Todos sabemos como são os verbos irregulares: umas palavras mal-comportadas, que têm umas regras a cumprir e dão-se ao luxo de as ignorar só porque sim.

O inglês, por exemplo, tem as suas regras de formação do passado, com o “ed”, mas depois lá vêm os verbos irregulares trocar-nos as voltas, rindo-se de nós, pobres aprendizes de línguas estrangeiras: “ah, connosco tens mesmo de decorar”. E ficamos com os “drank”, “sang”, “put” e outros que tais.

Curiosamente (não sei se já repararam), as crianças não têm qualquer problema em aprender os verbos irregulares da sua própria língua: dão um ou outro tropeção inicial e depois nunca mais se lembram do problema.

Tanto assim é que é muito difícil para qualquer um de nós dizer quais são os verbos irregulares da nossa própria língua.

Parece que o cérebro dos bebés aprende qualquer língua, independentemente da complexidade.

E, o certo, é que existe pelo menos uma língua cujos verbos são todos irregulares: o navajo. Esta língua norte-americana (que chegou a ser usada como código de comunicação durante a II Guerra Mundial) tem verbos que odeiam regras. Nenhum deles segue uma qualquer tabela de conjugação.

Então, como é isto possível?

É possível, claro: as crianças que aprendem navajo como língua materna não notam que há qualquer coisa de diferente na sua língua.

Já os adultos que se atrevem a aprender esta velha língua índia vêem-se a braços com uma tarefa digna dum Hérculas das línguas.

Um livro interessante que descreve o fenómeno (e ainda apresenta uma excelente teoria sobre a razão por que línguas como o inglês e o persa são tão regulares) é What Language Is, de John McWhorter.

Bem, quem não quiser leituras deste tipo, fique-se por aprender a dizer os números em navajo (se conseguir):

  1. tʼááłáʼí 
  2. naaki 
  3. tááʼ 
  4. dį́į́ʼ 
  5. ashdlaʼ 
  6. hastą́ą́ 
  7. tsostsʼid 
  8. tseebíí 
  9. náhástʼéí 
  10. neeznáá