Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Por que razão não chamamos «primeira-feira» ao domingo?

Uma pergunta do meu filho levou-me numa viagem pelos dias da semana — até chegar ao século VI…

O desconcerto do mundo

Um dia destes, enquanto se despachava para ir para a escola, o Simão perguntou:

— Hoje é sexta-feira?

— Sim, é!

Calou-se, a pensar.

— Sabem uma coisa que eu não percebo sobre o mundo?

A minha mulher e eu olhámos um para o outro, com algum medo.

— Diz lá…

— Se há segunda-feira, porque é que não há primeira-feira?

Sorrimos e lá lhe dissemos que tinha de se despachar — e que, no fundo, a primeira-feira era o domingo! Ele não ficou muito convencido. O domingo é o domingo, ponto final. Mas, enfim, o relógio avançava e a escola estava à espera.

Fiquei a pensar na pergunta dele. Há, de facto, uma história por trás dos nomes dos dias úteis — e tem algumas surpresas.

Mas, antes disso, proponho uma viagem rápida pelas semanas deste mundo.

Volta ao mundo pelos dias da semana

Aqui ao lado, em castelhano, o nome da segunda-feira, longe dos nossos números, olha para a lua: «lunes».

Já em catalão, o nome é «dilluns» — nessa língua, todos os dias da semana começam pelas mesmas duas letras: «dilluns, dimarts, dimecres, dijous, divendres, dissabte, diumenge».

Saltamos para França e esse «di» salta para o fim, menos ao domingo: «lundi, mardi, mercredi, jeudi, vendredi, samedi, dimanche».

Enfim, podíamos continuar pela Europa fora… Os alemães chamam «meio da semana» à quarta-feira: «Mittwoch».

Já os russos chamam à segunda-feira «понедельник»ponedel’nik»). O significado literal é algo como «[dia] depois do [dia de] não fazer nada». Isto porque o antigo nome do domingo, em russo, era «недѣля» («nedě́lja»), que significa algo como «[dia de] não fazer nada». Hoje em dia, em russo, o domingo chama-se «воскресенье» («voskresénʹje»), ou seja, «dia da ressurreição», enquanto o antigo nome passou a designar a semana inteira. Noutras línguas eslavas, o nome para domingo continua a ser «o não fazer nada». Seja como for, a segunda-feira continua a ser, também em russo, o dia depois do dia em que não fazemos nada. (Ainda dizem que as línguas não são interessantes…)  Ah! Quanto ao resto da semana, os russos chamam algo como «quinto dia» à sexta-feira, o que deve confundir um português que aprenda a língua…

Mudando de continente, percebemos que, em árabe e em hebraico, os dias seguem uma ordem parecida com a nossa: a segunda-feira é o segundo dia.

Damos um salto no globo. Descobri esta semana, através de Gaston Dorren (o autor do excelente livro Babel: Around the World in Twenty Languages), que o vietnamita também relaciona a segunda-feira com o número dois… Será que foi influência nossa, que para lá levámos as letras do alfabeto?

Quem inventou estas feiras todas?

Chegou a altura de viajar no tempo e perceber de onde vêm as nossas feiras…

Se as outras línguas das redondezas mantêm a tradição romana de dar nomes de deuses aos dias, neste recanto da península alguém se lembrou de lhes dar outros nomes. O culpado foi São Martinho de Dume, bispo de Braga que, no século VI, quis dar nomes menos pagãos aos dias da Semana Santa. Pelo menos nessa semana! — diria o bispo.

Ora, a Semana Santa era toda de descanso e oração — uma semana feita só de feriados…

O primeiro feriado era mesmo o Domingo de Ramos, que já tinha nome bem cristão («Dia do Senhor») — e assim ficou.

Pois bem, os dias seguintes ganharam novos nomes [baseados nos nomes já então usados na liturgia da Igreja*]: segundo feriado («secunda feria»), terceiro feriado («tertia feria»), quarto feriado («quarta feria») — e por aí fora…

Com o tempo, esses nomes passaram a usar-se para designar os dias de todas as semanas do ano.

Note-se que São Martinho de Dume era um bispo de Braga, cidade do Reino dos Suevos, a antiga Galécia romana. Assim, os nomes com «feira» tornaram-se típicos da língua dessa zona, língua que se continuou a falar pelos séculos fora até chegar ao português e ao galego dos dias de hoje.

Ainda encontramos quem use os nomes com «feira» na Galiza — e há até uma campanha para recuperar os nomes tradicionais. Depois, numa reviravolta que responde ao meu filho, há quem tenha encontrado o termo «primeira-feira» como referência ao domingo — nalgumas aldeias da Galiza!

Enfim, há de facto coisas espantosas neste mundo, como diria o Simão. Os nossos dias de trabalho são precisamente os dias com «feriado» no nome… — As voltas que as línguas dão!

Resta-me desejar a quem me lê um bom resto de primeira-feira…

* Adenda a 1 de Abril (mas sem mentiras). Continuei a ler sobre o assunto e chego à conclusão que o uso do termo «feria» para designar os dias é anterior a São Martinho de Dume, sendo o termo habitual para os dias da semana em latim eclesiástico — o bispo bracarense não inventou os nomes, mas incentivou o seu uso fora do âmbito eclesiástico, chamando aos nomes anteriores «nomes de demónios». Este artigo do Ciberdúvidas discute o mesmo assunto. Continua a ser verdade que a origem da «feria» do latim eclesiástico é a mesma que a do nosso termo «feriado». Seja como for: boa segunda-feira!

(Crónica publicada, com ligeiras diferenças, no Sapo 24. Muito obrigado a Luis Trigo pela pista sobre a «primeira-feira» galega, a Serge Lunin pelas indicações sobre a «segunda-feira» russa e a Gaston Dorren pelas informações sobre o vietnamita.)

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18 comentários
  • Boa tarde colega,
    mas esta nossa maneira de indicar os dias da semana numerando-os, sem atribuir a uma divindade ou planeta, como noutras línguas, não tem origem no calendário babilonês? Tinha encontrado esta informaçãono volume “Calendario – le feste, i miti, le leggende e i riti dell’anno” de Alfredo Cattabiani.

    • É possível que o calendário eclesiástico tenha seguido o calendário hebraico. A partir daí, não sei qual será o percurso deste sistema, mas não me espantaria que houvesse uma origem mais antiga. 🙂 Não conheço o livro que refere, mas fiquei curioso.

  • Faltou dizer que o di que aparece em catalão e em francês corresponde à nossa palavra dia: dia da lua, de Martes, de Mercúrio, etc.

  • Mais uma excelente postagem sua, Marcos. Presumo que a passagem de “feria” para “feira” tenha se dado de forma espontânea, por mutações na língua falada, ou há alguma outra explicação? Abraços do Brasil.

  • Obrigado, foi interessante! Mas fiquei om uma dúvida, porque é que os alemães adotaram uma nomenclatura diferente? (O Marco deu o exemplo do Mittwoch…)

    • É verdade e essa palavra («féria» como dia de trabalho) tem também origem na palavra latina para «feriado» e é, assim, prima da «feira» dos dias da semana. As palavras dão muitas voltas…

    • Não deu para chegar a todas as feiras… 🙂 Sim, li que o calendário eclesiástico que deu origem ao nosso sistema seguiu os dias da semana em hebraico, mas não tive tempo de confirmar ou procurar mais informações. No entanto, é verdade que o hebraico numera os dias como nós.

  • Antigamente a semana era contada da 1ª à 6ª féria, ou, dias de trabalho.
    O sábado (sabath) era o dia de descanso e oração.
    A páginas tantas houve um Papa que resolveu que os cristãos “não podiam” ter o mesmo dia da semana dedicado a Deus como tinham judeus e muçulmanos.
    Vai daí, a Igreja Católica decidiu transformar o primeiro dia de trabalho em dominus dei (DOMINGO). Desapareceu a 1ª feira e nasceu o domingo. Ainda se passa assim nos países ditos católicos. Em Israel e países muçulmanos o sábado continua ser o seu “domingo”. Fim de dia de sexta é para orações e o Sabath(sábado)é o dia de Deus.
    E o raciocínio é simples e lógico: “Deus criou o Mundo e descansou ao SÉTIMO DIA” (Sábado).
    Na Igreja Católica “exigiram” que fôssemos diferentes dos outros crentes.
    🙂
    Coisas…

    • Boa noite. Em Grego também usamos os termos Segunda-Quinta (sem feira). Mas Sexta-feira se chama Paraskevi (Preparação) provavelmente para o Sábado. E Domingo se chama Kyriaki (dia do Senhor) então Domingo.

  • Em Hebraico, o domingo é o primeiro dia- Yiom Rishon, a segunda feira é o segundo dia- Yiom Sheni e por ai fora, dia a dia, por números até ao Sábado, Shabat.
    MMS

  • Bom dia

    Artigo muito interessante. Embora possa ser extemporâneo, aqui surge mais um contributo.
    Nos países da Europa, a outra grande excepção que numera os dias e não lhes dá nomes de deuses pagãos/astros (pois em muitos casos as palavras designam duas coisas: um deus e um astro) é a Grécia.

    A.

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