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Três dicas para discutir melhor no Facebook

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Há uns meses, tive uma discussão acesa (e rápida) com uma amiga dum amigo por causa, vejam bem, da palavra «lol». Já vos contei como foi.

O que me deixou pasmado não foi a opinião diferente da pessoa em questão — ui, se ficássemos pasmados sempre que ouvimos opiniões diferentes! — mas pela recusa absoluta em discutir a questão e, mais, pela indignação demonstrada pelo simples facto de eu estar a discutir o problema do «lol» (!).

Enfim, como a discussão mal começou, fiquei sem saber se não estaria errado: vai na volta, dizer alto a palavra «lol» pode mesmo ser um crime hediondo contra a língua portuguesa, mas não faço ideia, porque não consegui ouvir, com calma, os argumentos contrários.

Ora, parece que o Facebook é palco de muitas destas discussões em que ninguém debate verdadeiramente: o que mais se faz é demonstrar indignação pelo simples facto de haver gente (ou melhor, gentinha) que pensa doutra maneira.

Por outro lado, há quem julgue que, no fundo, é tudo igual e não vale a pena debater seja o que for. Defender esta ou aquela ideia é apenas um jogo. Tudo é relativo. Pois bem: se gosto ou não de Star Wars ou do Quim Barreiros é mesmo muito relativo. Agora, se vale a pena bombardear a Síria ou não já é outro assunto: muito depende disso e podemos uns estar errados e outros certos, ou até todos mais ou menos errados ou mais ou menos certos — e mesmo assim estarmos todos genuinamente convencidos que temos razão. Por isso, aprender a debater melhor, no Facebook ou fora dele, é importante.

Acho que já estou a alongar-me muito, mas deixem-me dizer-vos isto antes de avançar para as três dicas: tudo isto é muito natural. Os seres humanos são mesmo assim, tribais, cheios de emoções a fervilhar na pela — e tudo o que fazemos para controlar estas características é como despejar o mar com um balde. Mas vale a pena: às vezes, lá conseguimos debater e chegar a algum lado, mesmo que seja muito mais difícil do que gostaríamos.

Dica n.º 1: Tentar compreender a posição da outra pessoa

Li há uns tempos um livro tremendo de Daniel C. Dennett (Intuition Pumps and Other Tools for Thinking). Dennett é daqueles escritores — mais propriamente, um filósofo — que me deixa num estado de excitação mental cada vez que o leio.

Pois, uma das muitas ferramentas de pensar que ele apresentava no livrinho era esta: convém começar por explicar a posição da pessoa com quem estamos a debater tão bem ou melhor do que a própria pessoa em questão.

Não sei se consigo explicar isto muito bem, mas vou tentar: se estamos a debater com alguém que nos diz, por exemplo, que convém acabar com a União Europeia, em vez de ficarmos mergulhados numa ira muda, podemos tentar explicar muito bem o argumento do outro: por que razões devemos acabar com a União, como fazê-lo, e por aí fora. Devemos até melhorar o argumento. Porquê? Porque o nosso objectivo deve ser perceber a ideia e rebatê-la (ou então aceitá-la, com ou sem modificações) — não deve apenas ganhar o jogo.

Uma outra estratégia que talvez seja útil será dizer o que o outro diz por outras palavras — usando, talvez, palavras menos ofensivas ou que nos enervem menos. Tentemos chegar à ideia em si, esquecendo as palavras que o outro usou naquela circunstância. Quem debate para ganhar, pega numa frase ou numa expressão e usa-a como exemplo da indignidade do outro. Quem debate para chegar a conclusões, quer saber as ideias por trás das palavras e debate essas mesmas ideias.

É difícil? Ui, mesmo muito difícil. Leiam, a este propósito, este texto de Nassim Nicholas Taleb com o lindo título «A Ética do Debate ou Como Não Ser um Charlatão». Como ele diz, devemos atacar o que a pessoa quer dizer e não o que a pessoa diz.

Voltando ao início: ajudemos o nosso oponente de circunstância a dizer melhor o que quer dizer, resumindo e até completando o argumento, para depois, então sim, dizermos aquilo com que não concordamos, o melhor possível.

Se tiverem tempo para seguir a ligação para o texto de Taleb, reparem que ele partilha um artigo wikipédico sobre o «Princípio de Caridade»: a ideia de que devemos tentar dar a melhor a interpretação possível às palavras dos outros. No fundo, e de forma algo simplista, será dar o benefício da dúvida e não pressupor o pior quando ouvimos algo que não compreendemos inteiramente.

É isto possível no Facebook? É. Não precisamos de grandes ensaios para resumir, numa frase ou duas, aquilo que a outra pessoa diz, sem ironias: «Então, o que me estás a dizer é que devemos sair da União Europeia, porque a União Europeia dá demasiado poder a certos países, destrói a nossa economia e não nos permite defender convenientemente as nossas fronteiras?» A outra pessoa dirá: «Sim, é isso mesmo.» — ou tentará corrigir o que dissemos. Seja como for, ficaremos todos mais calmos, pois estamos a falar e não a gritar — a outra pessoa já percebeu que estamos a ouvir. Podemos então começar a argumentar, com paciência, esgrimindo factos, números e argumentos.

Se não temos paciência nem tempo para isto (e quase nunca temos, não é?), mais vale seguir direitinhos para a dica n.º 3.

Dica n.º 2: Respirar fundo e pensar se não estaremos errados

Ora, pois: a verdade é que convém ter sempre em mente a hipótese de estarmos errados. Podemos não estar completamente errados — mais uma vez, isto não é um jogo em que se perde ou ganha —, mas também podemos aprender algo com a outra pessoa, ganhar uma nova perspectiva, perceber que se calhar não temos assim tanta razão.

Para conseguirmos este feito — raríssimo! — convém não termos tal investimento emocional na discussão que não conseguimos aceitar a razão do outro.

Controlemo-nos. Tentemos arranjar forma de salvar a face: a nossa e a dos outros. A ideia é chegar a conclusões, não é ganhar ou perder (sim, estou a soar um pouco utópico).

Mais uma vez: achamos isto demasiado difícil? Avancemos para a dica n.º 3, a mais útil de todas.

Dica n.º 3: Sair de cena

Chegamos, por fim, à dica mais fácil e mais útil: se achamos praticamente impossível convencer o outro ou se temos muita dificuldade em pensar racionalmente ou mudar de opinião quando discutimos em público (e, não se esqueçam, discutir no Facebook é discutir em público) mais vale sair de cena, sem entrar em todas as discussões que encontramos só porque sim.

Não é preciso estar sempre a discutir. Há muitas ideias diferentes. Às vezes, os nossos amigos dizem coisas com as quais não concordamos (que desplante, não é?). O mundo é difícil. As ideias fartam. As palavras cansam. Descansemos, então. Desliguemos o computador.

Ponto final? Não. Se gostamos de pensar e queremos evitar ideias erradas, convém debater connosco próprios. Fiquem, então, com uma dica extra.

Dica extra: Debater ideias na nossa cabeça

Pensar e rebater as nossas próprias ideias? Mas porquê?

Porque, com mais ou menos discussões no Facebook, o espírito crítico é importantíssimo. Ora, o espírito crítico é muito mais do que ser capaz de criticar as ideias dos outros. O espírito crítico deve levar-nos a pôr em causa tudo o que pensamos.

Por isso, se optamos por não estar em público a discutir num remoinho de emoções nem sempre agradáveis, pensemos sozinhos no que lemos e nas ideias com as quais não concordamos. Até podemos procurar quem explique melhor essas ideias contrárias, para percebermos o que pensam os outros quando pensam com calma e longe da histeria facebookiana.

Mais uma vez: é difícil? Sim. Mas vale a pena. Podemos até arranjar ideias melhores do que as que tínhamos antes.

Se, no fim, continuarmos com vontade de defender as nossas ideias perante o absurdo do que dizem os outros, podemos escrever um artigo, explicar as nossas razões com sensatez, tentar convencer, de forma leal, as outras pessoas — sem entrar, só porque sim, em confrontos que mais não são do que lutas de galos no muito público palco das redes sociais.


Agora, umas palavras de esperança: aos arranques e aos recuos, parece-me que muitas pessoas já estão a começar a encaixar na melhor forma de falar e discutir no Facebook. Ou melhor, há quem consiga manter a civilidade no mundo virtual — enquanto outros se desbroncam em explosões de má-educação e insultos por tudo e por nada. O que me leva a concluir que talvez sejamos as mesmas pessoas dentro e fora do Facebook e, como tal, uns conseguem aprender a viver o melhor possível nos vários mundos que vamos inventando, enquanto outros ficam para sempre mergulhados num mundo feito de irritações e feias discussões.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Saiba mais nesta página.

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1 Comentário

  1. Manuel

    Brilhante.

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