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A sorte dos galegos

Há umas semanas, o blogue Quilombo Noroeste, que se dedica a divulgar a cultura galega, publicou um pequeno texto meu: «A sorte dos galegos». Achei que hoje seria um bom dia para o divulgar também por aqui. Serve também de desculpa para vos convidar para a apresentação do livro Doze Segredos da Língua Portuguesa na Galiza. Será no próximo dia 16, na livraria Lilith-Ciranda, em Santiago de Compostela. Será às 20 horas locais (19h em Portugal).

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A sorte dos galegos

Sim, eu sei. Poucos diriam que os galegos, neste tema das línguas, têm sorte. Mas estou convencido que têm muita sorte, se a souberem aproveitar. Gostava, então, de partilhar convosco esta outra perspectiva.

Apesar do desconhecimento sobre o tema que existe em Portugal, a verdade é que o galego e o português têm uma proximidade tão forte que é fácil confundi-los. Não vou insistir na discussão sobre unidades mais ou menos ilusórias. Isso interessa-me pouco, porque depressa vamos acordar os fantasmas tribais que temos dentro de nós e acabamos aos berros, em vez de aproveitar a tal sorte.

Interessa-me mais sublinhar isto: os galegos, os portugueses e os brasileiros, no que toca à língua, estão muito próximos. Podemos, com um pequeno esforço, conversar animadamente. Podemos até ler o que todos escrevemos. Sim, há sempre a estranheza do que não é exactamente igual. Não é igual, mas é muito próximo, e isso é imenso, queiramos nós fazer o tal pequeno esforço de que falava.

Ora, falei da sorte dos galegos. Pois, reparem. Haverá poucos galegos que não saibam castelhano. Com o castelhano chegam eles (os galegos) a centenas de milhões de pessoas. E, com o galego e a sua proximidade ao que portugueses e brasileiros falam, chegam a mais umas quantas centenas de milhões de pessoas.

Os galegos, ali no canto noroeste da Península, podem dar-se ao luxo de somar centenas de milhões com mais centenas de milhões de pessoas com quem podem conversar e de quem podem ler a literatura e muito mais.

Sim, apesar de todas as discussões, apesar dos fantasmas tribais, os galegos têm essa sorte.

E nós, portugueses (e também brasileiros) podemos ter a sorte de lhes dar um pouco mais de atenção, porque a Galiza é como um tesouro escondido no sótão de que já não nos lembramos.

[…] Essas proximidades que irritam tanta gente são uma riqueza e uma sorte de que poucos se dão conta. Sim, o galego importa e o galego é algo que podemos redescobrir, para percebermos melhor donde veio a nossa língua e, no fundo, donde viemos nós.

Esqueçamos os medos e os fantasmas. Redescobrir o galego é uma sorte para todos nós: portugueses, brasileiros e, claro, galegos.

Publicado no blogue Quilombo Noroeste no dia 18 de Maio de 2016.

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1 Comentário

  1. Lindo artigo co que concordo plenamente.
    Parabens!

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