nas primeiras fotos que ela me mandou:


Perante isto, a primeira reacção de qualquer pessoa minimamente saudável será: «Eu quero lá saber da língua que se fala aí.»

Percebo perfeitamente! Mas já que não podemos ir todos para as Maldivas (até porque aquilo era capaz de afundar sob o peso de dez milhões de portugueses), podemos sempre aprender alguma coisa.

Mas, pronto, só mais uma foto da praia (não resisto):

Agora que já babámos todos com a paisagem, falemos de línguas (e, pronto, lá se foram 80% dos leitores deste artigo).

Como qualquer lugar de turismo, a Ana encontrou por lá línguas de todo o mundo. Basta olhar para os livros espalhados pelo hotel:
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Parece haver por lá muito turista israelita e uns tantos coreanos…

Diz-me a Ana que também viu muita coisa em russo — e, claro, em inglês.

 

inglês

O divehi

Mas a língua do país é outra, claro: o divehi ou, se quiserem, maldivense.

Aqui vão os nomes da Ana, do Telmo e do filho nessa língua do Índico:

Que alfabeto é este? É o thaana.

Thaana: uma estranha forma de escrita

Digam lá se o nome do sistema de escrita desta língua não lembra um povo qualquer duma galáxia muito, muito distante? Está ali muito perto do Klingon, não está? «Eis se não quando encontrámos o povo do planeta Kor, que escrevia em Thaana!»

Mas, não: é mesmo o nome do alfabeto desta língua tão simpática (porque tão paradisíaca).

Fiquem com o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos:

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Transliteração:

Hurihaa insaanun ves ufanvanee, dharaja’aa’i ḥa’quthakuga’i minivankamaa’i hamahamakan libigenvaa ba’e’ge gothuga’eve. Emeehunnash heyo visnumaa’i, heyo bu’dheege baaru libigenva’ava. Adhi emeehan ekaku anekakaa medhu mu˂aamalaath kuranvaanee, ukhu’vaththeri kamuge rooḥe’ga’ava.

Podem encontrar mais pormenores por aqui. É um sistema de escrita da direita para a esquerda, em que os sons vocálicos são assinalados por símbolos e não por letras.

Fiquem com mais duas fotos que a Ana me arranjou:

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Uma palavra maldivense: «atol» (e mais uma prova que a língua portuguesa gosta de vadiar pelo mundo)

Curiosamente, temos uma palavra que vem desta língua (mas através do inglês): «atol».

Depois, como não podia deixar de ser já que o nosso povo é um vadio, lá aparecem umas palavras portuguesas na língua. Assim, a palavra para «mesa», em divehi, é «mēzu» e a palavra para «lança» é «lonsi» — duas palavras de origem portuguesa.

 A língua das Maldivas é prima da língua portuguesa?

Agora, a grande surpresa: a relação entre a nossa língua e o maldivano (sim, este nome também existe) é mais profunda. Apesar do aspecto exótico e do cenário paradisíaco, o divehi é primo afastado da nossa mui nobre língua portuguesa.

Não sei se já pensaram nisto, mas as línguas também têm famílias. O português é uma língua latina, mas todas as línguas latinas são parte de uma família mais abrangente. Como sabemos, o inglês é uma língua germânica, o russo é uma língua eslava — e todas estas são línguas indo-europeias. Há uma relação entre elas, descoberta no século XIX.

Fiquem com o mapa das línguas indo-europeias na Europa e na Ásia:

Quase todas as línguas da Europa são línguas indo-europeias, com algumas excepções, muito interessantes: o basco não o é; o finlandês também não; o húngaro idem. Fora da Europa, há imensas línguas que não são indo-europeias, claro está: o árabe, o turco, o chinês, o japonês, e por aí fora.

Ora, o divehi faz parte do grupo indo-ariano das línguas indo-europeias, sendo aparentado com o cingalês, que se fala no Sri Lanka (podem ver a cor azul no mapa acima nessa ilha a que já chamámos Ceilão).

Por isso, sim, é verdade: o português está mais próximo do divehi, falado nessas ilhas paradisíacas do Índico, do que do basco ou do húngaro.

É possível vermos, com os nossos olhos, essa relação? Sim, se tivéssemos tempo e interesse para estudar as línguas a fundo. Há vocabulário actual que descende das mesmas palavras e há estruturas que são comuns a toda esta grande família.

Por exemplo, de forma muito simples: os verbos, nas línguas indo-europeias, costumam concordar com o sujeito. Isso aplica-se ao português, ao inglês, ao russo, ao divehi e por aí fora.

Já no basco, por exemplo, os verbos também concordam com os complementos. Ou seja, não podemos aprender os verbos sabendo apenas as tabelas do «eu canto», «tu cantas», «ele canta», etc. Os verbos também mudam de acordo com aquilo que nós cantamos…


Viajar tem destas coisas: podemos descobrir mais sobre o mundo e sobre nós próprios — não é curioso perceber que, no que toca à estrutura das línguas, temos mais a ver com a língua das Maldivas do que com o basco, mesmo aqui ao lado?

E, reparem, até nem precisamos de ser nós a viajar: podem muito bem ser os nossos amigos.

(Embora, claro, fosse muito bom estarmos a falar disto à beira do oceano, sob o sol quente das Maldivas…)

Os Portugueses têm sotaque?

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Estava eu hoje a almoçar um pouco à pressa, quando oiço uma conversa entre dois homens ao meu lado que me pôs com as orelhas bem atentas. Um deles descrevia a vida no Brasil e dizia que «os brasileiros tinham dificuldade em perceber o meu sotaque».

O amigo ficou chocadíssimo (com muito íssimo no chocado). «Desculpa lá, eles é que têm sotaque, não és tu!» Imaginem o gesto indignado a acompanhar, que agora não tenho tempo para o descrever em condições.

O homem que tinha ido ao Brasil lá acalmou os ânimos do amigos dizendo simplesmente que «sim, é verdade, mas para eles é ao contrário». E, pronto, a conversa seguiu por outros caminhos menos linguísticos e eu lá terminei de levar o garfo à boca, depois da momentânea suspensão.

Só posso concluir que a palavra «sotaque» tem muitos significados diferentes por essas cabeças fora.

Para alguns, quer dizer «forma de falar que não está de acordo com a norma».

Para outros, quer dizer «forma de falar diferente da minha».

Para aquele homem ali sentado ao meu lado, a ouvir as aventuras brasileiras do amigo, «sotaque» é qualquer forma de falar que seja diferente da norma dele (a norma do português de Portugal) — acho eu, que isto de adivinhar o que os outros pensam não é assim tão fácil.

Ora, para mim (e não serei só eu, espero), a palavra «sotaque» quer dizer apenas «forma de falar distintiva». Ou seja, o sotaque consiste em todas as características da fala que nos permitem saber alguma coisa sobre a pessoa. Ora, claro que os Portugueses têm sotaque: é fácil perceber que uma pessoa é portuguesa pelo sotaque, tal como é fácil perceber quando falamos com um brasileiro.

Há sotaques mais distintivos do que outros. Há pessoas que falam e percebemos que são portuguesas e pouco mais, porque o sotaque se aproxima da tal padrão que não deixa de ser difícil de definir e nos levaria a horas de discussão.

Outros têm sotaques que nos permitem localizá-los, no nosso mapa mental, no Porto ou em Lisboa ou numa determinada rua da Nazaré. Ou, claro, nalgum canto do Alentejo ou das nossas estimadas ilhas.

Agora, o choque: o sotaque não está apenas na boca de quem fala, mas também nos ouvidos de quem ouve.

Sim: aquilo que chamamos ao sotaque de outra pessoa tem muito a ver com o que sabemos e conhecemos sobre as maneiras de falar dos outros.

Por exemplo, consigo detectar perfeitamente o sotaque do Norte, mas tenho alguma dificuldade em distinguir o sotaque do Porto do de outras cidades da região. Ora, para os ouvidos nortenhos, será muito fácil perceber se alguém vem da Foz ou se é de Braga, ou se, pelo contrário, vem dos arrabaldes de Guimarães. Da mesma forma, os alentejanos têm imensas cambiantes nos seus falares mas, para quem vem de fora, é tudo alentejano.

No concelho onde nasci, tenho conterrâneos que distinguem os falares de cada terra. Há, por lá, quem jure que as gentes de Ferrel falam de maneira completamente diferente dos penichenses (isto para não falar dos atouguienses). Para pessoas do Norte, tenho quase a certeza que tudo soa um bocado a alentejano (assim de forma apressada, diria que o sotaque das cidades grandes do Sul aproxima-se daquilo a que chamamos «lisboeta» e o sotaque das aldeias e vilas aproxima-se mais do «alentejano», mesmo se não estivermos no Alentejo; mas não sou, nem por sombras, especialista nestas questões).

Também por Lisboa conheci quem me garantisse ser possível distinguir gentes de Alfama de gentes de Marvila pela maneira de falar. Eu não consigo, com muita pena.

Voltando ao outro lado do Atlântico: o português do Brasil soa quase sempre igual aos ouvidos lusitanos e, no entanto, um brasileiro rir-se-ia se lhe dissessem que os cariocas e os paulistas falam da mesma maneira. Lá está: o sotaque também está no nosso ouvido. Por outro lado, os brasileiros ouvem-nos e estão perante um sotaque que reconhecem como português. Muito provavelmente, um portuense e um lisboeta, aos ouvidos deles, soam exactamente da mesma maneira.

Voltando à questão inicial: claro que os brasileiros, para nós, têm sotaque: conseguimos saber se uma pessoa é brasileira pela maneira de falar. Ora, pela mesma ordem de ideias, os portugueses têm sotaque: temos uma forma de falar muito particular, que permite aos brasileiros dizer com segurança que somos portugueses. Se pensarmos de forma minimamente objectiva, não há qualquer razão para dizer que o brasileiro fala com sotaque, mas o português não — excepto se cairmos no simplismo de achar que «sotaque» quer dizer apenas «uma maneira de falar diferente da minha» ou «maneira de falar diferente do que acho ser o correcto».

Bem, será que ainda tenho tempo de discutir a estranha forma como algumas pessoas mudam de sotaque de acordo com a pessoa que as está a ouvir? Parece-me que não. Fica para a próxima.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

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