Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

O dia em que perdi os óculos no mar

Pois bem, há dois dias os meus óculos foram ter com os peixinhos.

O que se passou foi o seguinte. Fui passar um fim-de-semana no Algarve com a minha mulher para comemorar os 10 anos de casamento. Chegámos ao hotel e zarpámos de imediato para a praia.

Ora, a praia não fica perto do hotel. Tivemos de zarpar de carro. Chegámos à praia e percebemos que o único estacionamento era pago. Enfim, pensámos nós, vamos só ficar uma ou duas horas, não é caro.

Andámos, andámos, andámos. A praia ainda era longe — mas valia a pena. Cansados, chegámos e decidi logo ir ver como estava a água, como qualquer veraneante que se preze. As ondas pareciam simpáticas. Avancei um pouco mais. Fui sentindo a areia nos pés, o calor do ar, a água à minha volta e o cheiro bom do Verão. Na cara, os meus óculos — é raro não os deixar na toalha, mas só tinha vindo molhar os pés. Não estava a pensar mergulhar.

Não estava a pensar, mas mergulhei. A culpa não foi minha: apareceu uma onda bem maior do que eu estava à espera que rebentou mesmo em cima de mim. Virei-me um pouco para não levar com a água de chapa na cara, tropecei — e quando dei por mim estava sem óculos.

Procurei-os com os braços atarantados dentro da água turva da areia — o que é especialmente difícil quando, enfim, não se tem óculos na cara. A água estava agitada, muita areia, muitas ondas. Tentei encontrá-los com os pés, mas só encontrei pedras — e bem afiadas.

Comecei a ver a vida a andar para trás. Estava a 300 quilómetros de casa, com o carro num estacionamento pago — e sem óculos.

Não podia conduzir, não podia fazer nada.

Comecei a agitar os braços, a ver se a minha mulher me via. Não fazia ideia onde ela estava. A praia, para mim, era uma mancha amarela. Onde estavam pessoas, agora via umas quantas borradelas deitadas em pinceladas de várias cores. Estava preso num quadro abstracto. Um horror.

A Zélia apareceu então — e pediu ajuda a uns rapazes que ali estavam. Procurámos todos juntos, eu atarantado sem saber o que fazer nem para onde me virar.

Bem, quem safou o dia do nosso 10.º aniversário foi um casal de Fafe — Paulo e Dolores —, os pais dos tais rapazes, que abandonaram um dia de praia como há poucos e se ofereceram para tirar o carro do estacionamento para nos levar até à óptica mais próxima.

Pouco depois, percebemos que a óptica mais próxima não tinha maneira de me ajudar. Andámos mais uns quilómetros e lá consegui arranjar umas lentes de contacto de emergência, para me permitir andar sem bater nas paredes.

Tive de passar de novo pelo martírio de pôr as lentes. A certa altura tinha os funcionários da loja, a minha mulher e o casal que nos salvou a olhar para mim, numa roda atenta. Quando finalmente pus a lente direita, todos se alegraram como quem via a sua equipa a marcar golo. Pronto: só faltava a esquerda! Mais quinze minutos e podíamos ir embora.

Por fim, a chorar (experimentem passar quinze minutos a espetar o dedo no olho para ver se não choram), levantei-me, de novo a ver, e cumprimentei a sorrir os nossos salvadores — é que ainda não os tinha visto! Ainda conversámos muito nesse dia — que se perder os óculos é aborrecido, pelo menos serve para fazer novos amigos.

Estávamos aliviados. Não fosse o preço dos óculos a morder-me a consciência e quase que podia dizer que estava feliz com as minhas novas lentes de contacto.

(A crónica completa está no Sapo 24: http://24.sapo.pt/opiniao/artigos/perigos-dum-dia-de-verao)

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3 Comentários

  1. Peró que dioptria tés?

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