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Tenho vários «erros» para adicionar ao Dicionário de Erros Falsos. Mas hoje, por causa deste artigo da Visão, deixei esses outros erros para trás e adiantei-me com este: «para além disso». Sim, há quem ache que «para além disso» é um erro e prometa lutar para sempre contra esta expressão. Vá lá, deixem-se disso. A língua portuguesa merece mais do que estas perseguições sem sentido a expressões bem jeitosas.

«Para além disso». Ainda há pouco tempo li quem quisesse banir esta expressão. Porquê? Porque é uma redundância. Ah, o medo! E, no entanto, a redundância é uma das características essenciais das línguas humanas. Sem ela, não seria possível comunicar. (Tento explicar isso neste artigo.) Pois bem, o que propunha quem proibia «para além disso»? Estas duas expressões, supostamente mais correctas: «além de» ou «para lá de». Mas porquê? Porquê? Se a segunda destas expressões até tem o mesmo número de palavras… Será uma questão de número de caracteres? Mas então?… Temos mesmo de escrever em forma de telegrama, com o menor número de caracteres possível? Ou o problema será existirem várias expressões para dizer a mesma coisa? Querem mesmo uma língua ali no osso, só com as palavras essenciais e mais nenhuma? Camões nunca teria escrito Os Lusíadas se a nossa língua fosse essa espécie de matemática aterradora em que só podemos ter uma expressão para cada significado e sempre a expressão mais pequena possível… Enfim, «para além disso» teve o azar de servir como exemplo para o tal medo da redundância. Vai daí, aparece num artigo qualquer sobre «erros». Resultado? Nada: ninguém fica a escrever melhor por evitar esta boa expressão.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.