Certas Palavras

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Vocês e tal (não se ofendam)

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Ai, que isto é complicado. Pelas ruelas do Facebook, encontro um escritor de quem gosto muito que se admira com um simples «vocês» dito por quem não devia.

Ainda me lembro de, nos primeiros dias da faculdade, ver uma colega a tentar ser bem-educada para com uma professora e a dizer, na confusão de quem vem de outras terras deste pequeno e complexo país, um humilde «você».

Levou uma decompostura tal que — permitam-me o desaforo — fiquei a saber mais de quem se ofendeu do que de quem ofendeu (sem querer).

Devia a minha colega passar sem aviso de que, em Lisboa e numa faculdade, não convém dizer tal asneira? Talvez não: a professora podia ter aproveitado para, com algum sorriso e uma piada para desanuviar, ensinar alguma coisa sobre a sensibilidade social da capital.

Estava a minha colega a ser mal-educada? Aqui, digo, com exclamação e tudo: não!

A situação é diferente no caso dum jornalista sabido, admito. Mas os comentários por baixo do post do escritor mostraram, lá está, mais de quem comenta do que de quem é comentado.

Digamos que saltou a tampa da brigada da boa educação: que aquilo é má-educação, que é estrebaria — e tudo pelo simples facto de que agora já não há tantas barreiras sociais como o velho antigamente — e os hábitos de boa educação de algumas pessoas não são os hábitos de boa educação de outras pessoas — e isto leva a alguns curtos-circuitos no cérebro de alguns, e de repente temos «vocês» na televisão e o diabo a sete.

Em suma, as formas de tratamento variam mais do que nos estanques mundos sociais de há umas décadas e há gente de hábitos diferentes a falar na televisão — o desaforo, vejam lá.

Tudo aconselha a que sejamos menos radicais nestas avaliações — e, direi ainda, bom seria que entretanto nos entendêssemos no que toca a formas de tratamento mais estáveis, embora isso não se faça de forma consciente e muito menos à força de pancada e insulto pelas ruas do Facebook (digo-vos eu).

Um pedido: enquanto não chegar o feliz dia em que os portugueses comecem a usar formas de tratamento mais estáveis e universais, ofereçam, generosamente, o benefício da vossa dúvida.

Nota para tradutores: como este blogue é lido por muitas pessoas ligadas à tradução, gostava de sublinhar que é mesmo muito arriscado usar «você» em tradução (pelo menos, na tradução técnica). Os tradutores, nestas questões, têm de ser mais papistas do que o papa (embora o papa provavelmente não ligue muito a estas controvérsias sociais). Pelo menos, é esta a minha cautelosa posição, mas lá virá o dia em que até isso mudará. Ah, os tempos…

ADENDA: minutos depois, encontro também pelo Facebook um excelente texto de Fernando Venâncio sobre a complexidade do assunto. A ler.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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2 Comentários

  1. Helena Garvão

    Na verdade, esta complicada questão sócio-linguístico-cultural do ‘você(s)’, fez-me lembrar uma antiga colega minha de História que tinha o mesmo “preconceito/prurido linguístico” em relação a essa forma de tratamento. Um dia, contou-me ela, foi lá a casa um homem para lhe mudar a alcatifa e, em determinado momento, perguntou-lhe se ela tinha um objeto qualquer (já não me lembro qual) desta forma: “Você, por acaso, não tem …?”. O ‘você’ soou mal aos ouvidos da minha colega, considerando-o um insulto. Então, ela optou, como lição pedagógico-sócio-cultural, por tratá-lo daí em diante por ‘o senhor’, achando que assim o educaria para esta forma “correta”, segundo ela. Na despedida, o homem disse-lhe: “Você assina-me aqui o papel?”, ao que a minha colega, após tantos tratamentos por ‘senhor’, concluiu que ele era mal-educado e burro.
    Diga-se ,de passagem, que esta colega considerava um insulto um(a) aluno/a entrar na aula com luvas calçadas! Aí, fui eu que tive uma discussão com ela porque ela achava que uma aluna,que tínhamos em comum, que se recusou a tirar as luvas porque tinha frio deveria levar uma falta de comportamento e eu, como diretora de turma, achei que lhe devia ser retirada essa falta.
    Finalmente, gostaria de aconselhar sobre a questão um livro importante do meu saudoso Professor e grande linguista, Lindley Cintra, intitulado ‘As Formas de Tratamento em Português’. Obrigada , Marco Neves, pelo seu sempre oportuno e atual artigo e pela remissão para o excelente texto de Fernando Venâncio.

  2. Alexandre

    É curioso, na Galiza as formas de tratamento aos professores de faculdade estão baixadas um nível, por assim dizer. O tradicional e respeitoso é tratá-los de “você” (ou “vostede”), mas cada vez é mais comum que os estudantes os tratem de “tu”.

    Parabéns polo excelente artigo, como sempre! 🙂

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