Domenico_Ghirlandaio_-_St_Jerome_in_his_studyJá falei com algumas pessoas que não gostam deste facto simples: a humanidade fala muitas línguas.

Compreendo: talvez fosse mesmo mais fácil falarmos todos a mesma língua — embora esta diversidade seja o preço a pagar pela flexibilidade da linguagem humana, que se adapta infinitamente à mudança do mundo (e o mundo, como sabem, é feito de mudança).

Para muitos, este preço a pagar é muito real: têm de pagar a professores de línguas e a tradutores (nos quais me incluo).

No entanto, não compreendo que essas mesmas pessoas torçam o nariz à própria existência dos tradutores, como se a diversidade das línguas fosse uma conspiração nossa para ganhar dinheiro.

Dando de barato que essas barreiras linguísticas são um problema, torcer o nariz aos tradutores é tão lógico como torcer o nariz aos médicos porque existem doenças ou aos advogados porque existem conflitos.

Podemos não gostar do fenómeno das línguas (pessoalmente, gosto muito), mas não há razão para desprezar os próprios profissionais que se ocupam em resolver o problema criado por esse fenómeno.

A questão talvez tenha a ver com isto: parece que, na cabeça de algumas pessoas, a existência de várias línguas é um fenómeno recente, uma mania moderna. Essa impressão é causada pela política de promoção activa do multilinguismo por parte, por exemplo, da União Europeia e, também, na cada vez maior frequência com que se ouve falar das línguas minoritárias — basta pensar em Espanha. Talvez tenha ainda a ver com a dificuldade em viver nas sociedades actuais sabendo uma só língua.

Descansem os mais preocupados: a verdade é que o mundo tem cada vez menos línguas. Se há algum problema linguístico no mundo, será esse desaparecimento galopante das inúmeras línguas do mundo que poucos conhecem.

Por outro lado, dificilmente a humanidade conseguirá falar uma só língua: os grupos humanos gostam de se distinguir pela maneira de falar e todas as línguas tendem a divergir internamente (pensem no inglês, no espanhol, no português…).

Por isso, lamento desiludir quem torce o nariz a esta profissão, como se fosse um mal menor que tende a desaparecer: os tradutores continuarão a ser necessários e a humanidade continuará a falar muitas línguas por muitos e bons anos.

[Ligeiramente revisto a 26 de Janeiro de 2015.]

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.