Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

A terra espanhola que a França engoliu

Há muitos anos, fui com os meus pais e uns amigos até Andorra. É história com peripécias curiosas — mas o relato fica para outro dia. Hoje quero apenas chamar a atenção do leitor para um segredo escondido no mapa.

Quando terminaram os dias de férias em Andorra, convenci os meus pais a passar por França antes de voltar a Espanha. Não foi muito difícil: quem se mete numa carrinha para atravessar a Península não se importa de fazer mais uns quilómetros só para dizer que foi a França.

Era um desvio pequeno… Subimos até Pas de la Casa — e passámos a fronteira. Fiquei feliz. Aqueles pouquíssimos quilómetros a atravessar um canto esquecido de França eram o suficiente para dizer que já tinha ido a cinco países.

Dizer a quem? Ao mundo! Aos meus botões! Tinha 13 anos, diga-se. Há entusiasmos muito adolescentes — embora a excitação de passar uma fronteira nunca tenha desaparecido.

Bem, não interessa: estávamos em França. Desse percurso francês, lembro-me de duas coisas.

Primeira recordação: olho pela janela da L300 e vejo um castelo com a bandeira francesa no topo. Se fosse hoje, teria tirado uma fotografia. Como estávamos em 1994, não tirei, porque já tinha gasto a minha dose de 24 fotos.

Segunda recordação: eu ia com o mapa na mão, nesses tempos sem telemóveis. E comecei a ficar entusiasmado quando percebi que, mais à frente, entraríamos numa espécie de vórtice geográfico. Iríamos passar perto duma terra engolida por França.

E, de facto, quando chegámos a Bourg-Madame (há lá terra com nome mais francês?), vimos duas placas: para a esquerda, «ESPAGNE». Para a direita, «ESPAGNE».

Mas, então? Como era possível?

Basta olhar para o mapa:

Este foi o percurso que fizemos em França, entre a fronteira de Andorra e a fronteira de Espanha — se o leitor olhar com atenção, vê ali no canto inferior direito um pequeno território em forma de croissant. Trata-se do município catalão de Llívia. É território espanhol completamente rodeado por França!

Como é que isto aconteceu?

A história conta-se assim — espero não simplificar demasiado. Em 1640, os catalães revoltaram-se contra a coroa espanhola, que andava a tornar-se demasiado castelhana para o gosto daquelas paragens (dizem por aí que não foram os únicos a aborrecerem-se nesse preciso ano).

A revolta é apoiada por França (nós, por cá, gostávamos mais de pedir ajuda aos ingleses). A Catalunha e a França entram então em guerra com Espanha, guerra essa que só termina em 1659, quando as duas coroas assinam o Tratado dos Pirenéus.

Ora, como em todos os tratados de paz, há concessões a fazer. Uma das concessões de Espanha à França foi a passagem para mãos francesas do Norte da Catalunha:

Divisão da Catalunha. Fonte: Wikipédia

O tratado estipulava que todas as aldeias da comarca catalã da Cerdanha que estivessem na vertente norte dos Pirenéus passariam para a coroa francesa. Ora, Llívia tinha o estatuto de vila e não de simples aldeia — logo, ficou fora do tratado e manteve-se em mãos espanholas, apesar de estar rodeada por território que era agora francês.

Quadro de Laumosnier que representa a assinatura do Tratado dos Pirenéus entre Luís XIV e Filipe IV.

Diga-se que os catalães não gostaram muito dessa divisão e os franceses demoraram ainda várias décadas a conseguir controlar, de facto, a zona.

Hoje em dia, a Catalunha Norte está no departamento francês dos Pirenéus Orientais. Por lá, ainda nem todos esqueceram o catalão e há algumas organizações apostadas em renovar as relações com a Catalunha a sul da fronteira. No entanto, o francês é a língua dominante e o catalão sobrevive mais por causa da força que tem hoje a sul da fronteira. (E em Llívia? O catalão é a língua da terra, claro. É oficial, em conjunto com o castelhano.)

Voltando à minha viagem: a tal terra de nome muito francês por onde passámos (Bourg-Madame) foi, portanto, catalã durante séculos e séculos. E tinha um nome bem catalão: la Guingueta d’Ix.

O nome ainda sobrevive — para lá dos livros de História — na designação francesa para os seus habitantes: são chamados de Guinguettois.

Bem, nesse dia de Agosto de 1994, não pude visitar Llívia. Lá entrámos na Espanha da direita, em direcção a Barcelona. Mal sabia eu o que nos iria acontecer por lá — mas essa outra história terá mesmo de ficar para outro dia.

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7 Comentários

  1. Como a Catalunya rematar emancipando-se da Espanha, iste texto vai ficar completamente obsoleto (pois referes-te à Catalunya como Espanha).

    • Marco Neves

      Por enquanto, faz parte do Estado espanhol. Se se tornar de facto independente, não deixará de ser um bom apontamento histórico 😉 Até porque dificilmente a zona francesa fará parte do novo país…

      • Apenas á um probrema: no 1659, nom existia a Espanha. Ou seja, issas terras nunca pertencérom à Espanha. Polo tanto, no tíduo averiam duas opções:
        – A terra catalã que a França engoliu (polo Principat da Catalunya)
        – A terra aragonesa que a França engoliu (o Principat da Catalunya pertencia à Coroa d’Aragón).

        Nom sei se já o liche, peró recomendo a leitura (a calquera que estiver lendo iste comentário) do artigo “Origem do termo Hespanha. Historicidade do termo” do Alexandre Banhos Campo, disponhível no Portal da Língua Galega (PGL).

        • Marco Neves

          O título é uma brincadeira com aquilo que nos parece quando olhamos para aquele pedaço de terra. 🙂 quanto ao artigo, já tinha visto a referência no Twitter e é muito bom. Obrigando!

  2. O dia 8 d´outubro pode ser o dia da declaraçom d´independência da Catalunya no Parlament.
    Apenas á um meio polo que a Espanha pode parar o procès, um método que orgularia ò Franco… Realmente gostariam de manter unida à Catalunya disse modo?

  3. JOÃO BRAZ

    Caro Marco Neves

    Gostei de ler o seu texto. Contém informação de muito interesse.
    Mas, realmente, seria historicamente mais correcto se o título do mesmo fosse:
    A terra catalã que a França engoliu.

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