Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Um quadro copiado milhões de vezes

Caí no vício outra vez. Apeteceu-me pôr a girar aquela roda da fortuna de que vos falei e fui parar, desta vez, a um artigo sobre um quadro espanhol. (Tive sorte, foi o que foi.)

O quadro é este (La Fuensanta):

É de Julio Romero de Torres e foi pintado em 1929. Foi apresentado na Exposição Iberoamericana de Sevilha de 1929 (é o que diz o artigo da Wikipédia) e, depois, desapareceu até 2007.

Bem, não desapareceu completamente: aliás, é provável que muitos espanhóis o conheçam — porque andou nos bolsos deles durante muitos anos, numa nota de 100 pesetas:

Mas como apareceu nas notas, se o quadro se perdeu? Bem, foi usada uma fotografia do quadro. E, a partir da foto, o quadro foi reproduzido 981.200.000 de vezes, nas tais notas de 100 pesetas.

Pois bem, mas este exercício de falar dum assunto ao calhas não pode limitar-se a repetir o que a Wikipédia diz. Para isso já bastam muitos trabalhos que por aí rodam. Pois, deixem-me lá dizer-vos isto: tal como os espanhóis conhecerão este quadro por causa das pesetas, também nós ainda nos lembramos do aspecto de algumas personagens muito nossas por causa da imagem que tínhamos nos bolsos. Pois, se eu disser Gago Coutinho, não se lembram logo deste Gago Coutinho?

E o Bocage? Não é esta a cara que vos aparece na mente?

O dinheiro é sujo, mas às vezes põe-nos arte nos bolsos — ou pelo menos a cara de algumas pessoas importantes. Tenho alguma pena que as notas de euro sejam tão anódinas. E não é que a Europa não tenha pintores em barda — e escritores, compositores e tudo o mais (até piratas, vejam lá). Não tem é poucos. Só que se pomos um quadro austríaco, logo tínhamos Malta a reclamar que também quer lá alguém, não é verdade? Problemas desta moeda complicada — mas também se fossem só esses, estávamos bem! E, sim, também é verdade que a arquitectura é um arte das maiores — mas aquelas janelas e pontes não lembram nada, porque são quase abstractas. E é pena.

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1 Comentário

  1. Carlos Rocha

    Para alguns dos nossos filhos – os que nasceram depois de 2002 – essas janelas e pontes hão de com certeza abrir-lhes memórias muito concretas. Oxalá nem as janelas estilhacem, nem as pontes rebentem.

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