Desta vez, apeteceu-me apresentar as razões por que ver o telejornal é uma actividade de alto risco.

1) O mundo está cheio de cães que mordem o homem — só que não aparecem nas notícias

Se o homem que morde o cão é notícia e o cão que morde o homem nem por isso, isto quer dizer que as notícias mostram o que é extraordinário e não o que é normal no mundo.

Ora, isto tem uma implicação profunda: quem basear a sua visão no mundo apenas nas notícias fica a conhecer o que não é normal. Ou seja: vai ficar convencido que o mundo está cheio de homens que mordem cães.

As notícias transmitem uma visão do mundo que tende para o extraordinário. Por exemplo: ficamos todos horrorizados com as notícias de pais ou mães que matam os filhos. Ora, se alguém baseasse a sua opinião sobre o que é normal numa relação entre pais e filhos apenas nas notícias, ficaria convencido que a maioria dos pais maltrata os filhos ou os quer matar.

Felizmente, no caso dos pais que matam os filhos, todos temos experiências pessoais que contrabalançam o que vemos nas notícias — e assim percebemos intuitivamente que aquilo são excepções. Mas já não será tão óbvio perceber se esses casos estão a aumentar ou a diminuir. Muitos julgam saber, sem margem para dúvidas, que estão a aumentar — afinal, lembram-se muito bem dos casos que ouviram nos últimos tempos. Na verdade, só olhando para os números (o que não é fácil) podemos saber com mais rigor o que se passa no mundo.

Agora, aqui fica uma provocação: quanto mais violência há no mundo, menos extraordinária será — e vice-versa. Daí, não é difícil concluir algo estranho: quanto mais violência aparece nas notícias, mas extraordinária é essa violência e mais pacífica será a sociedade.

É um exagero, uma conclusão apressada, um absurdo — concordo. Foi apenas uma provocação. Mas não deixa de corresponder ao que as estatísticas nos dizem. O caro leitor faça alguma pesquisa sobre o número de homicídios nas últimas décadas, apenas como exemplo; veja também o número de mortos em guerras — e por aí fora. (Mas, já agora, fique até ao fim, pois tenho uma surpresa guardada no final do texto sobre este mesmo assunto.)

Sim, o mundo parece louco depois de vermos o telejornal — afinal, a função dos jornalistas é andar à procura da loucura do mundo.

2) Há mesmo estudos científicos para todos os gostos

Sim, é verdade: parece haver estudos para todos os gostos. Há quem diga que o leite faz mal e tem um estudo na mão e há outras pessoas que tem a certeza que o leite só faz bem e também vem armadas com uns quantos estudos nas duas mãos.

O problema, na verdade, não é dos cientistas: é mais da nossa incapacidade de perceber como funciona a ciência e os estudos científicos.

É quase inevitável que, se fizermos 20 estudos sobre um medicamento (ou sobre o leite), vamos ter dois estudos com resultados contraditórios — o segredo está em olhar para os resultados que perduram no tempo e não para um ou outro caso particular.

Mas, claro, é muito mais fácil pegar naquele estudo que por acaso parece provar o que queremos, ignorando todos os outros. Basta pensar no famoso estudo que parecia mostrar uma relação entre vacinas e autismo e que se baseou em pouquíssimas crianças. Um estudo malfeito, isolado, com um resultado que é fruto do acaso — desde que confirme as teorias que algumas pessoas têm na cabeça vale mais do que todos os outros estudos realizados ao longo dos anos. Repare o leitor: se a relação entre vacinas e autismo fosse real, esse efeito tenderia a aparecer na maioria dos estudos realizados.

A ciência é, no fundo, um conjunto de técnicas para filtrar aquilo em que somos tendenciosos. Não é fácil — e há muito caminho a percorrer mesmo dentro da ciência.

Agora voltemos às notícias: se os estudos científicos estão aí à mão de semear para provar tudo e o seu contrário, imagine-se o que não acontece com as outras notícias. Então se falarmos de questões políticas ou económicas, temos o caldo muito entornado. Duas pessoas de partidos diferentes a ver o telejornal conseguem ver coisas completamente diferentes: o apoiante do partido ABC sabe que as notícias confirmam como seu partido é o melhor — e quando não confirmam, a razão é simples: a comunicação social está toda do lado do partido XYZ. Já o apoiante do partido XYZ está convencidíssimo que as notícias demonstram a razão do seu partido — e só não são mais entusiásticas porque todos sabem como os jornalistas tendem todos a ser do partido ABC.

3) O raio do mundo é sempre mais complicado do que parece

Sim, é uma surpresa para muitos, mas o número de homicídios e mortes em guerras tem diminuído nas últimas décadas em muitos países — nos E.U.A., por exemplo. Em Portugal também tem havido menos homicídios — já no que toca à guerra, enfim, nós não somos muito dados a esse desporto, o que só nos fica bem.

O cirurgião Atul Gawande, num livrinho que estou a ler (Better), mostra que os homicídios, nos Estados Unidos, têm de facto diminuído a olhos vistos — mas as tentativas de homicídio nem por isso. O que se passa é que a medicina tem conseguido salvar muito mais vítimas de ataques com armas de fogo do que há umas décadas — e tem também conseguido salvar mais soldados feridos, diminuindo a mortalidade em situações de guerra. Ou seja, se olharmos só para os números, não percebemos o que aconteceu.

Esta nossa corrida para perceber o mundo não tem fim, para dizer a verdade. As estatísticas tiram-nos as palas das notícias vistas a correr, mas podem esconder outros segredos. Agora, o pior de tudo será tentar perceber o nundo olhando apenas para as letras gordas dos jornais, para os títulos dos artigos publicados no Facebook ou ouvido os primeiros três minutos do telejornal — e, admitamo-lo, muitos de nós fazemos precisamente isso.

A solução? Não é fácil. Temos de ler mais, compreender alguma coisa de estatística, desconfiar das nossas ideias… É muito mais fácil escolher umas quantas certezas à bruta e não querer saber de mais nada. As opiniões ditas com ar de certeza são mais interessantes — e arranjamos sempre uma ou outra notícia, um ou outro estudo, uma ou outra história para confirmar tudo o que quisermos. Hesitar, duvidar, fazer o esforço de raspar a superfície do mundo para lá das palavras fortes… Ah, isso cansa muito.

(Publicado no Sapo 24 no dia 11 de Junho de 2017.)