Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Ver nevar no meu país é que está quieto…

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Tenho vários posts começados, mas os dias são todos diferentes e os assuntos aparecem e passam para a frente da fila, deixando os outros posts em estado de rascunho a murmurar «isto só neste país!» — enquanto o post novinho em folha faz de conta que não é nada com ele e chega-se à frente para ser publicado.

Assim, neste fim de Inverno, apetece-me falar de neve. Não porque tenha visto neve a cair, porque não vi (aliás, como vou explicar, nunca vi tal coisa em Portugal). O que vi, há umas semanas, foi granizo. Lembrei-me hoje disso não sei porquê.

A coisa é estranha: chove e todos resmungam. Cai qualquer coisa que parece neve, e até os jornalistas começam a brincar. Ainda há uns tempos, na SIC, um jornalista perguntava a um trabalhador da Câmara se não achava isto (o granizo) giro, e o trabalhador, que tinha de ir limpar este granizo todo, fez aquele ar «este gajo é maluco» e disse: «sim, as pessoas acham giro»… «Pessoas», entenda-se, significa «esses gajos que não têm de limpar esta porcaria toda».

Digamos que o granizo é a neve que temos, e este é o país que temos, e por isso vamos falar de neve — que um post sobre granizo é bem menos interessante.

A minha relação com a neve é curiosa: quando era novo vi neve muitas vezes, mas neve caída, não propriamente neve a cair. Ou seja, fui muitas vezes com os meus pais à Serra da Estrela, essa montanha privativa dos portugueses, fiz muito sku, que ski não era para nós, mas ver a coisa em si a cair não vi. A neve, na minha cabeça, foi ficando coisa de filmes, de outros países, de fantasia — cai neve em Nova Iorque, talvez Londres, nos Natais dos filmes, com lareiras, um manto branco lá fora, e nós aqui a contar histórias, a ler um livro, abraçados debaixo das cobertas. Algo assim. Neve em Portugal, só a neve que alguém põe lá na Serra da Estrela.

Ora, quando tinha aí uns dez anos, fiz uma coisa rara: fui passear sem os meus pais — só para poder ver nevar. A minha avó Leonor e o meu avô Faustino iam à Serra da Estrela (já não me lembro porquê), os meus pais tinham de ir passar o fim-de-semana a Leiria (também já não me lembro porquê) e como, segundo os senhores do tempo, se avizinhavam dias de neve, pedi a todos (pais e avós) para ir à Serra, que Leiria já eu conhecia e bem — e lá nunca neva.

Lá fomos. Ficámos numa hospedaria de freiras, na Covilhã, se bem me lembro — e não me lembro de mais nada. A Covilhã é muito bonita, mas fui lá tantas vezes que não sei se alguma das memórias é dessa viagem específica.

Do que me lembro bem foi do que não aconteceu. E o que não aconteceu foi nevar…

Minto. Também me lembro muito bem dum telefonema dos meus pais.

— Então, filho, estás a gostar?
— Muito…
— Já viste nevar?
— Não.
— Ó… É pena. Olha, aqui em Leiria está a nevar.

Se eu dissesse asneiras aos dez anos ao pé dos meus avós, teria dito coisas muito feias.

Pois passaram anos e continuei sem ver nevar.

Curiosamente, casei-me com uma rapariga que também nunca tinha visto neve a cair. Ora, levei a coisa para o romântico: nunca tínhamos visto nevar porque estava escrito nas estrelas que teríamos de ver nevar, pela primeira vez, os dois, juntinhos. Afinal, se até trabalhamos juntos, passamos férias juntos, vamos para o trabalho juntos, vamos para a Serra da Estrela juntos, etc., nem era preciso estar escrito nas estrelas: as probabilidades estavam a nosso favor.

Mas as estrelas (e as probabilidades) são lixadas.

Tivemos um quase-quase quando um dia neva em Lisboa, aí há uns 10 anos (não me lembro bem e não tenho tempo para investigar agora). Pois as televisões diziam «está a nevar em toda a cidade» e só me apetecia telefonar e dizer «ó meus amigos, vejam lá bem o que dizem, porque em toda a cidade não está certamente, que estou a olhar pela janela, e neve é coisa que não está a cair, ok?» (Para ser rigoroso, Lisboa acabava do outro lado da rua, mas nunca pensei que a neve ligasse a esses preciosismos das divisões administrativas de Lisboa.)

Portanto, a coisa estava difícil. Tinha, no entanto, uma consolação: iria ver nevar junto da mulher da minha vida.

Eis se não quando tenho de ir com o meu irmão a Inglaterra (ele estava a preparar-se para ir viver para lá). Isto em Outubro. Não sei se conhecem bem a meteorologia britânica para lá dos lugares comuns, mas não é habitual nevar em Outubro.

Excepto quando eu vou lá.

Fomos a Cambridge e estávamos a caminho de Londres, de comboio, à noite, quando começa a nevar.

Nos primeiros dois dias da minha vida em 10 anos em que não estava com a minha mulher — vejo, por fim, caírem flocos de neve nas minhas mãos.

Saímos do comboio e fiquei que nem uma criança, num qualquer apeadeiro no meio de Inglaterra, à noite, perante o olhar intrigado dos ingleses.

Telefonei à minha mulher, que ficou um pouco triste. Mas pronto, a vida é assim, há coisas (bem) piores.

Algum tempo depois, já com o meu irmão a viver em Inglaterra, fomos visitá-lo. Aí, sim, a minha mulher viu nevar pela primeira vez. Sorri complacente, do alto da minha sabedoria de pessoa que já tinha visto nevar.

Já agora — nessa viagem acabei por ter de fazer algo que nunca pensei possível: conduzir a nevar ao contrário. Aliás, conduzir ao contrário, a nevar (maldita sintaxe!). Quem diria… Conduzir em Inglaterra é uma experiência e tanto, então com neve, não vos digo nem vos conto.

Anos passaram. Continuei sem ver nevar… em Portugal. E bastava passar a fronteira… Por volta de 2009, quando estava a passar umas semanas no Porto, por motivos profissionais, decidimos ir dar uma volta pela Galiza para descomprimir. Pois, estávamos nós na auto-estrada galega quando cai uma tal borrasca de neve e vento que os carros tiveram de parar todos. Voltámos a Portugal e o sol à nossa espera, que ver nevar no meu país é que não pode ser.

Portanto, ainda hei-de ver nevar pela primeira vez de mãos dadas com a minha mulher. Só tenho de especificar «em Portugal». É um romantismo mais patriótico. Enfim, o que tem de ser tem muita força, mesmo que bata leve levemente.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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4 Comentários

  1. Matilde Teixeira

    Post muito leve e engraçado…
    Já vi nevar muitas vezes, em Portugal, na minha infância transmontana – era uma festa, santo Deus! – e em muitos países. É sempre uma experiência emocionante!
    Relembro duas das últimas vezes : no Centro Pompidou em Paris, parecia que estávamos suspensos no céu, a brancura a entrar pelas grandes paredes envidraçadas, a separar-nos do mundo, em menos de uma hora caíram 30cms de neve. Outra em Istambul, sozinha no terraço envidraçado do Hotel, a tomar o pequeno almoço entre Santa Sofia e a Mesquita Azul, o Mar de Marmara a perder os contornos, uma visão a 350 graus de céu e flocos de neve a princípio muito finos, quase imperceptíveis depois a bailarem cada vez mais grossos e decididos a cobrir de branco a cidade… Lindo!

  2. Bom, isso explica porque Portugal consegue tam poucas medalhas nos Jogos Olímpicos d´inverno. Mais nom explica dos do verão.

  3. Natália de Castro

    Gostei muito de ler o seu artigo sobre esse fenómeno maravilhoso da Natureza, o cair da neve, com um bonito e muito pertinente final a lembrar o nosso Augusto Gil!

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