Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Cinco curiosidades sobre a língua portuguesa

Nós, que todos os dias usamos a nossa estimada língua portuguesa, nem sempre reparamos nas curiosidades que rodeiam o nosso idioma. Vejamos cinco exemplos.

1. Há um continente onde o português é a língua mais falada

Esta não é difícil: o continente de que estou a falar é a América do Sul. (Sim, a América do Sul pode ser considerado um continente; para muitos povos, os continentes do mundo são sete e não cinco, como nos ensinavam na primária.)

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2. O português tem um avô, um pai e um ou dois filhos

O avô é o latim, nosso conhecido. Já o pai, para muita gente, será incógnito. Aliás, há por aí muitas pessoas que afirmam solenemente que o português é filho do avô. Mas, não: se virmos bem, o pai do português é o galego.

Já os filhos… Podemos começar pelo português do Brasil, que embora ainda não tenha saído da casa do pai no que toca ao nome, é já um miúdo bem crescido e com marcadas diferenças em relação ao progenitor. Veremos se um dia destes decide ir viver para outra casa (o que nos vai fazer perder a curiosidade n.º 1, mas paciência). Depois, temos outro filho: o crioulo cabo-verdiano. E há mais… A família está a crescer.

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3. O português é língua oficial de parte da China

Estou a falar de Macau, obviamente.

É território chinês e tem duas línguas oficiais: o chinês e o português.

(Já agora, para fugirmos um pouco às questões linguísticas: Macau, por não ter sido território chinês até 1999, tem o trânsito a circular ao contrário do que acontece no resto da China. O mais curioso é que o trânsito de Macau circula à inglesa e o trânsito chinês circula como em Portugal. As voltas que o mundo dá…)

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4. Não há nenhuma fronteira entre dois países de língua oficial portuguesa

Talvez seja caso único entre as línguas internacionais: dos vários países de língua oficial portuguesa, nenhum faz fronteira com um colega de língua. Fomos uns pinga-amores, a espalhar a língua pelo mundo, sem nunca parar muito tempo no mesmo lugar.

Claro que uma das principais razões para o fenómeno é o facto de o Brasil se ter mantido como território unido. Se tivesse seguido o exemplo dos territórios espanhóis, teríamos hoje imensos países de língua portuguesa na América do Sul.

(Uma outra curiosidade: talvez possamos considerar que a única fronteira entre dois territórios de língua portuguesa seja a fronteira norte de Portugal. Mas não vamos entrar por aí. Pelo menos, hoje.

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5. O português também se fala no Uruguai

Enfim, esta curiosidade contradiz flagrantemente a curiosidade anterior, mas a verdade é que estava a falar de línguas oficiais e agora estou a falar da língua como ela é mesmo falada no dia-a-dia. E, nesse caso, podemos afirmar com alguma segurança que há muita gente a falar português no Uruguai (umas 100 000 pessoas), onde também é chamado de portunhol. (Quem diria que os turistas portugueses de férias no Sul de Espanha falavam uma língua do Uruguai?)

A nossa é uma língua muito curiosa — como, aliás, são todas. Pelo menos para gente com a mania das línguas, como é o meu caso.

E, por hoje, é tudo.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

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18 Comments

  1. Pedro Martins

    Como curiosidade, e a propósito da extensa e complexa árvore genealógica do português, aqui fica um texto de referência sobre os vários crioulos de base lexical portuguesa:

    http://cvc.instituto-camoes.pt/hlp/geografia/crioulosdebaseport.html

  2. edna

    Gostei muito,boa reportagem .

  3. Halisson

    Sou Brasileiro , descobri este blog recentemente e me apaixonei.
    Muito bons os tópicos.
    Uma coisa curiosa enfatizada nesta postagem, é sim o fato de que todos países de língua portuguesa, não fazerem fronteira com outro luso-falante. Por muito pouco o Brasil não foi dividido em várias repúblicas como ocorreu na América Hispânica, mas houveram guerras e tentativas separatistas por várias províncias ,e umas até duraram no máximo alguns meses, como foi o caso do meu estado de Pernambuco no nordeste do Brasil.
    Mais uma vez parabéns pelo Blog.
    Abraço!!

    • Josivaldo

      Halisson,também sou pernambucano e compartilho com você o mesmo amor por este blog.

    • Antonio

      Não se diz “houveram guerras”, mas “houve guerras”. Razão: o verbo “haver” no sentido de “existir” é Invariável e se conjuga sempre na terceira pessoa do singular.

  4. Francisco

    Quando eu pensava que você havia se esquecido do portunhol, lá está você a mencioná-lo! Tenho acompanhado as suas publicações.

    Parabéns!

  5. Caro Marco, também eu sou assíduo leitor do seu blogue e acompanho-o com prazer. Mas não estou de acordo com o que diz na segunda curiosidade. Se o português tem um avô, terá de ser o grego clássico, que deu origem ao engrandecimento lexical, sintáctico e cultural do latim. Sem o grego, o latim seria uma língua pobre ou completamente diferente. O português tem um pai, o Latim; e muitos irmãos (espanhol, catalão, italiano, francês, reto-latino, romeno) fruto da procriação daquele pai com mulheres. O galego, neste aspecto, terá de ser considerado um “irmão gémeo”, fruto da procriação daquele pai com a mesma mulher. Claro que os irmãos cresceram e separaram-se, ou separaram-nos, e daí as diferenças que temos hoje. Mas apareceram ao mesmo tempo, conviveram no mesmo espaço (território que fazia parte do reino de Leão) e até a literatura era a mesma: Martin Codax, Afonso X, o sábio, Paio Gomes Xarinho, ou D. Dinis, são cultores da mesma literatura e usam a mesma língua. Tudo aconteceu porque havia um rio (Minho) e Afonso Henriques quis ser rei de um território que veio a chamar-se Portugal. Quanto aos filhos, já vão aparecendo e com alguns conflitos, como é próprio entre pais e filhos: português do Brasil, crioulo de Cabo-verde, e até na região de Malaca se fala uma língua de base portuguesa, o malaio. Claro que eu preferia, na hierarquia, falar de avó, mãe e filhos, uma vez que todo o ser humano bebe a língua com o leite materno e por isso falamos de língua materna.

    • Marco Neves

      Caro Manuel, muito obrigado pelo comentário!

      O que quis dizer com esta do “pai” será isto: durante vários séculos (anteriores à nacionalidade) já existia no noroeste da península um falar muito próprio e com características marcadas (apenas como exemplo: a queda do “n” e do “l” intervocálico, etc.). Este falar próprio não se chamava nem galego nem português (ninguém lhe dava nome). Era uma língua que já não era latim, mas também ainda não era português (porque não havia Portugal) — e já tinha características marcadas que a separavam dos vizinhos.

      No fundo, com a segunda curiosidade do artigo acima, quis apenas chamar a atenção para este facto pouco conhecido: a existência destes séculos de formação da língua, séculos esses que partilhamos com o galego — tanto é assim que, como bem diz, mesmo depois da criação do Reino de Portugal, a literatura era a mesma e usávamos essa mesma língua comum, que apenas começou a ganhar o nome de português a partir de D. Dinis.

      Seja como for, chamar “irmãos gémeos” ao galego e ao português parece-me uma óptima ideia e chama a atenção para essa relação tão próxima e tão pouco conhecida com os nossos amigos a norte do Minho.

      Tentei falar disto também nestes outros dois artigos: http://www.certaspalavras.net/qual-e-origem-da-nossa-lingua/ e http://www.certaspalavras.net/historia-secreta-da-lingua-portuguesa-1/

      Bem, concordemos ou não com estas formas de olhar para a origem da língua, espero que continue a gostar de passear por este blogue! 🙂

    • E o celta pré-romano?

  6. Filipe

    Tenho muito a dizer, mas estou com preguiça então serei breve:
    dizer que “2. O português tem um avô, um pai e um ou dois filhos”, querendo dizer que o PTpt é pai do PTbr e que o galego é seu “pai” é da mesma classe de absurdos de se dizer que o homem descende de macacos. Não é assim. Temos ancestrais comuns, mas não descendemos de macacos.
    No caso, o galego-português é pai do PT e do Galego (considerando-o uma língua independente). Ao mesmo tempo, o Português do século XVI, que não se fala em parte alguma, é “pai” das duas variantes do Português contemporâneo (consideradas), a brasileira e a portuguesa.
    Parece-me que você considera o Português europeu como em continuidade com o português de fins da idade média, mas não o português brasileiro. Por que? Eu não entendo. O italiano certamente não é mais latino que o português.

    • Marco Neves

      Parece-me que não me expliquei bem: considero o PTbr e o PTpt iguais descendentes do português do século XVI e aliás as minhas intervenções recentes e entrevistas têm sido nesse sentido. Espero que noutros textos do blogue o assunto tenha ficado um pouco mais bem explicado. Obrigado pelo comentário, já agora 🙂

  7. O avô do galego é o celta pré-romano. Mais este já morreu há bem tempo e só se puidérom conservar dele uãs cantas memórias…
    O pai do galego é o latim. Tamém morreu há bastante tempo, mais ensinou-nos uã cheia de cousas.
    Nosoutros já temos uã boa idade, case tantos coma o mestre Yoda (1214-2017; som-che 803 anos e subindo) (https://dicionarioegramatica.com.br/2016/11/15/o-pacto-dos-irmaos-pais-um-dos-mais-antigos-escritos-portugueses/). Envelhecemos bem e aprendemos uãs cantos cousas cos anos.
    Os nossos filhos som os crioulos.

    • Os nossos irmãos som tódalas línguas românicas. A alguns lhes fórom melhor ca outros, pero nom se podem queixar.
      E o árabe é o nosso tio político.

  8. Fernando Sousa

    A língua galega está completamente morta! Já fui várias vezes à Galiza e todos falam espanhol, castelhano, ou o que quer que seja, mas não português, evidentemente, com algumas semelhanças. Já no Brasil falam português com diferenças idênticas aos países de língua inglesa. Todo o português entende os brasileiros e estes poderão ter mais ou menos dificuldades pelo facto da falta de hábito em ouvir nativos de Portugal. Os brasileiros, imigrantes ou turistas, entendem os portugueses.

  9. Gostei destas curiosidades. O português é uma lingua não falada por muitos paises, e por isto Brasil e Portugal se destacam muito no número de pessoas que falam a lingua.

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