Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Três mitos sobre o catalão

Este é um artigo por antecipação. Como daqui a oito dias* é Natal, queria falar já do grande assunto da semana que agora começa: as eleições na Catalunha. Tenho, no entanto, um problema: não faço ideia se vão ganhar os independentistas ou os unionistas. Assim, o melhor é falar daquilo que não vai mudar e que, para dizer a verdade, é o que mais me interessa nesta história toda: o catalão, uma das duas línguas lá da zona.

Ora, o desconhecimento é o melhor adubo dos mitos. Nos últimos meses, tenho ouvido muitos sobre esta língua. Ficam aqui três…

1. «O catalão não era usado até há pouco tempo.»

Esta é uma impressão que alguns portugueses têm, provavelmente porque só agora repararam na língua… No entanto, a realidade está muito longe dessas distraídas impressões portuguesas.

Não podendo resumir a história duma língua numa crónica, ficam alguns traços largos e necessariamente imprecisos. O catalão foi usado na literatura durante a Idade Média e há alguns grandes vultos da cultura europeia dessa época que escreveram em catalão. Por exemplo, Raimundo Lúlio (em catalão, Ramon Llull) ou Joanot Martorell, autor de Tirant lo Blanc. O certo é que, depois da junção das coroas de Aragão e Castela, o catalão perdeu prestígio e o castelhano foi, durante séculos, a língua usada pelo Estado, pelos escritores e pelas elites quando estavam foram de casa.

O castelhano era a língua visível e a língua da escrita — mas não era a língua materna da grande maioria dos catalães. A língua que se falava dentro da casa dos catalães continuou a ser o catalão (com este ou outro nome).

Pois bem, a partir do século XIX, houve um movimento de afirmação do catalão enquanto língua de prestígio. Recuperou-se o uso literário da língua, enquanto, nas aldeias e nas ruas das cidades, o catalão nunca deixou de ser a língua materna da população — até que a televisão e o ensino massificado durante o século XX espalharam o castelhano.

Hoje, os catalães usam as duas línguas e o catalão é, certamente, mais visível do que na época em que não se usava na escrita; no entanto, sendo hoje uma das línguas oficiais da Catalunha, é menos falado do que há 100 anos, por exemplo. No fundo, o catalão, nos últimos cem anos, aumentou o seu prestígio, mas diminuiu o seu uso.

2. «O catalão deriva do espanhol.»

O catalão sofre há séculos influência do castelhano — mas não deriva deste último. Dizem os historiadores da língua que o catalão é a evolução particular do latim popular da Marca Hispânica, a zona de fronteira entre o reino dos Francos e o território muçulmano da Península.

O catalão tem, assim, uma origem claramente distinta do castelhano — aliás, algumas palavras denunciam uma fronteira que separa o catalão de todas as outras línguas ibéricas, incluindo o português. Vemos isto, por exemplo, na palavra «medo» (português); «miedo» (espanhol); «por» (catalão); «peur» (francês); «paura» (italiano) — ou então, no verbo «falar» (português); «hablar» (espanhol); «parlar» (catalão); «parler» (francês); «parlare» (italiano).

Não, o catalão não é uma «língua de trapos» e muito menos uma forma errada de falar espanhol — é uma das línguas latinas, oficial em Andorra e em três regiões de Espanha.

3. «O catalão não serve para nada.»

Algumas pessoas encolhem os ombros ou ficam incomodadas com a insistência dos catalães em falar esta língua. Se o espanhol serve tão bem, para quê esta trabalheira?

Ora, o catalão é a língua que grande parte dos catalães ouviram da boca da mãe. É a língua deles, como o português é a nossa. É a língua em que se sentem confortáveis. É ainda uma língua com tradição literária e língua de cultura — ainda por cima, os catalães não perdem o acesso à cultura em língua castelhana, pois escrevem e falam as duas línguas.

Ou seja, só pode ficar incomodado com o facto simples de haver milhões de catalães que querem falar catalão e ensiná-lo aos filhos quem estiver convencido que o castelhano deve ser a única língua de todos os espanhóis.

Depois, há outra ideia errada que alguns portugueses também defendem. Dizem eles que o catalão só é falado por mania dos independentistas. Pois bem: estes últimos parecem representar, pelos resultados eleitorais dos últimos anos, aproximadamente dois milhões e meio de catalães. Ora, o catalão é língua materna de uns cinco milhões de pessoas (não só na Catalunha, diga-se) e é usado como segunda língua por mais uns quantos milhões. É uma língua falada por mais europeus do que o norueguês, por exemplo. Será o norueguês inútil ou mania dos noruegueses? De certa forma, todas as línguas são uma mania de quem as fala. Nós, portugueses, vejam lá bem, temos a mania de falar português… Os catalães têm a mania de falar catalão — e ainda se atrevem a saber castelhano…

Sim, a língua é uma das bandeiras dos independentistas, mas está longe de se limitar aos círculos que defendem a separação de Espanha. Aliás, julgo que há um consenso muito alargado na sociedade catalã sobre a preservação da língua — um consenso que está longíssimo de existir no que toca à independência…

Mas então, não há problemas com a língua?

Claro que há, mas esses problemas estão, muitas vezes, na cabeça de quem não vive na Catalunha.

Em muitas regiões do nosso reino vizinho, há tendência para desprezar as outras línguas de Espanha. Muitos toleram a sua existência, mas pouquíssimos se interessam por elas. Muitos acham que aprender catalão é inútil e, para dizer a verdade, um pouco suspeito. Esquecem-se que, se a Catalunha é de facto parte de Espanha, isso só pode querer dizer que o catalão é uma língua de milhões de espanhóis e que merece respeito e (será pedir muito?) algum interesse. 

Depois, ouve-se muito por Madrid que os catalães não querem aprender castelhano e que o castelhano está em perigo na Catalunha — ora, isto parece-me injusto. Para que o leitor compreenda a injustiça, imagine um madrileno a acusar irritado um catalão de não querer falar castelhano — quando o catalão, na verdade, fala e escreve castelhano fluentemente, enquanto ao madrileno nunca lhe passaria pela cabeça aprender catalão… Temos gente monolingue a acusar gente bilingue de querer ser monolingue.

Sim, eu sei que aquilo que irrita muitos madrilenos é o facto de as crianças que falam castelhano em casa terem de aprender catalão na escola. Mas, bolas, essas crianças ficam a saber falar duas línguas — e assim evita-se a situação que ocorria há 50 anos, em que a sociedade catalã se dividia entre aqueles que falavam castelhano e catalão e aqueles que só falavam castelhano. O objectivo é que todos falem as duas línguas, independentemente da língua de casa e da origem dos pais.

Enfim, uma Espanha em paz consigo própria vai ter de aprender a viver com as línguas faladas por milhões de espanhóis — mais do que tolerá-las, deve assumi-las como suas para que aqueles que falam outras línguas se sintam confortáveis em Espanha. Será possível? Não sei. Mas diria que, se o país vizinho conseguir reinventar-se enquanto Estado plurilingue, o catalão, longe de não servir para nada, terá servido para salvar Espanha…

Dito tudo isto, deixem-me terminar com um desabafo: ainda bem que nós, portugueses, não temos de pedir licença para aprender, ensinar e viver à vontade na nossa língua. É por estas e por outras que não compreendo como uns quantos portugueses dizem, meio a brincar meio a sério, que mais valia sermos espanhóis. Tenham juízo.

(Já agora, se não se importarem, deixo-vos a ligação para um artigo sobre cinco palavras catalãs que me fazem cócegas.)

(*Este artigo foi publicado no Sapo 24 no passado domingo.)

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11 Comments

  1. Tiago

    Muito bom o seu blog! Parabéns!

  2. e o dialeto calabrês, bem como o falado na ilha da Sardenha, tem muita influência do catalão.

  3. Os portugueses nom têm de pedir licença pra falar a sua língua. E os mirandeses? Acaso sabem ou têm vontade d´aprender mirandês os lisboetas, os bracarenses ou os funchalenses? Averá quem ache que o mirandês é ũa forma de falar “errado”?

    Coido que nom fai falha sairdes de Portugal pra atopar mitos linguísticos.

    • Marco Neves

      Sim, também existem muitos mitos linguísticos em Portugal, alguém disse que não? Quantos artigos já não escrevi aqui sobre isso mesmo — e também sobre o mirandês.

  4. Ah, e ganhou o independentismo; tal e como se agardava. Ademais, seguiu coa tendência de subir votos (100.000 votos máis ca no 2015, passando dos 2 miliões pola primeira vez nũas eleições); e perdeu escanos (de 72 a 70), devido a que aumentou a participaçom; e disses “novos” votos, os máis diles fôrom pros unionistas (de 52 a 57).
    Ora bem, que o autor diste artigo diga “estes últimos parecem representar, pelos resultados eleitorais dos últimos anos, aproximadamente dois milhões e meio de catalães” é exagerar “um pouquinho”, diria eu. Inda lhe falta pra poder chegar a tanto. Avia que ponher-lhe máis de 2 miliões, afirmaçom que concorda plenamente cos dados.

  5. Leonor Raven

    Certíssimo.
    Leio sempre o seu blog com muito interesse.

  6. Manuel Pereira

    Este artigo vale por tudo o que disse, mas principalmente vale pelo último parágrafo: somos portugueses, falamos português, temos uma cultura diferente, construída por nós e não precisamos da licença de ninguém para nos manifestarmos, falarmos e escrevermos em uma língua completamente diferente da dos monárquicos e franquistas de Madrid

  7. Vitor

    Diz o autor, com grande intuição “não compreendo como uns quantos portugueses dizem, meio a brincar meio a sério, que mais valia sermos espanhóis”. Se acontecer a situação desses portugueses chegarem a ser espanhóis, ao pouco tempo teriam o problema de os espanhóis os pressionarem para abandonar a língua portuguesa e falarem espanhol. Digo-o eu que, como galego, tenho muita e magoada experiência dessa questão. O artigo, aliás, muito bom, como a maioria dos de Marco Neves. Parabéns!

  8. Acertadísmo, Marcos. Parabéns polas definicións tan ben resoltas.

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