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Encontrei, já uns dias, um blogger que, declarando-se ateu, gostava ainda menos daqueles que baptizam só por causa da festa do que daqueles que baptizam porque acreditam mesmo nisso. Atacava aquilo que chamava o «cristianismo cultural».

Ora-me, parece-me errado atacar esta religião esvaziada, o tal «cristianismo cultural» (em Portugal, será a religião daqueles que se chamam, para horror de muitos, «católicos não praticante»). Ou, pelo menos, parece-me errado dizer que se prefere uma religião viva e fervorosa a essa religião desactivada.

Se pensarmos bem, uma religião que é mais festa e ritual é muito menos perigosa e muito mais simpática do que uma religião que existe com base na crença absoluta nos seus dogmas. O cristianismo vivido como verdade absoluta, esse sim — como todas as religiões —, pode descambar rapidamente em extremismos.

Os ritos são parte de todas as sociedades. Podem estar mais ou menos vazios sem que venha mal ao mundo por isso. O baptismo, o casamento, a morte: todos estes rituais, acompanhados de cerimónias com mais ou menos conteúdo ideológico, com mais ou menos flores e embrulho religioso, marcam os momentos importantes das vidas de cada um, integrando-as na comunidade onde vivem. Agora, é quando se acredita nos dogmas sem margem para a mais pequena dúvida que as coisas podem descambar. Sim, chamem-me tonto, mas prefiro a festa ao dogma.

Por isso, não, não tenho medo de quem baptiza porque é tradição e há festa, tal como também não tenho medo de quem baptiza porque tem dúvidas e vive numa certa ambivalência. Tenho muito mais medo de quem baptiza porque quer um filho tão fervoroso como ele.

Felizmente, as nossas sociedades passaram pelo processo (muitas vezes doloroso) de separação da Igreja do Estado e ainda de esvaziamento da religião, o que só posso encarar como saudável, por mais incomodativo que pareça a quem gosta de certezas e odeia ambiguidades.

Aliás, esse esvaziamento da religião é o que falta em muitas sociedades demasiado religiosas (sim, estou a falar também de muitos países islâmicos). Atrevo-me a dizer que estas sociedades precisam de esvaziar a religião.

O que quero dizer com isto?

Duas coisas: é bom que estas sociedades mantenham a tradição cultural, que promove a coesão social, sem que nos sintamos invadidos por outras culturas, mas também é bom que essas mesmas sociedades percam aquela certeza aguda que impele muitos a matar os infiéis em nome de Deus.

Mais uma vez: não é muito melhor que Deus sirva como desculpa para uma festa do que como desculpa para odiar os outros, acredite-se ou não na sua existência?