Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Nós não pronunciamos os espaços, chiça!

Fiquei um pouco triste com os comentários apocalípticos de muitas pessoas por causa do magnífico vídeo que partilhei neste artigo. (A página dos professores que criaram o vídeo merece a visita.)

Pois não é que muitos leram o texto e continuaram a partilhar o vídeo como prova irrefutável da decadência do português?

Mas percebi agora, depois de ler com atenção alguns comentários no Facebook sobre os fenómenos naturais descritos no vídeo: muitos andam convencidos de que devíamos dizer os espaços. Ou seja, acham que um português a falar bem faz uma pausa entre cada palavra. Só assim se explica que tantos fiquem horrorizados por todos dizermos «qu’impressão» em vez de «que [pausa que ninguém faz mas muitos acreditam que sim] impressão».

Não, nós não pronunciamos os espaços. Na fala, cada frase é uma sequência de sons e a separação das palavras é mental, não é sonora. Quando eu digo: «Queres água ou sumo?» numa conversa natural, digo algo como (esta transcrição não usa o alfabeto fonético internacional): «Querezaguossúmu?» Lembrem-se das aulas de Português, quando tínhamos de ter em conta as ligações entre vogais para contar as sílabas d’Os Lusíadas… Não fui eu que inventei isto!

Grande parte dos fenómenos descritos no vídeo são apenas fenómenos de ligação complexos que decorrem desse facto simples e universal: as palavras não se separam na fala. É assim em todas as línguas e, aliás, a própria escrita reflectiu isso mesmo até muito tarde. Os espaços foram uma invenção tardia.

Sim, eu sei, o vídeo não trata apenas dos fenómenos de ligação: também temos a queda do «e» em muitas palavras, a transformação do som «s» em «ch» (somos muito palatais nós, os portugueses) e o «o» que se lê «u». Mas tudo isto não passa de portugueses a falar português de forma natural. Não é má dicção: uma óptima dicção tem de respeitar estes fenómenos, bem como a tal ligação entre palavras.

Tudo para concluir que, nisto como em muitos outros casos de análise da língua, é a própria ignorância sobre como a linguagem humana funciona que está na base da sensação de catástrofe. Esta sensação rapidamente descamba em fúria para com os inocentes falantes do português — que mais não fazem do que falar a sua língua. E neste caso do vídeo que indigna sem razão, o mais impressionante é que os próprios indignados também não separam as palavras com pausas e seguem (aposto) quase todos os fenómenos descritos no vídeo. Se assim não fosse, falariam de forma extraordinariamente divertida.

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Saiba mais nesta página.

Anterior

A palavra «desencher» é um erro de português?

Próximo

Um quadro copiado milhões de vezes

2 Comentários

  1. Ricardo Branco

    Já tinha visto e acho francamente interessante. Temos falantes estrangeiros da lingua Portuguesa que ainda não conseguem aglutinar as palavras. Outros falantes nacionais que aglutinam de mais e chegam a trocar vogais….água para auga e consoantes …farmácia para framacia. Duma forma geral o português tem uma certa preguiça a falar e dai aglutinações constantes. Um outro aspecto interessante que eu noto (mas isto será outro tema) é a comunicação social e a entoação, se é que se pode chamar entoação à leitura sem vírgulas e os pontos finais que ficam também no tinteiro! Será o tempo tão precioso nas transmissões?

  2. Tina Duarte

    Há algumas pessoas que têm uma determinada predisposição para a “tragédia” e a decadência. Qu’horror!!!

Deixe uma resposta

Powered by WordPress & Autor do grafismo: Anders Norén

By continuing to use the site, you agree to the use of cookies. more information

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close