Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

As dez línguas de Portugal

É provável que seja uma surpresa para muitos, mas os linguistas não se entendem sobre o que responder à pergunta: «Quantas línguas existem no mundo?»

Na cabeça de muitas pessoas, a coisa parece simples: cada país tem uma língua, com uma ou outra excepção que pouco importa, e por isso basta contar os países.

A verdade é que as excepções são tantas que o difícil é encontrar um país que siga essa suposta regra.

Por exemplo, na Europa, parece-me que só a Islândia é um país que só fala uma língua, língua essa que é exclusiva desse mesmo país. Tudo o mais são misturas, remendos e falares a cavalgar fronteiras.

Bem: não vamos discutir a questão a fundo, que estamos no fim do ano e há outras coisas em que pensar.

Mas podemos, só para nos despedirmos de 2015 neste blogue, olhar para as línguas de Portugal. É um país que muitos apontam como um exemplo de monolinguismo, em contraste, por exemplo, com Espanha, esse caldo de línguas e nomes de línguas.

A verdade é que, mesmo se usarmos o mais apertado dos critérios para contar línguas, em Portugal temos duas línguas nativas: o português e o mirandês, que é reconhecido oficialmente desde há uns anos.

Ora, mesmo as fronteiras destas duas línguas são difíceis de definir: será que o português e o galego são a mesma língua? Será que o mirandês é apenas uma variedade duma língua maior (o leonês — ou asturiano)?

Perante estas complexidades, podemos optar por ser brutalistas: isso não interessa nada e o que eu digo é que é.

Se formos por aí — como muita gente vai — nem o mirandês interessa. É um dialecto do português, ponto final. Catalão? Manias pós-modernas. Galego? Espanhol um bocado aportuguesado. Basco? Grunhidos que ninguém entende.

Ah, a beleza do mundo visto à bruta…

A quem assim pensa, digo, com um sorriso: «Olhe que não, olhe que não…»

Do lado oposto estão aqueles que encontram línguas debaixo de qualquer pedra.

O Ethnologue, um catálogo de línguas muito interessante, parece estar mais perto destes últimos que do lado dos brutos. E ainda bem — embora às vezes exagerem um pouco.

Senão, vejam bem: o site encontra dez (!) línguas em Portugal! (E nem sequer incluíram o inglês algarvio.)

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Sem mais delongas, apresento-vos as 10 línguas do nosso país (que muitos ainda acham ser um país de um só idioma):

  1. Português. Ah, a nossa língua, a última flor do Lácio, nas palavras de Olavo Bilac (não, não estou a falar do cantor — e, já agora, essa de ser a última não é bem assim). Já falámos muito da formosa língua portuguesa neste blogue e, por isso, não vale a pena bater agora nesta tecla. Só duas notas: é oficial há muito tempo (embora não há tanto tempo como se pensa) e há quem lhe chame galego — mas essas provocações ficam para outro dia.
  2. Língua Gestual Portuguesa. Não me venham com os argumentos brutalistas de que isto não é uma língua ou, então, que é português, mas em gestos. Não! É uma língua a sério e nem sequer tem muito a ver com o nosso português oral. Por exemplo, enquanto portugueses e brasileiros se entendem em português (tem dias), os surdos brasileiros usam uma língua gestual muito diferente. Da mesma forma, a língua gestual portuguesa pouco tem a ver com a espanhola — se quisermos entender isto doutra maneira, não se pode dizer que seja uma língua latina. As relações entre as línguas gestuais são outras e cada uma tem um vocabulário, uma gramática e ainda regionalismos e ainda dicionários e normas. Pasmem agora: esta língua é referida pelo nome na nossa constituição (algo que nem o mirandês consegue).
  3. Mirandês, essa língua falada por uns quantos milhares de pessoas ali, num canto do país… Sei que há muitos que não percebem para que serve preservar à força um falar antigo e, segundo eles, inútil, mas, já agora, conto-vos uma história: há uns anos, passou pelas minhas mãos um projecto de tradução de inglês para mirandês pedido por um cliente japonês. O mundo é estranho. E sabiam que podemos ler Pessoa em mirandês?
  4. Cabo-verdiano (ou «kabuverdianu»). Um dos filhos do português (e por isso digo que a nossa língua já não pode ser considerada a última flor do Lácio). No dia-a-dia, chamamos-lhe crioulo (que, no fundo, não é o nome da língua, mas antes o tipo de língua). O cabo-verdiano tem regras como qualquer língua, vocabulário próprio e que já começa a ter alguns dicionários e gramáticas — no entanto, ainda não é oficial em Cabo Verde. Em Portugal, é falado por imigrantes e portugueses de origem cabo-verdiana. (Diz o Ethnologue que o número de falantes em Portugal chega a 200 000 pessoas. Não confirmo nem desminto.)
  5. Barranquenho. Este falar alentejano, ali espetado quase no meio da Andaluzia, até já foi estudado por um grande linguista: José Leite de Vasconcelos. Por isso, respeitinho. Enfim, muitos associam a terra a confusões tauromáquicas, mas, como vemos, é também um município com uma língua própria (não se arrepiem de lhe chamar isso mesmo). Confesso que eu, a fazer esta lista, não incluiria o barranquenho, pelo menos assim à primeira vista. Mas quem sou eu?
  6. Minderico. Esta é uma língua curiosa, falada ali no meio da Serra de Aire e Candeeiros. Começou como código secreto para que comerciantes comunicassem sem que ninguém percebesse. Com o andar dos anos, transformou-se num falar usado por muita gente, em todos os contextos sociais, nessas comunidades serranas. Muitos acharão um excesso para lá do razoável incluir este falar numa lista de línguas. Mas noto que está no Ethnologue e que até tem um código ISO próprio.
  7. Caló português. Esta é a língua de muitos ciganos, que terá uma base portuguesa e muito vocabulário proveniente do romani. Segundo o Ethnologue, é falada por umas 5000 pessoas, em Portugal, e está relacionada intimamente com o caló espanhol, o caló brasileiro, o caló catalão, e por aí fora.
  8. Romani. Esta é a língua indo-iraniana de muitos ciganos europeus. Se a maior parte dos ciganos portugueses falarão em caló (quando não estão a falar em português, claro está), diz o Ethnologue que há umas 500 pessoas a falar romani em Portugal. Ou seja: temos portugueses que falam uma língua aparentada com o persa. Curioso, não é?
  9. Galego. Prova de que a divisão entre o galego e o português tem muito que se lhe diga, o Ethnologue acha que há zonas de Portugal, ali encostadas à fronteira, que falam galego. Não sei o que lhes diga, embora compreenda a indecisão: a fronteira linguística entre Portugal e a Galiza é muito porosa. Muito mais do que alguns portugueses imaginam. Olhando para o mapa do site (acima), parece que o português transmontano é considerado galego, sem mais. Não sei se será prudente dizer isto a algum falante do galego transmontano, mas tudo bem.
  10. Asturiano. Da mesma forma, também não sei por que razão o Ethnologue põe o asturiano como língua de Portugal. Afinal, o asturiano tem um nome próprio por estas bandas: é o mirandês e ninguém se chateia com isso. Será que consideram um dos dialectos do mirandês como «mirandês padrão» e outro — talvez o sendinense? — como asturiano? Sim, meus caros: o mirandês tem vários dialectos. E esta, hein?

Há línguas piores do que outras?

grammarOlhando para a lista acima, que diferença entre as primeiras e as últimas, não é?

O português é uma língua internacional, oficial em vários países e plasmada em séculos de literatura e de codificação em gramáticas e dicionários. Já o português gestual é uma língua reconhecida pela constituição.

Descemos a lista e temos o romani, uma língua falada por poucas centenas de nómadas, e o sendinense, um dialecto de uma língua que muitos acham ser ela própria um dialecto.

Mas, ao contrário do que pensam algumas pessoas, tanto as primeiras como as últimas podem ser considerados línguas completas e podem expressar todas as experiências do ser humano.

A diferença de valor entre todas estas línguas não está na qualidade intrínseca do próprio idioma, mas no prestígio, no reconhecimento oficial e no seu uso. Claro que a falta do uso leva a um vocabulário mais pobre, mas isso resolve-se rapidamente. A estrutura da língua em si, essa, não limita ninguém e pode ser tão complexa e rica no português como no romani — ou no sendinense. Da mesma forma, podemos falar de forma atrapalhada, obscura e cheia de hesitações em português ou em minderico — e podemos ser claros e directos em qualquer uma destas línguas.

Não quer isto dizer que seja igual aprender sendinense ou aprender português: se eu dissesse tal coisa, seria bom que me dessem uma martelada na cabeça (com um martelo do S. João, para não aleijar). O que digo é só isto: o valor de cada língua vem do uso social dessa língua, do número de falantes com quem podemos conversar, dos livros que podemos ler, da relação emocional que estabelecemos com essa língua (já vimos por este blogue que a língua também é forma de marcar a identidade) — e por aí fora. O valor da língua não está nas características dessa língua.

Digo isto porque há quem julgue haver línguas mais limitadas, diria mesmo defeituosas, que não permitem expressar tudo o que uma pessoa pode querer expressar. Ora, isso é um mito: os limites de quem fala e escreve estão na experiência, no talento e na memória de cada pessoa e não na língua que fala.

Tudo para vos dizer que todas estas línguas podiam, quisesse o acaso e a história do mundo, transformar-se em grandes línguas internacionais e de cultura. Não é impossível que o minderico venha a ser a grande língua de comunicação do mundo inteiro daqui a uns 300 anos. É mais improvável do que eu ganhar o Euromilhões cem vezes seguidas, mas não é impossível.

Reparem: o inglês, a língua de maior prestígio a nível mundial, passou por séculos em que era desprezado por qualquer pessoa que quisesse ser alguém na vida — os nobres falam francês normando e essa era a língua de valor.

Também o português, como temos visto, já foi um falar rústico duma região remota.

Não basta olhar para uma língua para saber o que o futuro lhe reserva. Não há línguas melhores ou piores: há, sim, línguas com mais ou menos sorte — ou com falantes mais ou menos teimosos.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

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20 Comentários

  1. Francisco Matos

    E falta referir o quadrazenho, misto de português, espanhol, francês e calão regional, dialecto usado pelos contrabandistas de Quadrazais, no Século passado, mas de que há registos desde o reinado de D. Pedro IV, e que ainda hoje a população mais velha dessa aldeia arraiana do Conselho do Sabugal, Guarda, sabe falar.
    No entanto, talvez não se possa considerar uma língua, podendo ser considerado apenas um dialecto ou gíria, como o calão dos bairros de Lisboa, só que muito mais elaborado.

    • Tânia Cardoso

      Os meus avós ainda falam quadrazenho. 🙂 Não lhe chamaria dialecto, parece-me mais linguagem em código.

  2. António Afonso

    Esqueceram-se do Guadramilês ou Riodonorês! Falado na Lombada de Bragança.

    • Helena Garvão

      Neste texto há uma confusão tremenda entre línguas, dialetos (ou variantes dialetais) e gírias ou socioletos.
      Assim, o português e o mirandês são línguas, sendo esta última um enclave linguístico do antigo leonês; o barranquenho, o riodonorês e o guadramilês são dialetos e o minderico e o caló são gírias ou socioletos. O cabo-verdiano é evidentemente um crioulo de base portuguesa.

      • Marco Neves

        Cara Helena, não há confusão nenhuma, se ler bem o texto, verá que o mesmo explica que a questão é complexa e não recolhe unanimidade entre os linguistas. O minderico começou como gíria e hoje pode ser considerado uma língua, segundo alguns linguistas. Já o cabo-verdiano é um crioulo, claro, mas não deixa de ser língua (até o inglês pode ser considerado crioulo, segundo muitos). Quanto ao barranquenho, também não o considero língua, mas limitei-me a seguir o critério do Ethnologue, como explico também no texto. Não há nenhuma confusão tremenda — há apenas o reconhecimento de que esta questão é menos simples do que pensamos. Há anos e anos que leio tudo e mais alguma coisa sobre estas questões e estou longe de ter as certezas tremendas que a Helena parece ter. Obrigado pelo comentário, de qualquer forma. Espero que goste do resto do blogue 🙂

      • Mário Faria

        Não é crioulo embora se chame assim. Crioulo é uma mistura de uma língua com outra. Ora no “crioulo” cabo verdiano, essa segunda língua NÃO EXISTE. É por isso um dialecto do português, quiçá o maior.

  3. Francisco Martinez Velasco

    Non me sembra que o portugués sexa a derradeira flor do Lacio porque non é fillo do latin senón do galego

    • Marco Neves

      Pois, como já dissemos por aqui algumas vezes 😉 Enfim, mesmo sendo neto, pode ser chamado de flor. O poema (de Bilac) vale a pena.

      • Sc

        O poema do Bilac, parece-me bastante infeliz.
        “Desconhecida e obscura”, “inculta” – sê-lo-ia quanto qualquer romanço, etc. aplicado a uma lingua que produziu uma das grandes obras literárias mundiais “Os Lusíadas”, além de grandes obras de historiografia (Fernão Lopes) ou a poesia requintadíssima das cantigas de amor e amigo ou, masi tarde, a poesia do cancioneiro parece-me que apenas atesta a ignorância de Bilac.

        • Marco Neves

          Não me parece que uma leitura superficial faça justiça ao poeta. Afinal, estamos a falar dum dos maiores poetas da língua: Olavo Bilac, que morreu em 1918 (https://pt.wikipedia.org/wiki/Olavo_Bilac). O poeta não era, de todo, ignorante da tradição literária da nossa língua e o seu poema sobre o português é considerado um dos símbolos da nossa língua. Quanto ao “inculta e bela”, lembremo-nos que a nossa língua, como todas, nasceu entre quem não sabia ler ou escrever — não me parece descabido chamá-la de inculta e bela: há aqui a ambivalência que tantos poetas usam. Digo eu, que ainda há pouco tempo chamei a língua de bastarda: http://www.certaspalavras.net/falamos-lingua-bastarda/

          • Plínio M. Camargo

            Bilac tinha defeitos – na poesia e no caráter -, mas a ignorância não era um deles.
            Penso (talvez me engane) que, chamando “inculto” o Português, o que ele mostra sem dizer é a idolatria de muitos intelectuais brasileiros (e de outras paragens mais) pela língua e cultura francesas.

  4. kiros

    Cebolense, de São Jorge da Beira, concelho da Covilhã. Aliás, a desaparecer.

  5. Luis Costa

    Perante toda esta complexidade e opiniões divergentes, uma coisa é certa. Cada país precisa, e tem, por uma questão prática, de um idioma oficial, alguns poucos terão dois e até três, sendo no entanto, de forma geral, circunscritos regionalmente, como o caso do Canadá que tem a região inglesa e a região francesa.

    Em Portugal existe um idioma oficial, o português. Outra questão que eu considero pertinente é a redundância de se referir “português de Portugal” ou “português europeu”. Existe o português e existem as suas variantes, nomeadamente o português do Brasil, Tal como existe o inglês e o inglês dos EUA.

    É este português que tem vindo a ser brutal e ditatorialmente atacado. É este português que diariamente está a ser esfarrapado no ensino em Portugal, ensinando os educandos a escrever errado. É este português correcto que está a ser violado, ilegal e inconstitucionalmente.

    • Marco Neves

      Agradeço o comentário. Há vários países com vários idiomas oficiais, como Espanha, Bélgica, Reino Unido, Finlândia, Suíça, etc. encontrar um país verdadeiramente monolingue é difícil. Quanto ao “português de Portugal”, não é redundância: todos os países com línguas internacionais arranjam formas de referir as várias variedades de cada língua, diferentes mas igualmente legítimas. Se nos podemos referir ao “português do Brasil”, também podemos falar do “português de Portugal”. São variedades do português, língua internacional. Pode encontrar muitos artigos sobre este assunto neste blogue. Obrigado, mais uma vez, pelo interesse e pelo comentário.

  6. joaquim pereira

    O “Português de Portugal” é o legítimo, o original…Todas as outras formas de falar Português, seja no Brasil, em Angola ou Cabo Verde são variantes que devem ser aceites e não sujeitas a um qualquer Acordo, porque cada país lusófono usa a língua de acordo com as suas necessidades. Tal como os Americanos usam a língua Inglesa e a adaptam às suas necessidades, sem necessidade de qualquer AO…

    • Marco Neves

      Concordo como tudo, menos com a parte do original e legítimo: todas as formas de falar português são legítimas. E daí não haver necessidade de acordos artificiais.

  7. Luiz

    “Basco? grunhidos que ninguém entende” -Grunhidos?? – o sr. está bom da cabeça?

    • Marco Neves

      Não percebeu, claramente, a ironia. Estou a criticar quem acha que o basco não é muita língua a sério.

      • Luiz

        Não me admiro que hajam portugueses, a quem o termo se aplica na perfeição, que digam semelhante coisa. De qualquer acho o termo desadequado para aquilo que pretende demonstrar.

        • Marco Neves

          Agradeço a opinião, mas o termo parece-me perfeitamente adequado para caracterizar o tal pensamento “à bruta” de que falo.

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